O primeiro volume da saga de Pêro da Covilhã, em que são narradas as missões do magnífico espião de D. João II, em Marrocos e na Arábia. Romance de viagens e aventuras que recria com grande rigor histórico lugares, usos e mentalidades do tempo.
Quarta-feira, 23 de Abril de 2014
Cap. III - Os Guerreiros Azuis

 

O Escudeiro desperta de madrugada com o cantar dos muezzins, lançado dos altos minaretes das inúmeras mesquitas de Fas al-Bali, convocando os crentes para a primeira das cinco orações rituais que ecoam nos céus luminosos da medina ao amanhecer, ao meio-dia, à tarde, ao anoitecer e antes de dormir. Sente-se ainda fraco pelo sangue perdido e também um pouco febril, apesar do alveitar lhe ter tratado muito bem o golpe quando, na noite anterior, chegara ao funduq entontecido de cansaço e com o almejar manchado de vermelho.

Pensa em Filipa de Menezes e, mesmo sendo um homem afeito à crueldade e injustiça do mundo, sente o coração apertado com mágoa da bela cativa e das outras mulheres que serão vendidas dentro de três dias, em hasta pública, como peças de mercadoria para serem usadas por homens bestiais, inimigos de Cristo.

Sonhara toda a noite com planos impossíveis e loucos para as libertar, despertando banhado em suor, quando em cada sonho eram perseguidos e caçados de novo. Poderia fazer alguma coisa para salvar ao menos a preciosa Filipa? Sem uma forte ajuda não valia a pena tentar sequer a façanha, esses milagres de cavalaria aconteciam apenas nos romances e aos cavaleiros do rei Artur e nunca a um pobre escudeiro da corte de D. João II, por mais valente e bom pelejador que fosse.

Joaquim Alves, o escravo português do funduq, acode a chamá-lo:

– Estão lá fora os homens enviados pelo Cheikh Mulay Belagegi. Se o valor deles for igual à sua  disposição, não tereis nada a temer dos vossos inimigos!

– Quantos são?

– Três mocetões tuaregues, bem armados e de boa catadura.

Pêro da Covilhã apressa-se a ir ao encontro dos seus guarda-costas, satisfeito pela prontidão da ajuda do Cheikh. Na noite anterior enviara-lhe Joaquim com um recado, dizendo-lhe que andava a ser seguido e já sofrera duas emboscadas na medina, das quais escapara por uma unha negra e Belagegi prometera mandar-lhe uma escolta para o acompanhar a todo o lado como uma sombra. O ar decidido e inteligente dos três moços, trajados com albornoz azul forte dos nómadas do deserto e montando belíssimos cavalos berberes, agrada ao Escudeiro que os saúda com um sorriso:

Marhaban[30].

– ‘As-salâmu calaykum[31] – responde-lhe o mais alto, com uma leve inclinação da cabeça, admirado com a boa pronúncia do estrangeiro. – ‘Ismî  Khalid ibn Zohr.[32]

Rashid el-Beder– apresenta-se o segundo e leva a mão ao peito e à testa, em respeitosa saudação.

– ‘Ismî Abou al-Nasir – conclui o mais moço, repetindo o gesto do companheiro. – Kayf hâluk?[33]

Aponta para o seu ombro, mostrando saber da luta e do ferimento recebido e o português agradece:

Al-hamdu li-lâh[34].

Acabadas as apresentações e frases de cortesia, Khalid fala de novo:

– O meu Senhor ordenou-nos que te servíssemos e acompanhássemos em todas as tuas empresas. Ele deseja ver-te, em sua casa, quando te for possível.

– Pode ser já, se o ilustre Mulay Belagegi assi o quiser.

– É esse o seu desejo.

O jovem Abou acrescenta ainda:

– O meu amo roga-te que leves o teu alveitar, pois tem cavalos para te mostrar, tal como havíeis concertado.

– Assi será feito – diz Pêro da Covilhã, chamando de imediato Pêro Afonso.

Rashid tira um embrulho da sua sela e entrega-lho:

– O meu Senhor pede que vos disfarçais ambos com estas vestes tuaregues, para vos confundirem connosco. Ajudar-vos-ei a vestir, se tal desejardes.

Joaquim Alves leva-os para um quarto vazio onde os dois portugueses enfiam o albornoz e, ajudados por  Rashid, armam o turbante, torcendo e enrolando com três voltas em torno da cabeça uma tira de cerca de cinco metros de um de tecido azul quase negro, com o cuidado de cobrir apenas metade das orelhas, deixando uma das  pontas caída para envolver o pescoço, sobre o beskir que cobre o nariz e a boca. Assim trajados, mostrando apenas os olhos, os portugueses parecem reflexos fiéis de Khalid e de Abou e também da restante escolta de Mulay Belagegi, bem conhecido por andar sempre acompanhado pelos altivos Guerreiros Azuis, os seus fiéis Tuaregues, causadores do maior espanto e admiração pela alta estatura e porte e aguerrido, acentuados pelo galante albornoz azul e respectivo turbante.

Joaquim traz-lhes os cavalos já tratados e arreados, ajuda-os a montar e vem com eles até ao portão do funduq para se despedir com um “Ide com Deus” murmurado em português, logo dizendo aos Tuaregues, em aravia:

– Protegei-os bem, pois El-Majdoubi há-de querer terminar o trabalho e vingar-se do desaire.

Os Tuaregues soltam uma gargalhada. A desventura do espião às ordens do mal amado Grão-Vizir correra célere pela medina, como tema de todas as conversas e alvo de chistes e zombarias sem fim. Até já lhe chamavam Habeeb Shaitan (o Diabo Habeeb) e Habeeb Zaafaran (Habeeb Açafrão), pois o assassino não conseguira livrar-se nem do cheiro nem da cor que lhe tingira a pele quando mergulhara de cabeça na maldita tina do çuq dos curtumes. O líquido amarelo salvara-lhe a vida mas tornara-o motivo de chacota por toda a cidade e ele nem ousava sair à rua.

– Nada temas – ibn Zohr sossega o escravo português. – A nossa vida pertence-lhes.

Joaquim Alves entende a promessa do Tuaregue: eles darão a vida pelos dois estrangeiros, se tal for necessário.

 Partem sem mais demora, com Khalid cavalgando ao lado de Pêro da Covilhã, Rashid e Abou atrás deles, levando o alveitar no meio e uma hora depois, graças ao galope vivo dos cavalos, cruzam Bab Dekaken, a porta de união das duas medinas e entram na Cidade Branca, a parte mais nova de Fez.

A sumptuosa casa de Moulay Belagegi está situada entre o Mechouar – a praça de armas para os desfiles das tropas reais junto a Bab Sebaa – e o Dar-el-Makhzen, o fabuloso palácio dos Califas de Fez. Os cavaleiros passam o portão e deixam os cavalos no vasto e gracioso pátio com uma fonte, de onde partem inúmeros canais conduzindo a água e o seu cântico fresco e repousante para os tanques e lagos de jardins onde a vista se perde.

Os servos recolhem as montadas e Rashid diz a Pêro da Covilhã:

– Se for esse o teu desejo, o alveitar pode ir examinar os cavalos das nossas cavalariças e escolher os que quiserdes, pois os restantes serão enviados ao Califa de Fas al-Bali.

– Vai com Rashid, Pêro Afonso, e escolhe oito cavalos, os que melhor te parecerem, pois el-Rei deseja oferecê-los a seu cunhado D. Manuel e recomendou-me para não olhar a preço, se a mercadoria valesse a pena.

– Quedai descansado, pois saberei dar boa conta do recado. Posso não falar aravia, mas reconheço um bom cavalo árabe ou berbere onde quer que o veja.

 Abou e Rashid levam o alveitar através dos jardins para as cavalariças, enquanto Khalid conduz Covilhã à presença de Mulay Belagegi. A residência do nobre Mouro é quase um palacete, com vastos salões onde reinam a riqueza, o luxo e o conforto, ligados por arcos e galerias de pedra lavrada como renda com versículos do Corão; as paredes eram revestidas de colchas bordadas a ouro e tapeçarias preciosas, o chão de mosaico mostrava artísticos e complicados desenhos nas cores verde do Islão e azul de Fez. Tapetes de seda ou lã, delicados móveis de cedro e outras madeiras raras, assim como coxins e otomanas contribuíam para o repouso e bem-estar dos seus moradores, amigos ou visitantes.

Na sala mais pequena, sóbria mas muito confortável, onde Khalid introduz Pêro da Covilhã, Moulay Belagegi interrompe a conversa com o seu secretário, que parece ser judeu e vai ao encontro do português, saudando-o com grande cortesia e bondade, embora avaliando-o com um olhar penetrante e inteligente.

– Estavas com a embaixada que recebeu as ossadas do vosso Infante D. Fernando, não é verdade? Eras o moço língua[35]  e falavas aravia como um natural do Maghreb! Folgo muito em ver-te.

Surpreendido por o Cheikh se lembrar dele, Pêro da Covilhã corresponde ao generoso recebimento, com mostras de grande acatamento, agradecendo-lhe a escolta tão prontamente enviada e entregando-lhe a sua carta de apresentação com o selo de D. João II e o presente d’el-Rei de Portugal, como prova da sua estima e admiração.

Moulay Belagegi fá-lo sentar junto de si nos confortáveis coxins dispostos em torno de mesas baixas, enquanto o secretário bate as palmas para chamar um servo, ordenando-lhe que sirva algum refresco. Depois, a um sinal do seu amo, vem sentar-se com Khalid junto deles.

– Já conheces Khalid ibn Zhor, o meu homem de armas de maior confiança – diz o Cheikh, apresentando em seguida o judeu. – E este é Youssef Haguiz, um astrónomo e homem de letras de quem me fio inteiramente, apesar de não ser muçulmano. Se quiseres alguma cousa do bairro de Mellah, só tens de lhe dizer.

– Trago cartas dos Astrónomos Mestre Rodrigo das Pedras Negras e Mestre Moysés para Samuel Gabay, com quem devo encontrar-me na madrasa El-Attarine.

– Conheço-o muito bem – diz o Judeu com um sorriso. – É um homem de grande saber e muita virtude que escapou às terríveis perseguições e massacres feitos aos judeus de Mellah no ano de 1465. Não me será difícil tratar do vosso encontro, com assaz de discrição, se assim o desejares.

Covilhã agradece e, nesse instante, duas servas entram no aposento trazendo o affabeh – um gomil com uma bacia em prata – e toalhas. Aproximam-se de cada um dos homens para lhes lançar água perfumada de rosas sobre os três dedos da mão direita com que irão comer, aparando o líquido na bacia e, oferecendo-lhes uma toalha para se limparem, retiram-se em seguida.

Moulay Belagegi faz uma breve oração a Allah que o Cristão e o Judeu ouvem respeitosamente, rezando mentalmente um a Deus e o outro a Jeová. Os escravos entram com salvas de prata e pratos de porcelana cheios de pedaços de melão, tâmaras e figos; pastéis de mel e amêndoas, rodelas de massa muito fina com um recheio doce e também umas tigelinhas com passas numa calda de água e açúcar. As duas servas vêm preparar a infusão de menta, servindo-a em delicadas taças de porcelana.

A pedido de Belagegi, Pêro da Covilhã conta-lhe as aventuras em Al-Bali, no dia anterior, sem esconder nada, nem a conversa dos mercenários, nem a morte em legítima defesa do seu atacante no hammam ou a luta com el-Majdoubi nos terraços do çuq Dabbaghin, a qual terminara com o mergulho do homem na tina de açafrão.

– Não se fala de outra cousa em ambas as medinas – diz o Cheikh com uma risada de satisfação. – Ninguém ignora que Habeeb é o homem de confiança de Hassan ben Abdallah e um desaire sofrido por ele é uma ofensa feita ao poderoso Grão-Vizir. Isso basta para deixar toda a gente satisfeita. Por mim falo, pois estou encantado com o teu feito. Só tenho pena de não ter visto o amarelo e fétido Shaitan a sair do tanque dos curtumes.

E ri-se, com gosto, secundado por ibn Zhor e Youssef, imaginando a cómica cena e a humilhação do Vizir.

– Creio que estavam a tentar tudo por tudo para eu não chegar a ver-vos e, assim, não conseguir socorro para os portugueses – alvitra  Pêro da Covilhã. – Tinham de matar-me antes do meu encontro convosco, sobretudo depois de Habeeb ter visto o seu homem morto e os mercenários no hammam.

– Sim – confirma o judeu –, não deixou por certo de averiguar o que poderíeis ter ouvido.

– E o Califa anda a tentar apanhar-me em falta – acrescentou o Cheikh –, pois teme a minha aliança convosco, porém nem mesmo ele tem poder para condenar-me sem provas. Khalid pode fazer-vos um melhor resumo da situação.

– Desde há algum tempo, o Califa Said-el-Uttaci tem enviado hostes de mercenários e de soldados e muitas gentes de provimento, bem como artesãos de desvairados[36] mesteres, para a recém-criada cidade de Xauen, estrategicamente situada nas montanhas de Rife para expedições de assalto a todas as praças na posse dos portugueses e também contra o rei do Maghreb-el-Ausat, um vosso aliado, e contra as tribos e clãs dos Chavias que têm tratos com os portugueses e não aceitam um Uttaci como Califa.

Pêro da Covilhã interrompe o Tuaregue para dizer a Belagegi:

– No ano passado estive em Tremezem, que é como nós chamamos ao reino do Maghreb, para fazer as pazes com o rei Abu-Thabet-Muhammad e comprar lambéis[37] para o resgate  com os negros da costa da Mina. E foi quando ouvi falar pela primeira vez em Xauen.

O Cheikh faz um aceno de concordância:

– Muhammad e eu somos velhos amigos e temos visto com inquietação os avanços e a arrogância dos Castelhanos que atacam as nossas costas do Mediterrâneo. Por outro lado sofremos as traições do Califa de Fez que alcançou o poder com um golpe de sorte e de audácia e, por isso, teme a nossa oposição.

– Mulay Abu-Thabet-Muhammad – prossegue o Escudeiro – rogou a El-Rei D. João II, para buscar aliança convosco, pois o reino de Chavia está situado ao norte de Azamor e de Um-er-Rebia, em boa posição para dar aviso ou prestar socorro em caso de ataque. El-Rei de Portugal enviou-me com estas cartas para vos afirmar a sua amizade e desejo de uma aliança duradoura convosco contra o Califa e contra os Castelhanos.

– Assim será feito e Haguiz redigirá o tratado de amizade para ser assinado entre os nossos três reinos – promete Belagegi solenemente. – Creio ser chegado o momento de agir, pois tudo indica que se prepara um ataque em força e de surpresa.

– El-Rei D. João II vos será para sempre reconhecido – assegurou o Escudeiro, entregando-lhe as cartas do Rei de Portugal.

– Eu mesmo recebi uma ordem do Califa para vir a Fez vender-lhe cavalos, tantos quantos tiver nas minhas coudelarias. Todavia penso que se trata de um pretexto para me manter aqui, debaixo de olho, longe dos meus domínios e dos meus homens.

– Os homens do Grão-Vizir vigiam esta casa noite e dia e seguem o meu Senhor para todo o lado – disse Khalid, agastado.

– E agora, Pêro da Covilhã, de que outro assunto me querias dar conta? A tua mensagem mencionava algumas nobres portuguesas feitas escravas... mas o mensageiro não mo soube explicar.

O Escudeiro, sem poder ocultar totalmente a sua emoção ao recordar a bela Filipa de Menezes, relata a aventura no funduq dos mercadores de escravos e a história das cativas apresadas pelo corsário Selim Khaldun e destinadas a serem vendidas dentro de três dias.

– Se Noureddin lá estava, é porque o nosso “bem-amado” Grão-Vizir, sabia dessa presa e do valor das cativas – a voz do Cheikh soa mal-humurada. – O mercador é o seu fornecedor de escravos e, quando se trata de mulheres, esse homem perverso não se importa de pagar a peso de ouro os seus prazeres.

– Que Deus não permita que essa menina caia nas mãos desse louco! – diz Youssef, com repugnância. – É uma fera e gosta de torturar mulheres, sobretudo se lhe resistem.

Khalid acrescenta, com um brilho feroz no olhar:

– Pelo menos duas formosas moças que Wazzan arrematou em leilão para o Vizir apareceram mortas no rio pouco depois, com horríveis ferimentos, como se tivessem sido torturadas durante muito tempo e da forma mais cruel. Nos hammans e casas de comida dos çuq de Fez correm outros boatos, ainda mais terríveis sobre Hassan ben Abdallah. Gostava de lhe poder pôr as mãos em cima!

A voz treme-lhe de paixão e raiva e Belagegi e Youssef Haguiz entreolham-se com um misto de piedade e preocupação.

– Uma das moças assassinadas pertencia à tribo de ibn Zohr – esclarece o Cheik – e nós não pudemos vingá-la. Ninguém ousa desafiar o Grão-Vizir, pela protecção dada pelo Califa e ele sente-se com as costas quentes e não teme nem Allah nem Shaitan.

O Escudeiro ouve-os com o coração apertado de angústia. Será nas mãos desse homem bestial que irá cair a bela e orgulhosa Filipa de Menezes? Não pode consentir nisso, tem de tentar salvá-la, mesmo correndo o risco de perder  a vida na tentativa e de não cumprir a missão d'el-Rei! Se falhar, o Cheikh se encarregará de despachar Pêro Afonso com os cavalos, as informações conseguidas e a confirmação da aliança entre os seus reinos.

Mulay Belagegi parece adivinhar-lhe os pensamentos quando diz:

– Pêro da Covilhã, os meus bens e a minha fortuna estão ao teu serviço e do teu rei. Irei ainda esta tarde falar com Akim ibn Toufail, esse miserável traficante de escravos, para lhe oferecer uma boa comissão se me vender as portuguesas cativas antes de irem a leilão.

O Escudeiro sente-se invadir por uma onda de gratidão para com o generoso muçulmano que se arriscava por um grupo de infiéis, inimigos do seu povo e da sua religião. Agradece-lhe comovido, perguntando todavia:

– E se não o conseguires? Se ele se recusar a vendê-los sem ser em leilão, com medo de perder dinheiro ou cair em desgraça entre os mercadores de Fez? Lembra-te de que Abd al-Wazzan o ameaçou de nunca mais fazer tratos neste reino!

– Nesse caso, procurarei comprá-los no leilão, cobrindo todos os lances. Se algum me escapar tratarei de descobrir quem o comprou e pagarei o resgate para a sua libertação.

– Por ora é o melhor caminho a seguir – acrescenta o Judeu, vendo a expressão infeliz do português. – Para não criar mais agitação num momento em que o Grão-Vizir traz o meu Senhor debaixo de olho e com muita vontade de o fazer cair em desgraça.

– No leilão, se se tratar apenas de uma questão de dinheiro, as moças estarão salvas – sossega-o o bondoso Cheikh. – E, agora, vamos ver se o teu alveitar já escolheu os cavalos, não vão chegar por aí os homens do Califa, pois eles não podem sequer sonhar que te dei a primeira escolha...

A um sinal do Judeu, as servas trazem de novo o affabeh com a água de rosas para os convidados lavarem a boca e os dedos, antes de saírem da mesa.

...

 

Youssef Haguiz dirigia-se à Madrasa de Attarine, como já outras vezes fizera, acompanhado por dois Tuaregues da escolta pessoal do poderoso Cheikh Belagegi, para consultar algum escolar ou doutor da Universidade de Qarawiyyin. Os espiões do Grão-Vizir nem se dão ao trabalho de o seguir, pois estão muito menos interessados nas andanças inofensivas de um judeu do que no desaparecimento, desde a véspera, do espião português.

Habeeb El-Majdoubi caíra no ridículo e em desgraça pois o Grão-Vizir Hassan ben Abdallah não perdoa falhas e, agora, qualquer dos homens da sua hoste de espiões pode vir a suceder-lhe, para isso apenas lhe bastará descobrir o paradeiro do malfadado cristão que lhes tinha trocado as voltas, morto um companheiro e derrotado o seu chefe.

Este último feito, diga-se em abono da verdade, até fora um bom serviço, pois abrira o caminho da Fortuna a quem o soubesse e quisesse trilhar. Para já dera-lhes ocasião de se vingarem da arrogância do protegido do Vizir, troçando dele sem dó nem piedade, mirando a sua cor amarela com um espanto exagerado e virando-lhe as costas, a apertar o nariz para lhe dar a entender que não suportavam o seu cheiro. Habeeb desaparecera remordendo vinganças e ameaças.

Agora os seus homens andavam a passar Al-Bali a pente fino, com gente em todos os çuq, funduq, hamman, casas de comida e em qualquer lugar onde pudesse esconder-se o maldito infiel que parecia ter levado sumiço. Haviam-no procurado até na zaouïa de Idriss II, não fosse o miserável demandar o horm  ou direito de asilo. Tinham peiteado[38] e ameaçado os escravos do funduq de Nejjarine, onde o cristão tinha pernoitado à chegada, com o seu companheiro também desaparecido sem deixar rasto, todavia ninguém sabia de nada. Por ora não havia outra coisa a fazer senão ficarem atentos, à espera da próxima jogada do espião pois ele não pode ficar para sempre escondido em Fez. Então hão-de cair sobre ele e caçá-lo como um rato. 

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Haguiz desmonta diante da formosa porta de bronze da Madrasa de Attarine e os três homens entram no gracioso pátio de mosaicos pretos e brancos, dispostos num padrão de quadrados alternados, à volta de uma preciosa fonte de mármore branco. O Judeu deixa os dois companheiros no pátio e parte em busca do físico  Samuel Gabay.

Pêro da Covilhã, o falso Tuaregue, admira o magnífico edifício da escola, mandado construir cerca de duzentos anos antes pelo Sultão Abou Said. Mármores, alabastros e madeiras de cedro rivalizam entre si na beleza e singularidade dos ornamentos, reproduzindo por entre um emaranhado de delicadas formas vegetais com figuras geométricas abertas repetindo-se até ao infinito, os 114 sure ou capítulos do Corão e seus princípios morais, impedindo os estudantes ali hospedados, de os esquecerem, tendo-os assim sempre diante dos olhos.

Haguiz chama-os de uma janela abobadada do piso superior e o Escudeiro e Khalid apressam-se a subir a escadaria de mármore, seguindo o judeu até uma pequena sala onde os espera um velho de aspecto venerável que não pode ser outro senão Samuel Gabay. Sem rodeios, o físico pergunta:

– Vens, então, da parte daqueles a quem chamais Mestre Rodrigo e Mestre Moysés?

– Sim, Mestre Gabay, trago-vos cartas dos prezados físicos d’el-Rei D. João II.

Pêro da Covilhã entrega-lhe o rolo de papéis trazido de Lisboa, escondido de tal maneira que nem o alveitar dera por ele e os três visitantes ficam à espera, em silêncio, até o ancião terminar a leitura das folhas cobertas de caracteres hebraicos, finos e herméticos.

– Dão-me conta das suas “Tábuas de Declinação do Sol” e pedem-me para lhes enviar os meus estudos sobre o mesmo assunto, a fim de buscarem um meio mais preciso de achar a latitude e também (mas isso é tarefa impossível) a longitude no mar. Os conhecimentos de Medicina e Astronomia dos dois Mestres são o garante da protecção do teu rei, salvando-os de serem expulsos de Portugal como tantos outros da nossa raça. Só por esta razão satisfarei o seu pedido, pois não faço gosto em ajudar com a minha ciência os cristãos a levarem a sua religião intolerante a outras partes do mundo.

E o velho sábio, sem mais palavras, vai buscar a um contador de madeira um maço de papéis enrolados que mete numa bolsa de couro e entrega a Pêro da Covilhã.

– Tende o maior cuidado em não os perder de vista, nem vos deixar caçar com eles, ou seremos ambos mortos.

O Escudeiro de D. João II sente uma profunda turvação e também um imenso orgulho em segurar aquele maço de papéis aparentemente insignificantes mas contendo talvez o segredo das rotas e caminhos para novos mundos, poupando navios e vidas de marinheiros. Era uma pena que as religiões e as raças dividissem assim os homens, pois quando estes se uniam o mundo avançava mais depressa, tornando-se melhor e mais belo.

– Defendê-los-ei com a minha vida, juro-vos!

Samuel Gabay capta a emoção da sua voz e olha-o com surpresa. Parece compreender o que vai na alma do rude aventureiro e despede-o quase com gentileza:

– Vai com Deus! E sauda a Mestre Rodrigo e Mestre Moysés, da minha parte. Shalom Youssef Haguiz!

Pêro da Covilhã volta a cobrir o rosto com o beskir, deixando apenas os olhos à mostra e retoma o seu papel de Tuaregue da escolta do escrivão. Os três homens deixam o gabinete e descem a escadaria.

– Que fazemos agora? – pergunta o judeu.

– Podíamos ir até ao funduq dos mercadores de escravos – sugere o Escudeiro. – Por certo, a esta hora já o generoso Mulay Belagegi deve estar com o traficante Akim a tratar da compra das portuguesas.

– Mas será prudente? Não vos irão reconhecer?

– Assim trajado, coberto dos pés à cabeça, como poderão reconhecer-me?

– Ele tem razão – acode Khalid –, não passa de um Tuaregue como tantos outros da guarda pessoal do nosso amo. Podemos ir ter com ele ao funduq, pois não é de estranhar que o escrivão do Cheikh acompanhe o seu Senhor num trato tão importante como este. E eu e o Português juntar-nos-emos à sua escolta e ninguém o distinguirá dos outros.

– Seja então – cede o judeu.

Pêro da Covilhã faz um gesto de agradecimento ao Tuaregue por este ter visto a sua ansiedade e o ter ajudado. Conseguiria o Cheikh libertar Filipa de Menezes e as outras mulheres?

Saem da Madrasa, montam nos cavalos e partem a galope para o mercado de escravos, embora ao português pareça que as montadas se deslocam como pilecas doentes e não como os alazões de raça.

Oito Tuaregues com o albornoz e o turbante azul do seu clã, à entrada do funduq, mostram-lhes que o Cheikh já ali se encontra. Covilhã e Khalid levam o escrivão junto de um Belagegi vermelho de indignação, a gritar contra o gordo Akim, muito pálido e à beira das lágrimas, a torcer as mãos de desespero:

– Mas, meu nobilíssimo Senhor, que posso eu fazer? Os mercadores já viram as escravas e, por lei, elas têm de ser leiloadas em público e...

– Eu comprei-te todos os cativos portugueses, homens, crianças e até mulheres velhas e sem préstimo, com um imenso lucro para a tua bolsa e tu ousas recusar-me as melhores peças?

– Ó afortunado Mulay Belagegi, vaso precioso de todas as bênçãos de Allah, já te disse que nada posso fazer. Daria a minha vida por ti, mas não posso dar-te as virgens portuguesas!

– Deixa-te de mentiras e lisonjas, cão traidor, pois ainda te faço empalar pelos meus Tuaregues se não me entregas as mulheres.

Akim sua e treme, verdadeiramente assustado. O poderoso Cheikh dignara-se a vir disputar, em pessoa, a posse de uma carga de escravos portugueses e, em outras circunstâncias, estaria impando de orgulho pelo seu interesse, porém, vendo a paixão de Belagegi ante a recusa de lhe vender as cativas, começa a temer pela sua vida e, ao olhar para os dois altos Tuaregues da escolta do judeu, imagina já o horror das torturas a que será sujeito.

Àquela hora há muito pouca gente no funduq, a maior parte dos mercadores e traficantes deve estar nos hamman a preparar-se para ir orar na mesquita de Quaraouiyin ou na dos Andalous. Tão pouco pode esperar qualquer socorro dos seus homens, pois os criados, incluindo o seu cobarde e corpulento eunuco, guardião das escravas, tinham levado sumiço mal o Cheikh começara a gritar. Se escapar deste aperto, jura para consigo, há-de ajustar contas com eles, sobretudo com o maldito capado! Sentindo-se entre a espada e a parede, geme e soluça:

– Ó meu generoso Senhor, tem dó de mim! Que posso eu fazer contra a vontade do Grão-Vizir, o grande e poderoso Hassan ben Abdallah? Se te der as escravas, ele ordenará que me esfolem vivo e enviará os seus soldados a tua casa para confiscar todos os teus bens, incluindo as mulheres. Por certo, não desejas tal cousa?

– Senhor – intervem Youssef –, Akim tem razão, não podemos dobrar a lei a nosso belo prazer. Se os mercadores já acordaram o preço da solicitação, as peças têm de ir a leilão. Porém, aí, ninguém te poderá impedir de as comprar.

O Cheikh parece recuperar a razão, acalmando-se um pouco e Akim respira de alívio, abençoando o judeu por ter vindo em seu auxílio.

– É verdade, meu Senhor, as restantes mulheres foram repartidas em lotes e, por isso, pude vender-tas sem problemas, pois são fáceis de substituir por outras peças de reserva.

– Basta de conversa – resmunga o Cheikh vencido. – Youssef paga a esse miserável e não saias daqui enquanto ele não for entregar o carregamento de escravos lá a casa. E vós, vinde comigo.

Khalid e Pêro da Covilhã obedecem à ordem, saindo para o pátio do funduq, o português levando a morte na alma, por Belagegi não ter conseguido libertar as três virgens cativas.

– Perdoa-me, amigo! – diz-lhe o Cheikh mortificado. – Resgatei todos os portugueses cativos mas não consegui comprar as donzelas, o maldito traficante não cede!

– Senhor, a minha vida pertence-te – responde o escudeiro, cheio de gratidão, tentando beijar-lhe as mãos, mas o Mouro não lho consente. – A tua generosidade não tem limites e Deus há-de recompensar todo o bem que hoje aqui fizeste.

– Isso de pouco consolo me servirá, se não conseguir resgatar também as três meninas. Espero fazê-lo no leilão, pois não deixarei ben Abdallah vencer-me nos lances.

Khalid, com o rosto sombrio, diz com ironia:

– Duvido que o Grão-Vizir faça jogo limpo, meu Senhor. Quando souber, como não deixará de saber, do teu interesse por essas mulheres, tratará de preparar alguma traição ou golpe sujo, para te levar a melhor.

– Também o creio – concorda Belagegi. – Por isso, caso ele saia triunfante, teremos de conceber um plano para salvar as moças, pela força das armas se necessário for.

Pêro da Covilhã, embora comovido e cheio de reconhecimento, acha que o Cheikh está a ir longe de mais e resolve intervir:

– Terá de ser um golpe de mão, meu Senhor, e ninguém pode saber quem o desferiu, ou correrás o risco de uma guerra e mesmo de perder o teu reino e isso não posso aceitar.

– Falaremos disso à ceia e urdiremos as manhas e ardis próprios para um ataque de surpresa e uma retirada bem sucedida, se tivermos de recorrer a isso. Khalid, convoca sem tardar Ali ibn Saad, o cherif dos nómadas das montanhas, para a nossa reunião.

– É para já, meu Senhor – responde o Tuaregue com os olhos a brilhar de ardor guerreiro, chamando imediatamente um dos homens da escolta, a quem transmite a ordem do Cheikh.

O emissário esporeia o cavalo e parte à desfilada pelas estreitas ruelas de al-Bali, fazendo saltar os furiosos peões para dentro das portas e das tendas, assustando os burros e fazendo-os espinotear e derrubar cestas e fardos, zurrando e mordendo os donos que enchem o cavaleiro de injúrias e maldições.

Uma carroça, puxada por mulas, entra no pátio do funduq e Youssef aparece seguido de Akim:

– Os escravos estão prontos para o transporte, meu Senhor – diz o judeu.

– Leva dois homens contigo e vigia o carregamento, conferindo tudo, pois não me fio nesse traficante. Não lhes tires ainda as cordas, para não dar nas vistas, mas, em chegando a casa, aloja os cativos como hóspedes e não como escravos, Youssef.

– Assim será feito.

Dois servos descem da carroça e entram no edifício para ajudar o eunuco a trazer os cativos. Ouvem-se sons de pancadas e gritos e, por cima deles, a voz esganiçada de fúria do gordo Akim. Quando surgem no pátio, precedendo a triste mercadoria humana, o traficante agita uma chibata nas mãos e limpa o suor do rosto com a ponta do beskir, arfando de cansaço e o gigantesco eunuco vem choroso, esfregando os feios vergões  das chibatadas que lhe queimam o rosto e os braços musculosos.

– Poderoso e venerando Mulay Belagegi, Senhor de Chavia e do Um-er-Rebia, aqui tens a tua carga, vigiada e conferida pelo teu escrivão. Possam as bênçãos  de Allah descer sobre a tua cabeça e dar-te saúde e longa vida, para gozares os serviços de tão bons escravos.

Os cativos portugueses sobem para a carroça, as mulheres chorando em silêncio e os homens com protestos e ameaças, logo  empurrados com violência e maltratados pelo eunuco a vingar-se do castigo infligido pelo dono. Haguiz monta a cavalo, secundado pelos dois Tuaregues e seguem o carrão quando este deixa o funduq.

Sem responder às lisonjas do traficante de escravos, o Cheikh faz sinal a Pêro da Covilhã e a Khalid para o seguirem e entra na pousada, com o balofo Akim colado aos seus calcanhares:

– Akim, já estás pago e, por certo, satisfeito com um lucro excessivo. Mostra-nos as cativas que me recusaste.

– Ó meu generoso Senhor, como posso eu exibir a mercadoria a um cliente particular, se os mercadores já viram as peças, decidiram sobre o seu preço e estão a oferecê-las aos seus clientes principais? Isso é contra as leis da nossa confraria!

– Khalid, corta-lhe a língua! – ordena o Cheikh.

O Tuaregue, num gesto rápido, fila Akim pelo capuz da gellaba e desembainha a curva cimitarra. O homem guincha de terror e o eunuco dá um passo, como para lhe acudir. Porém, o olhar gelado de Pêro da Covilhã, o gesto de levar a mão à arma e também a lembrança do castigo dado pelo amo imobilizam o escravo.

– Piedade, ó benevolente Belagegi, o mais magnânimo de todos os homens! – suplica o tratante[39], pálido de medo e com voz soluçante. – Tem dó de mim, ó benfeitor dos pobres e miseráveis! Se assim o queres, mostrar-te-ei as peças, apesar do risco de perder a minha reputação de honrado mercador.

Khalid larga-o e o traficante faz sinal ao eunuco para ir à frente, a indicar o caminho ao Cheikh e aos seus temíveis guarda-costas. Não descem ao piso subterrâneo do funduq, pois aí só há a cozinha, os quartos dos servos e o hammam e as celas com grades para os escravos do sexo masculino. Passam diante da porta dupla e de grandes ferrolhos do hammam das mulheres, no piso térreo, junto aos alojamentos dos mercadores e a uma sala de refeições e acolhimento e sobem ao último piso.

Aí estão situadas as salas reservadas aos mercadores e clientes mais poderosos, assim como os aposentos onde se conserva a melhor mercadoria, as mais belas peças de entre todas as escravas para venda, dos eunucos da sua guarda e das mulheres que cuidam delas e as preparam com esmero para a mostra em público, transformando e melhorando a apresentação de cada peça, para poderem atingir nos leilões e vendas os preços mais elevados. O eunuco abre o postigo de uma porta e espreita para o interior do quarto, afastando-se de seguida, com um aceno e Akim diz:

– Aí tens as peças, magnífico Senhor, podes vê-las através do postigo.

– Como te atreves a zombar de mim, miserável insolente? O Cheikh Belagegi Abd-el-Aziz não anda a espreitar o quarto das escravas por um buraco de fechadura! Khalid, atira-me esse cão tinhoso pelas escadas abaixo.

O Tuaregue não se faz rogar e, agarrando o gordo traficante de novo pelo capuz da gellaba, leva-o quase de rastos apesar da sua corpulência até às escadas, dizendo-lhe com uma voz bem gentil:

– Desces pelo teu pé ou queres ajuda?

– Eu desço! Eu desço! Não preciso de ajuda – grita Akim para evitar o castigo e, soltando-se bruscamente das mãos do seu algoz, desce alguns degraus e senta-se nas escadas, acabrunhado, remordendo protestos e maldições.

Khalid regressa para junto do Cheikh que forçara o eunuco a abrir a porta do quarto das cativas e lhe dizia, ameaçador:

– Afasta-te, criatura, se não queres seguir a sorte do teu amo. – Prudentemente o escravo dá-lhes passagem e deixa-se ficar à porta sem saber o que fazer.

 Ao ver entrar três desconhecidos sem o eunuco nem Akim no quarto das mulheres, Safia, a governante do funduq encarregue das escravas e das suas serviçais, avança para eles com um pesado gomil de latão nas mãos, lançando uma torrente de pragas e maldições, decidida a escorraçar os intrusos à força de pancada.

O espião de D. João II, num abrir e fechar de olhos, agarra na surpreendida mulher pelo pescoço e atira-a para fora do quarto para os braços do eunuco. Safia, soltando grandes brados, corre em busca de Akim.

– Diz-lhes depressa o que tens para dizer, antes de aparecerem os guardas do funduq – ordena Mulay Belagegi, olhando maravilhado para as tão disputadas virgens portuguesas, que se tinham erguido da otomana onde estavam sentadas e tremiam de medo e de aflição.

Mas tanto o português como o Tuaregue, de olhos fixos nas escravas, parecem entontecidos ou embriagados pelo intenso aroma do quarto, uma mistura de perfumes doces e pungentes a flores e especiarias, de entre os quais se distingue o da canela, com cuja casca as mulheres árabes costumam esfregar o corpo.

As três donzelas tinham passado horas no hammam, envoltas em quentes vapores, entregues às mãos experientes de antigas servas dos haréns de grandes senhores, que as haviam banhado, esfregado, massajado com óleos perfumados, até a sua pele ganhar a tonalidade e o brilho do mármore rosado de Carrara e a macieza do veludo e da seda. Depois tinham-nas depilado e perfumado com várias essências, tratado e penteado as opulentas cabeleiras até lhes arrancarem reflexos de cobre e ouro. Com a alquimia de pós e líquidos coloridos, as servas do harém acentuaram a perfeição e a graciosidade dos rostos belíssimos, a suavidade quente dos lábios, o abismo doloroso dos olhos das três cativas. Por fim, cobriram-nas com tecidos levíssimos como carícias, descobrindo em atrevidas transparências o que deviam encobrir – a promessa inocente e ousada de um esbelto corpo de menina-mulher.

Nunca, pensa Pêro da Covilhã arrebatado, nem mesmo com o mais precioso trajo da corte, Filipa de Menezes logrará superar a beleza desvendada nesse momento, para encanto e deslumbramento dos três homens, assim reduzida à condição infamante de peça prestes a ser leiloada e comprada num mercado de escravos. Uma beleza trágica e intocável a ferir a alma de quem a contempla.

O Escudeiro retira o lenço que lhe cobre o rosto, fazendo Filipa soltar um grito de reconhecimento e diz numa voz turvada, pigarreando para desenlaçar o nó da sua garganta:

– Dona Filipa... Senhoras, chamo-me Pêro da Covilhã, sou criado do nosso bem-amado rei D. João II, aqui enviado a um seu negócio. Falai baixo para os nossos inimigos não descobrirem que sou português.

As cativas dominam o alvoroço e perguntam ansiosas:

– Vindes libertar-nos?

– Já não seremos vendidas como escravas?

– Ides levar-nos daqui? Somos Madalena e Helena de Ataíde. Sabeis por onde anda a nossa família?

– Quem são esses mouros que nos olham com espanto?

Pêro da Covilhã, cheio de angústia, sente-se miserável por lhes destruir a esperança:

– O Cheikh Belagegi é como um rei nas suas terras e resgatou todos os portugueses que foram convosco cativos.

– Então vindes libertar-nos?

– Apressa-te, Português – avisa o Cheikh ouvindo algazarra lá fora e Akim a gritar “Tuaregues, nos quartos das mulheres” –, ou deitamos tudo a perder!

Khalid encostado à porta encerrada, tapava o postigo com as largas costas e o eunuco batia com os grossos punhos na madeira gritando-lhes que abrissem. Ibn Zohr mal o ouve, deslumbrado pela beleza, timidez e doçura das duas irmãs. Pêro da Covilhã prossegue, ansioso por acabar de dar as más novas:

– A vossa grande beleza e juventude, Senhoras, provocaram a cobiça dos mercadores e estes não deixaram Akim vender-vos ao Cheikh. Assim, tereis de ir a leilão onde ele tratará de vos resgatar e devolver a vossas famílias.

Acaba, corado pela vergonha e impotência, ante as moças que choram de dor, medo e humilhação.

– Senhoras, tende esperança, não vos abandonaremos! Havemos de vos resgatar nem que seja pela força das armas. Temos de partir agora, apenas desejávamos prevenir-vos e dar-vos ânimo.

Nesse momento ouvem os gritos de Akim, atrás da porta e saem do quarto. O Cheikh sorri ao traficante, como se ele fosse um velho amigo, dizendo-lhe:

– Meu bom Akim, dobro-te a comissão se me for dado arrematar estas cativas no leilão.

Os olhos do homem brilham de ganância e esquece toda a sua raiva:

– O meu maior prazer é servir-te, generoso Senhor.

– Volvamos a casa – diz o Cheikh. – Nada mais temos a fazer aqui.

 

 


 

[30] Sejam bem-vindos.

[31] Viva. A paz seja contigo.

[32] Chamo-me Khalid.

[33] Com estás?

[34] Bem, graças a Deus.

[35] Intérprete.

[36] Diferentes, vários.

[37] Panos de lã e algodão às riscas azuis e brancas. Trocavam-se estes panos, muito apreciados pelos negros, por ouro e escravos.

[38] Dado peitas, subornos.

[39] Aquele que faz tratos, negócios. Como nem todos os mercadores são sérios, ”tratante” passou a significar “malandro”, “patife”.



publicado por umhomemdasarabias às 14:20
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