O primeiro volume da saga de Pêro da Covilhã, em que são narradas as missões do magnífico espião de D. João II, em Marrocos e na Arábia. Romance de viagens e aventuras que recria com grande rigor histórico lugares, usos e mentalidades do tempo.
Quarta-feira, 23 de Abril de 2014
Capítulo VII - A Cáfila

 

Tinham negociado a passagem com o capitão da cáfila e esperado mais de duas semanas até ela estar completa, pois não era fácil arranjar, em pouco tempo no Cairo – o ponto de partida de várias rotas comerciais para o Oriente –, um tão grande número de bestas de carga e de montadas.

Era uma cáfila de cento e cinquenta camelos e outros cinquenta de carga, mais vinte e cinco dromedários, quarenta e três cavalos de sela e cerca de cem mulas, machos e jumentos, além dos cem cavalos de raça de Mulay Abd-el-Aziz que os Tuaregues traziam para venda e valiam uma fortuna.

– Os guias são de confiança – disse Khalid satisfeito. – O capitão da cáfila conhece-os bem e afiança-os. Sem bons guias e bons companheiros, pode-se apostar que é viagem perdida.

Rashid al-Beder acrescentou, contrariado:

– Preferia dromedários a camelos, pois são bastante mais rápidos, fazendo cerca de trinta léguas por dia, enquanto os camelos, muito maiores de corpo, não fazem mais de nove. Mas, por essa razão, os dromedários são mais procurados, havendo sempre menos e mui mais caros.

– Porém os camelos levam mais carga – volveu Khalid ibn Zohr –, podes pôr-lhe em cima da albarda até cinco ou seis quintais[79] e aguentam melhor o caminho.

– Pois eu prefiro cavalos – disse Pêro da Covilhã, como se recordasse uma experiência desagradável. – Não me apetece sofrer por muitos dias a desinquietação do andar desses bichos que me deixa o corpo moído como se tivesse apanhado uma tareia.

Quando o capitão da caravana anunciou finalmente o dia da partida, antes do sol nascer, o grupo formado pelos tuaregues, os dois portugueses e Ahmed Said com os seus cavalos e tratadores, mais as numerosas bestas de carga, tomaram lugar no meio da cáfila e os escudeiros d’el-Rei D. João II sentiram um formigueiro de excitação arrepiar-lhes as carnes, ao verem-se no centro do rebuliço, vozearia ensurdecedora e inferneira de atropelos de bichos e de homens.

Subitamente o caos  pareceu entrar na ordem e ao som de trompas sopradas pelos guias e condutores, saudados por um soberbo sol laranja que a pouco e pouco subia por trás das muralhas cor de cobre, a cáfila iniciou a marcha para as portas da cidade, serpenteando como uma gigantesca cobra a que se não via a cabeça nem a cauda.

– Vamos num bom lugar, Português, ser-te-á proveitoso aprenderes estas coisas,  se queres andar por terras do Oriente – brincou Khalid, aproximando o seu cavalo do de Pêro da Covilhã e sem os outros ouvirem, pois respeitava o disfarce e a missão secreta do seu amigo, chamando-lhe Ali Moumen diante de desconhecidos e tratando-o como se fosse mouro.

– Que queres dizer?

– Devemos caminhar sempre no meio da cáfila, sem nos adiantarmos nem quedarmos para trás e de noite devemos montar o nosso quartel sempre entre os dos outros, pois assim estaremos resguardados de assaltos e roubos.

– Mas numa caravana tamanha como esta como podemos correr perigo?

– Nunca fiando! Por muito fortes que sejam as cáfilas, os riscos nunca são de desprezar, pois há beduínos do deserto a fazerem vida de salteadores e são guerreiros temíveis. Espero não os encontrar, para nosso bem e dos nossos companheiros de viagem!

Moviam-se vagarosamente, ainda sem o ritmo próprio da caravana que teria de pulsar como o corpo de um ser vivo, para reagir e se defender dos perigos e, mesmo se algum membro lhe fosse cortado, sobreviver a todo o custo para chegar a bom porto. Teriam de atravessar uma parte de deserto entre AL-Qahira e o Gabal Atãqa e umas montanhas que dificultavam o acesso a As-Suwais, o Suez dos cristãos, tardando nesse caminho entre quatro a seis dias.

– Vamos a ver se já não sofremos mais percalços, pois já andamos em viagem há cerca de oito meses e ainda não saímos do Cairo – comentou Pêro da Covilhã para Afonso de Paiva. – Temos um longo caminho pela frente e el-Rei D. João II não possui a virtude da paciência...

– Agora até íamos bem se não fosse o Ramadão e nós andarmos por aqui a fazer de mouros.

Era o nono mês do calendário islâmico, o do Ramadão, trazendo maiores dificuldades a uma caravana na travessia o deserto. Era o tempo mais sagrado dos muçulmanos e durava trinta dias, começando numa lua nova, com um tiro de bombarda ou pelo grito dos almuadens a dar aviso, e acabando na lua nova seguinte com novo aviso. Um período de jejum absoluto desde o nascer até ao pôr do sol, pois a sua religião não lhes permitia comer nem beber coisa alguma, durante este tempo.

– Não tocam em nada o dia todo – dizia Paiva, meio a rir, com alguma estranheza – mas, apenas o sol se esconde já têm licença para comer quanto quiserem até nascer o dia e, como alarves que são, atafulham-se de comida durante a noite, para melhor sofrerem a fome do dia seguinte!

Quando a cáfila assentava arraiais, era como se uma nova cidade aparecesse misteriosamente nesse lugar, tantas eram as tendas de campo ali montadas e os fogos acesos, além  da muita gente armada posta de vigia ao redor dela. Os amigos visitavam-se e algumas vezes junto das fogueiras os homens tocavam certos instrumentos de sons muito agudos e dançavam, sem mulheres, pois estas mantinham-se recolhidas nas tendas ou a espreitar de rosto velado por entre os panos.

No terceiro dia de viagem o sol tinha nascido quente como uma brasa, escaldando as areias e toda a cáfila em breve começou a sentir a calma e a sede que, por volta do meio-dia, parecia querer matá-los a todos, mas os mouros apenas davam água aos animais e guardavam-se de beber.

– Vão a morrer de fome e sede, já nem o cuspo podem levar para baixo e não tomam um gole de água – dizia Afonso de Paiva entre trocista e condoído, enquanto um pouco afastados comiam e bebiam às escondidas. – O que lhes vale é tirarem a desforra à noite.

– Nem todos respeitam esse jejum com tanto rigor – retorquiu Covilhã –, repara nos nossos amigos tuaregues que de vez em quando bebem um golito de água ou tomam alguns frutos. Os mais firmes são os peregrinos de Meca pois não querem visitar o túmulo do Profeta em pecado.

O som da chamada para a oração do meio-dia, feita por um almuadem peregrino, vibrou no ar e foi morrer nas dunas douradas a faiscarem ao sol.

– No geral, são mais cumpridores do que os cristãos – afirmou o espião preparando-se para a oração. – Eu quase me denunciei por não saber como eles rezavam no deserto.

Os viajantes tinham desmontado e as mulheres desciam das charolas e caixas de liteiras, cobertas de panos, onde viajavam muito à sua vontade e com conforto e todos se apartaram das bestas, indo para o areal não pisado onde se descalçaram e tomando punhados da branca e fina areia do deserto fizeram com ela as suas abluções rituais. Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva imitaram-nos, sentindo a areia escoar-se-lhes por entre os dedos como fios de água. O Profeta Maomé consentia aos homens do deserto e aos viajantes e peregrinos que o atravessavam, esse desvio dos ritos sagrados, usando areia em vez de água numa purificação simbólica.

Os que tinham os seus tapetes de oração estenderam-nos sobre a areia e neles se ajoelharam, voltados para o lado de Meca, indicado pelas pequenas bússolas árabes dos homens de turbante. Os pobres e os escravos alisaram e desenharam na areia do deserto, tal como estava escrito no Corão, um rectângulo dentro do qual se prosternaram, ficando assim também isolados do mundo para a sua comunicação com Allah.

Terminada a oração, toda a cáfila retomou o seu caminho, sem grandes práticas ou risos entre os companheiros dos muitos grupos que a formavam, pois as gentes iam tristes e mofinas de dia, com a sede e o calor a apertá-los e só retomavam as forças e a alegria durante a noite, quando acampavam para comer, descansar e dormir.

Duas ou três vezes viram passar por sobre as dunas um bando de cavaleiros, todos trajados de negro, correndo à desfilada em cavalos magros mas velozes como o vento. Ergueram as armas em desafio, soltando insultos numa fala que pareceu a Pêro da Covilhã saída do íntimo das entranhas. Usavam lanças e espadas curtas e largas, assim como adagas de lâmina igualmente larga, com três palmos de comprimento.

– Beduínos do deserto! – o grito repetido por muitas vozes pôs toda a cáfila em sobressalto e em modo de defensão.

– Não atacaram. Porquê?

– São poucos para tamanha caravana. E a vista dos Guerreiros Azuis que vêm connosco também os deve ter desencorajado – tanto os peregrinos como os mercadores se sentiam mais protegidos com a presença dos tuaregues nas suas hostes.

Pêro da Covilhã guardou ainda por alguns momentos nos sentidos a corrida selvagem, o baque surdo dos cascos na areia e o som do vento soprado pelas ventas dos cavalos que fremiam. Depois perguntou a Khalid, ainda a dar ordens a torto e a direito, a fim de manter os cavalos do Cheikh presos e vigiados:

– Atrever-se-ão de novo? De onde vêm estas gentes?

– São nómadas e vivem por aí, no deserto, em tendas e pavilhões de pano – respondeu Khalid ibn Zohr já mais sossegado por não os ver voltar. – São grandes caçadores e pastores, mas  só cuidam em ter bons cavalos e éguas capazes de aturar, com mui pouca comida, trabalhos, fomes e sedes, para assaltarem qualquer cáfila que lhes passe por perto.

– Não me pareceram lá grande coisa – disse Afonso de Paiva. – Quando vos viram acobardaram-se e cessaram de nos fazer surriada.

– Não te deixes enganar pelas aparências – Rashid juntava-se ao grupo e falava num tom sério, até mesmo preocupado. – São excelentes cavaleiros como tiveste ocasião de ver e ainda melhores salteadores, amigos de conflitos e de guerras como nenhum outro povo, sem lei, fé, justiça ou verdade e esses defeitos são tomados por eles como virtudes e desprezam a quem não faz como eles.

– Têm fama de ser guerreiros terríveis e impiedosos – lembrou ainda Ahmed Said, estremecendo, por certo recordado das histórias contadas pelos mercadores no seu caravanserai, em El-Iskandariya.

– Se não nos atacaram – acrescentou Khalid – foi talvez por serem apenas um grupo de reconhecimento e o resto do bando estar longe, pois eles são capazes de percorrer a grande Região Deserta, a Caldeia, a Mesopotâmia e a Síria.

– Isso quer dizer que podem atacar-nos em qualquer outro ponto do caminho? – na voz de Afonso de Paiva não havia medo, mas preocupação.

– É o mais certo, depois de verem os nossos cavalos – concordou Rashid al-Beder. – Só por eles já vale a pena atacar a cáfila, mas também viram que levamos mulheres e isso é mais um acicate.

– Também traficam em escravos?

– Sim, se a presa valer a pena, Agi Bedreddin – confirmou Khalid, dando ao português o nome mouro do seu disfarce. – Porém, quando se trata de mulheres, costumam guardá-las para si próprios, juntando-as aos seus clãs.

Mantiveram uma vigilância apertada, mas não voltaram a avistar os beduínos e por fim chegaram à vista de As-Suwais, nas margens do Mar Vermelho, ali estreitando-se em veios pouco profundos, permitindo à cáfila passar a vau para a península do Sinai, a caminho de el-Tūr, a Tôr ou Toro dos portugueses.

– Porque lhe chamam Mar Roxo e Mar Vermelho? –  perguntou Afonso de Paiva. – Tem a mesma cor azul esverdeada dos mares nossos conhecidos...

– Neste tempo, talvez – confirmou Rashid. – Porém, no tempo das chuvas e das cheias, ganha uma cor avermelhada de ferrugem.

– Na opinião de algumas gentes, será por causa das praias de terra ou barro vermelho – disse Ahmed. – Todavia, outros dizem ser devido ao suph, um sargaço vermelho que forma umas malhas roxas à tona da água quando o sol dá nelas.

A paisagem era feita de deserto com pequenas manchas verdes de oásis e montanhas. De onde em onde alvejava a forma de uma igrejinha ou o austero perfil de um mosteiro, lembrando a Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva que pisavam as Terras do Velho Testamento e os caminhos do Êxodo de Moisés e dos Hebreus perseguidos pelo Faraó do Egipto. Seguiam pela margem oriental desse Mar Vermelho cujas águas se tinham rasgado para deixar passar o Povo Eleito, cerrando-se de novo sobre os seus perseguidores, e ao anoitecer acamparam junto ao Ain Mūsa, o poço de água salgada, tornada doce por Moisés quando lhe lançou dentro pedaços de madeira. Sob um manto imenso de estrelas, tendo no meio o crescente da lua bordado a fio de prata, estendidos na areia ainda quente do deserto junto das fogueiras do acampamento, os dois cristãos olhavam-se em silêncio, captando o sortilégio do lugar e calando as suas emoções.

Gritos e grande rebuliço na parte mais afastada do arraial onde estavam recolhidos os animais – montadas, bestas de carga e os cavalos do Cheikh – tiraram os dois Escudeiros do seu devaneio. Era um ataque à caravana!

– Os nossos amigos estão de guarda aos cavalos – bradou Covilhã erguendo-se de um salto e tomando a espada, posta no chão a seu lado.

Paiva não tinha perdido tempo a seguir-lhe o exemplo:

– Vamos prestes, podem estar em perigo! – e correram para o local da luta.

Não eram muito numerosos os assaltantes, embora em número superior aos defensores e andavam embaraçados com os cavaleiros azuis, cruzando ferros com muita aspereza. Dos beduínos havia já alguns caídos dos cavalos, feridos ou mortos, com as montadas a correr sem eles, desarvoradas, aumentando a confusão.

– Ânimo, amigos, aqui vem socorro! – bradaram ao mesmo tempo os portugueses, apanhando dois cavalos sem dono e montando-os num ápice.

Entraram na peleja, protegendo as costas dos tuaregues a lutarem como os djinn das suas fábulas, com as vestes azuis esvoaçando pelo ar a cada voltear do cavalo ou golpe da espada, soltando gritos do fundo das gargantas de gelar o sangue aos adversários que começavam a ceder. Eram realmente guerreiros formidáveis e Pêro da Covilhã, acabando de derrubar um dos atacantes, sentiu orgulho em os ter por amigos.

– Vieram pelos cavalos – disse-lhe Khalid num momento em que as suas montadas emparceiraram para fazer frente aos salteadores – julgando apanhar-nos desprevenidos aqui no oásis.

– Furtaram-nos? – o português não ouviu a resposta pois mal teve tempo para aparar o golpe do beduíno, fazendo-o no entanto oscilar na sela ao lançar a sua montada contra a dele. Aproveitou o ligeiro desequilíbrio do homem para lhe desferir um golpe terrível com a espada, que ele desviou a custo com o pequeno escudo de pele, mas sem conseguir evitar que a ponta aguçada o ferisse na fronte.

– Maldito sejas! – bradou o nómada sentindo o sangue correr-lhe para os olhos, toldando-lhe a visão. Deu meia volta, gritando pelos seus homens e estes, vendo o capitão da cáfila e os seus guardas acorrerem à luta, bateram em retirada, seguidos por alguns cavalos sem cavaleiro, saindo à desfilada por entre as árvores do palmar para a noite protectora do deserto.

– Seguimo-los? – perguntou o português.

– Não, antes de vermos os estragos – retorquiu Khalid, olhando em volta, à procura dos seus homens.

Afonso de Paiva acercou-se deles trazendo Rashid a sangrar.

– Agi Bedreddin salvou-me a vida – disse o tuaregue com gratidão. – Entretido com o meu adversário, não vi o que me atacava por trás e...

– Eu fiz como qualquer outro faria – atalhou Afonso com modéstia – se estivesse tão cerca de ti como a Fortuna quis que eu estivesse.

– Fendeu-lhe a cabeça de um só golpe e o beduíno caiu fulminado do cavalo.

– E a tua ferida? – perguntou Khalid.

– Não é grave. E quanto aos cavalos?

– Ainda não sei quantos faltam, mas devem ter soltado alguns antes de serem pressentidos. Vamos contá-los! – ordenou aos tratadores e os escravos apressaram-se a obedecer, ainda a tremer de susto.

Passado o medo e sossegados os ânimos, foram rodeados por muitos mercadores e viajantes curiosos de saber o que se passara e oferecendo os seus préstimos para apanhar os animais soltos e a galope pelo campo. Os restantes tuaregues aproximaram-se para dar conta dos estragos feitos pelos assaltantes, contentes por ninguém ter morrido e haver apenas alguns feridos, um só deles com gravidade. Dos beduínos jaziam no recinto cinco mortos e dois feridos.

– Faltam quinze cavalos – anunciaram os tratadores. – Os quatro à solta são dos nómadas.

O capitão acercou-se dos dois prisioneiros feridos e falou ao que estava mais consciente:

– Chamo-me Abderhamane e sou o capitão da cáfila assaltada pelo teu bando. Os cavalos roubados estavam à minha guarda e tenho de os recuperar. Se não queres ser posto a tormentos diz-me onde tendes o vosso aduar.

O beduíno cuspiu sem responder. Abderhamane fez sinal aos seus homens que tiraram as botas ao mouro e, tomando um archote, chegaram-lho às plantas dos pés. Um cheiro a carne queimada fez alguns curiosos mais sensíveis franzirem o nariz, numa careta de mareio. O homem contorceu-se e berrou como um possesso, mas não falou.

– Onde fica o aduar? – perguntou de novo o Capitão.

O prisioneiro não era cobarde e aguentava bem o castigo, porém ao receber os tratos pela quarta vez cedeu e confessou a Abderhamane tudo o que ele queria ouvir. O aduar dos assaltantes não estava longe do oásis.

– Vamos apanhá-los de surpresa – propôs o Capitão da cáfila –, enquanto levantam o acampamento, pois não devem contar com um ataque de noite.

– Não podes abandonar a cáfila – contrariou Khalid. – Os cavalos são nossos e nós bastamos para os nómadas sobrantes. Se o prisioneiro falou verdade, eles são um grupo solitário e pouco numeroso, depois destas baixas.

– Khalid ibn Zohr tem razão, Capitão Abderhamane – disse Pêro da Covilhã –, a caravana pode ser de novo assaltada na tua ausência. Tens de proteger os mercadores e os peregrinos que confiaram em ti e estão à tua guarda.

O Capitão concordou, embora contrariado. Todos os Guerreiros Azuis e os dois portugueses montaram nos seus cavalos e tomaram a direcção do deserto por onde os beduínos tinham escapado.

– Que fazemos com estes dois, Capitão Abderhamane? – perguntou um dos guardas ainda a segurar o archote com que arrancara a confissão ao prisioneiro.

– Cortem-lhes as cabeças – ordenou friamente. – E aos mortos também. Espetem-nas em lanças à entrada do oásis para os bandidos do deserto saberem que a minha caravana não é defendida por mulheres medrosas.

A Lei do Deserto foi prontamente cumprida e os viajantes volveram às suas tendas para prosseguir com as tarefas interrompidas pelo assalto.

...

 

Os tuaregues navegavam pelo Deserto como pilotos pelo mar, guiando-se pelas estrelas e pelo movimento das areias. Pêro da Covilhã, sentindo a brisa da noite soprar-lhe no rosto, não podia deixar de pensar quão semelhantes podiam ser dois mundos tão distintos. Só no mar se podia escutar aquele silêncio absoluto cheio de sentido e de vida. Os únicos sons eram feitos pelas patas dos cavalos martelando a areia e pelo roçagar dos leves panos das vestes dos cavaleiros.

Galopavam com um ritmo rápido e em breve avistaram do cimo de uma duna os fogos do aduar. Khalid ergueu a mão e o grupo refreou as montadas acercando-se do chefe. Os dois portugueses não sentiam qualquer repugnância em aceitar as ordens do tuaregue que agia como um verdadeiro príncipe do Deserto, pelo contrário, mostravam-se mesmo envaidecidos por ibn Zohr os aceitar como seus iguais e encarnavam com todo o convencimento os seus papéis de Ali Moumen e Agi Bedreddin.

Desmontaram, deixando os cavalos com Abou na base da duna e rastejaram até ao cume para daí espiarem os movimentos dos beduínos. Tal como previra Abderhamane, os salteadores desmanchavam o acampamento em grande azáfama, desejosos de levarem os cavalos roubados o mais depressa possível para lá da outra margem do Mar Vermelho e a vigilância era escassa. Os cavalos estavam atados a uns postes com dois homens a guardá-los.

– Não têm muitas atalaias, estão quase todos ocupados com o fato e a sua carga.

– Vamos dividir-nos em dois grupos – decidiu Khalid. – Hassan, Abou, Assad, Izzadin e Akim que são os melhores archeiros do nosso grupo irão cercar o aduar, sem serem pressentidos  e começarão a desferir os arcos todos ao mesmo tempo, tratando de não falhar o alvo. E antes de poderem volver a si para ripostar, nós outros, a cavalo, cair-lhes-emos em cima.

Era um plano muito simples, contando sobretudo com a surpresa e o valor dos Guerreiros Azuis, pensou Pêro da Covilhã, mas capaz de resultar pois o número dos adversários era agora equivalente. Viu os cinco tuaregues armados de arcos e aljavas deslizarem silenciosamente pelas areias, dispersando-se e confundindo-se com as sombras do deserto, para as sentinelas do aduar os não assinalarem. Não tardariam a chegar à distância de tiro e os cavaleiros saltaram para o dorso das suas montadas, deixando os cinco cavalos dos archeiros a cargo de Rashid para os levar a seus donos quando o ataque da cavalaria começasse.

As setas partiram quase em simultâneo, acertando nos alvos com tanta precisão que Pêro da Covilhã se apercebeu da longa prática dos seus amigos neste tipo de acção. Os dois guardas dos cavalos levaram as mãos ao peito num gesto lento de ritual e tombaram sem vida no solo e o aduar ficou num alvoroço de gritos e correrias desordenadas, com as flechas voando em movimentos ajustados. Os beduínos procuravam refúgio por trás dos camelos ajoelhados para receberem a imensa carga nas bossas oscilantes.

– Chegou a nossa vez! – gritou Khalid, esporeando o cavalo e lançando-se a toda a brida pela encosta da duna. – Ao ataque!

Os tuaregues responderam com os seus gritos guturais, rolados pela língua contra o palato, que lhes saíam da boca como punhais a rasgar as sombras e os medos. Os dois portugueses não ficaram para trás, o galope da montada batia o ritmo do sangue a latejar-lhes nas veias, porém o grito mudo que lhes subia das entranhas morria na garganta.

Entraram pelo acampamento como demónios à solta, desferindo golpes de espada e de punhal a torto e a direito, impedindo os beduínos de se chegarem aos cavalos. Sem desmontar, tomaram archotes das fogueiras e incendiaram as tendas ainda de pé e todos os fardos e carga amontoada. Os camelos corriam espavoridos soltando berros de terror, com as cargas a balouçar nas selas, rompendo as cordas e espalhando-se pelo deserto como um rasto de destruição. Desbaratados, os beduínos fugiam, seguindo as mulheres à procura da salvação nas dunas do deserto, menos perigosas do que os djinn azuis de rostos velados pelos tidjelmousts.

– Deixai-os ir, são muito poucos e tão cedo não hão-de importunar as caravanas – disse Khalid. – Se as mulheres ficassem sós, acabariam por morrer, assim ainda poderão volver ao seu clã. Recolham os nossos cavalos e quaisquer outras montadas ou animais de carga por aí à solta, pois não quero dar aos bandidos meios para transportarem o saque dos seus assaltos.

Os Guerreiros Azuis, com os olhos brilhantes de satisfação, recolheram os animais e, mais ricos do que antes, volveram ao Oásis de Ain Mūsa onde foram recebidos em triunfo.

...

 

Chegaram a Toro, o el-Tūr dos mouros, depois de seis dias de caminho, sem mais estorvo, para além a mordedura ardente do sol, avistando do lado oriental os cumes distantes do Djebel Mūsa, o Monte de Moisés, que os tuaregues lhes apontavam. 

– Esta terreola é Tôr?! Parece uma aldeia de Portugal... – Pêro da Covilhã estava desiludido.

– Sim, para um lugar de passagem de tantas caravanas, pensei encontrar uma cidade como o Cairo ou Alexandria – concordou o companheiro.

Tôr era uma aldeia assaz pequena e miserável, sem água nem vegetação em volta, tirando um conjunto de doze palmeiras enfezadas, tendo como único marco digno de menção um pequeno convento de maronitas[80], à volta do qual se agrupavam alguns gregos e arménios cristãos e outros tantos pilotos árabes do Mar Vermelho.

Ali se separaram os peregrinos de Meca do resto da Cáfila, indo juntar-se a outros grupos de crentes à espera dos barcos. Os mercadores que seguiam para Adem despediram-se de Abderhamane e foram tratar da trasladação das suas mercadorias e fato para os djelbas, os barcos do Mar Vermelho.

Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva foram em segredo até ao convento, em busca de informações sobre os cristãos dispersos por aquelas regiões e o reino do Preste João. Por sua vez, os monges assaltaram-nos com perguntas, cheios de curiosidade e emoção ao ver aqueles cristãos da longínqua Península Ibérica.

– Vivemos vida perigosa, meus filhos – disse-lhes o prior. – Estamos em poder dos mouros e temos de obedecer ao mando do Grande Soldão[81] e não lhe desagradar, se queremos manter o convento.

– E como fazeis para vosso provimento?

– Mantemo-nos com as esmolas das gentes de Tôr e de algumas dádivas de peregrinos, mas só a protecção do grande mosteiro de Santa Ekaterina, nos permite continuar aqui.

– E, tal como os monges de Santa Ekaterina – acrescentou o padre bibliotecário –,  estamos sempre sujeitos aos ataques dos beduínos do deserto.

Afonso de Paiva levou a conversa com os monges para o assunto de maior interesse:

– Vimos em busca do Reino do Preste João, por ordem do nosso virtuoso Rei D. João II, mas até este momento ainda não ouvimos falar dele. Podeis ajudar-nos?

– Seríeis melhor informados no mosteiro de Santa Ekaterina, o lugar cristão mais santo do Sinai, pois aí vão em peregrinação cristãos de todo o mundo e muitos do Reino do Preste. Os mouros chamam-lhe “O Grande Abexim” e o seu reino  é para os lados de Etiópia a Alta, abaixo de Suaquim, nas partes orientais de África.

– Não poderemos ir a Santa Catarina, pois levantaríamos suspeitas – disse Pêro da Covilhã –, mas talvez possamos passar por Suaquim.

– Ide com Deus, meus filhos. – abençoou-os o prior, oferecendo-lhes uma relíquia da mártir Catarina, morta em Alexandria no tempo do Imperador Maximiano, cerca do ano de 310, e cujo corpo fora trazido pelos anjos para o Djebal Katrina onde os monges do convento o encontraram.

Os dois portugueses volveram ao modesto caravanserai, o mais pobre de todos os que tinham visitado e começaram a preparar-se para a viagem de várias semanas pelo Mar Roxo, seguindo os conselhos de Ahmed Said.

...

 

No porto de embarque, esperava-os nova surpresa.

– São estes os gelbas? – Pêro da Covilhã mal podia crer no que os seus olhos viam. – Com velas de esteira e as tábuas do casco sem pregadura, só cosidas com fio de cairo[82]? Não iremos longe neles...

– Nada temais – sossegou-os Ahmed. – São mui fortes e resistentes apesar da aparência e raramente sofrem acidentes ou vão ao fundo, isso só acontece se embaterem contra algum recife de coral ou baixio.

– E como levam as alimárias? – perguntou Afonso de Paiva, em cuidados pelos preciosos cavalos do Cheikh e pelo espólio arrecadado no aduar dos salteadores – dez cavalos, seis camelos e dois dromedários – que, se não os perdessem, lhes daria certamente um bom lucro.

 Não tardou a ver como os marinheiros deitavam por cima da carga uma espécie de estrado feito de canas finas atadas com fio de cairo. De pé, nesta cobertura improvisada, iam viajar homens e animais, durante cerca de mês e meio, descendo o mar vagarosamente, navegando do nascer ao pôr do sol, fundeando todas as noites para não chocar contra os baixios e recifes de madrepérola. Os passageiros pouco tinham para fazer e a maior parte do tempo jogavam ou contavam histórias de viagens por mar ou de caravana. Estes relatos nunca cansavam Pêro da Covilhã, sempre a registar na sua prodigiosa memória todos os nomes e pormenores das rotas mencionadas pelos viajantes.

– Partindo de Adem para ir para a Índia é melhor viajar por mar – disse o mercador persa, contrariando os defensores da viagem em cáfila, por terra.

– Mas no mar há sempre o perigo dos piratas se atravessarem no nosso caminho e então estaremos perdidos.

– E, por terra, não há salteadores por todo o lado? Além do mais é pior caminho e muito mais longo.

Um grande abanão, acompanhado de um estrondo assustador, fez estremecer o barco que se inclinou perigosamente lançando à água alguns passageiros desprevenidos, a gritar de susto, seguidos por quatro cavalos soltos das cordas com o embate e cujos cascos deslizavam pelas esteiras como por azeite, fazendo os animais alçar a cabeça com os olhos esbugalhados e espuma a escorrer-lhes da boca, soltando relinchos de pavor, enquanto mergulhavam nas águas com um baque surdo dos corpos, formando ondas e remoinhos na superfície tranquila do mar.

– É um recife! – gritou o piloto. – Não o vi por a maré ir mais cheia.

O capitão Agib Abdeslam debruçava-se da proa:

– Não fez grandes estragos, Allah seja louvado! Tragam as varas – ordenou e os matalotes tomaram dois longos varapaus e, metendo uma das pontas entre o barco e o recife, procuraram soltar o barco. – Empurrem! Força! Agora!

Os tuaregues, refeitos do susto, procuravam socorrer os náufragos, sobretudo Abu em dificuldades por causa das longas vestes que lhe tolhiam os movimentos e o arrastavam para o fundo. Pêro da Covilhã apercebeu-se do medo dos Guerreiros Azuis ao mar, pois habituados às areias do deserto a água infundia-lhes um respeito supersticioso, misto de terror e de admiração. O Escudeiro arrancou a veste mourisca, ficando em túnica e sirões e lançou-se à água, nadando rapidamente em direcção ao moço tuaregue a esbracejar já sem forças. Alcançou-o quando Abu cessara já de se debater e estava a ponto de se afundar.

– Coragem, amigo, que te não deixo morrer!

Arrastou-o até ao barco, para onde os companheiros o içaram e lhe fizeram recobrar os sentidos. Todos os restantes náufragos foram salvos e o barco levado até à margem para avaliar os estragos, felizmente de pouca monta e para recolher os cavalos que se tinham posto a salvo nadando para terra. Apenas uma égua com a perna quebrada teve de ser abatida e o dono, de lágrimas nos olhos, cortou-lhe o pescoço com um formidável golpe de sabre. De seguida o animal foi desmanchado e a carne entregue à tripulação, como um complemento das rações de bordo.

Prosseguiram viagem sem mais incidentes até Suaquim, onde permaneceram uns dias num caravanserai para repousar da fadiga e do susto e dar ânimo aos cavalos. Era a ocasião esperada por Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva para saberem novas do Preste João e, enquanto os companheiros assistiam aos animais, eles passavam a maior parte do tempo na pousada a tomar taças de chá de menta e a conversar com todos os viajantes e peregrinos que por ali apareciam vindos da Abissínia ou regressando à sua terra. Um grupo de mercadores negros foi o mais farto em informações, mas as suas descrições pareciam aos dois portugueses mais fantasiosas do que verdadeiras:

– O Grande Abexim é tão rico e abastado de ouro como não se sabe de nenhum outro rei que lhe seja igual – afirmava o mais moço com os olhos redondos de admiração.

– Mas o Preste João não é infiel? – perguntou Pêro da Covilhã, cada vez mais à vontade no seu disfarce de Ali Moumen, um crente da seita de Muhammad.

Um homem mais velho parecia saber todas as histórias e lendas que circulavam pelos caravanserai da África e da Arábia:

– Sim, é cristão, seguidor de um profeta ou discípulo do Messias deles – e cuspiu com desprezo.

Cristãos seguidores do apóstolo S. Tomé” pensou o Escudeiro lançando um rápido olhar ao seu companheiro. Os dois espiões de D. João II refrearam a custo a vontade de o espancar, obrigando-o a engolir o cuspo. Mas, finalmente ouviam alguém falar do Presbítero. Paiva forçou um sorriso e perguntou ao ancião:

– E onde poderemos achar o Grande Abexim?

– Na cidade de Bab-el-Maleq – respondeu prontamente o mouro. – Todavia não lograrás vê-lo, pois anda sempre num carro chapeado de ouro e ornamentado de rica pedraria, mas tão velado e encoberto que nunca ninguém lhe viu mais do que o pé, posto fora do carro para os peregrinos lho beijarem.

A entrada para o reino do Preste João seria então por Suaquim? As descrições exageradas dos viajantes correspondiam às ouvidas na Corte d’el-Rei D. João II. Mas os escudeiros queriam ter mais certezas e decidiram não se separar antes de chegarem a Adem, para aí colherem mais informações. Agora sabiam estar no bom caminho e sentiam-se impacientes com a demora.

...

 

Retomaram a viagem e, sem mais acidentes nem atrasos, saíram finalmente do Mar Roxo pelo estreito de Bab-el-Mandeb, a única passagem para qualquer barco entrar no mar largo e navegar na costa para Adem, no sul da Arábia Feliz, onde chegaram a tempo da monção para a Índia. Acercava-se o momento da separação dos dois companheiros cujas vidas haviam sido ligadas pelo Destino ou pela vontade de um Rei e cimentadas de perigo durante uma longa e rara aventura. 

– Belo porto de mar! – bradou Pêro da Covilhã ao avistar a cidade.

– Está sujeita a um rei mouro – disse Khalid – mas é administrada por um governador. Tem mui grosso trato de grandes mercadorias, como podeis ver pelos barcos aí surtos e que vêm de Judá, Zeila, Ormuz, Cambaia, Chaul e até de Calecut.

– A sua riqueza vem-lhe, não de ser um porto de passagem dos navios, mas por ser o termo da navegação das rotas do comércio com o Oriente – prosseguiu Rashid. – É aqui que as mercadorias passam para os barcos do Mar Vermelho.

– Vou tratar-vos da pousada, no caravanserai do porto – disse Ahmed Said, mal atracaram. – Tenho lá amigos e sereis mui bem alojados.

Situada numa ponta entre a serra e o mar, a cidade de Adem recortava-se na encosta escarpada como um baixo-relevo, com as suas muralhas, torres e cubelos[83] de ameias à maneira de Portugal. Enquanto se dirigiam para o caravanserai, por ruas largas e muito cuidadas, ladeadas de formosas casas de pedra e cal, altas de vários sobrados, com muitas janelas e terrados como em al-Qahira, cruzavam-se constantemente com mercadores mouros e judeus, tanto pretos como brancos, trajando roupas compridas de algodão ou seda, toucas e sapatos baixos.

Ao atravessarem os mercados onde abundavam as especiarias, as drogas e os produtos preciosos, mercadorias de luxo pagas a peso de ouro pelos ricos e poderosos da Europa, Pêro da Covilhã aspirava os cheiros do Oriente que os panos e madeiras dos fardos e baús não logravam aprisionar e sentia-se a navegar finalmente pela rota da pimenta e da canela, da laca e do sândalo, do benjoim e do almíscar, do cravinho e da noz moscada, do gengibre e do açafrão.

...

 

– Ali Moumen, é tempo de monção para a Índia – disse-lhe Ahmed. – Se queres ir a Calecut, deves embarcar sem tardança.

Passeavam sós pelos mercados de Adem, pois Khalid e Rashid tinham ido vender os animais apreendidos no aduar, menos um dos cavalos que Afonso de Paiva guardara  para sua montada e o português fora com eles para se informar da melhor maneira de viajar pela Etiópia e cumprir a parte da missão de que D. João II o incumbira.

– Sabes se está para partir alguma embarcação para a Índia? – perguntou Pêro da Covilhã ao fiel Ahmed.

– Disseram-me, no porto, que dentro de três dias sai um barco para Cananor. É grande, de duzentos ou trezentos tonéis, leva até mil e duzentos bahares[84] de carga.

–Tenho de aproveitar a ocasião, pois já perdi muito tempo nesta viagem. Ahmed, trata de acertar o preço da passagem com o capitão, enquanto eu vou comprar alguns produtos para vender na Índia.

Do minarete da mesquita próxima o almuadem, virado para Oriente e com as mãos postas sobre as orelhas, começou a lançar o seu grito em aravia com uma voz alta sentida e vagarosa:

– Allah é grande, não há outro Deus. Muhammad é o Embaixador de Allah.

Continuou a sua melopeia, convidando os crentes a vir à mesquita ou a orar em casa, rogando a Allah pelo rei, pelo acrescentamento da sua Lei[85] e pela aniquilação da Lei cristã. Três vezes repetiu a sua cantilena, virando-se para o Poente, para o Norte e para o Sul. A confusão destes apelos à oração gritados ao mesmo tempo por mais de uma dezena de almuadens do cimo de outros tantos minaretes entontecia Pêro da Covilhã. Ahmed dirigiu-se à mesquita mas o Escudeiro escusou-se dizendo que iria mais tarde.

Viu-o partir e prosseguiu as suas voltas pelo mercado vastíssimo do porto, olhando distraído para a infinita variedade de produtos que captavam o olhar ou entonteciam os sentidos, muitos dos quais ele nem sabia de onde vinham nem para que serviam. Uma certa melancolia toldou-lhe o espírito, ao pensar em Afonso de Paiva e em si próprio, prestes a partirem à aventura, cada um por seu lado, por mundos perigosos que raros europeus e nenhum português antes deles haviam conhecido.

Se já tinham passado por tantos trabalhos, na primeira parte da viagem quando iam na companhia de amigos prontos a dar socorro, como iria ser agora, sozinhos e sem ter o companheiro a quem recorrer, por essas terras de infiéis cujos costumes e línguas desconheciam,?

Por outro lado, animava-o aquela chama sempre a impeli-lo para o Longe e o Encoberto, levando-o a buscar caminhos e a fazer cousas jamais ousadas por outros. Era um caçador solitário ansiando por descobrir pistas de feras desconhecidas, um cavaleiro andante sonhando com Camelot e a travar duelos com inimigos poderosos para salvar donzelas desprotegidas. Se era essa a sua estrela ou a vontade de Deus, não lhe competia a ele contrariá-las... nem tão pouco desejava fazê-lo. Sacudiu a cabeça, para se arrancar ao devaneio e volver à ruidosa realidade do mercado.

Precisava de arranjar moedas em uso na Índia e trazia uma livrança de Lisboa para um baneane chamado Mangí, com correspondentes em Calecut e negócios de dinheiro em Adem. Informou-se onde era a casa do banqueiro e foi-lhe entregar a ordem de pagamento.

O homem atendia um grupo de árabes e turcos, mas saudou-o:

– Allah seja contigo! Em que posso servir-te?

– Trago uma ordem de livrança e preciso do dinheiro.

Mangí olhou o documento, conferiu os selos e disse:

– Não me é possível entregar-te hoje esta quantia. Volta amanhã, por favor. Mas antes diz-me onde tens pousada.

– Estou no caravanserai do porto – informou o Português contrariado, pensando se o baneane não estaria a enganá-lo – Não te esqueças de que preciso desse dinheiro para partir.

– Não temas! Amanhã tê-lo-ás aqui à tua espera.

Voltou ao caravanserai a esperar os amigos que não tardaram a aparecer. Os Guerreiros Azuis vinham contentíssimos com o lucro da venda do produto do saque e não deixaram de dar aos dois portugueses o seu quinhão pela participação na luta e no ataque ao aduar dos beduínos.

– Dentro de dias haverá um leilão de cavalos – informou Khalid – e, como até lá os nossos animais terão tempo de descansar e recuperar a boa forma, não tenho dúvidas de que iremos obter uma boa maquia para Mulay Abd-el-Aziz.  

Nesse momento, Pêro da Covilhã viu entrar Mangí no caravanserai e dirigiu-se ao seu encontro. O homem puxou-o para um recanto isolado na grande sala e disse:

– Perdoa-me por não te ter dado logo ali, na minha casa, o teu dinheiro, mas tive uma boa razão para isso. Como pudeste observar, eu estava a atender um grupo de arábios e turcos e se eles te vissem sair com todo este dinheiro não tardariam a avisar alguns ladrões ou encarregar-se-iam eles próprios de te aliviar da bolsa. Por isso aqui tens a tua prata e procura não a mostrar por aí.

O Escudeiro agradeceu o cuidado do banqueiro e despediu-se dele com muita amizade voltando para junto dos seus companheiros.

...

 

– Agora já podemos volver a casa – disse Rashid com um suspiro, guardando as bolsas de moedas de oiro da venda dos cavalos. – Mas não irei tranquilo com tal soma de dinheiro na caravana.

– Depois da coça que lhes demos, os salteadores já não devem ter ganas de se meter connosco – os olhos de Abou brilhavam de orgulho ao recordar o Poço de Moisés.

– Nunca fiando – replicou Rashid – e lembra-te que já não teremos Ali Moumen e Agi Bedreddin para nos ajudar.

Ficaram em silêncio, assaltados pelas recordações  comuns, emaranhados nos laços de amizade criados entre eles pelo perigo e a camaradagem.

– Foi bom voltar a ver-te, meu irmão – disse Khalid, abraçando e beijando Pêro da Covilhã nas duas faces. – Trazes a aventura entre os teus aprestos[86], pois para onde quer que vás as cousas acontecem e a vida tem mais sabor.

– Quando te cansares do serviço do teu rei ou de andar só pelo mundo – acrescentou Rashid, repetindo os gestos de despedida de Khalid –, vem viver connosco.

– Devo-te a vida, Ali Moumen, e jamais esquecerei essa dívida – murmurou Abou ao beijá-lo comovido. – Espero pagar-ta um dia.

– Amigos, o destino há-de juntar-nos de novo, mas se o não fizer haveis de viver para sempre no meu coração. Saudai o nobre Mulay Abd-el-Aziz da minha parte e rendei-lhe as minhas homenagens.

– Assim faremos – assegurou Khalid ibn Zohr.

– Levaremos Ahmed Said até Al-Iskandariya – acrescentou Rashid – e não deixaremos acontecer nada de mal ao nosso companheiro de aventuras.

– Quando volveres a Al-Iskandariya, Ali Moumen – o guia abraçou-o por sua vez –, vem ao meu caravanserai ou envia-me recado para que possa ir ao teu encontro e alegrar-me.

O zelador do caravanserai tinha os olhos marejados de lágrimas e agradecia com fervor o dinheiro que Ali Moumen e Agi Bedreddin lhe tinham dado como paga dos seus serviços. Aprendera a gostar daqueles dois mouros misteriosos, com muito de guerreiros e pouco de mercadores, pois com eles passara os melhores tempos da sua vida. Só lamentava não poder acompanhá-los por mais tempo.

Por fim, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva olharam-se em silêncio durante alguns instantes e abraçaram-se com profunda emoção, calando as perguntas que os feriam de angústia e de medo: Cumpririam as sua missões? Regressariam vivos dessas terras ignotas? Volveriam a ver-se?

– No Cairo, o mais tardar em Dezembro de 1490 – a voz de Pêro soava como uma promessa solene.

– Lá estarei – respondeu Afonso no mesmo tom.

– Levaremos Agi Bedreddin até Suaquim – disse Khalid – e só então o largaremos no mundo. Que Allah te proteja.

– E a vós também – respondeu o Escudeiro, dando meia volta e entrando no barco prestes a tomar a rota perfumada e misteriosa das especiarias.

 

 

  

... Porém, meu caríssimo leitor, essa viagem infinitamente mais perigosa e alucinante será o assunto do romance O Espião do Malabar, o 4º volume da Colecção Cruzeiro do Sul, em que Pêro da Covilhã descobrirá por fim o Paraíso das Especiarias, à custa de grandes sacrifícios e tendo muitas vezes a sua vida presa por um fio e salvando-se quer pela sua coragem e valor guerreiro, quer por um golpe de sorte ou por estranhos sortilégios do mágico Oriente...

 

 



[79] Um quintal equivale a cerca de 60 Kg.

[80] Cristãos do Líbano, sujeitos aos turcos.

[81] Sultão.

[82] Fibra exterior dos cocos, de que se faziam cordas.

[83] Torreão das fortificações.

[84] 7 toneladas.

[85] Religião.

[86] Bagagem.



publicado por umhomemdasarabias às 13:57
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