O primeiro volume da saga de Pêro da Covilhã, em que são narradas as missões do magnífico espião de D. João II, em Marrocos e na Arábia. Romance de viagens e aventuras que recria com grande rigor histórico lugares, usos e mentalidades do tempo.
Quarta-feira, 23 de Abril de 2014
Cap. IV - O Sacrifício da Huri

 

A excitante nova  das cativas portuguesas e da disputa anunciada entre os dois inimigos declarados – o odioso Grão-Vizir Hassan ben Abdallah e o Rei das Tribos de Chavia, Belagegi Abd-el-Aziz –, correu veloz por Fez e arredores e trouxe uma infinda multidão ao mercado de escravos de Al-Bali.

O espectáculo promete e, apesar do Corão proibir os jogos de azar, chovem as apostas sobre qual dos dois poderosos Senhores levará a melhor, arrematando as escravas cuja beleza se diz ser apenas comparável à das huris, as virgens do Paraíso aí postas por Allah para consolo e regalo dos crentes, após uma vida de honestidade e sacrifício na terra.

Os mercadores estão satisfeitos com o ajuntamento que se está a formar na praça, em volta do alto estrado para onde são levadas as peças, mostradas à multidão, leiloadas e arrematadas. Dão graças a Allah por o estratagema ter resultando, ao cometerem uma “inconfidência” perto de ouvidos curiosos sobre o interesse dos dois rivais pela mesma mercadoria. Em menos de uma hora o “segredo” fora sabido por todos os fassis, do mais humilde ao mais nobre dos habitantes da Cidade do Islão.

Músicos, bailarinas e acrobatas fazem os seus números, animando as gentes que visitam o funduq em busca de uma boa compra: um escravo de transporte, uma escrava doméstica ou alguns servos para trabalharem as terras, nas quintas às portas de Fez. Mercadores do interior procuram adquirir lotes de peças variadas – machos, fêmeas e crias – pois assim saem mais baratos e o lucro aumenta quando são vendidos longe dali, na região do Deserto.

Encontram-se a bom preço negros trazidos da Costa dos Escravos[40] e de S. Jorge da Mina, resgatados às escondidas ou capturados durante audaciosas abordagens aos barcos dos portugueses que patrulham aquelas costas, como zona sua e de mais ninguém; vêem-se igualmente numerosos homens, mulheres e crianças gregos, corsos, calabreses e genoveses, apresados nas razias feitas por piratas como Selim Khaldun ao longo das costas da Calábria, das ilhas do mar Tirreno e da Toscânia.

Muitas das peças não chegam a ir a leilão, basta ajustar o preço com o mercador, após furioso regateio:

– Olha-m’estes dentes – e o homem força o negro a abrir a boca –, já todos gastos e estragados! O homem é velho e tu pedes-m’o preço de uma peça na flor da idade?!

– Como podes dizer isso? – brada o mercador com grandes mostras de indignação. – Vê-lhe os músculos, apalpa aqui e diz-me s’isto é o corpo de um velho! Muitos anos de bons serviços inda te há-de prestar esta peça. Juro-o, por Allah e pelo seu Profeta!

Desde bem cedo as varandas do funduq ficaram repletas de senhores das mais nobres famílias fassis e de burgueses endinheirados, pois ninguém quer perder o bate-barba dos dois influentes rivais que irão ocupar os balcões vazios.

Subitamente, a praça parece colorir-se de azul e negro. Como na movimentação combinada de um entremez[41], entram no recinto os mercenários do Grão-Vizir, todos trajados de negro, fortemente armados e ameaçadores a marchar como uma tropa de elite, rodeando a liteira do terrível Ministro. Um coro de apupos e assobios solta-se das bocas do povo.

Do lado oposto, com um fogoso estrépito de cavalos e gritos modulados pela vibração da língua contra o palato, surgem os garbosos Tuaregues de Mulay Belagegi, em aparente desordem, vestindo o albornoz azul do seu clã e montando cavalos berberes todos negros como azeviche. O Cheikh cavalga entre eles, mas a sua montada é branca como a neve nos cumes mais altos do Atlas. A assistência grita e aplaude com entusiasmo o generoso Senhor, sempre pronto a socorrer o miserável que lhe pede auxílio na desgraça.

– Como são galantes! É pena que só mostrem os olhos!

– É verdade, nunca descobrem o rosto e, o mais raro ainda, é as suas mulheres não usarem véu diante dos homens!

– Já viste como são todos da mesma estatura?

– Parecem escolhidos a dedo. São tão altos e esbeltos!

– E são guerreiros temíveis. Olhai como montam!

Ambos os grupos param diante do edifício do Mercado de Escravos. Os mercenários fazem alas, perfilando-se, os escravos de transporte baixam a liteira e o lugar-tenente ajuda o Grão-Vizir a sair. Ao mesmo tempo, Khalid e Pêro da Covilhã saltam dos cavalos e ajudam o Cheikh a desmontar, enquanto os restantes Tuaregues, à desfilada e emitindo os seus gritos, percorrem toda a praça em volta dos homens de negro, como se lhes fizessem um cerco. Hassan ben Abdallah empalidece de fúria perante aquilo que considera uma provocação e um insulto.

– Olhai o rosto do Vizir! – diz um perfumista, batendo as palmas de entusiasmo. – Está com vontade de matar o Cheikh!

– E Mulay Belagegi não perde ocasião de o agastar – acrescenta, sorrindo, o açougueiro.

– É bom haver alguém capaz de desafiar esse meliante!

Os dois Mouros ficam frente a frente e saúdam-se com muitas cortesias e salamaleques, como se fossem os melhores amigos do mundo, mas o Grão-Vizir, cheio de raiva, não tem outro remédio senão cumprir com as três vénias profundas exigidas pelo protocolo para príncipes de sangue real. À entrada do funduq, o Ministro do Califa tem de ceder o passo ao poderoso Cheikh, senhor de muitas terras e de muitas gentes, capaz de levantar um exército contra o próprio Califa, se assim lhe aprouver.

Akim ibn Toufail, envergando os seus melhores trajos, vem recebê-los à entrada e desdobra-se em cortesias sem fim, ante os dois homens, fazendo correr os servos, também vestidos de gala, para que nada falte a tão prestigiosos senhores. Khalid e Pêro da Covilhã seguem-nos, ombreando com os guarda-costas do Vizir e dois corpulentos mercenários de muito má catadura quase os empurram para lhes tomar a dianteira. Ibn Zohr cospe para o chão, em sinal de desprezo.

O gordo traficante de escravos conduz os dois clientes aos balcões do piso superior, que dão para a praça e lhes estão reservados. Mulay Belagegi toma assento junto do varandim e os dois Tuaregues vão postar-se de pé por trás dele. O Grão-Vizir é levado para o outro balcão e os mercenários, com um riso escarninho, imitam os gestos e as posições dos homens de azul. Os servos do funduq vêm imediatamente dispor travessas de iguarias e taças de porcelana com o refrescante chá de menta, sumos de frutas e, mais secretamente vinho e outras bebidas alcoólicas proibidas pelo Corão.

O Cheikh tem uma vista privilegiada das galerias, da praça e do estrado onde, naquele momento, se leiloam dois genoveses magros e de meia idade que pouco interesse despertam na assembleia:

– Não vos deixeis levar pelas aparências – grita o pregoeiro, com veemência. – Não são peças de transporte, nem servem para trabalhos pesados. São letrados, meus Senhores, sabedores de latim e grego. Não está, entre vós, nenhum ilustre professor de nossa insigne universidade de Qaraouiyyîn que necessite de um traslador? A cento e vinte moedas cada peça?

Fica um instante silencioso, olhando a multidão, à espera de um lance. Capta o sinal de uma mão e prossegue, mais persuasivo:

– Cento e vinte, para o Rabi. Ninguém dá mais? – nova pausa. – Não quereis bons mestres ou tutores competentes para vossos filhos? E estes são sábios que ensinam, pois, como todos sabem: 'Alim bila 'amil mithl al-gaym bila matar”...

O provérbio “Sábio que não ensina é como nuvem sem chuva” dito com graça pelo pregoeiro faz rir toda a gente. Fazem-lhe outro sinal e o pregoeiro anima-se:

– Cento e cinquenta para o senhor do fez branco. Uma família de bons costumes e cultivada não pode descuidar a educação das crianças. Estes escravos, escolares e letrados depressa aprenderão a nossa língua... Cento e setenta...

Os homens foram arrematados pelo Rabi, para trabalhar na sinagoga de Mellah a recuperar livros destruídos pelo ataque fanático dos crentes do Islão ao bairro judeu, em 1465, massacrando a população e destruindo e queimando tudo, incluindo sinagoga e biblioteca.

O burburinho aumenta na praça, os lances sobem, as disputas estalam quando os pregoeiros dão início ao leilão das mulheres de várias raças, idades e aparências. Pêro da Covilhã, no seu disfarce de Tuaregue, dá graças a Deus por o lenço azul escuro lhe esconder o rosto, pois só com muito esforço lograria manter-se impassível perante o espectáculo daquelas mulheres europeias, brancas e cristãs a serem avaliadas e vendidas como escravas para uso e abuso de infiéis. Era como se o mundo estivesse às avessas e já nada fizesse sentido.

Akim alimenta o ardor e a agitação dos clientes das galerias do funduq com a apresentação de mulheres cada vez mais jovens e mais belas, uma estratégia muito lucrativa, aprendida nos largos anos de prática daquela profissão. A transparência dos véus que, sem tudo revelar abertamente, permite vislumbrar a delicadeza dos traços, a brancura da pele, a perfeição das formas, o contorno de um seio, atiça as paixões e acirra o desejo de posse.

 O traficante de escravos sente o ar pesado da excitação, rivalidade e cobiça que opõem aqueles homens ricos, habituados a satisfazer todos os seus caprichos graças ao poder das suas bolsas bem recheadas e esfrega as mãos de contente ao ouvir as provocações, desafios e insultos, lançados de um para outro balcão com grandes gargalhadas e um brilho alvoroçado nos olhos, a que não é alheio o efeito do muito álcool ingerido, deitado encobertamente nas taças de porcelana em lugar do inofensivo chá de menta. Uma grega, bela como uma escultura de Fídias, após renhida contenda entre os senhores nas galerias, foi arrematada por um gordo general do Califa pela grossa soma de mil moedas.

Por fim chega o grande momento para Akim ibn Toufail que sobe ao estrado a fim de se encarregar, ele mesmo, do pregão e dos lances das três virgens portuguesas. A sua presença faz descer sobre a multidão um silêncio cheio de nervosismo e desassossego, porém ele não se apressa, muito pelo contrário, com um sorriso de bonomia mira a multidão que enche a praça, ergue os olhos para as galerias e lança a sua voz com alegria e entusiasmo contagiantes:

– Poderosos senhores, nobres e ilustres cidadãos de Fas, distintos visitantes do nosso próspero reino, ouvi as minhas palavras e acreditai-me: nem tudo o que é redondo é avelã, nem tudo o que é longo é figo, nem tudo o que é vermelho é sangue e nem todos os ovos são frescos.

Faz uma pausa, para criar efeito e observar a surpresa causada pelas suas palavras e prossegue:

– Eu sei que, em toda a vossa vida, já vistes e comprastes aqui e em muitos outros lugares grande número de escravas, porém posso garantir-vos que nunca haveis visto uma única capaz de ser comparada a qualquer das três virgens portuguesas que vos anuncio.

Nova pausa. A assistência mal ousa respirar. Tinha chegado o momento ansiado por todos: o arrojado leão e o dissimulado chacal iam finalmente disputar as presas! Akim avalia o frenesi e a tensão dos seus ouvintes a arderem-lhes nos olhos como uma febre maligna e anuncia:

– Duas irmãs gémeas, duas raras flores do mesmo caule, de uma beleza tão perfeita e idêntica que não ousámos cometer o sacrilégio de as separar. Mil moedas, cada uma, é o lance de partida e a esse custo, generosos Senhores, quedar-me-ei eu com elas.

O traficante faz um sinal e o gigantesco eunuco arrasta para o estrado, com firme delicadeza, duas mulheres veladas cujos trajos, em ricos e delicados tecidos, servem para dar às peças o cunho de objectos de luxo.

– Quem dá mais do que duas mil moedas? Duas virgens portuguesas – prossegue Akim, sem lhes descobrir o rosto, para provocar o interesse e despertar o desejo do fruto proibido –, duas irmãs de sangue nobre, na flor da idade, duas pérolas perfeitas. Duas mil e quinhentas moedas para Ali Mensour. Quem dá mais por esta dupla beleza?

O pregoeiro descobre os rostos de Madalena e de Helena, cuidadosamente tratados pelas escravas do funduq. Nem as lágrimas de humilhação nem a dor logram desfeá-los e os lances começam a chover de todos balcões e mesmo da praça. Khalid e Covilhã agitam-se inquietos, mas sem dizer uma palavra.

– Três mil moedas... Impossíveis de separar, magníficos Senhores, pois uma não viverá sem a outra, tal como a vossa mão direita não sabe viver sem a esquerda... Três mil e quinhentas, para o nosso bem-amado Grão-Vizir. Quatro mil para Mulay Abd-el-Aziz.

Começara o despique e, a pouco e pouco, os clientes vão desistindo e só os dois poderosos Senhores disputam as escravas. “Cinco mil e quinhentas”, indica Hassan ben Abdallah a Akim, com  um leve aceno de cabeça; sabendo da intenção do Cheikh de comprar todas as escravas portuguesas, o Vizir faz subir o preço para o seu inimigo pagar mais caras as peças menos valiosas, pois o seu interesse jaz na orgulhosa fidalga a quem já chamam a Huri Cristã, uma peça digna do sultão Schahriar, dos contos das “Mil e Uma Noites”, cujo espírito indomável ele há-de dobrar e mortificar, até a transformar numa boneca de cera para moldar a seu prazer e brincar até se cansar. Então...

As duas escravas portuguesas são arrematadas por seis mil moedas, por Mulay Belagegi e Khalid e Covilhã podem, enfim, respirar de alívio.

Sem deixar esmorecer o entusiasmo, Akim recomeça com uma voz misteriosa:

– Uma Huri do Paraíso não pode ser mais bela do que esta virgem de quinze anos; ela é a frescura do orvalho sobre a rosa da manhã, o donaire esquivo da corça em fuga, a altivez impetuosa de um puro-sangue.

Envolta em finíssimas musselinas de cores suaves que a cobrem por completo, Filipa de Menezes sobe os degraus e vai postar-se no meio do estrado, com a nobreza e a graça de uma Princesa pronta a receber a homenagem dos seus súbditos. O eunuco segue atrás, como se fosse seu pajem, sem ousar tocar-lhe.

Com voz doce, Akim rompe o silêncio da multidão, contente por a cativa cristã ter essa atitude de desafio e assim despertar a curiosidade e o desejo dos homens:

– Três mil moedas é o preço de partida, respeitáveis Senhores. Vós sois homens refinados e de bom gosto, conheceis o valor e o custo da perfeição.

O traficante dirige-se à cativa para lhe tirar o véu, mas Filipa adianta-se e solta a fina teia de tecido, deixando-a deslizar para o chão e descobrindo a longa cabeleira que lhe desce pelas costas como um manto ainda mais precioso, pois o sol da manhã arranca-lhe centelhas do mais fino ouro. Um murmúrio de deslumbramento percorre a multidão.

– Quatro mil moedas – grita Ali Mensour, o primogénito de uma das mais ricas famílias de Fez, disposto a bater-se contra o Grão-Vizir e a arruinar-se, se tal for preciso, para entrar na posse de tal preciosidade.

Fideputa malditos! Perros infiéis!” pragueja mentalmente Pêro da Covilhã, sentindo um ódio desmedido pelo traficante e pelo atrevimento de todos aqueles homens a contemplar com olhos cobiçosos o corpo semi-desnudo, secreto e puro de Filipa de Menezes, que parece ausente. Porém, pelo movimento dos lábios o escudeiro apercebe-se de que a moça está a rezar.

– Quatro mil, de Ali Mensour – repete o traficante, fazendo um sinal ao eunuco para cobrir a escrava, a fim de garantir a exclusividade das suas graças a quem a comprar. Nas galerias e balcões, os principais da cidade deliciam-se com a intromissão de um terceiro interessado.
As apostas multiplicam-se alterando as vantagens, pois não se sabe quem vai sair vencedor.

– Olhos de safira, como talismã contra o mau olhado e a peste. Quatro mil e quinhentas moedas de Mulay abd-el-Aziz pela virgem portuguesa – diz o gordo pregoeiro ao ver o sinal do Cheikh, vira-se imediatamente na direcção do Grão Vizir, capta o seu aceno e acrescenta: – Cinco mil, do ilustre ben Abdallah... seis mil de Ali Mensour.

A multidão aplaude o natural da terra a medir-se com os poderosos senhores de outros clãs. Nunca uma escrava, por muito bela que fosse, havia atingido semelhante preço. 

– Dez mil moedas – lança o Cheikh Belagegi, sem alterar a voz nem a expressão do rosto. O silêncio cai de novo, pesado como chumbo. É uma verdadeira fortuna! Será o Grão-Vizir capaz de ultrapassar tal lance?

– Dez mil moedas, do venturoso Cheikh – Akim limpa o suor que lhe escorre pelo rosto, do esforço e da emoção. – Quem dá mais? Quanto vale, para vós, a Huri Cristã, meus senhores, a gentil Flor do Paraíso?

Akim olha Ali Mensour que abana a cabeça com tristeza, retirando-se da disputa. Todos os rostos se voltam na direcção do detestado Grão-Vizir, rogando a Allah o prazer de o ver vencido e publicamente humilhado.

– Está em dez mil moedas. Dez mil... uma... Dez mil, meus senhores, pela Pérola das Pérolas, a mais formosa cativa do mundo! Dez mil... duas. Vou rematar a peça por...

– Dez mil e cem moedas – interrompe o Grão-Vizir, com o rosto contorcido pelo ódio – a favor do Comendador dos Crentes,do nosso bem-amadoCalifa Mulay Said-el-Uttaci.

Um grito de raiva e protesto solta-se de todas as gargantas. O duelo acabara por um golpe sujo de Hassan ben Abdallah! Ninguém podia competir com o Califa de Fez, chamado como o Sultão de Bagdad, o Comendador dos Crentes. Akim teria até de lha oferecer como presente, sem receber nada em troca, se o califa assim lho exigisse.

– Vendida por dez mil e cem moedas, ao nosso bem-aventurado Califa, sobre cuja cabeça descerão todas as bênçãos de Allah – remata o traficante, com pena, mas resignado.

Mulay Belagegi abd-el-Aziz ergue-se pálido de fúria, olhando o Grão-Vizir que sorri de triunfo e desce à praça a fim de receber a preciosa escrava para a transportar na sua liteira, pois sabe que o Cheikh não é homem para deixar impune uma ofensa ou um desaire. Os dois mercenários acompanham o amo, afastando os clientes do caminho e outros quatro homens de negro juntam-se ao grupo, garantindo a segurança do Ministro do Califa.

– Que fazemos? – pergunta Khalid, tremendo e tentando dominar a raiva.

– Nada, neste instante, guardemos a calma! – responde Belagegi, sentando-se de novo. – Manda seguir a liteira para sabermos onde a levam. Coragem, Português, a história ainda não terminou. Não traçámos planos para o caso de algo semelhante acontecer?

Cabisbaixo, Pêro da Covilhã faz um leve aceno de concordância, mas sente o coração vazio de esperança. Mesmo que lograssem salvá-la das garras do seu algoz, nessa noite ou no dia seguinte, já seria tarde demais para lhe salvar a honra.

Hassan sobe ao estrado, deixando os seus homens junto aos degraus, para impedir o acesso seja a quem for. Fingir que a escrava era destinada ao Califa, garantira-lhe a compra e a vitória sobre os seus rivais. E nem sequer perderia a escrava, pois arranjaria maneira de enganar Mulay Said-el-Uttaci com uma história qualquer.

– Preciso de lhe ver os dentes. Não quero mercadoria com defeito para o Califa – diz a Akim. É a primeira lição a dar à orgulhosa infiel e uma manifestação do seu poder absoluto, diante da multidão.

É um homem arrogante, feio e brutal. Acerca-se da escrava, dominando a custo a admiração e o desejo que lhe transbordam de um coração de obsidiana[42], pouco dado a emoções, porém ninguém pode olhar Filipa de Menezes e seguir indiferente, nem sequer o Grão-Vizir. Impassível e altiva, mirando em frente, a moça mantém a atitude de indiferença e desprezo que guardara durante todo o leilão.

Pêro da Covilhã vê com horror como ben Abdallah tenta segurar o delicado queixo para lhe abrir a boca, porém a escrava, com um gesto rapidíssimo e inesperado, arranca-lhe o punhal da faixa, tal com fizera no funduq ao falso mercador e, dando um salto para trás, grita a plenos pulmões:

– Como te atreves, miserável infiel, a tocar-me?

A multidão uiva de gozo, fazendo grande surriada ao Grã-Vizir. Ninguém está em posição de colher a cativa de surpresa e tirar-lhe o punhal, nem isso interessa a Akim e ao eunuco, pois a peça já mudou de mãos e quanto menos problemas arranjarem melhor será para eles e para os seus tratos.

Hassan sente o sangue a correr mais rápido e quente nas veias, como se estivesse a arder em febre. Que bela era a huri cristã! Os longos cabelos ondulando como as douradas dunas do deserto e os olhos de um azul luminoso igual ao céu que elas abraçam. Com as faces rosadas pelo ódio, a tremer de orgulho e empunhando corajosamente um punhal, pronta a enterrar-lho no corpo, parece um anjo vingador. Encontrara, finalmente, a mulher guerreira com que secretamente sempre sonhara  e cheio de paixão avança um passo, hesitando, quase humilde.

Filipa fala de novo, com uma voz fremente como se estivesse num transe, sem olhar para o balcão do Cheikh, no meio de um silêncio petrificado que ninguém ousa quebrar nem mesmo o desorientado Vizir, desesperado por não perceber a língua.

– Português! Não lamentes o meu destino. Deus o quis! A minha beleza é pecado e é maldita. A formosura é a causa da minha perdição. Mas ainda há remédio! Olha, Português e depois conta em Portugal, à minha família, como Filipa de Almeida e Menezes defendeu a sua honra.

Pêro da Covilhã sabe que Filipa fala só para ele, embora não tenha a certeza se ela o vê ou reconhece junto do Cheikh e, cheio de ansiedade, não afasta por um segundo os olhos do estrado e da figura heróica da menina feita mulher. Com um gesto preciso, Filipa ergue a mão armada com o punhal e desfere dois longos golpes no seu próprio rosto. O bramido de agonia solto pelo Vizir, ao correr para a escrava que oscila e tomba desmaiada no estrado, é prolongado pelo grito de horror de muitas bocas.

O Cheikh ergue-se exclamando:

– Louvado seja Allah e o seu Profeta! Que terrível sacrifício!

Pêro e Khalid têm os olhos cheios de lágrimas e Mulay Belagegi sabe que eles querem ir para junto da cativa portuguesa, mas receia o confronto com Hassan ben Abdallah, pois bastará uma palavra ou gesto de raiva ou desespero para deitar tudo a perder. Por isso lhes diz com autoridade:

– Vamos ter com o Grão-Vizir, mas deixem-me agir e não interfiram, custe o que custar, não digam palavra, nem façam nada que indisponha ainda mais o ministro.

Os dois homens fazem um gesto de concordância e o Cheikh desce com eles para a praça e dirige-se ao estrado. Os mercenários que tinham acorrido em auxílio do Grão Vizir, quando Filipa lhe arrancara o punhal, não ousam impedir-lhes a passagem, mas Mulay  Belagegi faz um sinal aos seus guarda-costas para ficarem junto dos homens de negro e avança para ben Abdallah que segura a escrava desmaiada nos braços.

O rosto ainda há momentos de uma beleza sem par, parece um trapo rasgado, como as mais belas pinturas da Virgem, nas Igrejas cristãs, após o saque dos crentes do Islão quando destroem e retalham os retratos dos santos da Cristandade em que não crêem. Dois profundos lanhos, de bordos entumecidos, vertendo sangue que o orgulhoso ministro procura estancar com o véu da cativa, riscam-lhe a face de mármore transformando-a numa máscara de escárnio.

– Posso fazer algo? – pergunta Belagegi. – Já chamaram um físico?

– Sim – diz o Grão-Vizir com voz embargada. – Deve estar a chegar.

O homem parece desorientado, alheio a tudo o que não seja aquele rosto ensanguentado.

– Será melhor levá-la para dentro do funduq – sugere o Cheikh e, perante o aceno de concordância de Hassan, ajuda-o a erguer o corpo da jovem.

Filipa de Menezes abre os olhos, sem um gemido, sem uma queixa. “Tão belos, mas já não pertencem a este rosto destruído” pensa Mulay Belagegi, com mágoa, vendo como uma expressão de horror e asco os escurece, quando a cativa fita os dois mouros. Tanto os mercenários como Khalid e Pêro da Covilhã avançam uns passos, a fim de transportar a moça, porém o Grão-Vizir recusa:

– Eu mesmo a levarei.

Filipa reconhece Pêro da Covilhã no seu disfarce e, para espanto e surpresa de todos, estende os braços para o falso Tuaregue que a recebe das mãos do Vizir, sem oposição. “Acabará por nos denunciar” pensa o Cheikh, enquanto o Português, seguido por toda a companhia, transporta a escrava até  ao aposento indicado por Akim e onde já se encontra o físico, que os manda sair e auxiliado por Safia começa a tratar as feridas. 

– Podemos falar? – pergunta Mulay Belagegi ao Grão-Vizir.

O ministro acede e dirigem-se para um reservado, sentando-se nas almofadas, onde o próprio Akim lhes vem servir chá de menta.

– Foi um fim demasiado trágico para este leilão que nada fazia prever e foste mui lesado. Não podes levar ao califa uma mercadoria assim tão danada, a escrava faz horror à vista, agora já não tem serventia e ninguém ta comprará, se a quiseres vender.

 Hassan ouve-o sem o interromper e Belagegi prossegue, escolhendo as palavras com cuidado, a fim de dar verosimilhança à sua história:

– Mas talvez ainda possamos encontrar uma solução proveitosa, sobretudo para ti. Como sabes, comprei todos os cativos portugueses, a fim de exigir resgates às suas famílias. Ora esta cativa deve ser da nobreza e creio que, mesmo com cicatrizes, os cristãos ainda pagarão um bom resgate por ela, pois como se costuma dizer, o macaco, aos olhos de sua mãe é uma gazela.

Ao dizer o ditado, o Cheikh acentua o tom cruel e indiferente da sua fala, a fim de não revelar demasiado interesse pela cativa.

– Que propões? – perguntou o Vizir, tomando consciência naquele momento de estar metido num grande sarilho, pois havia mencionado o nome do califa, despendera dez mil e cem moedas e ficara com uma escrava de rosto ensanguentado e cheio de cicatrizes.

– Pagar-te-ei as dez mil moedas do meu último lance e levarei imediatamente a escrava, tomando a meu cargo todas as despesas dos tratamentos. Mais tarde tentarei de conseguir um bom resgate por ela. Perderei dinheiro, por certo, mas outros cativos me compensarão e tu apenas desperdiçaste cem moedas.

Era uma solução muitíssimo melhor do que alguma vez poderia desejar e, apesar de ter um ódio mortal ao Cheikh, tinha de aceitar a sua proposta para se  livrar daquele terrível aperto. Quanto à escrava, estava desfigurada para sempre e ele não conseguiria olhar para ela e recordar o que perdera. Não podia hesitar:

– Aceito a tua generosa oferta, Mulay Belagegi abd-el-Aziz, ditada por um nobre coração e nem sei como te agradecer – estas palavras de agradecimento amargavam-lhe na boca como fel.

– Bebamos, então em sinal de amizade e assinemos os papéis do trato. Akim pode arranjar tudo imediatamente.

E o Cheikh chamou o traficante, muito satisfeito consigo próprio por ter conduzido aquele difícil negócio tão a seu contento.

...

 

Todos os portugueses, homens, mulheres e crianças, passeavam nos jardins de Mulay Belagegi Abd-el-Aziz, desconcertados pelos acontecimentos das últimas horas:

– Não entendo! – murmura o velho Rui da Lapa. – Deixam-nos em liberdade e nem sequer têm guardas a vigiar-nos.

A mulher concordou, entre receosa e esperançada:

– Toda a gente nos tratou como hóspedes de qualidade e não como escravos. Que irá o Mouro fazer connosco?

Francisco de Sousa acercou-se, dizendo:

– O Judeu sossegou-nos, embora sem falar dos desígnios do seu senhor a nosso respeito. Não devemos perder a esperança! Aguardemos as explicações do Cheik, esta tarde, como nos foi prometido.

Quando o judeu Haguiz os trouxera na carroça do funduq, nenhum deles duvidava do seu destino – trabalhar como escravo na casa ou nas terras do Cheikh que os comprara –, todavia, agradeciam a Deus por, no meio de tanta miséria e sofrimento, lhes ter concedido a graça de os manter todos juntos, pois era evidente que o poderoso mouro não pretendia separar as famílias.

Entraram pela porta principal da mansão, a sua primeira surpresa, pois vinham presos uns aos outros com cordas nos pés e nas mãos, estavam esfarrapados e muito sujos e o seu espanto foi ainda maior quando uma dama velada, por certo mulher ou principal concubina do Cheikh, surgiu a recebê-los. O judeu falou-lhe com muito acatamento e imediatamente a dama bateu as palmas, fazendo aparecer um exército de criados para se ocupar dos recém-chegados, libertando-os logo das cordas que lhes tolhiam os movimentos.

Com muitos gestos e sorrisos, as servas deram-lhes a perceber que apartavam dos homens as donas com as crianças, por ser uso dos muçulmanos terem as mulheres em aposentos separados e conduziram as cativas para o Harém, a fim de se refrescarem e recomporem dos sofrimentos passados.

Então os servos dispensaram a todos os homens os maiores cuidados, com muitas mostras de respeito, levando-os aos banhos que o senhor tinha naquela casa, numa sala enorme toda em ladrilhos e mosaicos de lindíssimo efeito, com tanques como pequenos lagos de jardim, de água quente e fria. Aquele costume dos banhos, com os corpos mergulhados durante largo tempo na água e o uso continuado de sabões, parecia aos portugueses um péssimo hábito:

– Que estranho uso! – resmungou Rui da Lapa. – Meter-se um na água sem razão de monta!

– Cousa rara, sim senhor! Que eu saiba não é Domingo nem dia santo e se for por mor de um santarrão deles, não o quero festejar!

– Isto até pode ser perigoso – dizia Artur Pena, entrando desconfiado no natatório, porém sem coragem para se negar ao convite dos servos muçulmanos. – É capaz de provocar resfriados e outras doenças.

– Já basta por ocasião de grandes festividades e recebimentos, como casamento ou baptizado, tudo o mais é um desperdício de boa água!

– Mais do que isso – acrescentou Francisco de Sousa –, é causa de maus costumes, de volúpias e deleites orientais a que os mouros se entregam, pois são mui sensuais.

Mas o calor da água e do vapor em breve reconfortaram os corpos doridos e os cuidados dos servos deram-lhes um bem-estar como nunca antes haviam sentido.

– Os infiéis até sabem gozar a vida – concluíra Artur Pena, rendido aos prazeres sensuais do hammam, quando os vestiram com os longos e confortáveis caftans, gellabas e albornozes.

No hammam das mulheres tudo fora mais fácil e divertido, entre risos e brincadeiras, depois das portuguesas se decidirem a desnudar diante de desconhecidas, incapazes de compreender a sua hesitação e vergonha.

Ao entrarem no harém viram como, quer as mulheres livres quer as servas, andavam de rosto descoberto e acorriam ao chamamento da dama que também tirou o véu e começou a dar ordens. As mouras tomaram as portuguesas pela mão, falando-lhes com gentileza mesmo sabendo que elas não as podiam compreender e levaram-nas para os banhos – um salão precioso, com pequenas fontes de mármore e mosaicos –, procurando despi-las.

– Que fazem?! Por que me desnudam?

– Mas... não vamos ficar assim, nuas em pelo, diante delas, pois não?

E agarravam as roupas, para grande surpresa das mouras, recusando-se a tirá-las. Então uma das moças da casa despiu-se com perfeito à-vontade e entrou no natatório.

– Querem que entremos naquele tanque... 

– Eu até gostava... A água quentinha deve dar cá um gosto!...

– E vamos andar por aí com as nossas vergonhas[43] ao léu? Deus me livre!

– Estais com pejo de mostrar o corpo? Tendes algum defeito?

– Sou sã e escorreita, minha menina, como podes ver – e, agastada, a mulher tirou as roupas num momento, mostrando um corpo ainda formoso, apesar dos seus trinta e cinco anos. As outras portuguesas seguiram-lhe o exemplo, rindo e dizendo chistes, quase esquecidas da sua condição de escravas e entraram no banho.

Depois seguiu-se o embelezamento dos corpos com essências, óleos e tintas nunca antes experimentados; a estranheza da roupa interior, tão diferente nas duas raças, que comparavam com muitos risos e gestos maliciosos, sem precisarem de palavras para serem entendidos, pois a linguagem dos corpos e do amor é universal.

Em seguida serviram-lhes uma excelente refeição, juntando de novo todos os portugueses e mostraram-lhes os aposentos onde iriam dormir, mantendo todavia os homens e as mulheres separados, como era seu costume. Ninguém os prendeu, encerrou nos quartos ou os impediu de se moverem pela casa ou pelos jardins. O judeu, em tudo semelhante a um físico ou astrónomo, apareceu com papel, pena e tinta, rabiscou umas linhas, mostrando-as em redor e Francisco de Sousa, fidalgo e homem de cultura, disse ao lê-las:

 – É latim, quer saber se escrevemos em latim. Podemos fazer-lhe perguntas...

Tentou falar na língua clássica, mas Youssef fez-lhe sinal para escrever pois não dominava bem o latim falado.

– Perguntai-lhe o que vai ser de nós, porque nos tratam como se fossemos livres...

O latinista escreveu as perguntas e o judeu respondeu, com muitas hesitações e erros, que nada temessem pois estavam sob a protecção de Mulay Belagegi, o qual lhes pedia perdão por não poder estar com eles mais cedo, mas andava a trabalhar para libertar as três portuguesas ainda cativas e assim responderia de bom grado às perguntas deles, no dia seguinte, quando partilhassem a refeição. O judeu recomendou-lhes que, embora sendo livres de vontade e movimentos, não deviam sair dos limites da casa e dos jardins, pois os seus inimigos eram poderosos e a partida ainda não estava ganha.

...

 

Comem à mesa de Mulay Belagegi, na companhia de Youssef, Khalid e de outros oficiais e aliados do homem que os resgatara dois dias antes do mercado de escravos, gastando uma fortuna em dinheiro e os socorrera, dando-lhes abrigo, comida e roupas de acordo com a sua qualidade, sem lhes exigir nada em troca. Usam Pêro da Covilhã como língua para agradecerem ao anfitrião, fazerem as apresentações e contarem-lhe as suas histórias.

Haviam recebido as duas irmãs, Madalena e Helena, com muitas lágrimas de alegria, pois os tios, com quem viajavam, tinham perdido a esperança de as entregar aos pais que viviam em Ceuta; porém, ao pensarem na negra sorte de Filipa de Menezes perdiam logo a vontade de folgar. O Cheikh chamara os melhores físicos de Fez para cuidarem dela, pedindo-lhes para usarem de todos os recursos da sua farmacopeia, sem olhar a custos, para remediar os estragos feitos pelo punhal no rosto da donzela, jazendo agora num quarto da mansão cheia de dores e de febre.

Os seus companheiros de viagem informam Mulay Belagegi de como Filipa viajava para ir ao encontro do seu marido, um fidalgo de grande linhagem e riqueza, em serviço na mesma praça de Ceuta, com quem havia casado por procuração. Relatam ainda as peripécias do ataque do corsário Selim Khaldun, quando haviam sido despojados de todos os seus haveres e quanto tinham sofrido até serem lançados no mercado de escravos.

– Pêro da Covilhã  – roga Rui da Lapa, o homem mais velho do grupo –, dizei ao generoso Cheikh como nós todos fizemos o juramento, invocando Deus por testemunha, de pagar a dívida que temos para com ele, quando chegarmos ao nosso destino e ficarmos na posse dos bens que ainda possuímos. Trataremos de enviar-lhe a soma despendida com o nosso resgate.

O Escudeiro traduz a fala do Português e Mulay Belagegi sorri.

– Dizei-lhes que nada quero para mim, bastou-me o gosto de contrariar os planos do Califa e do Grão-Vizir, meus inimigos declarados, para dar por bem empregue o meu dinheiro. Além disso, sou aliado d’el-Rei de Portugal. Se acham que me devem alguma coisa, podem saldar a dívida resgatando e devolvendo às suas terras alguns dos meus súbditos berberes, feitos escravos durante as razias dos portugueses.

Pêro da Covilhã traslada o pedido do Cheikh e todos admiram a bondade e o desinteresse do muçulmano, jurando que assim será feito. Mulay Abd-el-Aziz acrescenta, só para o Escudeiro:

– Vinde esta noite, com Khalid e Youssef, ao meu escritório, pois temos de conceber um plano para levar todos os portugueses para Ceuta. Uma caravana para tanta gente leva tempo a preparar  e temo que o Grão-Vizir recupere do abalo sofrido e instigue o Califa a confiscar “os escravos”.

– Tendes razão, meu senhor, já tinha pensado o mesmo. É tempo de partir, pois creio ter concluído com êxito a missão de que el-Rei me incumbiu: tenho as informações necessárias, levo o vosso tratado de aliança com el-Rei Abu-Thabet-Muhammad e consegui os mais nobres cavalos para D. Manuel, o nobilíssimo Duque de Beja, irmão da Rainha.

– E, além disso, devolvestes às suas terras um grande número de cativos portugueses, todos gente de qualidade.

– E, por esse vosso generoso gesto, El-rei D. João II vos será devedor e o meu Senhor sabe sempre pagar as suas dívidas. – Pêro da Covilhã compreende como, para além da sua generosidade, o Cheikh tem interesse em assegurar a protecção de um rei poderoso. Por fim, faz a pergunta que lhe queima os lábios: – E Dona Filipa de Menezes? Não me parece estar em condições de viajar...

– Falaremos disso mais tarde, à puridade! – conclui o Cheikh, erguendo-se da mesa e, despedindo-se dos seus convivas, recolhe-se aos seus aposentos.

...

pvta.wordpress.com 

http://pvta.files.wordpress.com/2011/03/homem-azul-2.jpg

A caravana era formada pelos hóspedes cristãos de Mulay Belagegi, os criados para seu serviço, alguns mercadores que haviam pedido autorização para seguir com eles e um grupo de Guerreiros Azuis, chefiados por Khalid ibn Zohr, para os escoltar e lhes dar protecção nos caminhos das montanhas contra os salteadores... ou quaisquer outros atacantes. O alveitar Pêro Afonso tinha a seu cargo os magníficos cavalos vendidos pelo Cheikh e sentia-se feliz por viajar entre portugueses e volver à sua terra. As montadas dos viajantes eram sobretudo cavalos, mas havia também alguns camelos e muitas mulas para transportarem a carga e puxarem as carroças, confortáveis como liteiras, luxuosamente forradas de estofos e almofadas, onde seguiam as mulheres.

Um pouco antes, o Cheikh tivera uma longa conversa com Pêro da Covilhã sobre Filipa de Menezes, a convalescer ainda dos ferimentos e da terrível febre que a acometera. Durante aqueles dias, enquanto preparavam a caravana, a moça recusara-se a receber visitas e o Cheikh contratara os serviços de uma mulher portuguesa que vivia há muitos anos em Fez, casada com um muçulmano, para tratar da enferma e lhe servir de intérprete.

Na véspera da partida da caravana, Filipa pedira para ver Pêro da Covilhã e recebera-o, como uma moura, toda envolta em véus que apenas lhe deixavam a descoberto os olhos. Assim, parecia tão bela como antes... e o Escudeiro sentiu um nó na garganta e saudou-a em silêncio. A moça entregou-lhe uma carta:

– Escudeiro, agradeço-vos reconhecida tudo o que fizestes por mim e peço-vos um último favor: entregai esta missiva, em mão própria, a meus pais, ao chegardes a Lisboa, pois gostaria que eles ouvissem a minha história da vossa boca.

– Mas... não ides partir connosco, Senhora? – Pêro da Covilhã estava perplexo. – Que pensais fazer?

– Desejo entrar para um convento, mas não quero volver a Portugal nem ir para Ceuta, por isso pedi ao bondoso Cheikh Belagegi para me dar asilo e impedir o meu tio e tutor de me levar à força daqui. O Mouro se encarregará de me pôr em uma boa casa de religiosas, assim o jurou solenemente e eu creio nele. Ide com Deus.

Foi a última vez que Pêro da Covilhã viu Filipa de Menezes. Na sua conversa particular, o Cheikh confirmou-lhe a promessa feita à infeliz moça, de a guardar em sua casa até sarar por completo dos ferimentos, os quais, segundo os médicos asseguravam, deixariam algumas marcas, mas pouco profundas, graças à juventude da sua pele e aos unguentos usados por eles. O Mouro procurou confortá-lo:

– Talvez, quando vir que não ficou desfigurada, ganhe de novo o talante de viver e de volver para junto da sua família ou do marido. Mas, se insistir na sua decisão de ir para um convento, eu me encarregarei de lhe encontrar um apropriado à sua condição.

...

Por fim, a caravana ia partir e Mulay Belagegi Abd-el-Aziz despedia-se dos portugueses a quem salvara da escravatura e muitos, principalmente as mulheres, agradeciam-lhe com lágrimas de sincera gratidão.

O Escudeiro renova-lhe os votos de amizade e vassalagem, recebendo das suas mãos um magnífico presente para el-Rei D. João II. Com um último olhar ao sumptuoso Dar-el-Makhzen, o palácio onde vivem e conspiram contra os portugueses o Califa e o Grão-Vizir da bela cidade de Fez, o Escudeiro dá voz de partida e a caravana põe-se em marcha com um alvoroço de gritos, tropear de cascos e chiadeira de rodas, em direcção a Bab Sebaa, a porta de saída para as rotas das caravanas que cruzam as terras da Berberia.

 

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[40] Guiné.

[41] Representação teatral.

[42] Rocha verde-escura, muito dura, usada como lâmina de sacrifícios.

[43] Órgãos sexuais.



publicado por umhomemdasarabias às 14:17
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