O primeiro volume da saga de Pêro da Covilhã, em que são narradas as missões do magnífico espião de D. João II, em Marrocos e na Arábia. Romance de viagens e aventuras que recria com grande rigor histórico lugares, usos e mentalidades do tempo.
Quarta-feira, 23 de Abril de 2014
Cap. I - Fez el-Bali

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No alto da colina, o cavaleiro mercador e o alveitar[1] param as montadas e miram a grandiosa e santa medina, a cidade fortificada de Fas ou Fez, fundada no ano de 789 por Muley Idris Ben Abdalla Ben El-Hasán Ben Ali, um descendente de Fatima, a filha do profeta Muhammad[2]. Idriss I deu esse nome à cidade por terem encontrado um enxadão – um fas em língua árabe –, no local onde se iniciou a construção, num vale baixo e fértil entre as cordilheiras do Atlas e do Rife, em pleno Magreb ou al-Maghrib al-Aqsa – o País do Pôr do Sol, no norte de África.

O cavaleiro sabe que Fez é chamada a Cidade do Islão – por se ter convertido em um dos principais centros de cultura, ciência e religião muçulmanas dos reinos de Benamarim[3], cheia de mesquitas com altos minaretes e de madrasas ou escolas religiosas, tendo até uma célebre Universidade –, porém não esperara encontrar o esplendor e grandeza que se oferecem agora aos seus olhos curiosos.

– Que formosa cidade! – exclama com admiração.

– É quase tão grande como Lisboa! – diz o companheiro com igual espanto.

Uma alta e forte muralha de pedra avermelhada encerra e protege os seiscentos acres da medina da cobiça dos cristãos e das tribos inimigas, com inúmeras e formosas portas ornamentadas de mosaicos ou madeira esculpida, muito bem guardadas, dando acesso a um labirinto de cerca de sessenta léguas de ruas estreitas e tortuosas, sombrias passagens cobertas, escadas e numerosos becos sem saída, mas também de graciosas praças rodeadas de fontes, grande quantidade de moinhos de água e pontes ligando as duas margens do Oued el-Jawahir, o caprichoso Rio das Pérolas que atravessa a cidade.

O cavaleiro e o seu alveitar juntam-se à caravana que desce a colina e param as montadas cerca de uma das portas da cidade fortificada, aberta às caravanas, para se incorporarem na correnteza de gentes que, em grande algaraviada, se aprestam a entrar na medina para se dirigirem aos çuq, os bairros de mercadores, e aí venderem e comprarem os mais diversos produtos.

Nada distingue aquele mercador de outros chefes de caravana, nem o trajo – a túnica alva de algodão cobrindo os sirões (uma espécie de calças justas até quase aos tornozelos) e o almejar azul, o casaco  de linho cingido por uma larga faixa de onde pende uma adaga de lâmina curva e, por último, o lenço enrolado em forma de turbante –, nem a postura de cavaleiro, montando à maneira dos árabes um bom cavalo berbere. Apenas a um observador mais atento não escaparia o olhar vivo e penetrante que não perde nada do que se passa em seu redor e um corpo seco de carnes mas poderoso, de músculos tensos prontos a reagir ao menor sinal de alarme. O cavaleiro inclina-se para ajeitar o arreio do cavalo e sussurra ao companheiro, sem que ninguém mais o ouça:

– Aconteça o que acontecer, Pêro Afonso, quando chegarmos à porta não fales português. Se te perguntarem alguma cousa finge que és surdo-mudo e deixa a conversa por minha conta.

O alveitar faz um gesto de assentimento, sem acrescentar palavra, enquanto se afastam da confusão dos beduínos mercadores. Só então o cavaleiro volta a falar, sempre num sussurro:

– Esta é Bab Sebaa, a porta da cidade onde os infiéis tiveram exposto, no ano de 1443, o corpo do nosso Infante D. Fernando, feito refém seis anos antes pelo Sultão de Fez, Abd al-Haqq, no desastre de Tanger e morto nas masmorras do Méchouar, essa praça d’armas aí ao fundo.

– Foi atão aqui? – murmura Pêro Afonso com mágoa. – O povo estranhou qu’os seus três irmãos, el-Rei D. Duarte e os Infantes D. Henrique e D. Pedro, se negassem a pagar o resgate qu’os Mouros pediam pelo desgraçado Príncipe. Que houve, afinal, Pêro da Covilhã?

– O resgate era a entrega da praça de Ceuta que el-Rei D. João I e os Infantes conquistaram em 1415, mas o Papa Eugénio IV não consentiu...

– E por isso o Infante jazeu preso seis anos nestas masmorras de Fez e morreu com’um mártir!

– Sim, por isso lhe chamam o Infante Santo – confirma Covilhã. – Os infiéis penduraram o corpo nu do Príncipe nesta porta da muralha, como se fora um vil salteador, deixando-o aqui durante quatro dias para que o povo o injuriasse e os abutres lhe comessem as carnes.

– Perros malditos! – brada o alveitar quase num grito, levando a mão ao punhal, mas o companheiro com um olhar de aviso obriga-o a dominar-se.

– Não contentes, durante vinte e nove anos, mantiveram aqui o caixão do Infante em exposição, para servir de aviso a todos os cristãos que pretendessem conquistar terras dos mouros no Norte de África.

– Ind’aqui está? – pergunta Pêro Afonso horrorizado.

– Não, quando el-Rei D. Afonso V tomou Arzila, em 1471, cativou algumas das mulheres e os filhos do Cheikh Mulay Muhammad Said-el-Uttaci, o senhor daquela praça forte que se ausentara da cidade para vir cercar Fez, e usou-os como reféns, oferecendo-os em troca das ossadas de D. Fernando. O Cheikh acabou por ceder e enviou Mulay Belagegi Abd-el-Aziz, um dos seus principais aliados e rei da Enxovia, a região das tribos de Chavia, a Arzila com os restos mortais do Infante.  

– E não tentou reconquistar Arzila?

– Não, porque D. Afonso V tinha ocupado também Tanger, abandonada pelos seus habitantes mal souberam da tomada de Arzila e guardara como refém o filho primogénito do Cheikh, o jovem Muhammad que ainda hoje vive em Lisboa. Assim, Mulay Said preferiu assinar um tratado de paz com el-Rei, por um período de vinte anos.

– E que aconteceu ao Senhor de Arzila?

– O Cheikh é, neste momento, rei de Fez e mantém grande vigilância sobre os portugueses. Por isso temos de tomar muitas precauções para não sermos caçados pelos seus aguazis.

– Deus seja louvado! – o espanto do alveitar não tem limites. – As voltas qu’o mundo dá!...

– Agora cala-te, Pêro Afonso, pois chegou a nossa vez. Não te esqueças de que és surdo-mudo – conclui Pêro da Covilhã, avançando mais uns metros para a larga porta da fortificação.

Os guardas dos portões dificultam o avanço da multidão ao fazerem parar a cada passo toda a gente estranha à cidade, para inspeccionarem e inquirirem sob o olhar vigilante do Cádi[4] sobretudo os mercadores estrangeiros que vêm em caravanas e pretendem entrar com as suas cáfilas de camelos e dromedários ou com os burros, mulas e cavalos carregados das mais variadas mercadorias.

As sentinelas são particularmente zelosas e desconfiadas, por esta ser a porta onde vai desembocar um caminho de caravanas que liga a vila de Azamor à nobre cidade de Fez e a importante vila costeira caíra, neste ano de 1486, nas mãos do rei cristão D. João II de Portugal, um pequeno reino sito na vizinha Península Ibérica, trazendo os seus habitantes num grande sobressalto com medo das almogavarias, nome dado pelos infiéis portugueses aos ataques às povoações árabes.

– Féessa! Féessa! – gritam os guardas, agitando as longas varas que não poucas vezes se abatem nos lombos dos animais ou dos homens para desimpedir a passagem. – Imshee tuul![5]

– Rud báalak! – berra em desespero um gordo comerciante de perfumes, ao ver derrubar as caixas de frascos com a preciosa mercadoria, num fragor de porcelanas e vidros partidos. – Shwei, shwei![6]

– Imshee! Bárra![7] – respondem os guardas, erguendo as varas ameaçadoras.

 

 Aqueles a quem é recusada a entrada não têm outro remédio senão dar meia volta com muitos protestos e gritadas maldições e ir tentar a sua sorte no imenso aduar de berberes Chavia, o acampamento dos rebeldes pastores nómadas do norte de Azamor e do Um-er-Rebia que assentam arraiais às portas da cidade nos dias de grande mercado, a fim de venderem os produtos dos seus rebanhos – borregos, queijos, peles e  mantas de lã.

Chega por fim a vez do escudeiro de D. João II e do seu alveitar e Pêro Afonso domina a custo o medo, esperando a todo o momento ser descoberto e morto por aqueles infiéis, adoradores de Mafamede. Porém, ao ouvir Pêro da Covilhã falar aravia com as sentinelas, como se em toda a sua vida não houvesse falado outra língua, começa a acreditar na sorte e na possibilidade de levar a cabo a perigosa missão de que el-Rei os incumbira.

O espião dirige-se ao Cádi e o alveitar ouve-o pronunciar por várias vezes o nome de Mulay Belagegi, o qual tem a virtude de transformar a atitude arrogante do oficial numa submissão respeitosa e atenta.

Nesse momento, uma das sentinelas acerca-se de Pêro Afonso e diz-lhe algo que ele não compreende, todavia o alveitar, percebendo pela entoação tratar-se de uma pergunta, procura dominar o medo e, seguindo as instruções de Pêro da Covilhã, aponta para os ouvidos e para a boca, acenando negativamente com a cabeça e emitindo alguns sons guturais como se fosse realmente surdo-mudo.

O falso mercador diz algumas frases fazendo rir os soldados e o companheiro admira a presença de espírito e a coragem do beirão que se permite dizer chistes às sentinelas da Cidade Bem-Guardada, outro nome da notável Fez.

– Imshee tuul. Filamáan[8] – brada o Cádi, à despedida.

– Báarak Alláahuu feek[9]! – responde o espião, esporeando o cavalo e fazendo-lhe sinal para o seguir. Antes de entrar na cidade ainda grita: – Bisláama[10].

Com um suspiro de alívio, o alveitar de Tomar entra com o seu amo na medina de Fez, costeando o kasbah dos Cherada, a alcáçova ou  cidadela do rei.                                      

– Desta já nos livrámos – diz com satisfação o Escudeiro pondo o cavalo a passo, para acompanhar a andadura mais lenta da mula montada por Pêro Afonso. – Fizeste mui bem o teu papel de surdo-mudo... até eu acreditei!

Riem-se ambos e o alveitar pergunta:

– Como haveis aprendido a falar tão bem aravia? Pareceis um alarve, sem tirar nem pôr, nem mesmo os guardas desconfiaram!

– Comecei a falar desde mui moço com os mouros da Andaluzia, escravos da casa, ao mesmo tempo que aprendia o castelhano com os escudeiros do meu amo, quando passei cerca de sete anos em Sevilha ao serviço de D. Henrique de Guzman, o segundo duque de Medina Sidónia. Belos tempos! – diz sorrindo, com expressão saudosa. Depois acrescenta com uma risada: – Uma vez pusemos Sevilha em pé de guerra durante cinco dias e cinco noites!

– Com’assi? Contai-me essa aventura, Pêro da Covilhã, que não cessais de m’espantar!

– De bom grado o farei, pois me dá gosto recordar esse tempo de pouco siso. Ainda temos um longo caminho a percorrer na medina até ao funduq[11],  onde os cavalos terão o penso e nós poderemos tomar pousada.

Pêro Afonso esporeia a mula para se pôr ao lado do Escudeiro pois, mesmo a cavalo, é melhor conversarem em voz baixa para os mouros não se aperceberem de que ali vão portugueses e eles venham a acabar com a garganta cortada num beco sombrio de Fas al-Bali, a medina velha, ou em Fas al-Djadid, a medina nova.

Todavia o movimento das gentes e dos animais, os gritos e pregões dos vendedores ambulantes causam tanto ruído e agitação que os dois homens começam a sentir-se em segurança, misturados na multidão. Deixam para trás a Cidade Branca – a nova medina construída pelos Merínidas, com o seu próspero Mellah, o bairro judeu – e entram na parte mais antiga da cidade.

– Atão, não me quereis narrar a vossa estada em Sevilha? – insiste o alveitar, impaciente com o silêncio de Pêro da Covilhã.

– Parti para Sevilha à aventura, aí por volta de 1468, e entrei para a guarda dos Duques de Medina Sidónia, o que me serviu para exercitar o braço e a espada melhor do que em qualquer outro sítio do mundo.

– Andavam em guerra c’ os mouros?

– Não, mas era pior do que se andássemos. Em Sevilha havia duas grandes famílias que se odiavam, a do velho Duque de Medina Sidónia, D. João Afonso, e a do velho Conde de Arcos, D. João  Ponce de Leon. Os dois anciãos não se podiam ver, devido a um antigo privilégio real a que os dois julgavam ter direito e não perdiam uma só ocasião de se atacarem ou prejudicarem um ao outro, até à morte de ambos que aconteceu quase ao mesmo tempo.

– E a sua morte não acabou co’as lutas entre as famílias?

– Mui pelo contrário, tornaram-se mais violentas, pois os filhos primogénitos ainda se encarniçaram mais um contra o outro. Formaram-se dois bandos e...

Pêro da Covilhã interrompe a narração, deitando um olhar desconfiado para trás de si. No meio do vaivém de gentes de muitas raças e tribos – homens apressados, crianças irrequietas, mulheres veladas e de longos kaftans, a pé, a cavalo, de burro ou de camelo –, o Escudeiro descortina ao longe um fassi alto e magro, trajando uma gellaba, a túnica de capuz de algodão às riscas verdes e um fez vermelho escuro, muito ao uso da terra. Monta um cavalo cinzento de muito boa raça, pouco habitual num homem do povo e, ao ver o gesto de Pêro da Covilhã, refreia a montada e vai colocar-se discretamente atrás de um grupo de mercadores, ocultando-se da vista do português.

– Que foi? – pergunta Pêro Afonso, alertado pela interrupção e pelo seu movimento. – Passa-se alguma cousa?

– Não olhes para trás, mas creio que nos vêm a seguir desde a porta das muralhas.

– Mau! Quem será? – quer saber o alveitar já assustado. – Quem o terá mandado? Porque nos segue?

– Poderá vir a mando do Cádi da guarda das portas da medina, para ver se somos espiões. Não te assustes, homem, que vem muito longe para nos poder ouvir e hoje não faremos nada de suspeito! – ri o Escudeiro a fim de o sossegar e esconder a sua preocupação. – O Cádi pode não ter acreditado quando lhe disse que vinha comprar cavalos ou talvez o poderoso Cheikh Mulay Belagegi tenha caído em desgraça e o oficial enviou alguém atrás de nós para nos ter debaixo de olho.

Mas, sem o confessar, Pêro da Covilhã receia que o Cádi tenha recebido alguma denúncia ou desconfiado da sua identidade e queira certificar-se de que o estranho mercador não vem em espionação ao serviço de D. João II. Precisará de ter muito cuidado quando visitar Belagegi, se quiser volver vivo a Lisboa.

– Ora como te ia dizendo – e o Escudeiro retoma o fio do seu conto como se nada se tivesse passado –, formaram-se dois bandos em Sevilha, o do duque D. Henrique de Medina Sidónia e o do Conde D. Rodrigo Ponce de Leon, já com o título de Marquês de Cádiz e decretou-se caça aberta ao inimigo. Ninguém, das duas casas, podia sair à rua só ou desarmado, se não queria perder a vida e os restantes habitantes de Sevilha andavam desesperados, com o terror de serem apanhados na confusão dos duelos e das batalhas de rua.

– Mas como foi essa batalha de cinco dias, de que falastes inda há pouco – insiste Pêro Afonso, cheio de curiosidade, já quase esquecido do seu medo.

– Foi causada por uma história de amor e quase acabou em tragédia...

– Uma história de amor?! – espanta-se o alveitar sempre desejoso de ouvir contar  escândalos de gente nobre e rica. – Contai prestes!

– Um dia, o irmão mais novo do duque, D. João de Guzman, viu num baile da Corte a formosíssima D. Joana, filha de D. Rodrigo e ficou perdido de amores. Apesar da presença dos familiares da donzela, que nada podiam fazer contra ele por se encontrarem no Palácio Real onde qualquer distúrbio seria punido com a morte, D. João logrou dançar com a gentil menina e conquistar o seu coração, pois era um moço bem apessoado, valente e bom poeta.

– Fez-lhe logo ali um cantar de amor, ‘tá-se mesmo a ver e a mocinha caiu que nem um anjinho! – ri Pêro Afonso, regalado com a história.

– Foi mais ou menos isso. Mas ele ficou mesmo doudo pela formosa Joana, a ponto de arriscar a vida por ela, pois os Ponce de Leon consideraram-se agravados e juraram tirar vingança. A menina passou a ser mais guardada do que um tesouro, todavia D. João sempre arranjava maneira de a ver e de lhe fazer chegar às mãos as cartas e os recados. Mas por ora chega de histórias, Pêro Afonso, paremos naquela fonte que tenho a boca seca e estou cheio de sede.

Pero da Covilhã pára o cavalo junto de um chafariz, logo imitado pelo companheiro, um pouco contrariado pela interrupção da história de amor e dor de D. João e D. Joana. Os arcos e as paredes da fonte, cobertos de relevos e arabescos de terracota e de um complicado desenho de pequenos mosaicos azuis (a cor de Fez) e verdes (a cor do Islão), faíscam sob o sol incandescente de África.

Inúmeros guerrab ou aguadeiros, fazendo tilintar as taças que lhes pendem de um fio ao pescoço, enchem os odres de pele de cabra com a fresca água da nascente para a irem vender por toda a medina. O Escudeiro acha-os parecidos com os bobos das cortes europeias, nas vestes vermelhas, nos chapéus de bico e no som tilintante das taças de latão.

Os cavalos bebem da enorme bacia de pedra, lado a lado com dromedários, camelos e jumentos e os dois homens matam a sede nas frescas bicas de água cristalina que, no calor do fim da manhã, lhes sabe a uma verdadeira dádiva de Deus.

Um vendedor ambulante oferece-lhes tâmaras frescas, com a escura pele a rasgar-se de madura mostrando uma polpa suculenta, doce como mel. Pêro da Covilhã compra uma dúzia de frutos, depois de muito regatear com o beduíno que lhe pede três vezes mais do que o preço justo.

Enquanto comem, o Escudeiro disfarçadamente tenta descobrir o seu perseguidor entre a multidão apressada, mas o homem não se mostra em parte alguma. O olhar do português detém-se, por vezes, numa figura de mulher envolta nos largos panos que lhe escondem as formas do corpo das miradas cobiçosas dos homens; um pesado véu oculta-lhe o rosto, deixando apenas uma abertura para os negros olhos, cujo mistério é acentuado pelas sombras negras de kohl[12], as mãos e os pés que as sandálias deixam à mostra exibem um harmonioso desenho pintado no tom castanho-avermelhado da hena[13].

Covilhã olha a pequena praça em volta e sabe exactamente onde se encontra, embora nunca antes deste momento tenha pisado o solo de Fez. Em Lisboa, os agentes d’el-Rei D. João II tinham-lhe mostrado um mapa da cidade e a sua memória prodigiosa fixara todas as linhas, recantos e nomes de lugares, bem como a sua história e até partes do Corão ou el-Qur’an, para o caso de vir a ser necessário. Até aqui conseguira orientar-se muito bem pelo labirinto de ruas, mas à medida que forem avançando para o coração da medina velha, elas tornar-se-ão cada vez mais estreitas, sombrias e... iguais.

Acabadas as tâmaras, os dois homens montam de novo e retomam o seu caminho para o funduq. Pêro Afonso diz de imediato:

– Que sucedeu atão a D. João e D. Joana, Pêro da Covilhã? Cheira-me a qu’ o melhor da história inda está p’ra vir...

– Assi é, meu amigo – diz o Escudeiro, retomando a narrativa. – Uma noite, morrendo de saudades da sua amada que os pais mantinham encerrada em casa há algumas semanas, D. João, que me honrava com a sua amizade e preferência como companheiro de aventuras, confidenciou-me que nessa noite iria fazer uma visita a D. Joana, no próprio palácio dos Ponce de Leon.

– Mas isso era morte certa, uma verdadeira loucura!

– Isso mesmo lhe disse eu, mas o meu enamorado amo não atendia à razão. “Não podeis ir sem uma guarda” lembrei-lhe, mas a sua resposta foi que não ia a um encontro de amor com uma quantidade de rufiões e brigões à sua volta, pois a menina até podia morrer de medo.

– Nesse ponto tinha razão...

– Lá ter, tinha, mas eu era amigo dele e não o podia deixar ir assim sozinho, ao encontro da morte. Por isso disse-lhe: “Eu vou convosco, D. João e se me recusais irei avisar vosso irmão D. Henrique! Pelo muito que vos quero não vos posso deixar ir só a meter-vos na boca do lobo”. Ele viu que eu falava a sério e não teve outro remédio senão aceitar o meu oferecimento.

– Fostes os dois sozinhos?! – espanta-se o alveitar. – Que acaeceu[14], nessa noite? Fostes descobertos?

– Espera, homem, não queiras saber tudo antes do tempo! Nessa noite, embuçámo-nos ambos com umas capas longas e pretas, sombreiros largos também negros e máscaras a cobrir-nos os rostos e saímos furtivamente do palácio, percorrendo as ruas de Sevilha desertas e escuras, cosendo-nos contra as paredes das casas, até chegarmos ao muro dos jardins dos Ponce de Leon que escalámos silenciosamente, saltando lá para dentro sem novidade.

– Mas como podia D. Joana saber que ele ia lá vê-la?

– O Amor é industrioso e capaz de todos os milagres... e o dinheiro também ajuda muito – ri Pêro da Covilhã, maliciosamente. – D. João pagava a peso de ouro os serviços de uma escrava moura de D. Joana e a serva levava e trazia no maior segredo as cartas e as mensagens dos dois amantes. Assim, a filha do orgulhoso D. Rodrigo sabia da perigosa incursão do seu apaixonado e trataria de se escapar do quarto e ir ter com ele ao jardim para o seu primeiro encontro a sós.

– As mulheres, mesmo as mais mocinhas e discretas, sabem ser fingidas e valentes quando sofrem de amor! – exclama Pêro Afonso, cheio de admiração. – Ela já lá estava quando vós chegastes?

– Já e foi comovedor ver o amor que sentiam um pelo outro e a paixão[15] de não poderem amar-se livremente e casar por causa do ódio entre as suas famílias. Afastei-me discretamente, deixando-os a trocar juras e promessas de amor eterno, entre doces carícias e pus-me a vigiar as entradas do palácio, não fosse o diabo tecê-las e sermos apanhados de surpresa.

– E que se passou em seguida? Dizei, por Deus!

– Tem paciência, homem, mal me deixas respirar! Se é isso que queres saber, o pior acaeceu. Ouvimos gritos de “Às armas!” e “Traição!” dentro de casa, luzes de archotes movendo-se por trás das janelas e homens saíram a correr por todas as portas, de espadas e punhais em riste.

– Havíeis sido descobertos!

– Sim, alguém nos tinha atraiçoado! Gritei para D. João: “Temos de fugir, senhor, são muitos, não lhes poderemos fazer frente!” Ele não queria deixar D. Joana sozinha, mas a menina disse-lhe: “Salvai-vos, por amor de mim, D. João! Se algo vos acontecer, eu acabarei com a minha vida!” D. Joana mostrava uma tal força de ânimo que o meu amo não ousou desobedecer e, dando-lhe um último beijo, voltou a colocar a máscara e pôs-se a correr a meu lado. Saltámos o muro enquanto o diabo esfregou um olho.

– E os vossos perseguidores? Abandonaram a perseguição?

– Isso é que era bom! Quatro saltaram também o muro atrás de nós e um bando de oito ou dez valentaços, vindos do palácio, corriam já rua acima. Os quatro primeiros aproximavam-se perigosamente e eu não queria que D. João fosse reconhecido pois, para além de poder ser assassinado, o escândalo causado pela sua aventura daria cabo da honra da sua nobre família.

– E lograram apanhar-vos?

– Sempre a correr, metemos por uma ruela estreita e sombria, ouvindo os passos dos nossos perseguidores cada vez mais cerca e então eu, que era muito mais veloz na carreira, disse-lhe para trocarmos os sombreiros, pois o dele mostrava bem ser de pessoa de qualidade e obriguei-o a saltar o muro de uma casa que lhe permitiria sair do outro lado da rua, já nos muros do palácio dos Medina Sidónia. E pus-me de novo em fuga, procurando iludir os nossos perseguidores, fazendo-os crer que corriam atrás do fidalgo inimigo e não de um simples moço de esporas.

– Mas, sozinho, inda tínheis menos ocasião de escapar! – escandaliza-se Pêro Afonso. – Como é que ele vos abandonou?

– Ele ia buscar reforços, de contrário nenhum de nós lograria escapar...

Nesse instante, por sobre os terraços brancos das casas da medina ecoa a canção lamentosa do muezzin, o imã muçulmano, lançada do alto minarete da mesquita próxima, convidando os crentes à oração do meio-dia, logo respondida e prolongada pelas vozes de outros muezzin nos restantes almenares, as torres das inúmeras mesquitas que tornam Fez conhecida como a “Cidade do Islão”.

À volta dos dois portugueses, a vida parece parar no tempo, um silêncio recolhido desce de súbito sobre a rua e todos os que não vêm a pé desmontam e imobilizam as suas montadas junto aos muros das casas. Tomando os delicados tapetes de oração, estendem-nos no solo, para se isolarem do mundo no seu convívio com Allah e homens, mulheres e crianças, sem distinção de classe ou tribo, virando-se na direcção de Meca, ajoelham sobre os coloridos rectângulos de lã ou seda, tocando o solo com a testa, pronunciam as suas orações com a mais profunda devoção e reverência.

Covilhã retira dos alforges do seu cavalo dois pequenos tapetes que estende no solo poeirento, tal como vê fazer à sua volta. Aproveita para dar uma rápida mirada em redor, mas não vê rasto do fassi[16] do cavalo cinzento. Ter-se-ia enganado e não estariam a ser seguidos? Ou o espião, sentindo a sua desconfiança, desistira de o seguir nas ruas cada vez mais estreitas e escuras da medina?

Fazendo um discreto mas imperioso sinal ao alveitar para que o imite, o Escudeiro ajoelha e reza virado para Meca, embora o faça não a Allah mas ao Deus dos Cristãos. “Será que são distintos?” pensa, “Não serão apenas dois nomes diferentes para nomear o mesmo Deus, uno e verdadeiro?

Os mouros parecem-lhe até mais devotos, caridosos e tolerantes do que os Cristãos. Rezam cinco vezes por dia, sabem recitar o Corão, o seu livro sagrado, praticam a Zaká, a esmola colectiva fazendo muitas obras piedosas – os ricos construindo mesquitas, madrasas, fontes, funduqs e caravanserai para os viajantes e peregrinos –, respeitando e protegendo os pobres, os doentes e os aleijados. Não será, pois, uma arrogância dos Cristãos chamar infiéis a esta gente? Porém, o inverso também é verdade, os muçulmanos chamam infiéis aos Cristãos, dizendo que só Allah é o Deus Verdadeiro. Assim, desde sempre, se odiavam e matavam Cristãos e Muçulmanos!

Acabada a oração, a algaraviada volta à rua, os tapetes são de novo enrolados, os animais recebem nos seus dorsos os donos apressados e todos prosseguem o seu caminho. Os dois portugueses montam também e o Escudeiro diz ao alveitar:

 – Se não quisermos atrair atenções indesejadas ou levantar suspeitas, Pêro Afonso, temos de fazer como os naturais da terra, custe o que custar.

– Mas, rezar a Allah, como um perro infiel, é demais! – protesta o companheiro.

Pêro da Covilhã sorri, vendo confirmadas as suas dúvidas de há pouco, assim reagia o bom povo cristão a um acto de sincera devoção a Deus, apenas por este ter um nome diferente. O Escudeiro acha melhor calar as suas censuras e prosseguir a história interrompida:

– Queres ouvir o resto da minha aventura?

– Oh, sim! – exclama Pêro Afonso desanuviando o rosto com um largo sorriso. – Havíeis quedado só com quatro perseguidores...

– Eu acreditava muito na força das minhas pernas e dos meus músculos, porém, de noite e no aceso da corrida, enganei-me e enfiei-me num estreito beco sem saída. Assim não tive outro remédio senão fazer frente aos quatro quadrilheiros dos Ponce de Leon.

– E os oito ou dez valentaços do bando, que foi feito deles?

– Tinham-nos perdido o rasto, pois estávamos na parte velha da cidade que é também um labirinto quase igual a este de Fez e levávamos um bom avanço.

– Ficastes, atão, encurralado no beco?

– Sim e a minha sorte foi ser o beco tão estreito que não deixava passar mais de um homem de cada vez e desse modo eu podia enfrentá-los um a um, com a espada e o punhal.

– E como vos saístes?

– Nessa época eu tinha sangue na guelra e o ânimo sempre pronto para a luta e, no serviço dos Medina Sidónia, havia-me tornado num temível espadachim com poucos adversários à minha altura, muito menos aqueles pobres escudeiros e assalariados de D. Rodrigo. Em menos de meia hora estavam os quatro por terra, a gemer encharcados no seu próprio sangue e eu pus-me a andar dali para fora.

– E como acabou a história? – o alveitar impacienta-se sempre que o companheiro faz uma pausa no relato da sua aventura.

– Mal saíra da estreita ruela, ouvi de novo passos e correrias e quando me preparava para fugir do bando de inimigos, que por certo tinham voltado para trás em nossa busca, ouvi a voz de D. João a gritar por mim.

– Sempre trouxera reforços...

– E festejaram ruidosamente a minha façanha. Eram seis mocetões, quase todos parentes de D. João e logo nos tornámos de perseguidos em perseguidores, dando caça ao bando dos Ponce de Léon. Quando os apanhámos, as ruas de Sevilha tornaram-se num verdadeiro campo de batalha durante cinco dias e cinco noites.

– E quem saiu vencedor?

– Naquela primeira noite fomos nós, ferindo e matando alguns dos adversários e pondo os restantes em fuga, saltando muros e perseguindo-os mesmo nos pátios e jardins das casas da boa gente andaluza que nada tinha a ver com aquelas lutas da fidalguia.

– Por isso ninguém s’atrevia a sair de casa! E como acabou tudo?

– Depois, nos dias seguintes, foi tanta a violência, as mortes, os incêndios e as destruições que o próprio Rei foi forçado a intervir para acabar com a desordem, ameaçando exilar as duas famílias ao primeiro desacato provocado por qualquer dos seus familiares ou criados.

– E D. João e Dona Joana, que foi feito deles e dos seus amores?

– Dona Joana foi metida num convento, por se ter recusado a casar com um primo que a família lhe destinara para marido e D. João foi enviado numa das campanhas militares aqui em África. Mas antes passou por Portugal para me entregar como moço de esporas, com muitas recomendações e louvores pela minha valentia, a el-Rei D. Afonso V que pouco tempo depois me fez seu escudeiro de armas e cavalo, tornando-me companheiro fiel de todas as suas batalhas e aventuras de cavaleiro andante na defesa da Beltraneja e dos seus direitos ao trono de Castela, contra Isabel a Católica. Mas isso já é outra história.

– Então estivestes na grande batalha de Toro contra os castelhanos? – o alveitar abre os olhos de espanto.

– Sim, no ano de 1476. E também andei com D. Afonso V por França em busca de aliados, mas o rei francês traiu-o. Depois da sua morte, fiquei ao serviço do Príncipe Perfeito, D. João II, e participei na tomada de Azamor nos começos deste ano.

– Ah, por isso conheceis tão bem estes lugares e agis como se fosseis alarve! Sois um verdadeiro homem das Arábias!

– É verdade que gosto destas terras, sei viver no meio desta gente e continuo a ter prazer na aventura e no desconhecido. Mas agora basta de conversa que chegámos ao funduq e já não era sem tempo.

Uma espaçosa praça rasgava-se ante os seus olhos com o edifício branco de dois andares do funduq a dominar o espaço, os grandes portais de cedro lavrados, abertos de par em par para receber gratuitamente os hóspedes e os animais cansados de uma longa jornada através de montanhas e desertos.

No canto oposto, uma formosa fonte revestida de mosaicos de faiança esmaltada convidava a tomar um gole de água fresca e límpida ou a fazer as abluções rituais antes da oração a Allah. Por trás, serpenteava a rua íngreme, estreita e poeirenta do çuq dos nejjarine, o bairro dos marceneiros, que esculpem as sábias palavras do Al-Corão em belos painéis de cedro, libertando a alma da madeira preciosa num cântico de louvor a Allah e a Muhammad, o seu profeta, criando às portas das suas casas eternas dunas douradas de serradura que nem o vento do deserto logra dispersar.

Os dois cavaleiros desmontam à entrada do funduq e penetram no pátio quadrado, limitado todo em volta por elegantes arcadas que abrigam as cavalariças para as montadas dos hóspedes; no centro do pátio, uma graciosa fonte faz ouvir a sua canção de frescura e boas-vindas.

photos.linternaute.com 

– Que bela pousada! – murmura Pêro Afonso, admirado. – E não se paga nada?

– Não, que esta é obra piedosa ou promessa feita por gente rica. É costume dar-se uma esmola, à partida, para ajuda de viajantes ou peregrinos menos afortunados. Mas, agora, lembra-te que junto dos mouros não deves falar português.

 – Não me esqueço de que sou surdo-mudo, ficai descansado.

Os dois homens vão prender as montadas num dos nichos sob as arcadas, entre outros animais que mastigam a comida lançada por um escravo nas manjedouras e os recém-chegados não tardam a receber o seu penso. Antes de se retirar, o alveitar observa-os cuidadosamente, apalpando-lhes as pernas e afagando-lhes o pescoço, verificando os cascos e as ferraduras, procurando alguma maleita causada pela aspereza dos caminhos ou ferida de arreios ou de carga.

– Estão de perfeita saúde, graças a Deus! – diz satisfeito. – São uns belos animais.

O escravo olha-o espantado, deixando cair a alcofa das favas e Pêro Afonso apercebe-se, com terror, de ter falado alto e em português! Antes de Pêro da Covilhã poder intervir, o homem diz com os olhos a brilhar de emoção:

– Sois portugueses? Deus seja louvado! Mas falai baixo para que nenhum dos infiéis vos ouça.

– E tu, quem és? – pergunta o Escudeiro, com um suspiro de alívio. – Como vieste parar aqui?

– Sou Joaquim Alves, de Leiria. Fui feito cativo em Arzila e ninguém pagou resgate por mim. Mas tive sorte, no meio da minha desgraça, pois fui posto ao serviço deste funduq e toda a gente me trata bem. E vós, como vos arriscais em Fez? O Califa Said-el-Uttaci não perde ocasião de atraiçoar os portugueses e de os matar, sempre em segredo para não romper as tréguas com Portugal. – Vendo alguma hesitação em Pêro da Covilhã, o cativo acrescentou com altivez: – Tendes razão! Os mouros têm um ditado que diz “A segurança de um homem está em conter a sua língua”, mas podeis confiar em mim, eu sou português!

O homem parece digno de confiança e embora o escudeiro não esteja disposto a revelar a sua missão seja a quem for, pois nem mesmo o alveitar sabe verdadeiramente ao que vem, resolve abrir um pouco o seu jogo, na mira de fazer do cativo Joaquim Alves um aliado.

– Fui encarregue por el-Rei D. João II de entregar umas cartas a Mulay Belagegi que se encontra neste momento em Fez e é amigo dos portugueses. E devo colher todas as informações possíveis acerca das intenções do Califa sobre as praças portuguesas de Benamarim, pois receamos traição.

– Isso não me espanta – confirma Joaquim –, pois tem havido grande movimento de mercenários e alistamentos no exército como se preparassem uma nova campanha militar. Podeis obter muitas informações no hammam, os banhos públicos onde essa gente se encontra nas horas de descanso ao fim da tarde e em grupo costumam soltar a língua. E podeis sempre contar comigo para o que quiserdes.

– Muito te agradeço a ajuda e já agora, se puderes, vê se anda por aí a rondar um fassi de gellaba às riscas verdes, com um cavalo cinzento. Se o vires, procura saber quem ele é, pois parece ter-nos seguido a mando do Cádi das muralhas.

– Contai comigo. Entretanto ide lá para cima descansar da viagem, que eu vos levarei comida.

– Bem hajas, amigo – diz Pêro da Covilhã, reconhecido ao bom homem pela preciosa ajuda. – Na verdade precisamos de repouso pois a viajem foi longa e dura.

– Subi, então, meus senhores e eu não tardarei a ocupar-me de vós.

Os dois companheiros sobem as escadas de pedra que levam às arcadas superiores e às salas onde os hóspedes podem comer e repousar.

– Toma tento na língua, surdo-mudo, não te descuides outra vez – recomenda Pêro da Covilhã, com severidade, antes de entrar na sala e saudar os presentes: – ‘As-salâmu calaykum[17].

Calaykumu s-salâm[18]. – responde-lhe um coro de sorridentes boas-vindas, dadas pelos cerca de trinta hóspedes sentados em cómodos almofadões sobre os coloridos tapetes no chão ladrilhado do grande salão do funduq, a conversar animadamente em pequenos grupos, enquanto bebem a verde infusão de naanaa, o chá de menta, acompanhando os saborosos folhados com recheio de carne picada, assim como os dulcíssimos bolinhos de amêndoa e pastéis de mel, dispostos em mesas baixas de madeira ou metal delicadamente lavrado. 

Al-hámdu li-lâh[19] – conclui o Escudeiro, levando a mão ao peito e à testa numa saudação respeitosa, enquanto procura entre as arcadas um recanto mais discreto e sossegado para si e para o seu companheiro.



[1] Homem que trata de cavalos.

[2] Maomé.

[3] Marrocos.

[4]Magistrado judicial que julgava os delitos e crimes, como roubo e assalto, e condenava a penas que podiam ir de simples repreensões a vergastadas, mutilações (roubo) ou pena de morte (assalto, adultério da mulher).

[5] Depressa! Depressa! Vá, em frente!

[6] Cuidado! Devagar!

[7] Vá-se embora! Desapareça!

[8] Siga em frente. Adeus.

[9] Obrigado.

[10] Adeus.

[11] Funduqs e caravanserai eram albergues, pousadas gratuitas para os viajantes e suas caravanas, quer nas cidades quer nos desertos, mandados construir por gente rica e piedosa.

[12] Substância negra para sombrear as sobrancelhas e os olhos.

[13] Substancia corante extraída das folhas de um arbusto.

[14] Acaecer – suceder, acontecer.

[15] Nos Séculos XV e XVI, e ainda recentemente nas pessoas mais velhas do campo, paixão significava dor, tristeza.

[16] Habitante de Fas (Fez).

[17] Olá! A paz seja convosco.

[18] Viva! Que a paz seja contigo também

[19] “Graças a Deus”. Saudações de cortesia.



publicado por umhomemdasarabias às 14:24
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