O primeiro volume da saga de Pêro da Covilhã, em que são narradas as missões do magnífico espião de D. João II, em Marrocos e na Arábia. Romance de viagens e aventuras que recria com grande rigor histórico lugares, usos e mentalidades do tempo.
Quarta-feira, 23 de Abril de 2014
Cap. II - O Espião

 

Covilhã  descera com o alveitar até aos estábulos, a fim de falar com Joaquim Alves a sós pois, neste início de tarde, o calor era muito e poucos viajantes hospedados no funduq recusaram uma sesta reparadora do cansaço da viagem, após a boa refeição que fora servida e eles tinham partilhado. Haviam-lhes dado sopa e khubz, uma espécie de pão espalmado, da região; um suculento guisado de peixe, seguido de ghameh – estômago de carneiro recheado que lembrara ao Escudeiro os maranhos[20] da sua Covilhã – euma salada cor de vinho tinto feita de beringelas, como outrora havia comido em Sevilha e de que muito gostava.

E como não podia deixar de ser comeram também couscous bedawi, o manjar indispensável dos fassis e de quase todos os árabes e berberes do norte de África. Os escravos do funduq dispuseram nas mesas baixas, diante dos hóspedes sentados nos grandes almofadões, as travessas com a montanha cónica de couscous, dourada pelo açafrão e cujo cimo se abria como uma cratera onde repousava um quente e saboroso guisado de borrego, cujo molho impregnava a massa dos pequenos grãos secos e soltos de semolina.

Com três dedos da mão direita, os comensais serviam-se directamente do enorme prato, formando pequenas bolas de couscous que lançavam para dentro da boca. Pêro da Covilhã imitou-os, porém o alveitar serviu-se da colher de pau para comer, apesar dos olhares imperiosos e agastados do Escudeiro que todavia sossegou ao ver outros hóspedes fazerem o mesmo.

Terminaram a refeição com um pudim de arroz de fazer crescer a água na boca, mesmo a quem já atingiu a chban – a saciedade dos estômagos satisfeitos –, acompanhando tudo com o delicioso chá de menta. Então, os hóspedes dirigiram-se às graciosas fontes de mosaico onde lavaram as mãos, os lábios e a boca, murmurando a bsmillah, uma prece de bênçãos a Allah, recolhendo-se, em seguida, para a sesta e os dois portugueses desceram às cavalariças.

– Será melhor que te quedes aqui com o Joaquim, junto dos cavalos – diz o Escudeiro a Pêro Afonso, ao ver acercar-se o escravo cristão. – Ele pode evitar-te os embaraços de uma prática com os outros hóspedes e te dirá o que tens a fazer para não os escandalizar.

– Quedai descansado, pois nada farei que nos atraiçoe. Já me sinto mais à minha guisa no meu papel de surdo-mudo!

– Deus o queira, Pêro Afonso, mas temo os teus rompantes de raiva contra os mouros. Não te esqueças de que, enquanto estivermos em terras de muçulmanos, teremos de fazer como eles... incluindo rezar sobre um tapete virados para Meca!

Aproximam-se das suas montadas, como para verificar se haviam sido bem cuidadas e Joaquim Alves informa-os:

– Senhor Escudeiro, tínheis razão quanto ao homem que vos seguia. Anda a rondar a praça e o funduq. Ouvi dizer que é Habeeb el-Majdoubi, um dos melhores espiões ao serviço do Grão-Vizir, o poderoso Hassan ben Abdallah. Cuidado com ele, meu senhor, é um homem mui perigoso!

– Alguém deve ter dado com a língua nos dentes, pois parece que estavam à minha espera... ou então eu mesmo me denunciei ao falar em Mulay Belagegi.

– O cádi da porta de Sebaa tem instruções para alertar el-Majdoubi – concorda o cativo português – sempre que desconfiar de alguém ou de alguma coisa, sobretudo se se tratar de portugueses.

– Há alguma saída para as ruas do aduat[21], por trás do funduq?

– Sim, no dormitório dos escravos, uma cela nos fundos, por onde podemos sair para a casa doMuhtasib.

Pêro da Covilhã responde à muda interrogação do alveitar:

– O oficial com o cargo da hista, de promover o bem e proibir o mal, o que inclui vigiar os mercados e mercadores e fazer respeitar os tratos. – E, de novo, para Joaquim Alves: – Consegues fazer-me sair daqui sem o espião ver?

O cativo espreita por entre o rendilhado de pedra da janela do estábulo e diz:

– Sim, olhai-o ali na fonte, meio escondido pelas arcadas. – Os dois homens espreitam também e vêem por trás de um dos arcos agitar-se o tecido de riscas verdes e brancas de uma gellaba. – E o cavalo não deve estar longe...

– Mostra-te à entrada, Pêro Afonso, para ele pensar que ainda aqui estamos, enquanto eu vou tentar sair pelos fundos, sorrateiramente e sem levar o cavalo, para poder passar despercebido. Não te inquietes se eu chegar tarde, pois tenho muito para ver e fazer.

– Tende cautela, por mor de Deus. E se vos acaecer alguma desgraça? – a voz do alveitar soa um pouco trémula. – Que farei?

– Deixo-te dinheiro e Joaquim Alves, como conhece muita gente, talvez te possa ajudar a volver a qualquer das praças portuguesas, caso algo me aconteça.

– Assim será feito, meu senhor – responde o escravo português. – Juro-o pela minha vida!

– Mas não temais, minha gente, pois já me tenho metido em lugares e trabalhos muito mais perigosos e duros que este e sempre escapei com vida. Antes de anoitecer cá me tereis de novo.

Pêro Afonso toma uns arreios do cavalo, como se se preparasse para os concertar e vai sentar-se num mocho[22], junto da entrada onde pode ser visto por quem está na praça, enquanto Joaquim conduz discretamente Pêro da Covilhã até às traseiras da pousada, abrindo-lhe uma pequena porta de acesso ao pátio.

– O portão, lá ao fundo, dá para as últimas ruas do çuq dos marceneiros e logo entrareis no da hena e vereis a Madrasa de Attarine e os minaretes da mesquita de Qarawiyyîn. O hammam, por trás da mesquita, é o melhor  lugar para se saber novas e segredos. Ide com Deus.

Covilhã agradece ao cativo, atravessa o pátio, abre o portão e espreita para fora. A rua é estreita, com lojas onde alguns artesãos esculpem na madeira de cedro delicados arabescos. O Escudeiro aproveita a passagem de dois burros carregados de mercadorias e montados pelos donos a gritar num aviso “Balek! Balek![23]” e esgueira-se para fora do funduq, penetrando no labirinto de escadinhas, túneis, becos, áleas e ruas de seixos redondos e polidos.

O espião de D. João II relembra, com a sua espantosa memória, as informações que em Lisboa lhe tinham fornecido sobre Fez, a cidade santa do Norte de África, com mais de 785 mesquitas, 80 fontes e chafarizes, 93 banhos públicos, 472 moinhos para transportar a água a todos os lugares da medina, 477 funduq, 4.022 lojas, 3.064 fábricas, 117 lavadouros públicos, 86 oficinas de curtumes,116 tinturarias e 100.000 casas – enfim, uma cidade maior que muitas capitais europeias, incluindo Lisboa.

Tem prazer em percorrer os çuq da medina, cada um abrigando uma corporação diferente de artesãos, controlada por um Mohtasseb, espalhando-se por ruelas tão estreitas que, se estender os braços, tocará com as mãos nas casas de ambos os lados. Casas de dois andares, todas muito simples e iguais (o Corão censura a exibição ante os vizinhos de sinais exteriores de luxo e riqueza), de paredes brancas e quase sem janelas, portas de madeira com puxadores de ferro, latão ou bronze em forma de uma mão, evocando os cinco dedos de Fatima, a filha do Profeta, para afastar o mau olhado. Sente o delicioso aroma de pão quente que se evola dos cestos trazidos à cabeça por crianças cruzando-se com outras crianças e os seus tabuleiros de pão ainda em massa  para cozer no forno público.

Passa diante da Zaouya de Mulay Idriss II, o filho do fundador de Fez e considerado santo depois de terem descoberto o túmulo com o seu corpo incorrupto. Esta mesquita é um lugar de culto visitado por peregrinos de todo o mundo muçulmano, como pode ver pela multidão em cortejo diante das lindíssimas portas de arcos ornamentados e pintados do túmulo.

Em seguida, o Escudeiro entra no çuq dos perfumes e da hena, de ruelas ainda mais estreitas e lojas semelhantes a antros de alquimistas, com passagens cobertas e sombrias e becos escuros e sem saída, ideais para uma emboscada.

O calor acentua o odor que se escapa dos frasquinhos e potes de misteriosas essências e desvairadas cores, perfumes doces ou pungentes para entorpecer os sentidos, troços de pedra-pomes e barras de ghasoul – um preparado de pedra moída e essência de rosas para lavar os cabelos e os tornar brilhantes e macios como fios de seda; graciosas caixinhas de cana com pequenos tubos de prata ou ferro para o kohl em pó ou líquido, a fim de fazer dos olhos negros e profundos das donas e donzelas um abismo de desejos e promessas; e, sobretudo hena, de todas as espécies e em todas as suas formas, para dar um tom de fogo às negras cabeleiras e desenhar no corpo os subtis arabescos que afastam o mau olhado e os ataques dos djinn[24].

Em vez de telhados os edifícios têm, como nas casas do Algarve (ou não tivesse sido Al-Garb, O Poente, uma terra de mouros), terraços quadrados e muito juntos, sem uma falha, permitindo percorrer por cima deles Fas al-Bali de uma ponta a outra: “Uma boa via para uma fuga precipitada, em caso de perigo!” pensa, sorrindo divertidoao imaginar-se a saltar de terraço em terraço, perseguido por uma meia dúzia de soldados ou aguazis do Grão-Vizir ben Abdallah. “De igual modo se pode seguir, sem se ser visto, alguém que caminhe pelas ruas da medina” diz-lhe o instinto sempre alerta. Sente de novo, com um calafrio na espinha, que olhos invisíveis o espreitam mas não vê ninguém nem capta qualquer movimento suspeito nos çuq. “Deve ser a fadiga da viagem e o desassossego causado pela missão que me fazem imaginar perigos que não existem” acrescenta, sacudindo a cabeça, para desanuviar os pensamentos.

Concentra  a sua atenção no que o rodeia, o movimento azafamado das gentes, os ralhos, as discussões e os regateios sem fim a repetirem-se com as mesmas palavras de sons aspirados e agudos, entre os vendedores e as clientes, ao longo de todas as ruas como se de um só negócio se tratasse:

– Para a tua senhora, só deves levar do melhor... E não há melhor hena do que esta!

 – És um mentiroso sem vergonha, Ali! A tua hena é velha como a tua avó e vai dar uma cor de ferrugem aos cabelos da minha ama.

– Porque me ofendes, mulher resmungona? Os meus produtos são superiores a todos os outros do çuq! Se encontrares melhor, devolvo-te o dinheiro. Por dois dinares...

– Dois dinares?! – a voz da mulher torna-se um grito escandalizado: – Deviam cortar-te a mão direita, Ali, como a um ladrão, pois é o que me estás a fazer, a roubar a minha bolsa! Tudo isso não vale nem meio dinar e tu ousas pedir dois?!

– Allah é testemunha da minha honestidade, mulher de língua afiada! Por amizade, vendo-te mais barato e ainda me insultas? Por ser para ti, um dinar e meio... e perco dinheiro!

– Dou-te um dinar e é um roubo, mas já não posso perder mais tempo no çuq...

Pêro da Covilhã sabe que o regateio ainda vai levar muito tempo até ao acordo e à compra. Percorrem as tendas e os quiosques dos vendedores, muitas mulheres veladas pelo beskir, um pedaço de tecido leve enrolado em volta do rosto e preso na nuca por um nó, deixando apenas os olhos descobertos, trajando a derbal – uma  camisa branca até aos pés ou até aos joelhos sobre calças tufadas apertadas nos tornozelos –, envoltas ainda nos longos haik, os panos coloridos ou bordados que lhes escondem todas as formas e, aos olhos do português, as tornam semelhantes a grossos sacos de mercadorias.

O Escudeiro sabe também que, nos çuq, os véus não escondem mouras encantadas ou princesas de misteriosa beleza, mas apenas escravas, criadas e mulheres velhas, pois a nenhuma dona ou donzela árabe com menos de 40 anos, solteira ou casada, é permitido andar pelas ruas sem a companhia do pai, irmão ou marido. Quando uma mulher viaja, vai sempre numa liteira forrada de panos e cortinados, aos ombros de escravos ou numa carroça coberta, escondida dos olhos do mundo.

Já no mercado de escravos, à saída do çuq dos perfumes, o trato é outro. O Escudeiro pára junto ao funduq dos mercadores para observar uma carga de peças[25]acabada de chegar. Homens, mulheres e crianças trajados como cristãos, presos uns aos outros numa longa fila e escoltados por traficantes armados são empurrados como gado para o pátio coberto do armazém. As mulheres cobrem-se com panos longos, tentando tapar o rosto por ordem dos seus captores e seguem-nos cabisbaixas, com os olhos cheios de lágrimas, soluçando ou gemendo baixinho como se já não tivessem forças para gritar.

Os mercadores do funduq começamimediatamente a separar os homens das mulheres e a distribui-los por grupos, levando os homens para a parte baixa do armazém onde há celas próprias para os guardar até ao leilão, o que logo dá causa a muitos gritos e choros das mulheres que correm a agarrar-se aos filhos e aos maridos ou se lançam contra os guardas, em desespero, tentando feri-los:

– Manuel, não me deixes!

– Por que me não tiraste a vida, João Afonso? Não sabes o que me espera?

– Virgem Maria, amerceia-te de nós!

– Larga o meu filho, perro infiel, que te arranco os olhos!

– Por Deus, não me leves  meu marido! – e a mulher lança-se aos pés do mouro para lhos beijar numa súplica.

De coração apertado e disfarçando a raiva, Pêro da Covilhã ouve as súplicas e os insultos gritados... em português! As cativas portuguesas são de novo arrastadas com violência e até mesmo com pancadas para o seu canto, onde se rojam no chão, arrancando os cabelos e ferindo o rosto com as unhas.

– Atai-lhes as mãos atrás das costas para que não se firam – ordena um dos mercadores principais. – Não podem estar cheias de cicatrizes quando forem a leilão, daqui a três dias.

Os servos dos traficantes apressam-se a obedecer e as mulheres são imobilizadas, ficando a soluçar encostadas umas às outras, afagadas e consoladas pelas moças mais novas.

Dominando as emoções, Pêro da Covilhã  acerca-se mais, a fim de ouvir os comentários:

– Foram feitos cativos pelo corsário Selim Khaldun!

– O protegido do Grão-Vizir?! – o homem ri com malícia, ao mencionar o jogo ganancioso do mais alto oficial do Califa de Fez, que recebe parte do lucro das pilhagens dos corsários.

O Escudeiro mete-se na conversa, perguntando numa voz calma e em perfeita aravia:

– Khaldun foi fazer alguma razia às costas do Al-Garb?

As razias ou ataques de surpresa às povoações costeiras, quer de Portugal quer de Marrocos, eram prática corrente para mouros e portugueses, respectivamente, apanharem cativos, sobretudo mulheres, pilharem e porem fogo aos lugares assaltados, deixando atrás de si um campo raso.

– Não – responde-lhe o melhor informado –, ouvi dizer que foi na abordagem a um navio português.

– Sim, uma boa presa... – acrescenta outro dos mercadores, também abastado a julgar pelos trajos que veste. – Além dos cativos acharam rica mercadoria.

– E qual era o destino do barco? – Pêro da Covilhã busca saber mais pormenores, procurando não dar mostras da ansiedade que o sufoca.

– Vinha para Ceuta, transportando as mulheres e outros familiares dos usurpadores portugueses aquartelados na fortaleza. Traziam com eles jóias e objectos preciosos.

– E Khaldun ousou salteá-los?! – o Escudeiro finge admiração e um certo receio. – O nosso bem-amado Califa Mulay Said-el-Uttaci, Comendador dos Crentes e abençoado por Allah[26], assinou um tratado de paz com o Rei de Portugal, que guarda um filho seu como refém.

Apertai-lhe a mão, mas depois conferi os dedos! – o mercador ri-se ao citar o provérbio que não abona muito em favor da palavra do seu monarca, mas mostra a admiração dos comerciantes mouros por quem sabe fazer um bom trato e, melhor ainda, livrar-se de cumprir com a sua parte. – Mulay Said-el-Uttaci manda construir navios velozes para os seus corsários irem fazer razias pelas costas portuguesas e do Magrib, ocupadas pelos infiéis.

– Não sabias isso, estrangeiro? – pergunta o mais velho do grupo, com uma nota de desconfiança na voz. – De onde vens?

– De Rabat – responde Pêro da Covilhã alarmado com a desconfiança e já arrependido de ter feito tantas perguntas. – Sou Ali Moumen, um vosso criado.

– Podíamos ir ver agora as peças – propõe um outro mercador, para alívio do espião português. – Gostava de fazer uma ideia do seu valor antes do leilão.

– Sim, e combinar o preço de licitação, antes que esse ladrão do Akim nos ponha uns contra os outros e nos faça perder dinheiro.

Todos concordam e Pêro da Covilhã entra com eles no funduq, onde são imediatamente recebidos pelo gordo traficante de escravos, cheio de salamaleques e de cortesias:

– Sejam benvindos. Que a paz desça sobre vós.

– Que a pazseja contigo também.

– Akim, desejamos ver a nova mercadoria.

O tratante fala sem cessar, gabando a qualidade das peças e queixando-se do preço altíssimo exigido por Selim Khaldun, “aquele corsário ladrão que merece ser empalado, por explorar honestos comerciantes como Akim ibn Toufai, este vosso servidor!”.

– A tua honestidade é conhecida de todos nós, Akim – diz um velho mercador com ironia e, batendo-lhe ao de leve no ventre rotundo, acrescenta: – E também a tua pobreza, vê-se como passas fome...

– Ai, pobre de mim! Possa Allah compadecer-se do meu infortúnio! Isto é doença, ó próspero e afortunado Noureddin abd-al-Wazzan, das muitas ralações e misérias deste trato...

– Pois... pois... nós sabemos – o velho Wazzan, o mais rico mercador de Fez, atalha sorrindo a lamúria do traficante. – Mas, agora, mostra-nos as cativas e fala-nos de preços.

– Agora, senhores?! – protesta Akim, escandalizado e ofendido. – Mas acabam de chegar, vêm exauridas e sujas. Que aspecto podem ter, que não seja muito mau? Deixai-as passar primeiro pelo hammam, para receberem os cuidados necessários à sua condição, repousarem alguns dias e logo vereis como são peças de primeira qualidade. Dentro de dois dias, depois de amanhã, já as podereis contemplar e então falaremos.

– Akim – exclama o velho mercador com autoridade –, mostra-nos imediatamente a mercadoria ou não voltarás a fazer tratos em Fas al-Bali!

O gordo tratante não ousa recusar e, com expressão carrancuda, fá-los sentar a uma mesa onde lhes servem a quente infusão de hortelã pimenta e cestinhos de tâmaras, passas e amendoins tostados. Akim bate as palmas para que o seu gigantesco escravo eunuco venha atender os mercadores e apresentar-lhes as cativas, começando pelas mais velhas e guardando as mais moças e belas para o fim, como há muito lhe havia ensinado.

Uma a uma as mulheres são trazidas ante o grupo a debaterem-se, redobrando o choro, os protestos e as súplicas que não comovem os duros corações dos homens. Pêro da Covilhã assistira muitas vezes em Castela e em Portugal à venda de escravas, mulheres negras e mouras pilhadas durante as razias pelas costas africanas, mas ver assim, em seu lugar, donas e donzelas cristãs e portuguesas que aqueles mercadores avaliavam como se de gado se tratasse – abrindo-lhes a boca para ver os dentes, tocando-lhes nos corpos a ajuizar das formas, soltando-lhes as cabeleiras –, faz-lhe ferver o sangue nas veias e arrepender-se do impulso que o levara até ali. Sabe-se impotente para salvar aquelas mulheres, pois não as pode arrancar sozinho às mãos dos seus algozes e, além disso, outra é a missão ordenada por el-Rei D. João II e não a pode deitar a perder por um impulso do coração.

Todavia, neste momento, não é prudente ir-se embora antes dos outros, deve assistir àquela cena infernal evitando denunciar as suas emoções. Os mercadores e o traficante discutem, sem grandes demoras nem desacordos, o preço mínimo de cada peça a ir a leilão e a partir do qual serão feitos os lances pelos clientes ou mercadores estrangeiros que queiram comprar escravas para as ir vender a lugares distantes.

Por fim chega a vez das três moças solteiras, quase meninas e quando o eunuco arrasta para junto da mesa as duas irmãs gémeas, tão desesperadamente abraçadas uma à outra que ele não logra desprendê-las, o trato muda de figura e a discussão torna-se mais assanhada, as vozes aumentam de tom e os olhos incendeiam-se com o lume da ganância e da disputa.

Uma virgem branca, do Ocidente, pode alcançar preços invejáveis e se for bela e educada então há-de valer o seu peso em ouro. O corsário Selim Khaldun fizera realmente uma presa de estalo! As duas irmãs são muito parecidas, de igual formosura e gentil porte, pele branca, feições delicadas, olhos cor de avelã e cabelos castanhos. Após acalorada discussão, fica decidido um preço elevado para as duas moças.

– Podem vender-se separadas ou em conjunto, fazendo valer a sua condição de gémeas – diz Noureddin, satisfeito – e talvez se consiga atingir um preço ainda mais alto, se o pregoeiro fizer bem o seu trabalho.

– Com peças desta qualidade, eu mesmo farei o leilão – promete ibn Toufail, pensando no futuro lucro, assegurado pelo interesse daqueles mercadores tão ricos. Após uma curta pausa para criar o efeito necessário acrescenta: – Mas, meus senhores, falta-vos ver a peça principal, uma verdadeira huri[27], digna do Sultão de Bagdad. Mirai e admirai, depois me direis se haverá preço para tal perfeição.

A um sinal do traficante, o eunuco acerca-se de uma mulher sentada na penumbra a um canto do funduq. Envolta num longo pano branco que a cobre até aos pés, conserva a cabeça erguida e embora o rosto se mantenha na sombra não parece chorar. O eunuco toma-a por um braço, porém ela sacode-lhe a mão com orgulho e repugnância, ergue-se sem uma palavra e caminha sozinha, parando altiva e desafiadora diante da mesa dos mercadores que a olham com espanto. O escravo arranca-lhe o pano branco com um puxão e todos os homens, incluindo Pêro da Covilhã, soltam uma exclamação de surpresa e assombro ao contemplarem a admirável beleza da cativa.

– Tens razão, honesto Akim, nem uma huri pode ser mais bela!

– Perfeita! Uma virgem do país das neves e dos gelos... O azul dos seus olhos torna pálido o brilho das safiras mais puras.

– E o ouro dos seus cabelos é mais precioso do que o tesouro do Califa!

– Uma escrava digna do harém do Grão-Vizir Hassan ben Abdallah ou mesmo do Califa Mulay Said-el-Uttaci – sugere o interesseiro Akim, com um acento de esperança na voz.

Em toda a sua vida, nunca o Escudeiro vira mulher mais bela, nem mesmo nas Cortes de Lisboa ou de Sevilha! Ainda mal saída da adolescência, talvez de uns catorze ou quinze anos de idade, a cativa é alta e esbelta, com o porte e a altivez de uma princesa, a longa cabeleira descendo-lhe pelas costas como uma cascata cor de ouro; sem proferir uma súplica ou um lamento, desafia-os com o olhar cujo brilho escurece de ódio e desprezo.

O mercador mais jovem ergue-se da mesa e acerca-se da escrava, estendendo os dedos na tentativa de lhe descerrar os lábios, como haviam feito às outras mulheres, para ver se os dentes, na forma e brancura, correspondem à perfeição do que está à vista. Não chega, porém, a tocar no rosto da menina, pois uma violenta bofetada apanha-o em cheio, fazendo-o cambalear, com o sangue a escorrer-lhe do nariz. O homem enraivecido ergue o punho para lhe bater, mas Pêro da Covilhã, com um salto, fila-o por um ombro e prende-lhe o braço dizendo em aravia:

– Estais louco?! Quereis danar[28] tão magnífica peça? Pensai no lucro que poderemos obter.

A cativa diz com uma voz onde vibram o orgulho e a raça de um povo de conquistadores:

– Eu sou Dona Filipa de Almeida e Meneses, filha de D. Álvaro de Meneses e de Dona Márcia de Almeida, da nobreza mais antiga de Portugal. Que nenhum perro infiel ouse, pois, tocar-me ou pagará o insulto com a vida!

Os mouros, interditos, ouvem-na sem perceber palavra, mas captando o sentimento da voz e a linguagem do corpo. Pêro da Covilhã pensa desesperadamente num meio de lhe dizer que é português e tentará fazer algo para a salvar, mas não sabe como agir para os mercadores não desconfiarem. Porém, inesperadamente a moça dá-lhe o tão ansiado pretexto. 

O Escudeiro ainda segura o humilhado mouro pelos braços, imobilizados ambos pela fala da cativa, quando esta saca, com um gesto rápido, o punhal do cinturão do Português e lhe desfere um violento golpe. Só os seus reflexos perfeitos logram salvar o espião de morte certa, fazendo-o ao mesmo tempo empurrar o árabe, dar um salto para trás e agarrar a mão armada da destemida moça. Fingindo desequilibrar-se, Pêro da Covilhã deixa-se cair por terra, arrastando Filipa consigo num emaranhado de braços e pernas em luta, rolando os dois para longe da mesa dos mercadores.

– Senhora – murmura rapidamente, num sussurro –, sou português e tentarei tudo para vos ajudar. Fazei o meu jogo ou estamos perdidos! – acrescenta, vendo a expressão de espanto da jovem e o eunuco que se acerca. – Continuai a lutar comigo e... coragem!

Filipa, já sem o punhal que perdera durante a luta, apressa-se a obedecer ao seu pedido cravando-lhe as unhas no rosto. Nesse momento o eunuco agarra na moça e retira-a de cima de Pêro da Covilhã, prendendo-lhe as mãos com uma corda.

– A gatinha tem o sangue quente e as garras afiadas – diz o Escudeiro em aravia, fazendo rir os mercadores, enquanto limpa o sangue que lhe corre dos arranhões, maldizendo a sua sorte e pensando que a moça não precisava de se ter esforçado tanto no fingimento.

– O Grão-Vizir gosta de mulheres com espírito e que dêem algum trabalho a domar – diz Noureddin, afagando a longa barba cinzenta. – Falar-lhe-ei desta e perguntar-lhe-ei até onde estará disposto a licitar no leilão.

– Leva-as para o hammam – ordena Akim ao eunuco – e diz a Safia que trate destas três cativas com especiais cuidados.

Os criados apressam-se a obedecer, levando as mulheres ainda assustadas pela luta da companheira com os seus algozes para o interior do funduq. Filipa de Meneses lança um rápido olhar de despedida a Covilhã e nele o Escudeiro pode ver o brilho de uma ténue esperança. O traficante de escravos recomeça o trato com os mercadores que depressa acordam entre si um preço de altíssimo valor para tão preciosa escrava, despedindo-se em seguida, a fim de irem propor o negócio aos seus clientes mais opulentos e de gostos mais requintados.

...

 

Pêro da Covilhã apressa o passo para atravessar o çuq de attar ou das especiarias, pois o hammam fechará as suas portas um pouco antes da chamada para a oração do fim de tarde que se aproxima e, como lhe disse Joaquim Alves, os banhos públicos são o lugar mais propício para colher segredos, sem dar nas vistas. Tem dificuldade em manter as ideias claras depois da sua aventura no mercado de escravos e, com o rosto a arder das unhadas, sente o pensamento a fugir-lhe constantemente para Dona Filipa de Menezes, a fidalguinha de espantosa beleza e espírito indomável.

Que poderá fazer para a resgatar e levar para Portugal ou para Ceuta, se lá tiver família? Não a pode arrematar no leilão pois não tem fortuna própria e o ouro dado por el-rei D. João II destina-se à compra de cavalos e não de escravas, por muito nobres e belas que sejam. Tão pouco a pode arrebatar da prisão do funduq ou do terreiro do leilão e fugir com ela na garupa do seu cavalo através de toda a medina até às portas de Fez, passar a barreira dos guardas e atravessar as montanhas em direcção a Ceuta, esquecendo a sua missão... por um amor súbito e louco?! Sabe que, se tentasse tal loucura, não chegaria sequer à entrada do çuq dos perfumes.

Chega à Madrasa de Attarine onde vivem os estudantes da antiquíssima universidade Al-Jamaa, a Mesquita Maior de Qarawiyyîn[29], situada à distância de um tiro de pedra, com a sua magnífica biblioteca que atrai os sábios e estudiosos de todo o mundo, para aí estudarem entre outras Ciências, Astronomia, Medicina, Filosofia e Teologia. À sua volta há um contínuo movimento de gente: crentes, adivinhos, mahdis – os profetas ou homens santos cuja missão é denunciar os pecados do mundo e acusar os crentes de negligência e de pouca fé –, oulémas ou doutores da Shariah, a Lei do Corão e suplicantes conduzindo os seus animais para o sacrifício nos açougues da Mesquita.

Pêro da Covilhã tem encontros marcados para estes lugares... mas não para já. Por ora interessa-lhe o hammam de Qarawiyyîn, os banhos públicos mais frequentados de Fas al-Bali, por trás de Al-Jamaa e para lá dirige os seus passos, procurando concentrar-se na sua missão e esquecer, por momentos, a bela cativa.

As magníficas instalações do hammam fervilham de homens procurando retemperar as forças ao fim de um dia de trabalho ou purificar-se pelas águas antes da chamada do muezzin para a oração do anoitecer. Uma nuvem de vapor paira por sobre o imenso tanque de água quente, no centro de um pátio interior coberto e rodeado de galerias limitadas por graciosos arcos e colunas. O escudeiro entra na água e abandona-se ao prazer do banho, deixando a água tépida aplacar o latejar dos arranhões, procurando não pensar em nada.

Não tarda em sair do tanque, pois não é ali, no silêncio recolhido e repousante  das águas que os homens falam dos seus destinos. Embrulha-se na toalha fornecida à entrada e um servo guia-o até ao salão de chão ladrilhado e aquecido, com inúmeros nichos e recantos de bancos de azulejo, por trás dos quais corre água quente e ondas de vapor a cheirar a incenso e mirra fazem suar os corpos cansados e revigoram os músculos tensos e doridos. Aqui se juntam os grupos de amigos e companheiros para uma prática livre de estorvos e de regras, como os cinco homens novos que, apesar de despidos, deixam adivinhar no aspecto e modos a sua condição de soldados mercenários. Entre eles há um mancebo branco e aloirado, um europeu, talvez até um cristão renegado como tantos outros a soldo do Califa.

O espião português vai ocupar o nicho contíguo, encostando-se às paredes quentes e húmidas de mosaico, preparando-se para ouvir e registar na sua memória qualquer assunto de interesse para o seu soberano. Falam de mulheres e de feitos amorosos e Pêro da Covilhã começa a arrepender-se de ter sofrido aquele terrível suadouro para nada, quando um dos homens diz:

– Se pagam mais nessa campanha, também ‘tou interessado.

– Mas Xauen fica a sul d’Alcácer-Quibir, no meio das montanhas de Rife, sem nenhuma animação em volta!

– Dá-lhe tempo, homem. É uma cidade acabada de fundar, uma praça militar criada p’ra servir de aquartelamento às tropas de mercenários e berberes.

– Podes crer que, com tantas tropas, não tardará a ficar cheia de animação!

– E qual é o destino dessas hostes?

– Segundo a proclamação oficial é para meter na ordem os rebeldes Chavia do Cheikh Belagegi Abd-el-Aziz, alevantados contra o poder do Califa, mas os boatos dizem que há mais razões...

Com os olhos semicerrados, como se dormisse, Pêro da Covilhã não perde palavra da prática travada no nicho do lado. Contrariado, adivinha mais do que vê chegar uma forma fantasmagórica, envolta em nuvens de vapor, que vai ocupar a outra extremidade do banco.

As vozes dos mercenários tornam-se quase num murmúrio:

– Que boatos? Que vão fazer as tropas?

– Segundo se diz, vão combater os portugueses nas praças por eles tomadas em al-Maghrib, até os expulsarem de lá para sempre.

– O Califa quer romper o tratado de paz assinado com os portugueses?

– Não, que os cães infiéis têm o seu filho primogénito como refém. Por isso, este movimento de tropas foi precedido do tal édito contra os Chavias e o Califa Mulay Said-el-Uttaci negará qualquer envolvimento nos ataques aos portugueses, deitando as culpas para Mulay Belagegi.

Pêro da Covilhã já não precisa de ouvir mais, mal podendo crer no favor da caprichosa Fortuna, a dar-lhe de presente logo no primeiro dia da sua estada em Fez, aquilo que julgara quase impossível de descobrir. Suara até mais não poder, mas tinha valido a pena. Levanta-se, pois ainda tem tempo para uma boa massagem e um chuveiro frio para quedar como novo, antes das portas do hammam se cerrarem.

O cordão lançado à volta do seu pescoço assemelha-se a um fio de  oração, com continhas que se enterram na carne como pregos, sufocando-o. Não vira o agressor, saído da espessa neblina de vapor, nem ouvira os pés descalços no chão de ladrilhos. Debate-se com desespero e fúria, embora procurando não fazer grande rebuliço para não despertar mais atenções, sobretudo depois do que ouvira aos mercenários. O agressor também deve ter escutado a conversa e pretende impedi-lo de revelar a traição do califa, calando-o para sempre.

Com o coração quase a saltar-lhe pela boca, pois já não consegue respirar por causa do vapor e da pressão do fio e das contas a estrangulá-lo sem piedade, o Escudeiro com um esforço desesperado consegue sacar o pequeno punhal escondido na toalha e enterra-o até ao punho no ventre macio do assassino que solta um grito abafado, largando a sua presa e tomba no solo, balbuciando:

Man 'asha mat ua man mata fat.

Quem viveu, morreu. Quem morreu, findou” a frase soa a provérbio fatalista aos ouvidos do Escudeiro enquanto, ainda aturdido e arfando de aflição, se lança sobre o agressor, tapando-lhe a boca com a toalha para não gritar e só o largando quando o homem pára de estrebuchar, já sem vida. Não é Habeeb, mas Pêro desconfia que ele há-de andar por perto, pois, se o espião é tão bom como dizem, depressa deve ter percebido o seu estratagema, pondo-se de novo no seu encalço, talvez até com mais alguns companheiros. Este ataque assim o prova.

Agarra no mouro pelos sovacos e senta-o no banco, como se ele estivesse ainda no banho de vapor, com as costas apoiadas na parede e a toalha enrolada em volta da cintura, encobrindo o golpe de onde retirara o punhal. Precisa de sair dali antes que descubram o morto e depois de ver se tem alguma mancha de sangue do mouro no seu corpo ou na toalha, atravessa num passo calmo o salão, procurando disfarçar as marcas do pescoço, para ir buscar a roupa que enfia rapidamente e logo sai para a praça de Qarawiyyîn, quase chocando à porta com... Habeeb El-Majdoubi.

O fassi abre a boca e empalidece, como à vista de um fantasma, mas fazendo um enorme esforço para não perder a compostura, pede desculpa como qualquer inocente peão e entra imediatamente no hammam. Covilhã não pode deixar de sorrir com a atrapalhação do homem à espera de ver sair por aquela porta o assassino e não a vítima, porém sabe que esse atentado à sua vida não vai ser o último. Quando vir o morto, El-Majdoubi não terá a menor dúvida de que o português já está na posse das informações secretas e por isso terá de o fazer desaparecer quanto antes... talvez mesmo enquanto regressa ao funduq, aproveitando o anoitecer e as sombras da medina.

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O Escudeiro mistura-se na multidão, passa diante do beco dos tintureiros, saltando por sobre um regato vermelho que desce a gorgolejar pelas pedras da calçada, despejado das tinas onde os artesão tingem as lãs. ”Como o sangue do assassino nos mosaicos do hammam” pensa, com uma careta de asco. “Mas seria muito pior se esse sangue fosse o meu” acrescenta com ironia e apressa-se a entrar no çuq Dabbaghin, do mesteiral dos couros, quase sufocando com o terrível cheiro que se abate sobre ele. Um cheiro a sacrifício e morte.

O funduq, ao lado direito, tem um enorme pátio onde grupos de pastores nómadas e escravos, gente considerada impura pelos fassis, se entregam a variadas e desaprazíveis tarefas. Uns abatem os animais – ovelhas, bois e camelos – e retiram-lhes a pele por inteiro como uma camisa velha, lançando-a para uma pilha da mesma nação; outros, acocorados no solo, raspam as peles trabalhosamen-te para as limpar de todos os pelos e sangue seco, preparando-as para os curtidores. As carcaças dos animais amontoam-se a um canto, para serem levadas mais tarde aos açougueiros e vendidas nos çuq. Os enxames de moscas e o cheiro nauseabundo fazem do lugar um verdadeiro inferno.

Porém, Pêro da Covilhã esquece o cheiro e a ameaça à sua vida, com o espectáculo que se abre ante os seus olhos: os curtidores tratam e tingem as peles num espantoso favo de alvéolos de pedra acastanhada ocupando um imenso terreiro circundado por casas muito brancas de dois andares, com terraços onde se amontoam peles. Velhos, moços e meninos, descalços e de dorsos nus, percorrem as estreitas passagens entre os alvéolos contendo cal, óleo e líquidos das mais desvairadas cores como a paleta de um pintor, para dar vida e colorido às peles mortas dos animais: o azul da flor do índigo, o amarelo das raízes do açafrão, o verde das folhas da menta, vários tons de vermelho emprestados pela papoula, além de outras tintas obtidas com o pó de alguns minerais.    

Os curtidores entram e saem de dentro dos alvéolos onde mergulham os couros, mexendo constantemente com as mãos e com os pés, até as peles adquirirem a suavidade e o tom desejados; coloridos e sarapintados como génios maléficos, os artesãos dançam por sobre o favo, com o zumbido ensurdecedor de insectos atarefados e vigilantes.

Covilhã olha-os de cima de um terraço, enquanto o sol se põe, numa explosão de vermelhos e laranjas quentes como fogo. Atardou-se demasiado e agora será melhor fazer o caminho de regresso por sobre os terraços das casas em vez de se embrenhar pelo labirinto negro das ruelas da medina. Do alto do minarete da mesquita de Qarawiyyîn, a voz do muezzin invisível canta o seu louvor a Allah e convoca os crentes para a oração do anoitecer:

Allah é grande. Só Allah é Deus. Muhammad é o seu profeta. Vinde à oração. Vinde à salvação. Allah é grande.

Em baixo, no favo multicolor, toda a azáfama pára e artesãos e ajudantes apressam-se a ir fazer as suas abluções rituais, antes da oração, mergulhando a mão direita na fonte do funduq para lançar a água da purificação sobre os pés descalços e os tornozelos, tornando mais vivas as cores do arco-íris que o trabalho no çuq Dabbaghin lhes gravou para sempre na própria pele, tão curtida como os couros por eles tratados sem descanso, naquele fétido inferno, até os fazerem macios e luzidios como veludo, prontos a serem transportadas para todo o mundo nas caravanas dos mercadores.

– “Escapou do urso para cair no fosso” – a voz irónica nas suas costas, dizendo o provérbio mouro, sobressalta Pêro da Covilhã que instintivamente roda sobre si mesmo, de punhal desembainhado, pronto para defrontar Habeeb El-Majdoubi.

– Morre, espião maldito! – grita o mouro atirando-se ao escudeiro, brandindo a cimitarra cuja lâmina curva, no esplendor do sol agonizante, parece tinta de sangue.

– Espião eu?! – exclama o Escudeiro aparando-lhe o golpe e tentando imobilizá-lo, mas o adversário é um forte e hábil lutador e esquiva-se. – Sou Ali Moumen, mercador de cavalos de Rabat. Se pretendes roubar-me...

– Sabemos quem és e esperávamos por ti – interrompe-o El-Majdoubi, desferindo-lhe novo golpe que lhe rasga a veste e o fere num ombro.

Covilhã morde os lábios com a dor e, embora sinta que o ferimento não é grave, tem a certeza de não poder aguentar a luta por muito tempo e só por um golpe de surpresa alcançará a vitória. O homem não deve ter escrúpulos nem piedade, pois ataca-o durante um momento sagrado de oração, cometendo um sacrilégio. Quando o mouro se lança de novo sobre ele, seguro do triunfo, o português agarra-o pelos braços, mantendo afastada a lâmina acerada da cimitarra e deixa-se cair de costas, arrastando-o na queda. Aproveitando o desequilíbrio do surpreendido adversário, aplica-lhe um terrível golpe de pernas, atirando-o por cima da sua cabeça para o abismo do çuq.

– Morre, cabrão! – pragueja entre dentes, em português, sentindo o ombro a latejar de dor pelo esforço despendido. – E que apodreças nos infernos!

Com um berro de medo e esbracejando pelo ar como um fantoche sem fios, Habeeb El-Majdoubi mergulha no tanque de açafrão, perante a surpresa dos curtidores ainda ajoelhados sobre os seus tapetes de oração. Ao verem sair de dentro do alvéolo, uma horrível figura amarela e fedorenta, a estrebuchar e a praguejar  como um possesso, os artesãos aterrorizados saltam dos seus tapetes e correm em desvario para a Mesquita de Qarawiyyîn, gritando a plenos pulmões que Shaitan, o anjo demoníaco, descera sobre eles para os destruir. Pêro da Covilhã estava finalmente livre para volver ao funduq onde o alveitar o esperava há várias horas, morto de inquietação.



[20] Prato tradicional das Beiras, feito com o estômago dos cabritos ou ovelhas que se corta aos bocados e se cose com linhas, fazendo pequenos sacos que se recheiam com uma mistura de arroz e carne picada e se levam a cozer em água com sal.

[21] Bairro.

[22] Banquinho baixo de madeira.

[23] Cuidado! Saiam da frente.

[24] Os génios maus.

[25] Nome dado aos escravos, que eram vendidos e comprados como qualquer mercadoria “à peça”.

[26] Títulos e fórmulas de cortesia que se davam aos califas e sultões.

[27] Mulheres belíssimas que, segundo o Corão, hão-de desposar no céu os verdadeiros crentes, depois da sua morte.

[28] Causar dano, estragar.

[29] Mesquita de Karaouiyne, fundada no ano de 862 e é uma das universidades mais velhas do Mundo.



publicado por umhomemdasarabias às 14:23
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