O primeiro volume da saga de Pêro da Covilhã, em que são narradas as missões do magnífico espião de D. João II, em Marrocos e na Arábia. Romance de viagens e aventuras que recria com grande rigor histórico lugares, usos e mentalidades do tempo.
Quarta-feira, 23 de Abril de 2014
Cap. V - Xeque-Mate À Europa

 

El-rei D. João II ergueu-se com um suspiro e dirigiu-se para o escritório onde o anafado e risonho Garcia de Resende o esperava, de serviço à sua escrivaninha. Um fiel vassalo, embora sem nenhuma costela de aventureiro, pois os talentos do moço escrivão são os de artista debuxador[44] e poeta.

– Meu Senhor – saudou-o Resende, curvando-se com grande acatamento –, tendes a escrivaninha prestes[45] com despachos para assinar.

– Que seria de mim sem os teus serviços, Resende? – el-Rei sorriu, vendo o rosto branco e rechonchudo tornar-se vermelho de enleio e satisfação.

Sentou-se e começou a ler e a separar os documentos, dando especial atenção aos que lhe haviam sido entregues por Pêro da Covilhã, como aquele vantajoso tratado de aliança com os poderosos Cheiks Mulay Belagegi Abd-el-Aziz e Abu-Thabet-Muhammad, a troco de ajuda contra os Castelhanos que assaltavam as suas praças, o qual desejava submeter ao próximo Conselho dos seus ministros.

De seguida, passou a assinar os despachos e petições, conferindo os nomes dos requerentes num livrinho de capa negra onde assentava todos aqueles a quem desejava fazer alguma mercê pelos bons serviços ou castigar pelos agravos recebidos. Garcia de Resende preparava-lhe as penas de pato, molhando-as na tinta, tendo sempre uma pronta para substituir a que ele gastava.

Estendeu a mão para receber do escrivão outra pena, porém como o moço tardava olhou-o impaciente e viu como ele tinha virado discretamente o rosto para outro lado, a fim de não ler os segredos do seu soberano. Disse-lhe, sorrindo:

– Vira-te para cá, que se me não fiasse de ti não te mandaria estar aí. Porém, que isto não te dê presunção, mas antes vontade de servir melhor e ser cada vez mais discreto.

Era com os homens do povo ou de pequena nobreza que podia contar, pois não se fiava nos grandes Senhores de Portugal, pois estes não lhe perdoavam a perda das regalias e haviam conspirado já por duas vezes para o destruir, servindo-se primeiro, no ano de 1483, do Duque D. Fernando de Bragança que ele fizera condenar à morte e, no ano seguinte, levando o seu cunhado D. Diogo, o Duque de Viseu, a preparar um plano para o matar, mas ele adiantara-se-lhe e assassinara-o, apunhalando-o com as suas próprias mãos nos paços de Setúbal.

Dera caça aos conspiradores, apanhando alguns e fazendo-os pagar com a vida a sua traição. Porém uns poucos tinham logrado fugir para Castela e D. João II não era rei para deixar traidores à solta e sem castigo, recorrendo então aos serviços de Pêro da Covilhã, seu escudeiro da guarda, mandando-o andar largo tempo por terras de Espanha a farejar e a levantar as lebres e ele saíra-se tão bem da tarefa que, neste momento, não havia um só homem capaz de se gabar de ter conspirado contra el-Rei de Portugal e escapado com vida.

Premiara o Escudeiro e encarregara-o de novas missões de espionação em terras da Berberia e ele não só as levara a cabo sem uma falha, como ainda fizera mais do que lhe fora encomendado, pois até lograra resgatar, durante a última missão, um grupo de portugueses de qualidade, caído nas mãos de corsários mouros. Poucos dias antes, recebera com muita honra os cativos de regresso ao Reino na companhia de Pêro da Covilhã a quem todos estimavam e gabavam o destemor e a generosidade.

El-Rei não podia deixar de pensar na estranha e maravilhosa história de Dona Filipa de Almeida e Menezes. Quanta coragem numa mulher tão moça, digna das canções dos trovadores! Destruir uma beleza que todos diziam ser admirável, desfigurando-se para não perder a sua honra, era um feito espantoso! Prometera ao Escudeiro interessar-se pessoalmente pelo destino da fidalga e compensá-la de toda a sua desgraça. Começara já a tratar do assunto por carta, com Mulay Belagegi, visto terem de marcar a data para o recebimento da embaixada que o poderoso Cheikh desejava enviar a Portugal.

Nas suas missivas, também o Mouro tecia elogios sem limites à acção de Pêro da Covilhã, durante a estada em Fez. Era, na verdade, um homem extraordinário e, por isso, D. João II  lhe reservava a mais rara e difícil de todas as empresas...

...

 Mapa-mundi de Toscanelli

 

El-Rei encontrava-se na sala dos Cosmógrafos, com D. Diogo de Ortiz, Bispo de Ceuta, seu capelão-mor e grande astrónomo, Mestre Rodrigo das Pedras Negras e Mestre Moysés. Ali só entravam os seus mais fiéis servidores e homens de confiança – alguns navegadores e exploradores e os agentes secretos.

 

O Príncipe Perfeito estava furioso contra Diogo Cão por este o ter enganado. O Descobridor, ao regressar da sua primeira viagem de 1484, dissera-lhe que depois de ter descoberto o Reino do Congo havia dobrado o cabo de África e encontrado a passagem entre os Oceanos Atlântico e Índico! Maravilhado e felicíssimo com tal nova, fizera-lhe muitas honras e mercês, concedendo-lhe até um título de nobreza. E, nesse mesmo ano de 1485, o Embaixador Vasco Fernandes de Lucena proclamara o feito extraordinário em Roma, durante a sua Oração de Obediência ao Papa Inocêncio VIII.

Agora, após nova viagem ao Congo, Diogo Cão vinha dizer-lhe que se enganara e afinal não tinha descoberto a passagem para a Índia, o mundo das especiarias! Se este engano fosse sabido lá fora, o rei de Portugal tornar-se-ia o motivo de zombaria de toda a Europa.

– Será que só tenho fanfarrões e fantasiosos à minha volta? – desabafava D. João II com os seus cosmógrafos. – Primeiro esse Genovês, o Cristóvão Colombo, afirmando ser possível chegar a Cipango[46] e Cataio[47], navegando para Ocidente, como se a Ásia fosse já ali, ao dobrar da esquina.

– Não há dúvida, meu Senhor – assegurou D. Diogo de Ortiz –, os cálculos do Genovês estão errados!

– E, logo a seguir, Diogo Cão faz-nos cair num logro destes! – prosseguiu o rei sem o ouvir, na sua voz fanhosa a anunciar tormenta.

Escorraçara o navegador da corte, para mostrar aos restantes descobridores que ele não admitia erros nem malogros e decidira enviar Bartolomeu Dias, navegador experimentado e determinado, a finalizar a empresa deixada incompleta por Cão, pois a passagem tinha de ser rapidamente encontrada e no maior segredo, antes das outras nações se aperceberem do logro[48].

E, ao mesmo tempo, uma ideia prodigiosa começou a tomar forma na mente empreendedora e decidida do Príncipe Perfeito – a de encontrar o reino do Preste João – pois não perderia nada em ter outro bom trunfo na mão, para ganhar a admiração das grandes nações da Cristandade.

Convocara, para uma reunião à puridade[49], João Afonso d’Aveiro, o descobridor do Reino do Benim que trouxera o embaixador Hugato; Duarte Pacheco Pereira a quem encarregava das explorações mais encobertas; Bartolomeu Dias para lhe dar cargo da viagem de descobrir; e ainda João Lourenço, Afonso de Albuquerque, Pêro da Covilhã, o seu melhor espião e Afonso de Paiva.

...

 

Após a saída de Bartolomeu Dias, ainda estonteado de alegria por lhe ter sido confiada a missão de descobrir o cabo de África, o rei ficou por momentos em silêncio, num recolhimento que os seus homens respeitaram, baixando as vozes. De súbito, percorreu a sala com o olhar e fez um gesto a João Afonso d’Aveiro para que se aproximasse e perguntou-lhe:

– Que cousa é essa de teres novas do reino do Preste João?

– O embaixador Hugato e o rei do Benim afirmam, meu Senhor, que a oriente das suas terras, a vinte luas de andadura que são mais ou menos duzentas léguas das nossas, existe um poderosíssimo rei cristão, o Ogané ou Oni[50] de Ife, chefe espiritual dos reinos Yorubas, a quem devem obediência e que consagra os reis locais, enviando-lhes um bordão e um capacete como se fora ceptro e coroa e também uma cruz de latão para trazer ao pescoço, venerada como relíquia de Santo.

– E será esse Ogané o verdadeiro Preste João, o descendente do grande Salomão e da Rainha do Sabá?

– Parece que sim, Majestade, mas ele nunca se mostra seja a quem for. Anda sempre em liteiras ou tendas cobertas de cortinas de seda e só lhe ouvem a voz e lhe vêem o pé que ele põe de fora para lho beijarem.

– O mesmo faz o Preste João das Índias, segundo consta... – e o rei continuou, num súbito entusiasmo: – Se isso for verdade, ao prosseguirmos a descoberta da costa africana, por certo daremos com o seu reino. Seria o maior feito da Cristandade e até faria esquecer o malogro de não termos dobrado o cabo de África.

Com tal jogada o Rei de Portugal daria xeque-mate à Europa!...Tal como previra, Pêro da Covilhã ofereceu-se de imediato:

– Senhor, eu e Afonso de Paiva podíamos ir, por terra, a ver dessas cousas que tanta esperança dão a Vossa Alteza.

– Mas como ireis? Quantos homens quereis levar convosco?

– Iremos só nós os dois, meu Senhor – acrescentou Afonso de Paiva. – Falamos as línguas arábicas na perfeição, temos a pele tisnada e os cabelos negros, por isso facilmente passaremos por mouros.

– Se nos disfarçarmos de comerciantes – continuou Pêro da Covilhã –, poderemos viajar nas suas caravanas para irmos protegidos dos ladrões e salteadores, ao atravessarmos as montanhas e os desertos.

– Iremos juntos até ao Cairo – acrescentou Afonso de Paiva – e depois o Pêro seguirá para a Índia e eu partirei para a Abissínia, por terra, até um de nós descobrir o Reino do Preste João.

– E, em data aprazada, nos juntaremos de novo no Cairo para volver ao Reino – concluiu Pêro da Covilhã.

– Talvez resulte, meus amigos, quem sabe? Que pensais disto, meus senhores?

Dirigia-se aos seus Cosmógrafos que seguiam atentamente a conversa e Mestre Moysés, depois de um rápido olhar aos companheiros, disse:

– Senhor, se enviardes uma expedição por terra e outra por mar, se esse Preste João existir realmente e o seu reino for em África, por certo os vossos descobridores não deixarão de o achar.

– E como Pêro da Covilhã já perdeu os desvarios e as doudices da mocidade – disse D. Diogo de Ortiz, em tom chistoso, lembrado dos tempos de desordem vividos pelo aventureiro em Sevilha – sendo homem de siso e precavido como poucos, não duvido que descubra o que mais ninguém logrou descobrir!

O Reino do Preste ou Presbítero João! Existiria realmente esse Rei-Sacerdote falado em tantas lendas? Um Rei Cristão, com um império poderosíssimo e carregado de ouro, situado na África ou no longínquo Oriente entre reinos infiéis, para servir de aliado na luta da Cristandade contra o Islamismo. Descendente do Rei Salomão e da Rainha de Sabá, diziam uns ou da antiga raça dos Reis Magos, segundo outros, durante três séculos a lenda crescera e com ela aumentara a fama  e o poder deste Preste João cujo paradeiro a Europa procurava.

– E em que lugar de África poderá estar o seu Reino? – perguntou o rei, ansioso. – Lembrai-vos do que Frei António de Lisboa e Pedro de Montarroyo nos contaram e afirmaram ter ouvido aos frades abexins, em peregrinação a Jerusalém, sobre o reino da Abissínia e o seu soberano cristão.

– É preciso ter cuidado com os abexins, meu Senhor – alertou o Bispo, com um certo desprezo. – São mui fantasiosos e sempre exageram as suas descrições. E tanto frei António como o seu companheiro não passaram de Jerusalém, por não saberem falar aravia.

– Mas, tendes alguma ideia da situação desse Reino? – insistiu o D. João II.

D. Rodrigo abriu os mapas do Mundo e de África e as cartas com as novas descobertas dos portugueses, Mestre José e D. Diogo de Ortiz consultaram respectivamente a Geografia e as tábuas de Ptolomeu:

– Tem de estar a leste do Benim... Vinte luas de andadura serão... duzentas...

– Por certo, há-de ser mais de duzentas léguas...

– Também me parece. Talvez duzentas e cinquenta ou mesmo trezentas... Ora vejamos.

Os três cosmógrafos faziam numerosos cálculos, comparavam notas, cochichando entre si, demorando uma eternidade e o Príncipe Perfeito dominava a impaciência da espera jogando uma solitária partida de xadrez. Por fim, Mestre Rodrigo disse:

– Senhor, segundo os nossos cálculos, é possível que o Reino do Preste João se ache na Etiópia, depois do Egipto. Se a lenda for verdadeira, é lá o seu Reino.

– Estais, então dispostos a tentar a empresa? – el-Rei dirigia-se aos dois aventureiros, com os olhos a brilhar de excitação.

– Senhor – volveu Pêro da Covilhã, com humildade –, pesa-me apenas não ser minha suficiência tanta quantos são meus desejos para servir Vossa Alteza.

– Pois, seja, meus senhores! Partireis pouco depois de Bartolomeu Dias, por isso tratai de concertar o plano das vossas viagens com os nossos cosmógrafos. Em breve vos enviaremos recado.

– As nossas vidas são para Vossa Alteza dispor delas à sua guisa – disse Afonso de Paiva como despedida e os dois homens retiraram-se com uma profunda vénia.

D. João II acompanhou-os com o olhar, enquanto se afastavam. Não havia dúvida de que gostava daqueles homens, sobretudo de Pêro da Covilhã, poucos anos mais velho do que ele mas tendo já servido seu pai, D. Afonso V, com grande lealdade. Aventureiro dos quatro costados, inteligente, com uma memória prodigiosa, cheio de artimanhas, falando várias línguas e capaz dos mais hábeis disfarces, levaria qualquer empresa a bom termo, como ficara provado com a sua espantosa aventura em Fez. Assim, se houvesse no mundo alguém capaz de encontrar a Rota das Especiarias ou o Reino do Preste João, essa pessoa seria certamente Pêro da Covilhã!

...

 

Era na casa do escrivão da fazenda Pedro de Alcáçova, à porta de Alfofa[51], nas muralhas da cidade junto à Sé, que Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva tinham os seus encontros secretos com os maiores astrónomos do reino, D. Diogo de Ortiz, Mestre José Vizinho, Mestre Rodrigo das Pedras Negras – o físico[52] do rei – e Mestre Moysés, estes últimos muito agradecidos ao Escudeiro por este lhes ter trazido de Fez os preciosos documentos de Samuel Gabay.

– Vamos à frente deles – disse o Bispo com orgulhosa satisfação – as nossas tábuas da declinação do Sol são muito mais esmiuçadas e certas.

– É certo, Reverendíssimo Padre, porém há aqui umas leituras novas que convém comparar com as nossas – sugeriu Mestre Moysés. – Gabay é uma autoridade em Astrologia.

– Sem dúvida, meus senhores, não devemos descurar nunca qualquer dado ou informação, venha ela de onde vier, se nos poupar tempo e fizer progredir o nosso trabalho.

Debuxavam cartas de marear e mapas, cheios de minúcias e de anotações, para guiarem os dois aventureiros por derrotas[53] de mar mas, sobretudo, por caminhos de terra nunca antes percorridos por qualquer europeu, tirando Marco Polo. Socorriam-se dos mapamundi mais recentes, que el-rei mandava fazer no estrangeiro aos cartógrafos de renome ou pagava secretamente a espiões estrangeiros, com largas somas em ouro, pelos originais ou até cópias de mapas guardados e vigiados como tesouros preciosos.

– Pêro da Covilhã, aqui tendes um itinerário feito com o maior cuidado e toda a minúcia possível, dentro nos nossos conhecimentos... – disse Mestre Rodrigo.

– ...Que são mui incompletos – continuou Mestre Vizinho –, pois essas regiões raras vezes, ou mesmo nunca, foram visitadas por gentes do Ocidente e delas quase nada se sabe.

– Para encontrardes as nações das especiarias – acrescentou Mestre Moysés –, tereis de atravessar mares e continentes, com gentes de desvairadas raças, usanças e línguas. Já vimos como nem sempre Ptolomeu está certo na sua Geografia, por isso, muitas das nossas conjecturas podem estar erradas e só vós podereis emendá-las, à medida que prosseguirdes viagem.

– Até ao Cairo, viajaremos juntos e não devemos achar mores dificuldades, além dos costumeiros ladrões e salteadores de estradas, a menos que passemos por alguma nação em guerra – disse Afonso de Paiva, consultando a carta de marear com as rotas marcadas para ambos. – Espanha, França, Itália, Nápoles, Rodes, Alexandria... Depois, no Cairo, eu cruzarei a África até à Etiópia, em busca do Preste João e o Pêro seguirá o trilho das especiarias pela Arábia, Pérsia e por fim Índia.

– El-Rei D. João II crê que por via desse Preste João se pode ter alguma entrada na Índia – lembrou Mestre Vizinho. – E talvez não se engane.

– É nessa segunda parte da viagem, onde cada um irá para seu lado à aventura, que “a porca há-de torcer o rabo” – falou Pêro da Covilhã, olhando o mapa por sobre o ombro do companheiro e apontando para uma vasta área da costa, a oriente, de contornos mal definidos e com espaços em branco –, pois ninguém andou por estas bandas para nos contar como foi. Pois, se é assi, tanto melhor! Em alguma cousa hei-de ser o primeiro...

– E esperemos que não sejas o último! Julgo, pela tua última aventura em Fez, que ainda guardas muito do ardor e afoiteza da tua mocidade quando deixaste Sevilha em pé de guerra! – riu o Bispo astrónomo, dando-lhe uma palmada cúmplice nas costas.

– Tempos passados de um moço desmiolado, com sangue demasiado quente nas veias. Ainda me lembro das vossas palavras de reprovação...

– Os Sevilhanos pediam as vossas cabeças, pois nem podiam sair de casa. – Acrescentou, em seguida, já mais sério: – Não te olvides da recomendação d’el-Rei e trata de saber, sobre todas as cousas, se os mercadores e outras gentes das terras do Levante[54] conhecem alguma passagem dos mares do Oriente para os da Guiné, no Ocidente.

– Como podem saber aquilo que nós desconhecemos? – admirou-se Afonso de Paiva. – Todavia, se souberem de alguma passagem, nós a acharemos, disso não tenhais dúvidas!

– Para tal feito, Bartolomeu Dias será o mais indicado e por certo o mais afortunado, pois fará toda a viagem por mar – disse Pêro da Covilhã. – No entanto, nós também não deixaremos de indagar e colher todas as informações que pudermos.

Enquanto se preparavam para a longuíssima e trabalhosa viagem, tiveram ainda alguns encontros com Frei António de Lisboa. O frade relatou-lhes tudo o que conseguira saber durante a sua viagem e respondeu com a melhor das boas-vontades a todas as perguntas dos dois escudeiros sobre as terras por onde passara, os caminhos a tomar e a evitar, onde buscar socorro em caso de perigo, as pousadas e pessoas de confiança que deviam procurar.

Afonso de Paiva registara por escrito e em pormenor as valiosas informações do padre, mas Pêro da Covilhã não precisava de tomar notas, bastava-lhe ouvir as coisas uma vez, por muito longas ou difíceis que fossem, para ficarem registadas para sempre na sua mente.

...

 

E aos sete dias do mês de Maio, do ano da graça do Senhor de 1487, el-Rei D. João II recebeu-os em audiência, pela última vez, em Santarém, onde tinha pousada  temporária com a sua corte, como usava fazer por diferentes lugares, a fim de conhecer o que se passava no reino e dar remédio aos males do povo. Tinha junto de si o seu cunhado D. Manuel, Duque de Beja e de Viseu[55].

Era uma audiência privada, quase secreta, para não soarem aos ouvidos dos estrangeiros os alarmes da cobiça e da inveja. El-Rei estava sério e os seus olhos negros, sombrios de pensamentos de grandeza, perdiam-se na visão da Terra Prometida. De joelhos diante dele, dois humildes escudeiros, com uma alma maior do que a sua vida podia conter, esperavam a palavra do monarca:

– Mem Rodrigues e Pedro de Astoniga já partiram, por mar, para a Guiné e de lá seguirão, através da Tamala dos Fulas, para o interior da África, a fim de saber novas do Preste João. E também a armada de Bartolomeu Dias não tardará em sair para o Congo e daí continuar a viagem até descobrir a passagem para o Oriente. Leva com ele os dois negros salteados[56] nesses lugares por Diogo Cão e quatro escravas negras que falam bem português, para as lançar pelas costas e praias novamente descobertas, onde dirão de onde vêm e tratarão de se informar sobre os seus habitantes e também se por aqueles lados chegou alguma nova do Preste[57].

Olhou-os, à espera da pergunta que lhes lia nos rostos, porém como eles nada dissessem prosseguiu:

– Assi, tereis acção concertada com estes vossos companheiros e todos levarão cartas minhas para o Preste. Tu, Pêro da Covilhã, seguirás para Levante em busca da rota das especiarias e tratarás de saber se há mesmo um “Preste João das Índias”, como dizem os antigos, enquanto tu, Afonso de Paiva continuarás na África, indo para a Abissínia, a fim de buscar esse Negus que dizem ser o verdadeiro Presbítero João. Levareis estas pastas de latão como medalha com letras talhadas em língua portuguesa, arábica, latina, grega e hebraica para mostrardes ao Preste e a quem bem vos parecer.

Mestre Rodrigo entregou-lhes as pastas e eles leram: “ElRey Dom João de Portugal, Irmão dos Reys Christãos”.

– Tendes tudo de que haveis mister, cartas, mapas, roteiros? – perguntou ainda el-Rei.

– Sim, meu Senhor.

– Os vossos astrónomos e cosmógrafos são os melhores do mundo!

– Sim, bem o sei – disse rindo D. João II. – Quanto a dinheiro (pois sem ele não ireis a nenhum lado!), quero dar-vos quatrocentos cruzados. Resende, tira esse dinheiro da arca das despesas da minha horta de Almeirim, que esta viagem a quero pagar do meu bolso e não dos cofres do Reino.

O escrivão entregou-lhes uma bolsa com moedas de ouro e os viajantes agradeceram ao rei com uma profunda vénia. D. João II apresentou-lhes um documento selado com o escudo real:

– Levai ainda esta carta de crédito que podeis usar em todas as terras e províncias do mundo. Se vos virdes em perigo ou necessidade, usai dela pois vos há-de socorrer onde quer que estejais.

D. Diogo de Ortiz acercou-se deles com a Bíblia nas mãos:

– Prestai, agora, o vosso juramento sobre este Livro Sagrado.

Os dois escudeiros pousaram a mão direita sobre o livro de capas vermelhas e letras douradas e proclamaram em uníssono:

– Eu, Pêro da Covilhã...

– Eu, Afonso de Paiva...

– ... juro que na execução e obra deste descobrimento que vós, meu Rei e Senhor, me mandais fazer, com toda a fé, lealdade, vigia e diligência, eu vos hei-de servir, guardando e cumprindo vossos regimentos[58] que para isso me forem dados, até tornar onde ora estou, ante a presença de vossa real Alteza, mediante a graça de Deus em cujo serviço me enviais.

Os dois homens ajoelharam, curvando as cabeças, para receberem a bênção d’el-Rei:

– Ide, com a graça de Deus.

Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva ergueram-se, fizeram as suas cortesias de despedida e abandonaram a sala, seguidos pelo olhar absorto d’el-Rei D. João II. Os modestos escudeiros partiam numa extraordinária e perigosa viagem, talvez sem regresso, ao serviço do Rei de Portugal e da Fé Cristã e o monarca sentiu orgulho de ser senhor de tal gente.

...

 

Os dois viajantes decidiram seguir imediatamente para Lisboa, a fim de deixarem os trezentos e cinquenta cruzados d’el-Rei (depois de terem tirado cinquenta para as despesas da viagem) com Bartolomeu Marchioni, um riquíssimo mercador de Florença, estabelecido em Lisboa como banqueiro, há já alguns anos:

– Podeis fazer com que este dinheiro nos seja entregue, à chegada a Valência, em Espanha? – perguntou-lhe Pêro da Covilhã, após a apresentação das suas credenciais.

Certamente, Signori! Seguite il vostro viaggio in pace  – assegurou o banqueiro..

– Não ousamos levar connosco uma tão larga soma de dinheiro, pois as estradas não são nada seguras e corremos o risco de ser assaltados

É vero, amici mei! C’è molto pericoloso. Lasciate il denaro con me[59].

– De acordo, Messire Marchioni.

– Buona Fortuna, Signori! Arriverdeci!

A viagem fez-se por terra sem qualquer acidente digno de nota até Valência onde receberam o dinheiro por ordem do banqueiro florentino e, prosseguindo o seu caminho, chegaram a Barcelona a 14 de Junho, no dia do Corpo de Deus, a fim de tomarem a nau de Bartolomeu Paredes fretada por D. João II para os seus dois Escudeiros.

Fizeram escala em Nápoles, para receberem o câmbio do dinheiro transferido de Barcelona, através de ordens redigidas por Marchioni, para a casa bancária da família de Cosimo de Medici que, além de ser chefe de estado (e verdadeiro rei sem coroa) da riquíssima Florença, era também um poderoso mercador e banqueiro, ganhando fortunas com os grandes tratos de especiarias com o Oriente.

Para não perder esse monopólio, o Senhor de Florença estendera os seus poderosos tentáculos por toda a Europa, abrindo casas bancárias em muitas cidades de várias nações, onde uma verdadeira rede de espiões trabalhava para descobrir e destruir qualquer tentativa de outros estados para achar uma rota das especiarias. Assim, quando os dois Escudeiros de D. João II chegaram a Nápoles, já lhes tinham preparado uma cilada.

– Os documentos por vós apresentados são falsos – disse com frieza o homem de confiança de Cosimo de Medici aos dois portugueses. – A assinatura de Messire Bartholomeo Marchioni foi forjada e não temos qualquer soma de dinheiro depositada em vosso nome.

– Como podeis dizer isso? – questionou Pêro da Covilhã, em italiano, dominando a cólera, pois a conversa do homem cheirava-lhe a golpe sujo. – Recebemos os documentos da mão do próprio banqueiro e em terras de Espanha os oficiais das vossas casas reconheceram e aceitaram as assinaturas.

  – Se o vossa artimanha resultou em Espanha, mais uma razão para usar da minha autoridade e vos mandar prender, até devolverdes esse dinheiro – concluiu o florentino, retirando-se e dando passagem à guarda napolitana, chamada com antecedência.

– Que vamos fazer? – perguntou Afonso de Paiva, enquanto caminhavam, presos um ao outro, entre os guardas que os conduziam aos calabouços da cidade. – Isto cheira-me a cilada...

– Não tenhas dúvidas. Querem impedir-nos de passar ao Oriente e vão deixar-nos apodrecer numa prisão se não conseguirmos fazer chegar o nosso protesto a ouvidos poderosos. O trato das especiarias é um dos maiores negócios de Florença e de Veneza, e não vão abrir mão dele com facilidade.

– Que podemos fazer, se não conhecemos ninguém aqui e...

– Olha, além, o Capitão Bartolomeu Paredes – interrompeu-o Pêro da Covilhã. – E faz-nos sinal para não nos inquietarmos.

– Como poderá ele ajudar-nos?

– Não sei, mas vamos fazer como ele aconselha. Pelo que vi, desde o embarque, parece-me um homem discreto e destemido, além de merecer a confiança d’el-Rei e tu sabes como sua Alteza confia em pouca gente.

O capitão da nau, vendo tardar os dois portugueses, começara a ficar em cuidados, pois já não era a primeira vez que os florentinos e os venezianos armavam armadilhas aos mercadores transportadas na sua nau para o Oriente. Assim, sem mais demora, dirigiu-se à casa bancária e em pouco tempo estava a par do sucedido, vendo os seus clientes sair sob prisão para os calabouços do porto, na belíssima baía de Nápoles.

O Capitão Paredes sabia por experiência como devia agir. Seguiu imediatamente para o presídio do porto e pediu para falar com o capitão napolitano que conhecia pessoalmente e a quem trazia presentes, das suas viagens, para cativar a amizade e aplainar as dificuldades. Foi recebido com a estima de sempre e falou-lhe dos presos como pessoas de qualidade e a quem os florentinos tão mal haviam tratado. Tal como esperava, o napolitano concedeu um tratamento privilegiado aos dois escudeiros, mantendo-os num quarto em vez de um calabouço e permitindo a Bartolomeu visitá-los de imediato.

– Criai ânimo, senhores, depressa saireis daqui, pois conheço os atalhos da justiça, nesta terra.

– Sois um homem de bem, Bartolomeu, não me olvidarei deste vosso serviço – disse Pêro da Covilhã, reconhecido.

– Tendes alguma credencial ou carta d’el-Rei de Portugal, assinada de sua própria mão, provando que andais em seu serviço?

– Há a carta de crédito, com selo real e assinatura, dada por sua Alteza para nos tirar de algum perigo ou grande dificuldade...

– Esta parece-me uma dificuldade bem séria – acrescentou Afonso de Paiva –, para justificar o uso da carta, pois sem o câmbio que esperávamos não temos dinheiro nem para comer.

– Isso não vos deve anojar, pois podeis dispor do que é meu. Mandar-vos-ei comida e bebida, mal saia daqui – prometeu o bondoso Capitão.

– Quedaremos para sempre vossos devedores – agradeceu Afonso, com um suspiro de alívio.

– Mais tarde me pagareis. Mas vamos agora ao que interessa, ou seja, a carta. Preciso de a mostrar a uma pessoa principal da corte para a fazer chegar às mãos d’el-Rei D. Fernando[60] que, certamente não desejará criar um conflito diplomático com el-Rei de Portugal a quem ainda o unem laços familiares, mantendo os seus enviados na prisão.

– Tomai-a do meu baú no camarote da nau, Capitão – disse Pêro da Covilhã, entregando-lhe uma chave. – Aqui tendes a chave. Fazei como achardes conveniente, pois confiamos em vós de alma e coração.

O Capitão Paredes despediu-se, prometendo zelar para que nada lhes faltasse e mantê-los a par de todas as suas diligências para os libertar. Foi uma semana de espera e de ociosidade, mitigada pela beleza da magnífica baía azul e bulício do porto e das ruas que viam da janela do quarto onde os tinham encerrado, embora tratados com muita cortesia e visitados frequentemente pelo Capitão da Guarda, espantado por Pêro da Covilhã falar italiano como... um napolitano.

Por fim, Bartolomeu Paredes surgiu no presídio com um secretário de sua Majestade, o regedor da cidade e um vedor da casa bancária para restituir os dois portugueses à liberdade, com o câmbio de Messire Bartholomeo Marchioni, acrescentado de uma indemnização, uma carta de desculpas de D. Fernando, acompanhada de uma bolsa de moedas e um salvo-conduto para qualquer ponto do mundo dominado pelos italianos.

...

 

A nau prosseguiu viagem até à ilha de Rodes, pertença dos Cavaleiros do Hospital[61] ou de S. João de Jerusalém e os dois aventureiros encontraram pousada na casa de Frei Gonçalo e Frei Fernando, os únicos Cavaleiros portugueses que então aí viviam e com quem conversaram sobre a sua missão:

– Seguiremos daqui para Alexandria, dentro de alguns dias, e ainda não sabemos mui bem o que fazer.

– Esta será a vossa última escala em território cristão, a partir de Alexandria já só andareis por terras de infiéis – disse-lhes Frei Fernando – e isso pode tornar-se muito perigoso.

– Ali, não deveis mostrar-vos na vossa verdadeira pele de cristãos – prosseguiu Frei Gonçalo. – É melhor tomardes a aparência de mercadores mouros, já que sabeis aravia e assim podereis passar despercebidos.

Pêro da Covilhã não podia deixar de concordar com os dois Hospitalários:

– Tendes razão, será a melhor cousa a fazer. Porém, como qualquer mercador há mister de mercadorias para os seus tratos, nós também precisamos de as arranjar. Que nos aconselhais a comprar, que não seja mui caro em Rodes e se possa vender com lucro em Alexandria?

– O mais indicado para ambos será o mel, não te parece, Frei Fernando? O que se produz aqui na ilha é mui bom e barato.

– Sim, é um produto mui prezado em Alexandria, além dos potes serem fáceis de acarrear.

– Pois seja mel! Estás de acordo Afonso?

– Como não havia de estar? Se nos indicarem onde podemos abastecer-nos, irei lá quanto antes.

– Deixai os nossos criados tratar de tudo – disse Frei Gonçalo. – Quanto a nós, cuidaremos das roupas e do resto dos vossos disfarces de mercadores muçulmanos, enquanto vos falamos de todos os lugares por nós visitados até à Terra Santa, de tudo o que deveis evitar como perigoso e a quem deveis buscar para vosso socorro e ajuda.

– Quedai-vos connosco por mais alguns dias e deixai crescer a barba um  bom troço – acrescentou Frei Fernando –, a fim de vos assemelhardes às gentes das terras por onde haveis de passar. Deveis pôr muito cuidado na escolha dos criados e dos línguas que tomardes.

Com um brilho de zombaria nos olhos, o Cavaleiro mais novo lembrou ainda:

– Se fordes mais longe, como de Tana a Cathayo, deveis levar em vossa companha uma mulher de Tana, que não só vos tornará a viagem mais agradável, como mostrará aos naturais desses lugares que sois ricos e de mui boa condição.

– Não iremos até esse cabo do Mundo... espero. Há-de bastar-me a Índia das especiarias e o Reino do Preste João.

– Se o encontrares, meu bravo Escudeiro – disse Frei Fernando com emoção –, tereis descoberto o maior e mais procurado Reino do Mundo!

– Sereis igual a Galaaz ou Percival, os Cavaleiros do Rei Artur que buscaram o Santo Graal – acrescentou Frei Gonçalo.

– Quem me dera ser merecedor de tal dádiva de Deus! – disse, com simplicidade, Pêro da Covilhã.

O Escudeiro d’el-Rei D. João II nunca cessava de se admirar, quando o metiam num sarilho ou empresa impossível, de conseguir resolver a questão a seu favor e até mesmo de escapar com vida. Atribuía esses êxitos a Deus, ao Acaso e à boa Fortuna, nunca ao seu valor e coragem. Essas qualidades eram-lhe tão naturais que nem dava por elas.

 



[44] Artista que debuxa, que desenha.

[45] Pronta, preparada.

[46] Japão.

[47] China.

[48] Ver “O Cometa”, o 2º volume desta colecção, com a extraordinária aventura de Bartolomeu Dias.

[49] Em particular, em segredo.

[50] Grande sacerdote e o maior chefe espiritual a quem todos os outros obedeciam.

[51] Postigo.

[52] O Físico era simultaneamente médico e astrónomo.

[53] Rotas.

[54] Oriente, onde se levanta (nasce) o sol.

[55] D. João II, para apaziguar a Rainha D. Leonor, sua mulher, dera os títulos do cunhado Diogo que assassinou ao descobrir a sua  a  conspiração, ao outro irmão da rainha, D. Manuel, o futuro Rei D. Manuel I, o Venturoso.

[56] Roubados, raptados; apanhados durante um “salto”, assalto.

[57] Ver “O Cometa”.

[58] Regulamentos, ordens escritas.

[59] É verdade, meus amigos! É muito perigoso. Deixai o dinheiro comigo.

[60] O rei de Nápoles era D. Fernando, filho de D. Afonso V de Aragão.

[61] Ordem dos Hospitalários, conhecidos depois por Cavaleiros de Rodes e, posteriormente, de Malta quando estabeleceram sede nessa ilha do Mediterrâneo. Em Portugal se chamava-se Ordem do Crato.



publicado por umhomemdasarabias às 14:10
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