O primeiro volume da saga de Pêro da Covilhã, em que são narradas as missões do magnífico espião de D. João II, em Marrocos e na Arábia. Romance de viagens e aventuras que recria com grande rigor histórico lugares, usos e mentalidades do tempo.
Quarta-feira, 23 de Abril de 2014
Apresentação de Deana Barroqueiro

 UM HOMEM DAS ARÁBIAS - PÊRO DA COVILHÃ

 

por Deana Barroqueiro

 

Um Homem das Arábias, o terceiro romance da colecção Cruzeiro do Sul, publicada pela editora Livros Horizonte (2002-2004), inicia a saga de Pêro da Covilhã, o espião de D. João II, especialmente escolhido pelo rei para as missões impossíveis. Nele são relatadas as perigosas aventuras deste James Bond português dos finais do Século XV, em Marrocos e a primeira etapa da sua extraordinária viagem solitária de mais de quatro anos pelas regiões do Mar Vermelho e costas do Índico, em busca da rota das especiarias e, posteriormente pela África Oriental, Arábia e Etiópia, em busca do mítico reino do Prestes João.

Ao procurar um discurso próximo do ponto de vista do aventureiro quinhentista, confrontado com mundos que lhe eram completamente estranhos e os deslumbravam ou escandalizavam, certas atitudes, falas e pensamentos das personagens podem veicular mentalidades e comportamentos que hoje não podemos deixar de considerar racistas, mas que no tempo dos Descobrimentos traduziam o ponto de vista próprio do Homem Europeu que se considerava o centro do Universo e da Civilização e dificilmente aceitava o Outro, com ser detentor de uma cultura e civilização diferentes. 

Com estes romances, para os quais fiz uma cuidadosa pesquisa nas crónicas dos autores seus contemporâneos, os leitores poderão conhecer e viver com estes nossos antepassados as suas espantosas aventuras, quase sempre superiores às dos heróis míticos modernos. Sendo igualmente livros de viagens, mostram os mundos antigos onde a realidade e a magia se fundiam e os estranhos povos por eles visitados os levavam a partilhar dos seus costumes e crenças fantásticas e inexplicáveis.

 

Nos finais do Século XV, Pêro da Covilhã, o Escudeiro e espião preferido de D. João II, parte em busca da rota das especiarias e do mítico reino do Prestes João, viajando primeiro até ao Cairo com Afonso de Paiva e depois sozinho por três continentes, disfarçado de mercador mouro. Aventureiro dos quatro costados, misto de globetrotter, Indiana Jones e James Bond, Pêro da Covilhã possuía talentos extraordinários que o distinguiam de entre os grandes homens do seu tempo: uma memória quase fotográfica, a arte de criar os mais perfeitos disfarces para assumir novas identidades, uma mestria no manejo de todas as armas da época e a capacidade de falar árabe como um natural e aprender rapidamente as línguas mais estranhas. Primeiro nas missões de espionagem em Fez, depois durante a sua viagem de cerca de quatro anos pelo Oriente (1487-1492), enfrentou dificuldades e perigos terríveis e viu prodígios de tal modo espantosos – quer nas zonas desertas do norte de África e da Arábia, na selva monçónica ou na floresta tropical da Índia, quer ainda nas savanas e bosques espinhosos da costa oriental africana ou nas terras da Abissínia do Reino do Prestes João. Poucos homens se puderam gabar de ter uma vida e um saber de experiências feito, sequer próximos dos seus, pois conheceu lugares, povos e animais nunca antes contemplados por olhos europeus

 

Esta Colecção destina-se não a um público infantil, mas a leitores já do Ensino Secundário e Universitário (e também a adultos de espírito jovem e aventureiro!), visto alguns romances abordarem com crueza temas e episódios verídicos que poderão ser eventualmente chocantes para determinadas sensibilidades. Escrevo intencionalmente para leitores desta faixa etária por achar que têm recebido muito pouca atenção da parte dos escritores nacionais, na medida em que, para este público, praticamente só se encontram no mercado livreiro traduções de autores estrangeiros, como Tolkien, enquanto abundam as colecções de romances portugueses para menores de 15 anos. Talvez, por isso, tantos jovens adultos afirmem não gostarem de ler...

 

Neste Dia Mundial do Livro, 23 de Abril de 2014, desejo a todos os meus Leitores uma boa e divertida leitura

 

Deana Barroqueiro

 



publicado por umhomemdasarabias às 14:37
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Cap. I - Fez el-Bali

 elviajemourad.blogspot.com

No alto da colina, o cavaleiro mercador e o alveitar[1] param as montadas e miram a grandiosa e santa medina, a cidade fortificada de Fas ou Fez, fundada no ano de 789 por Muley Idris Ben Abdalla Ben El-Hasán Ben Ali, um descendente de Fatima, a filha do profeta Muhammad[2]. Idriss I deu esse nome à cidade por terem encontrado um enxadão – um fas em língua árabe –, no local onde se iniciou a construção, num vale baixo e fértil entre as cordilheiras do Atlas e do Rife, em pleno Magreb ou al-Maghrib al-Aqsa – o País do Pôr do Sol, no norte de África.

O cavaleiro sabe que Fez é chamada a Cidade do Islão – por se ter convertido em um dos principais centros de cultura, ciência e religião muçulmanas dos reinos de Benamarim[3], cheia de mesquitas com altos minaretes e de madrasas ou escolas religiosas, tendo até uma célebre Universidade –, porém não esperara encontrar o esplendor e grandeza que se oferecem agora aos seus olhos curiosos.

– Que formosa cidade! – exclama com admiração.

– É quase tão grande como Lisboa! – diz o companheiro com igual espanto.

Uma alta e forte muralha de pedra avermelhada encerra e protege os seiscentos acres da medina da cobiça dos cristãos e das tribos inimigas, com inúmeras e formosas portas ornamentadas de mosaicos ou madeira esculpida, muito bem guardadas, dando acesso a um labirinto de cerca de sessenta léguas de ruas estreitas e tortuosas, sombrias passagens cobertas, escadas e numerosos becos sem saída, mas também de graciosas praças rodeadas de fontes, grande quantidade de moinhos de água e pontes ligando as duas margens do Oued el-Jawahir, o caprichoso Rio das Pérolas que atravessa a cidade.

O cavaleiro e o seu alveitar juntam-se à caravana que desce a colina e param as montadas cerca de uma das portas da cidade fortificada, aberta às caravanas, para se incorporarem na correnteza de gentes que, em grande algaraviada, se aprestam a entrar na medina para se dirigirem aos çuq, os bairros de mercadores, e aí venderem e comprarem os mais diversos produtos.

Nada distingue aquele mercador de outros chefes de caravana, nem o trajo – a túnica alva de algodão cobrindo os sirões (uma espécie de calças justas até quase aos tornozelos) e o almejar azul, o casaco  de linho cingido por uma larga faixa de onde pende uma adaga de lâmina curva e, por último, o lenço enrolado em forma de turbante –, nem a postura de cavaleiro, montando à maneira dos árabes um bom cavalo berbere. Apenas a um observador mais atento não escaparia o olhar vivo e penetrante que não perde nada do que se passa em seu redor e um corpo seco de carnes mas poderoso, de músculos tensos prontos a reagir ao menor sinal de alarme. O cavaleiro inclina-se para ajeitar o arreio do cavalo e sussurra ao companheiro, sem que ninguém mais o ouça:

– Aconteça o que acontecer, Pêro Afonso, quando chegarmos à porta não fales português. Se te perguntarem alguma cousa finge que és surdo-mudo e deixa a conversa por minha conta.

O alveitar faz um gesto de assentimento, sem acrescentar palavra, enquanto se afastam da confusão dos beduínos mercadores. Só então o cavaleiro volta a falar, sempre num sussurro:

– Esta é Bab Sebaa, a porta da cidade onde os infiéis tiveram exposto, no ano de 1443, o corpo do nosso Infante D. Fernando, feito refém seis anos antes pelo Sultão de Fez, Abd al-Haqq, no desastre de Tanger e morto nas masmorras do Méchouar, essa praça d’armas aí ao fundo.

– Foi atão aqui? – murmura Pêro Afonso com mágoa. – O povo estranhou qu’os seus três irmãos, el-Rei D. Duarte e os Infantes D. Henrique e D. Pedro, se negassem a pagar o resgate qu’os Mouros pediam pelo desgraçado Príncipe. Que houve, afinal, Pêro da Covilhã?

– O resgate era a entrega da praça de Ceuta que el-Rei D. João I e os Infantes conquistaram em 1415, mas o Papa Eugénio IV não consentiu...

– E por isso o Infante jazeu preso seis anos nestas masmorras de Fez e morreu com’um mártir!

– Sim, por isso lhe chamam o Infante Santo – confirma Covilhã. – Os infiéis penduraram o corpo nu do Príncipe nesta porta da muralha, como se fora um vil salteador, deixando-o aqui durante quatro dias para que o povo o injuriasse e os abutres lhe comessem as carnes.

– Perros malditos! – brada o alveitar quase num grito, levando a mão ao punhal, mas o companheiro com um olhar de aviso obriga-o a dominar-se.

– Não contentes, durante vinte e nove anos, mantiveram aqui o caixão do Infante em exposição, para servir de aviso a todos os cristãos que pretendessem conquistar terras dos mouros no Norte de África.

– Ind’aqui está? – pergunta Pêro Afonso horrorizado.

– Não, quando el-Rei D. Afonso V tomou Arzila, em 1471, cativou algumas das mulheres e os filhos do Cheikh Mulay Muhammad Said-el-Uttaci, o senhor daquela praça forte que se ausentara da cidade para vir cercar Fez, e usou-os como reféns, oferecendo-os em troca das ossadas de D. Fernando. O Cheikh acabou por ceder e enviou Mulay Belagegi Abd-el-Aziz, um dos seus principais aliados e rei da Enxovia, a região das tribos de Chavia, a Arzila com os restos mortais do Infante.  

– E não tentou reconquistar Arzila?

– Não, porque D. Afonso V tinha ocupado também Tanger, abandonada pelos seus habitantes mal souberam da tomada de Arzila e guardara como refém o filho primogénito do Cheikh, o jovem Muhammad que ainda hoje vive em Lisboa. Assim, Mulay Said preferiu assinar um tratado de paz com el-Rei, por um período de vinte anos.

– E que aconteceu ao Senhor de Arzila?

– O Cheikh é, neste momento, rei de Fez e mantém grande vigilância sobre os portugueses. Por isso temos de tomar muitas precauções para não sermos caçados pelos seus aguazis.

– Deus seja louvado! – o espanto do alveitar não tem limites. – As voltas qu’o mundo dá!...

– Agora cala-te, Pêro Afonso, pois chegou a nossa vez. Não te esqueças de que és surdo-mudo – conclui Pêro da Covilhã, avançando mais uns metros para a larga porta da fortificação.

Os guardas dos portões dificultam o avanço da multidão ao fazerem parar a cada passo toda a gente estranha à cidade, para inspeccionarem e inquirirem sob o olhar vigilante do Cádi[4] sobretudo os mercadores estrangeiros que vêm em caravanas e pretendem entrar com as suas cáfilas de camelos e dromedários ou com os burros, mulas e cavalos carregados das mais variadas mercadorias.

As sentinelas são particularmente zelosas e desconfiadas, por esta ser a porta onde vai desembocar um caminho de caravanas que liga a vila de Azamor à nobre cidade de Fez e a importante vila costeira caíra, neste ano de 1486, nas mãos do rei cristão D. João II de Portugal, um pequeno reino sito na vizinha Península Ibérica, trazendo os seus habitantes num grande sobressalto com medo das almogavarias, nome dado pelos infiéis portugueses aos ataques às povoações árabes.

– Féessa! Féessa! – gritam os guardas, agitando as longas varas que não poucas vezes se abatem nos lombos dos animais ou dos homens para desimpedir a passagem. – Imshee tuul![5]

– Rud báalak! – berra em desespero um gordo comerciante de perfumes, ao ver derrubar as caixas de frascos com a preciosa mercadoria, num fragor de porcelanas e vidros partidos. – Shwei, shwei![6]

– Imshee! Bárra![7] – respondem os guardas, erguendo as varas ameaçadoras.

 

 Aqueles a quem é recusada a entrada não têm outro remédio senão dar meia volta com muitos protestos e gritadas maldições e ir tentar a sua sorte no imenso aduar de berberes Chavia, o acampamento dos rebeldes pastores nómadas do norte de Azamor e do Um-er-Rebia que assentam arraiais às portas da cidade nos dias de grande mercado, a fim de venderem os produtos dos seus rebanhos – borregos, queijos, peles e  mantas de lã.

Chega por fim a vez do escudeiro de D. João II e do seu alveitar e Pêro Afonso domina a custo o medo, esperando a todo o momento ser descoberto e morto por aqueles infiéis, adoradores de Mafamede. Porém, ao ouvir Pêro da Covilhã falar aravia com as sentinelas, como se em toda a sua vida não houvesse falado outra língua, começa a acreditar na sorte e na possibilidade de levar a cabo a perigosa missão de que el-Rei os incumbira.

O espião dirige-se ao Cádi e o alveitar ouve-o pronunciar por várias vezes o nome de Mulay Belagegi, o qual tem a virtude de transformar a atitude arrogante do oficial numa submissão respeitosa e atenta.

Nesse momento, uma das sentinelas acerca-se de Pêro Afonso e diz-lhe algo que ele não compreende, todavia o alveitar, percebendo pela entoação tratar-se de uma pergunta, procura dominar o medo e, seguindo as instruções de Pêro da Covilhã, aponta para os ouvidos e para a boca, acenando negativamente com a cabeça e emitindo alguns sons guturais como se fosse realmente surdo-mudo.

O falso mercador diz algumas frases fazendo rir os soldados e o companheiro admira a presença de espírito e a coragem do beirão que se permite dizer chistes às sentinelas da Cidade Bem-Guardada, outro nome da notável Fez.

– Imshee tuul. Filamáan[8] – brada o Cádi, à despedida.

– Báarak Alláahuu feek[9]! – responde o espião, esporeando o cavalo e fazendo-lhe sinal para o seguir. Antes de entrar na cidade ainda grita: – Bisláama[10].

Com um suspiro de alívio, o alveitar de Tomar entra com o seu amo na medina de Fez, costeando o kasbah dos Cherada, a alcáçova ou  cidadela do rei.                                      

– Desta já nos livrámos – diz com satisfação o Escudeiro pondo o cavalo a passo, para acompanhar a andadura mais lenta da mula montada por Pêro Afonso. – Fizeste mui bem o teu papel de surdo-mudo... até eu acreditei!

Riem-se ambos e o alveitar pergunta:

– Como haveis aprendido a falar tão bem aravia? Pareceis um alarve, sem tirar nem pôr, nem mesmo os guardas desconfiaram!

– Comecei a falar desde mui moço com os mouros da Andaluzia, escravos da casa, ao mesmo tempo que aprendia o castelhano com os escudeiros do meu amo, quando passei cerca de sete anos em Sevilha ao serviço de D. Henrique de Guzman, o segundo duque de Medina Sidónia. Belos tempos! – diz sorrindo, com expressão saudosa. Depois acrescenta com uma risada: – Uma vez pusemos Sevilha em pé de guerra durante cinco dias e cinco noites!

– Com’assi? Contai-me essa aventura, Pêro da Covilhã, que não cessais de m’espantar!

– De bom grado o farei, pois me dá gosto recordar esse tempo de pouco siso. Ainda temos um longo caminho a percorrer na medina até ao funduq[11],  onde os cavalos terão o penso e nós poderemos tomar pousada.

Pêro Afonso esporeia a mula para se pôr ao lado do Escudeiro pois, mesmo a cavalo, é melhor conversarem em voz baixa para os mouros não se aperceberem de que ali vão portugueses e eles venham a acabar com a garganta cortada num beco sombrio de Fas al-Bali, a medina velha, ou em Fas al-Djadid, a medina nova.

Todavia o movimento das gentes e dos animais, os gritos e pregões dos vendedores ambulantes causam tanto ruído e agitação que os dois homens começam a sentir-se em segurança, misturados na multidão. Deixam para trás a Cidade Branca – a nova medina construída pelos Merínidas, com o seu próspero Mellah, o bairro judeu – e entram na parte mais antiga da cidade.

– Atão, não me quereis narrar a vossa estada em Sevilha? – insiste o alveitar, impaciente com o silêncio de Pêro da Covilhã.

– Parti para Sevilha à aventura, aí por volta de 1468, e entrei para a guarda dos Duques de Medina Sidónia, o que me serviu para exercitar o braço e a espada melhor do que em qualquer outro sítio do mundo.

– Andavam em guerra c’ os mouros?

– Não, mas era pior do que se andássemos. Em Sevilha havia duas grandes famílias que se odiavam, a do velho Duque de Medina Sidónia, D. João Afonso, e a do velho Conde de Arcos, D. João  Ponce de Leon. Os dois anciãos não se podiam ver, devido a um antigo privilégio real a que os dois julgavam ter direito e não perdiam uma só ocasião de se atacarem ou prejudicarem um ao outro, até à morte de ambos que aconteceu quase ao mesmo tempo.

– E a sua morte não acabou co’as lutas entre as famílias?

– Mui pelo contrário, tornaram-se mais violentas, pois os filhos primogénitos ainda se encarniçaram mais um contra o outro. Formaram-se dois bandos e...

Pêro da Covilhã interrompe a narração, deitando um olhar desconfiado para trás de si. No meio do vaivém de gentes de muitas raças e tribos – homens apressados, crianças irrequietas, mulheres veladas e de longos kaftans, a pé, a cavalo, de burro ou de camelo –, o Escudeiro descortina ao longe um fassi alto e magro, trajando uma gellaba, a túnica de capuz de algodão às riscas verdes e um fez vermelho escuro, muito ao uso da terra. Monta um cavalo cinzento de muito boa raça, pouco habitual num homem do povo e, ao ver o gesto de Pêro da Covilhã, refreia a montada e vai colocar-se discretamente atrás de um grupo de mercadores, ocultando-se da vista do português.

– Que foi? – pergunta Pêro Afonso, alertado pela interrupção e pelo seu movimento. – Passa-se alguma cousa?

– Não olhes para trás, mas creio que nos vêm a seguir desde a porta das muralhas.

– Mau! Quem será? – quer saber o alveitar já assustado. – Quem o terá mandado? Porque nos segue?

– Poderá vir a mando do Cádi da guarda das portas da medina, para ver se somos espiões. Não te assustes, homem, que vem muito longe para nos poder ouvir e hoje não faremos nada de suspeito! – ri o Escudeiro a fim de o sossegar e esconder a sua preocupação. – O Cádi pode não ter acreditado quando lhe disse que vinha comprar cavalos ou talvez o poderoso Cheikh Mulay Belagegi tenha caído em desgraça e o oficial enviou alguém atrás de nós para nos ter debaixo de olho.

Mas, sem o confessar, Pêro da Covilhã receia que o Cádi tenha recebido alguma denúncia ou desconfiado da sua identidade e queira certificar-se de que o estranho mercador não vem em espionação ao serviço de D. João II. Precisará de ter muito cuidado quando visitar Belagegi, se quiser volver vivo a Lisboa.

– Ora como te ia dizendo – e o Escudeiro retoma o fio do seu conto como se nada se tivesse passado –, formaram-se dois bandos em Sevilha, o do duque D. Henrique de Medina Sidónia e o do Conde D. Rodrigo Ponce de Leon, já com o título de Marquês de Cádiz e decretou-se caça aberta ao inimigo. Ninguém, das duas casas, podia sair à rua só ou desarmado, se não queria perder a vida e os restantes habitantes de Sevilha andavam desesperados, com o terror de serem apanhados na confusão dos duelos e das batalhas de rua.

– Mas como foi essa batalha de cinco dias, de que falastes inda há pouco – insiste Pêro Afonso, cheio de curiosidade, já quase esquecido do seu medo.

– Foi causada por uma história de amor e quase acabou em tragédia...

– Uma história de amor?! – espanta-se o alveitar sempre desejoso de ouvir contar  escândalos de gente nobre e rica. – Contai prestes!

– Um dia, o irmão mais novo do duque, D. João de Guzman, viu num baile da Corte a formosíssima D. Joana, filha de D. Rodrigo e ficou perdido de amores. Apesar da presença dos familiares da donzela, que nada podiam fazer contra ele por se encontrarem no Palácio Real onde qualquer distúrbio seria punido com a morte, D. João logrou dançar com a gentil menina e conquistar o seu coração, pois era um moço bem apessoado, valente e bom poeta.

– Fez-lhe logo ali um cantar de amor, ‘tá-se mesmo a ver e a mocinha caiu que nem um anjinho! – ri Pêro Afonso, regalado com a história.

– Foi mais ou menos isso. Mas ele ficou mesmo doudo pela formosa Joana, a ponto de arriscar a vida por ela, pois os Ponce de Leon consideraram-se agravados e juraram tirar vingança. A menina passou a ser mais guardada do que um tesouro, todavia D. João sempre arranjava maneira de a ver e de lhe fazer chegar às mãos as cartas e os recados. Mas por ora chega de histórias, Pêro Afonso, paremos naquela fonte que tenho a boca seca e estou cheio de sede.

Pero da Covilhã pára o cavalo junto de um chafariz, logo imitado pelo companheiro, um pouco contrariado pela interrupção da história de amor e dor de D. João e D. Joana. Os arcos e as paredes da fonte, cobertos de relevos e arabescos de terracota e de um complicado desenho de pequenos mosaicos azuis (a cor de Fez) e verdes (a cor do Islão), faíscam sob o sol incandescente de África.

Inúmeros guerrab ou aguadeiros, fazendo tilintar as taças que lhes pendem de um fio ao pescoço, enchem os odres de pele de cabra com a fresca água da nascente para a irem vender por toda a medina. O Escudeiro acha-os parecidos com os bobos das cortes europeias, nas vestes vermelhas, nos chapéus de bico e no som tilintante das taças de latão.

Os cavalos bebem da enorme bacia de pedra, lado a lado com dromedários, camelos e jumentos e os dois homens matam a sede nas frescas bicas de água cristalina que, no calor do fim da manhã, lhes sabe a uma verdadeira dádiva de Deus.

Um vendedor ambulante oferece-lhes tâmaras frescas, com a escura pele a rasgar-se de madura mostrando uma polpa suculenta, doce como mel. Pêro da Covilhã compra uma dúzia de frutos, depois de muito regatear com o beduíno que lhe pede três vezes mais do que o preço justo.

Enquanto comem, o Escudeiro disfarçadamente tenta descobrir o seu perseguidor entre a multidão apressada, mas o homem não se mostra em parte alguma. O olhar do português detém-se, por vezes, numa figura de mulher envolta nos largos panos que lhe escondem as formas do corpo das miradas cobiçosas dos homens; um pesado véu oculta-lhe o rosto, deixando apenas uma abertura para os negros olhos, cujo mistério é acentuado pelas sombras negras de kohl[12], as mãos e os pés que as sandálias deixam à mostra exibem um harmonioso desenho pintado no tom castanho-avermelhado da hena[13].

Covilhã olha a pequena praça em volta e sabe exactamente onde se encontra, embora nunca antes deste momento tenha pisado o solo de Fez. Em Lisboa, os agentes d’el-Rei D. João II tinham-lhe mostrado um mapa da cidade e a sua memória prodigiosa fixara todas as linhas, recantos e nomes de lugares, bem como a sua história e até partes do Corão ou el-Qur’an, para o caso de vir a ser necessário. Até aqui conseguira orientar-se muito bem pelo labirinto de ruas, mas à medida que forem avançando para o coração da medina velha, elas tornar-se-ão cada vez mais estreitas, sombrias e... iguais.

Acabadas as tâmaras, os dois homens montam de novo e retomam o seu caminho para o funduq. Pêro Afonso diz de imediato:

– Que sucedeu atão a D. João e D. Joana, Pêro da Covilhã? Cheira-me a qu’ o melhor da história inda está p’ra vir...

– Assi é, meu amigo – diz o Escudeiro, retomando a narrativa. – Uma noite, morrendo de saudades da sua amada que os pais mantinham encerrada em casa há algumas semanas, D. João, que me honrava com a sua amizade e preferência como companheiro de aventuras, confidenciou-me que nessa noite iria fazer uma visita a D. Joana, no próprio palácio dos Ponce de Leon.

– Mas isso era morte certa, uma verdadeira loucura!

– Isso mesmo lhe disse eu, mas o meu enamorado amo não atendia à razão. “Não podeis ir sem uma guarda” lembrei-lhe, mas a sua resposta foi que não ia a um encontro de amor com uma quantidade de rufiões e brigões à sua volta, pois a menina até podia morrer de medo.

– Nesse ponto tinha razão...

– Lá ter, tinha, mas eu era amigo dele e não o podia deixar ir assim sozinho, ao encontro da morte. Por isso disse-lhe: “Eu vou convosco, D. João e se me recusais irei avisar vosso irmão D. Henrique! Pelo muito que vos quero não vos posso deixar ir só a meter-vos na boca do lobo”. Ele viu que eu falava a sério e não teve outro remédio senão aceitar o meu oferecimento.

– Fostes os dois sozinhos?! – espanta-se o alveitar. – Que acaeceu[14], nessa noite? Fostes descobertos?

– Espera, homem, não queiras saber tudo antes do tempo! Nessa noite, embuçámo-nos ambos com umas capas longas e pretas, sombreiros largos também negros e máscaras a cobrir-nos os rostos e saímos furtivamente do palácio, percorrendo as ruas de Sevilha desertas e escuras, cosendo-nos contra as paredes das casas, até chegarmos ao muro dos jardins dos Ponce de Leon que escalámos silenciosamente, saltando lá para dentro sem novidade.

– Mas como podia D. Joana saber que ele ia lá vê-la?

– O Amor é industrioso e capaz de todos os milagres... e o dinheiro também ajuda muito – ri Pêro da Covilhã, maliciosamente. – D. João pagava a peso de ouro os serviços de uma escrava moura de D. Joana e a serva levava e trazia no maior segredo as cartas e as mensagens dos dois amantes. Assim, a filha do orgulhoso D. Rodrigo sabia da perigosa incursão do seu apaixonado e trataria de se escapar do quarto e ir ter com ele ao jardim para o seu primeiro encontro a sós.

– As mulheres, mesmo as mais mocinhas e discretas, sabem ser fingidas e valentes quando sofrem de amor! – exclama Pêro Afonso, cheio de admiração. – Ela já lá estava quando vós chegastes?

– Já e foi comovedor ver o amor que sentiam um pelo outro e a paixão[15] de não poderem amar-se livremente e casar por causa do ódio entre as suas famílias. Afastei-me discretamente, deixando-os a trocar juras e promessas de amor eterno, entre doces carícias e pus-me a vigiar as entradas do palácio, não fosse o diabo tecê-las e sermos apanhados de surpresa.

– E que se passou em seguida? Dizei, por Deus!

– Tem paciência, homem, mal me deixas respirar! Se é isso que queres saber, o pior acaeceu. Ouvimos gritos de “Às armas!” e “Traição!” dentro de casa, luzes de archotes movendo-se por trás das janelas e homens saíram a correr por todas as portas, de espadas e punhais em riste.

– Havíeis sido descobertos!

– Sim, alguém nos tinha atraiçoado! Gritei para D. João: “Temos de fugir, senhor, são muitos, não lhes poderemos fazer frente!” Ele não queria deixar D. Joana sozinha, mas a menina disse-lhe: “Salvai-vos, por amor de mim, D. João! Se algo vos acontecer, eu acabarei com a minha vida!” D. Joana mostrava uma tal força de ânimo que o meu amo não ousou desobedecer e, dando-lhe um último beijo, voltou a colocar a máscara e pôs-se a correr a meu lado. Saltámos o muro enquanto o diabo esfregou um olho.

– E os vossos perseguidores? Abandonaram a perseguição?

– Isso é que era bom! Quatro saltaram também o muro atrás de nós e um bando de oito ou dez valentaços, vindos do palácio, corriam já rua acima. Os quatro primeiros aproximavam-se perigosamente e eu não queria que D. João fosse reconhecido pois, para além de poder ser assassinado, o escândalo causado pela sua aventura daria cabo da honra da sua nobre família.

– E lograram apanhar-vos?

– Sempre a correr, metemos por uma ruela estreita e sombria, ouvindo os passos dos nossos perseguidores cada vez mais cerca e então eu, que era muito mais veloz na carreira, disse-lhe para trocarmos os sombreiros, pois o dele mostrava bem ser de pessoa de qualidade e obriguei-o a saltar o muro de uma casa que lhe permitiria sair do outro lado da rua, já nos muros do palácio dos Medina Sidónia. E pus-me de novo em fuga, procurando iludir os nossos perseguidores, fazendo-os crer que corriam atrás do fidalgo inimigo e não de um simples moço de esporas.

– Mas, sozinho, inda tínheis menos ocasião de escapar! – escandaliza-se Pêro Afonso. – Como é que ele vos abandonou?

– Ele ia buscar reforços, de contrário nenhum de nós lograria escapar...

Nesse instante, por sobre os terraços brancos das casas da medina ecoa a canção lamentosa do muezzin, o imã muçulmano, lançada do alto minarete da mesquita próxima, convidando os crentes à oração do meio-dia, logo respondida e prolongada pelas vozes de outros muezzin nos restantes almenares, as torres das inúmeras mesquitas que tornam Fez conhecida como a “Cidade do Islão”.

À volta dos dois portugueses, a vida parece parar no tempo, um silêncio recolhido desce de súbito sobre a rua e todos os que não vêm a pé desmontam e imobilizam as suas montadas junto aos muros das casas. Tomando os delicados tapetes de oração, estendem-nos no solo, para se isolarem do mundo no seu convívio com Allah e homens, mulheres e crianças, sem distinção de classe ou tribo, virando-se na direcção de Meca, ajoelham sobre os coloridos rectângulos de lã ou seda, tocando o solo com a testa, pronunciam as suas orações com a mais profunda devoção e reverência.

Covilhã retira dos alforges do seu cavalo dois pequenos tapetes que estende no solo poeirento, tal como vê fazer à sua volta. Aproveita para dar uma rápida mirada em redor, mas não vê rasto do fassi[16] do cavalo cinzento. Ter-se-ia enganado e não estariam a ser seguidos? Ou o espião, sentindo a sua desconfiança, desistira de o seguir nas ruas cada vez mais estreitas e escuras da medina?

Fazendo um discreto mas imperioso sinal ao alveitar para que o imite, o Escudeiro ajoelha e reza virado para Meca, embora o faça não a Allah mas ao Deus dos Cristãos. “Será que são distintos?” pensa, “Não serão apenas dois nomes diferentes para nomear o mesmo Deus, uno e verdadeiro?

Os mouros parecem-lhe até mais devotos, caridosos e tolerantes do que os Cristãos. Rezam cinco vezes por dia, sabem recitar o Corão, o seu livro sagrado, praticam a Zaká, a esmola colectiva fazendo muitas obras piedosas – os ricos construindo mesquitas, madrasas, fontes, funduqs e caravanserai para os viajantes e peregrinos –, respeitando e protegendo os pobres, os doentes e os aleijados. Não será, pois, uma arrogância dos Cristãos chamar infiéis a esta gente? Porém, o inverso também é verdade, os muçulmanos chamam infiéis aos Cristãos, dizendo que só Allah é o Deus Verdadeiro. Assim, desde sempre, se odiavam e matavam Cristãos e Muçulmanos!

Acabada a oração, a algaraviada volta à rua, os tapetes são de novo enrolados, os animais recebem nos seus dorsos os donos apressados e todos prosseguem o seu caminho. Os dois portugueses montam também e o Escudeiro diz ao alveitar:

 – Se não quisermos atrair atenções indesejadas ou levantar suspeitas, Pêro Afonso, temos de fazer como os naturais da terra, custe o que custar.

– Mas, rezar a Allah, como um perro infiel, é demais! – protesta o companheiro.

Pêro da Covilhã sorri, vendo confirmadas as suas dúvidas de há pouco, assim reagia o bom povo cristão a um acto de sincera devoção a Deus, apenas por este ter um nome diferente. O Escudeiro acha melhor calar as suas censuras e prosseguir a história interrompida:

– Queres ouvir o resto da minha aventura?

– Oh, sim! – exclama Pêro Afonso desanuviando o rosto com um largo sorriso. – Havíeis quedado só com quatro perseguidores...

– Eu acreditava muito na força das minhas pernas e dos meus músculos, porém, de noite e no aceso da corrida, enganei-me e enfiei-me num estreito beco sem saída. Assim não tive outro remédio senão fazer frente aos quatro quadrilheiros dos Ponce de Leon.

– E os oito ou dez valentaços do bando, que foi feito deles?

– Tinham-nos perdido o rasto, pois estávamos na parte velha da cidade que é também um labirinto quase igual a este de Fez e levávamos um bom avanço.

– Ficastes, atão, encurralado no beco?

– Sim e a minha sorte foi ser o beco tão estreito que não deixava passar mais de um homem de cada vez e desse modo eu podia enfrentá-los um a um, com a espada e o punhal.

– E como vos saístes?

– Nessa época eu tinha sangue na guelra e o ânimo sempre pronto para a luta e, no serviço dos Medina Sidónia, havia-me tornado num temível espadachim com poucos adversários à minha altura, muito menos aqueles pobres escudeiros e assalariados de D. Rodrigo. Em menos de meia hora estavam os quatro por terra, a gemer encharcados no seu próprio sangue e eu pus-me a andar dali para fora.

– E como acabou a história? – o alveitar impacienta-se sempre que o companheiro faz uma pausa no relato da sua aventura.

– Mal saíra da estreita ruela, ouvi de novo passos e correrias e quando me preparava para fugir do bando de inimigos, que por certo tinham voltado para trás em nossa busca, ouvi a voz de D. João a gritar por mim.

– Sempre trouxera reforços...

– E festejaram ruidosamente a minha façanha. Eram seis mocetões, quase todos parentes de D. João e logo nos tornámos de perseguidos em perseguidores, dando caça ao bando dos Ponce de Léon. Quando os apanhámos, as ruas de Sevilha tornaram-se num verdadeiro campo de batalha durante cinco dias e cinco noites.

– E quem saiu vencedor?

– Naquela primeira noite fomos nós, ferindo e matando alguns dos adversários e pondo os restantes em fuga, saltando muros e perseguindo-os mesmo nos pátios e jardins das casas da boa gente andaluza que nada tinha a ver com aquelas lutas da fidalguia.

– Por isso ninguém s’atrevia a sair de casa! E como acabou tudo?

– Depois, nos dias seguintes, foi tanta a violência, as mortes, os incêndios e as destruições que o próprio Rei foi forçado a intervir para acabar com a desordem, ameaçando exilar as duas famílias ao primeiro desacato provocado por qualquer dos seus familiares ou criados.

– E D. João e Dona Joana, que foi feito deles e dos seus amores?

– Dona Joana foi metida num convento, por se ter recusado a casar com um primo que a família lhe destinara para marido e D. João foi enviado numa das campanhas militares aqui em África. Mas antes passou por Portugal para me entregar como moço de esporas, com muitas recomendações e louvores pela minha valentia, a el-Rei D. Afonso V que pouco tempo depois me fez seu escudeiro de armas e cavalo, tornando-me companheiro fiel de todas as suas batalhas e aventuras de cavaleiro andante na defesa da Beltraneja e dos seus direitos ao trono de Castela, contra Isabel a Católica. Mas isso já é outra história.

– Então estivestes na grande batalha de Toro contra os castelhanos? – o alveitar abre os olhos de espanto.

– Sim, no ano de 1476. E também andei com D. Afonso V por França em busca de aliados, mas o rei francês traiu-o. Depois da sua morte, fiquei ao serviço do Príncipe Perfeito, D. João II, e participei na tomada de Azamor nos começos deste ano.

– Ah, por isso conheceis tão bem estes lugares e agis como se fosseis alarve! Sois um verdadeiro homem das Arábias!

– É verdade que gosto destas terras, sei viver no meio desta gente e continuo a ter prazer na aventura e no desconhecido. Mas agora basta de conversa que chegámos ao funduq e já não era sem tempo.

Uma espaçosa praça rasgava-se ante os seus olhos com o edifício branco de dois andares do funduq a dominar o espaço, os grandes portais de cedro lavrados, abertos de par em par para receber gratuitamente os hóspedes e os animais cansados de uma longa jornada através de montanhas e desertos.

No canto oposto, uma formosa fonte revestida de mosaicos de faiança esmaltada convidava a tomar um gole de água fresca e límpida ou a fazer as abluções rituais antes da oração a Allah. Por trás, serpenteava a rua íngreme, estreita e poeirenta do çuq dos nejjarine, o bairro dos marceneiros, que esculpem as sábias palavras do Al-Corão em belos painéis de cedro, libertando a alma da madeira preciosa num cântico de louvor a Allah e a Muhammad, o seu profeta, criando às portas das suas casas eternas dunas douradas de serradura que nem o vento do deserto logra dispersar.

Os dois cavaleiros desmontam à entrada do funduq e penetram no pátio quadrado, limitado todo em volta por elegantes arcadas que abrigam as cavalariças para as montadas dos hóspedes; no centro do pátio, uma graciosa fonte faz ouvir a sua canção de frescura e boas-vindas.

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– Que bela pousada! – murmura Pêro Afonso, admirado. – E não se paga nada?

– Não, que esta é obra piedosa ou promessa feita por gente rica. É costume dar-se uma esmola, à partida, para ajuda de viajantes ou peregrinos menos afortunados. Mas, agora, lembra-te que junto dos mouros não deves falar português.

 – Não me esqueço de que sou surdo-mudo, ficai descansado.

Os dois homens vão prender as montadas num dos nichos sob as arcadas, entre outros animais que mastigam a comida lançada por um escravo nas manjedouras e os recém-chegados não tardam a receber o seu penso. Antes de se retirar, o alveitar observa-os cuidadosamente, apalpando-lhes as pernas e afagando-lhes o pescoço, verificando os cascos e as ferraduras, procurando alguma maleita causada pela aspereza dos caminhos ou ferida de arreios ou de carga.

– Estão de perfeita saúde, graças a Deus! – diz satisfeito. – São uns belos animais.

O escravo olha-o espantado, deixando cair a alcofa das favas e Pêro Afonso apercebe-se, com terror, de ter falado alto e em português! Antes de Pêro da Covilhã poder intervir, o homem diz com os olhos a brilhar de emoção:

– Sois portugueses? Deus seja louvado! Mas falai baixo para que nenhum dos infiéis vos ouça.

– E tu, quem és? – pergunta o Escudeiro, com um suspiro de alívio. – Como vieste parar aqui?

– Sou Joaquim Alves, de Leiria. Fui feito cativo em Arzila e ninguém pagou resgate por mim. Mas tive sorte, no meio da minha desgraça, pois fui posto ao serviço deste funduq e toda a gente me trata bem. E vós, como vos arriscais em Fez? O Califa Said-el-Uttaci não perde ocasião de atraiçoar os portugueses e de os matar, sempre em segredo para não romper as tréguas com Portugal. – Vendo alguma hesitação em Pêro da Covilhã, o cativo acrescentou com altivez: – Tendes razão! Os mouros têm um ditado que diz “A segurança de um homem está em conter a sua língua”, mas podeis confiar em mim, eu sou português!

O homem parece digno de confiança e embora o escudeiro não esteja disposto a revelar a sua missão seja a quem for, pois nem mesmo o alveitar sabe verdadeiramente ao que vem, resolve abrir um pouco o seu jogo, na mira de fazer do cativo Joaquim Alves um aliado.

– Fui encarregue por el-Rei D. João II de entregar umas cartas a Mulay Belagegi que se encontra neste momento em Fez e é amigo dos portugueses. E devo colher todas as informações possíveis acerca das intenções do Califa sobre as praças portuguesas de Benamarim, pois receamos traição.

– Isso não me espanta – confirma Joaquim –, pois tem havido grande movimento de mercenários e alistamentos no exército como se preparassem uma nova campanha militar. Podeis obter muitas informações no hammam, os banhos públicos onde essa gente se encontra nas horas de descanso ao fim da tarde e em grupo costumam soltar a língua. E podeis sempre contar comigo para o que quiserdes.

– Muito te agradeço a ajuda e já agora, se puderes, vê se anda por aí a rondar um fassi de gellaba às riscas verdes, com um cavalo cinzento. Se o vires, procura saber quem ele é, pois parece ter-nos seguido a mando do Cádi das muralhas.

– Contai comigo. Entretanto ide lá para cima descansar da viagem, que eu vos levarei comida.

– Bem hajas, amigo – diz Pêro da Covilhã, reconhecido ao bom homem pela preciosa ajuda. – Na verdade precisamos de repouso pois a viajem foi longa e dura.

– Subi, então, meus senhores e eu não tardarei a ocupar-me de vós.

Os dois companheiros sobem as escadas de pedra que levam às arcadas superiores e às salas onde os hóspedes podem comer e repousar.

– Toma tento na língua, surdo-mudo, não te descuides outra vez – recomenda Pêro da Covilhã, com severidade, antes de entrar na sala e saudar os presentes: – ‘As-salâmu calaykum[17].

Calaykumu s-salâm[18]. – responde-lhe um coro de sorridentes boas-vindas, dadas pelos cerca de trinta hóspedes sentados em cómodos almofadões sobre os coloridos tapetes no chão ladrilhado do grande salão do funduq, a conversar animadamente em pequenos grupos, enquanto bebem a verde infusão de naanaa, o chá de menta, acompanhando os saborosos folhados com recheio de carne picada, assim como os dulcíssimos bolinhos de amêndoa e pastéis de mel, dispostos em mesas baixas de madeira ou metal delicadamente lavrado. 

Al-hámdu li-lâh[19] – conclui o Escudeiro, levando a mão ao peito e à testa numa saudação respeitosa, enquanto procura entre as arcadas um recanto mais discreto e sossegado para si e para o seu companheiro.



[1] Homem que trata de cavalos.

[2] Maomé.

[3] Marrocos.

[4]Magistrado judicial que julgava os delitos e crimes, como roubo e assalto, e condenava a penas que podiam ir de simples repreensões a vergastadas, mutilações (roubo) ou pena de morte (assalto, adultério da mulher).

[5] Depressa! Depressa! Vá, em frente!

[6] Cuidado! Devagar!

[7] Vá-se embora! Desapareça!

[8] Siga em frente. Adeus.

[9] Obrigado.

[10] Adeus.

[11] Funduqs e caravanserai eram albergues, pousadas gratuitas para os viajantes e suas caravanas, quer nas cidades quer nos desertos, mandados construir por gente rica e piedosa.

[12] Substância negra para sombrear as sobrancelhas e os olhos.

[13] Substancia corante extraída das folhas de um arbusto.

[14] Acaecer – suceder, acontecer.

[15] Nos Séculos XV e XVI, e ainda recentemente nas pessoas mais velhas do campo, paixão significava dor, tristeza.

[16] Habitante de Fas (Fez).

[17] Olá! A paz seja convosco.

[18] Viva! Que a paz seja contigo também

[19] “Graças a Deus”. Saudações de cortesia.



publicado por umhomemdasarabias às 14:24
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Cap. II - O Espião

 

Covilhã  descera com o alveitar até aos estábulos, a fim de falar com Joaquim Alves a sós pois, neste início de tarde, o calor era muito e poucos viajantes hospedados no funduq recusaram uma sesta reparadora do cansaço da viagem, após a boa refeição que fora servida e eles tinham partilhado. Haviam-lhes dado sopa e khubz, uma espécie de pão espalmado, da região; um suculento guisado de peixe, seguido de ghameh – estômago de carneiro recheado que lembrara ao Escudeiro os maranhos[20] da sua Covilhã – euma salada cor de vinho tinto feita de beringelas, como outrora havia comido em Sevilha e de que muito gostava.

E como não podia deixar de ser comeram também couscous bedawi, o manjar indispensável dos fassis e de quase todos os árabes e berberes do norte de África. Os escravos do funduq dispuseram nas mesas baixas, diante dos hóspedes sentados nos grandes almofadões, as travessas com a montanha cónica de couscous, dourada pelo açafrão e cujo cimo se abria como uma cratera onde repousava um quente e saboroso guisado de borrego, cujo molho impregnava a massa dos pequenos grãos secos e soltos de semolina.

Com três dedos da mão direita, os comensais serviam-se directamente do enorme prato, formando pequenas bolas de couscous que lançavam para dentro da boca. Pêro da Covilhã imitou-os, porém o alveitar serviu-se da colher de pau para comer, apesar dos olhares imperiosos e agastados do Escudeiro que todavia sossegou ao ver outros hóspedes fazerem o mesmo.

Terminaram a refeição com um pudim de arroz de fazer crescer a água na boca, mesmo a quem já atingiu a chban – a saciedade dos estômagos satisfeitos –, acompanhando tudo com o delicioso chá de menta. Então, os hóspedes dirigiram-se às graciosas fontes de mosaico onde lavaram as mãos, os lábios e a boca, murmurando a bsmillah, uma prece de bênçãos a Allah, recolhendo-se, em seguida, para a sesta e os dois portugueses desceram às cavalariças.

– Será melhor que te quedes aqui com o Joaquim, junto dos cavalos – diz o Escudeiro a Pêro Afonso, ao ver acercar-se o escravo cristão. – Ele pode evitar-te os embaraços de uma prática com os outros hóspedes e te dirá o que tens a fazer para não os escandalizar.

– Quedai descansado, pois nada farei que nos atraiçoe. Já me sinto mais à minha guisa no meu papel de surdo-mudo!

– Deus o queira, Pêro Afonso, mas temo os teus rompantes de raiva contra os mouros. Não te esqueças de que, enquanto estivermos em terras de muçulmanos, teremos de fazer como eles... incluindo rezar sobre um tapete virados para Meca!

Aproximam-se das suas montadas, como para verificar se haviam sido bem cuidadas e Joaquim Alves informa-os:

– Senhor Escudeiro, tínheis razão quanto ao homem que vos seguia. Anda a rondar a praça e o funduq. Ouvi dizer que é Habeeb el-Majdoubi, um dos melhores espiões ao serviço do Grão-Vizir, o poderoso Hassan ben Abdallah. Cuidado com ele, meu senhor, é um homem mui perigoso!

– Alguém deve ter dado com a língua nos dentes, pois parece que estavam à minha espera... ou então eu mesmo me denunciei ao falar em Mulay Belagegi.

– O cádi da porta de Sebaa tem instruções para alertar el-Majdoubi – concorda o cativo português – sempre que desconfiar de alguém ou de alguma coisa, sobretudo se se tratar de portugueses.

– Há alguma saída para as ruas do aduat[21], por trás do funduq?

– Sim, no dormitório dos escravos, uma cela nos fundos, por onde podemos sair para a casa doMuhtasib.

Pêro da Covilhã responde à muda interrogação do alveitar:

– O oficial com o cargo da hista, de promover o bem e proibir o mal, o que inclui vigiar os mercados e mercadores e fazer respeitar os tratos. – E, de novo, para Joaquim Alves: – Consegues fazer-me sair daqui sem o espião ver?

O cativo espreita por entre o rendilhado de pedra da janela do estábulo e diz:

– Sim, olhai-o ali na fonte, meio escondido pelas arcadas. – Os dois homens espreitam também e vêem por trás de um dos arcos agitar-se o tecido de riscas verdes e brancas de uma gellaba. – E o cavalo não deve estar longe...

– Mostra-te à entrada, Pêro Afonso, para ele pensar que ainda aqui estamos, enquanto eu vou tentar sair pelos fundos, sorrateiramente e sem levar o cavalo, para poder passar despercebido. Não te inquietes se eu chegar tarde, pois tenho muito para ver e fazer.

– Tende cautela, por mor de Deus. E se vos acaecer alguma desgraça? – a voz do alveitar soa um pouco trémula. – Que farei?

– Deixo-te dinheiro e Joaquim Alves, como conhece muita gente, talvez te possa ajudar a volver a qualquer das praças portuguesas, caso algo me aconteça.

– Assim será feito, meu senhor – responde o escravo português. – Juro-o pela minha vida!

– Mas não temais, minha gente, pois já me tenho metido em lugares e trabalhos muito mais perigosos e duros que este e sempre escapei com vida. Antes de anoitecer cá me tereis de novo.

Pêro Afonso toma uns arreios do cavalo, como se se preparasse para os concertar e vai sentar-se num mocho[22], junto da entrada onde pode ser visto por quem está na praça, enquanto Joaquim conduz discretamente Pêro da Covilhã até às traseiras da pousada, abrindo-lhe uma pequena porta de acesso ao pátio.

– O portão, lá ao fundo, dá para as últimas ruas do çuq dos marceneiros e logo entrareis no da hena e vereis a Madrasa de Attarine e os minaretes da mesquita de Qarawiyyîn. O hammam, por trás da mesquita, é o melhor  lugar para se saber novas e segredos. Ide com Deus.

Covilhã agradece ao cativo, atravessa o pátio, abre o portão e espreita para fora. A rua é estreita, com lojas onde alguns artesãos esculpem na madeira de cedro delicados arabescos. O Escudeiro aproveita a passagem de dois burros carregados de mercadorias e montados pelos donos a gritar num aviso “Balek! Balek![23]” e esgueira-se para fora do funduq, penetrando no labirinto de escadinhas, túneis, becos, áleas e ruas de seixos redondos e polidos.

O espião de D. João II relembra, com a sua espantosa memória, as informações que em Lisboa lhe tinham fornecido sobre Fez, a cidade santa do Norte de África, com mais de 785 mesquitas, 80 fontes e chafarizes, 93 banhos públicos, 472 moinhos para transportar a água a todos os lugares da medina, 477 funduq, 4.022 lojas, 3.064 fábricas, 117 lavadouros públicos, 86 oficinas de curtumes,116 tinturarias e 100.000 casas – enfim, uma cidade maior que muitas capitais europeias, incluindo Lisboa.

Tem prazer em percorrer os çuq da medina, cada um abrigando uma corporação diferente de artesãos, controlada por um Mohtasseb, espalhando-se por ruelas tão estreitas que, se estender os braços, tocará com as mãos nas casas de ambos os lados. Casas de dois andares, todas muito simples e iguais (o Corão censura a exibição ante os vizinhos de sinais exteriores de luxo e riqueza), de paredes brancas e quase sem janelas, portas de madeira com puxadores de ferro, latão ou bronze em forma de uma mão, evocando os cinco dedos de Fatima, a filha do Profeta, para afastar o mau olhado. Sente o delicioso aroma de pão quente que se evola dos cestos trazidos à cabeça por crianças cruzando-se com outras crianças e os seus tabuleiros de pão ainda em massa  para cozer no forno público.

Passa diante da Zaouya de Mulay Idriss II, o filho do fundador de Fez e considerado santo depois de terem descoberto o túmulo com o seu corpo incorrupto. Esta mesquita é um lugar de culto visitado por peregrinos de todo o mundo muçulmano, como pode ver pela multidão em cortejo diante das lindíssimas portas de arcos ornamentados e pintados do túmulo.

Em seguida, o Escudeiro entra no çuq dos perfumes e da hena, de ruelas ainda mais estreitas e lojas semelhantes a antros de alquimistas, com passagens cobertas e sombrias e becos escuros e sem saída, ideais para uma emboscada.

O calor acentua o odor que se escapa dos frasquinhos e potes de misteriosas essências e desvairadas cores, perfumes doces ou pungentes para entorpecer os sentidos, troços de pedra-pomes e barras de ghasoul – um preparado de pedra moída e essência de rosas para lavar os cabelos e os tornar brilhantes e macios como fios de seda; graciosas caixinhas de cana com pequenos tubos de prata ou ferro para o kohl em pó ou líquido, a fim de fazer dos olhos negros e profundos das donas e donzelas um abismo de desejos e promessas; e, sobretudo hena, de todas as espécies e em todas as suas formas, para dar um tom de fogo às negras cabeleiras e desenhar no corpo os subtis arabescos que afastam o mau olhado e os ataques dos djinn[24].

Em vez de telhados os edifícios têm, como nas casas do Algarve (ou não tivesse sido Al-Garb, O Poente, uma terra de mouros), terraços quadrados e muito juntos, sem uma falha, permitindo percorrer por cima deles Fas al-Bali de uma ponta a outra: “Uma boa via para uma fuga precipitada, em caso de perigo!” pensa, sorrindo divertidoao imaginar-se a saltar de terraço em terraço, perseguido por uma meia dúzia de soldados ou aguazis do Grão-Vizir ben Abdallah. “De igual modo se pode seguir, sem se ser visto, alguém que caminhe pelas ruas da medina” diz-lhe o instinto sempre alerta. Sente de novo, com um calafrio na espinha, que olhos invisíveis o espreitam mas não vê ninguém nem capta qualquer movimento suspeito nos çuq. “Deve ser a fadiga da viagem e o desassossego causado pela missão que me fazem imaginar perigos que não existem” acrescenta, sacudindo a cabeça, para desanuviar os pensamentos.

Concentra  a sua atenção no que o rodeia, o movimento azafamado das gentes, os ralhos, as discussões e os regateios sem fim a repetirem-se com as mesmas palavras de sons aspirados e agudos, entre os vendedores e as clientes, ao longo de todas as ruas como se de um só negócio se tratasse:

– Para a tua senhora, só deves levar do melhor... E não há melhor hena do que esta!

 – És um mentiroso sem vergonha, Ali! A tua hena é velha como a tua avó e vai dar uma cor de ferrugem aos cabelos da minha ama.

– Porque me ofendes, mulher resmungona? Os meus produtos são superiores a todos os outros do çuq! Se encontrares melhor, devolvo-te o dinheiro. Por dois dinares...

– Dois dinares?! – a voz da mulher torna-se um grito escandalizado: – Deviam cortar-te a mão direita, Ali, como a um ladrão, pois é o que me estás a fazer, a roubar a minha bolsa! Tudo isso não vale nem meio dinar e tu ousas pedir dois?!

– Allah é testemunha da minha honestidade, mulher de língua afiada! Por amizade, vendo-te mais barato e ainda me insultas? Por ser para ti, um dinar e meio... e perco dinheiro!

– Dou-te um dinar e é um roubo, mas já não posso perder mais tempo no çuq...

Pêro da Covilhã sabe que o regateio ainda vai levar muito tempo até ao acordo e à compra. Percorrem as tendas e os quiosques dos vendedores, muitas mulheres veladas pelo beskir, um pedaço de tecido leve enrolado em volta do rosto e preso na nuca por um nó, deixando apenas os olhos descobertos, trajando a derbal – uma  camisa branca até aos pés ou até aos joelhos sobre calças tufadas apertadas nos tornozelos –, envoltas ainda nos longos haik, os panos coloridos ou bordados que lhes escondem todas as formas e, aos olhos do português, as tornam semelhantes a grossos sacos de mercadorias.

O Escudeiro sabe também que, nos çuq, os véus não escondem mouras encantadas ou princesas de misteriosa beleza, mas apenas escravas, criadas e mulheres velhas, pois a nenhuma dona ou donzela árabe com menos de 40 anos, solteira ou casada, é permitido andar pelas ruas sem a companhia do pai, irmão ou marido. Quando uma mulher viaja, vai sempre numa liteira forrada de panos e cortinados, aos ombros de escravos ou numa carroça coberta, escondida dos olhos do mundo.

Já no mercado de escravos, à saída do çuq dos perfumes, o trato é outro. O Escudeiro pára junto ao funduq dos mercadores para observar uma carga de peças[25]acabada de chegar. Homens, mulheres e crianças trajados como cristãos, presos uns aos outros numa longa fila e escoltados por traficantes armados são empurrados como gado para o pátio coberto do armazém. As mulheres cobrem-se com panos longos, tentando tapar o rosto por ordem dos seus captores e seguem-nos cabisbaixas, com os olhos cheios de lágrimas, soluçando ou gemendo baixinho como se já não tivessem forças para gritar.

Os mercadores do funduq começamimediatamente a separar os homens das mulheres e a distribui-los por grupos, levando os homens para a parte baixa do armazém onde há celas próprias para os guardar até ao leilão, o que logo dá causa a muitos gritos e choros das mulheres que correm a agarrar-se aos filhos e aos maridos ou se lançam contra os guardas, em desespero, tentando feri-los:

– Manuel, não me deixes!

– Por que me não tiraste a vida, João Afonso? Não sabes o que me espera?

– Virgem Maria, amerceia-te de nós!

– Larga o meu filho, perro infiel, que te arranco os olhos!

– Por Deus, não me leves  meu marido! – e a mulher lança-se aos pés do mouro para lhos beijar numa súplica.

De coração apertado e disfarçando a raiva, Pêro da Covilhã ouve as súplicas e os insultos gritados... em português! As cativas portuguesas são de novo arrastadas com violência e até mesmo com pancadas para o seu canto, onde se rojam no chão, arrancando os cabelos e ferindo o rosto com as unhas.

– Atai-lhes as mãos atrás das costas para que não se firam – ordena um dos mercadores principais. – Não podem estar cheias de cicatrizes quando forem a leilão, daqui a três dias.

Os servos dos traficantes apressam-se a obedecer e as mulheres são imobilizadas, ficando a soluçar encostadas umas às outras, afagadas e consoladas pelas moças mais novas.

Dominando as emoções, Pêro da Covilhã  acerca-se mais, a fim de ouvir os comentários:

– Foram feitos cativos pelo corsário Selim Khaldun!

– O protegido do Grão-Vizir?! – o homem ri com malícia, ao mencionar o jogo ganancioso do mais alto oficial do Califa de Fez, que recebe parte do lucro das pilhagens dos corsários.

O Escudeiro mete-se na conversa, perguntando numa voz calma e em perfeita aravia:

– Khaldun foi fazer alguma razia às costas do Al-Garb?

As razias ou ataques de surpresa às povoações costeiras, quer de Portugal quer de Marrocos, eram prática corrente para mouros e portugueses, respectivamente, apanharem cativos, sobretudo mulheres, pilharem e porem fogo aos lugares assaltados, deixando atrás de si um campo raso.

– Não – responde-lhe o melhor informado –, ouvi dizer que foi na abordagem a um navio português.

– Sim, uma boa presa... – acrescenta outro dos mercadores, também abastado a julgar pelos trajos que veste. – Além dos cativos acharam rica mercadoria.

– E qual era o destino do barco? – Pêro da Covilhã busca saber mais pormenores, procurando não dar mostras da ansiedade que o sufoca.

– Vinha para Ceuta, transportando as mulheres e outros familiares dos usurpadores portugueses aquartelados na fortaleza. Traziam com eles jóias e objectos preciosos.

– E Khaldun ousou salteá-los?! – o Escudeiro finge admiração e um certo receio. – O nosso bem-amado Califa Mulay Said-el-Uttaci, Comendador dos Crentes e abençoado por Allah[26], assinou um tratado de paz com o Rei de Portugal, que guarda um filho seu como refém.

Apertai-lhe a mão, mas depois conferi os dedos! – o mercador ri-se ao citar o provérbio que não abona muito em favor da palavra do seu monarca, mas mostra a admiração dos comerciantes mouros por quem sabe fazer um bom trato e, melhor ainda, livrar-se de cumprir com a sua parte. – Mulay Said-el-Uttaci manda construir navios velozes para os seus corsários irem fazer razias pelas costas portuguesas e do Magrib, ocupadas pelos infiéis.

– Não sabias isso, estrangeiro? – pergunta o mais velho do grupo, com uma nota de desconfiança na voz. – De onde vens?

– De Rabat – responde Pêro da Covilhã alarmado com a desconfiança e já arrependido de ter feito tantas perguntas. – Sou Ali Moumen, um vosso criado.

– Podíamos ir ver agora as peças – propõe um outro mercador, para alívio do espião português. – Gostava de fazer uma ideia do seu valor antes do leilão.

– Sim, e combinar o preço de licitação, antes que esse ladrão do Akim nos ponha uns contra os outros e nos faça perder dinheiro.

Todos concordam e Pêro da Covilhã entra com eles no funduq, onde são imediatamente recebidos pelo gordo traficante de escravos, cheio de salamaleques e de cortesias:

– Sejam benvindos. Que a paz desça sobre vós.

– Que a pazseja contigo também.

– Akim, desejamos ver a nova mercadoria.

O tratante fala sem cessar, gabando a qualidade das peças e queixando-se do preço altíssimo exigido por Selim Khaldun, “aquele corsário ladrão que merece ser empalado, por explorar honestos comerciantes como Akim ibn Toufai, este vosso servidor!”.

– A tua honestidade é conhecida de todos nós, Akim – diz um velho mercador com ironia e, batendo-lhe ao de leve no ventre rotundo, acrescenta: – E também a tua pobreza, vê-se como passas fome...

– Ai, pobre de mim! Possa Allah compadecer-se do meu infortúnio! Isto é doença, ó próspero e afortunado Noureddin abd-al-Wazzan, das muitas ralações e misérias deste trato...

– Pois... pois... nós sabemos – o velho Wazzan, o mais rico mercador de Fez, atalha sorrindo a lamúria do traficante. – Mas, agora, mostra-nos as cativas e fala-nos de preços.

– Agora, senhores?! – protesta Akim, escandalizado e ofendido. – Mas acabam de chegar, vêm exauridas e sujas. Que aspecto podem ter, que não seja muito mau? Deixai-as passar primeiro pelo hammam, para receberem os cuidados necessários à sua condição, repousarem alguns dias e logo vereis como são peças de primeira qualidade. Dentro de dois dias, depois de amanhã, já as podereis contemplar e então falaremos.

– Akim – exclama o velho mercador com autoridade –, mostra-nos imediatamente a mercadoria ou não voltarás a fazer tratos em Fas al-Bali!

O gordo tratante não ousa recusar e, com expressão carrancuda, fá-los sentar a uma mesa onde lhes servem a quente infusão de hortelã pimenta e cestinhos de tâmaras, passas e amendoins tostados. Akim bate as palmas para que o seu gigantesco escravo eunuco venha atender os mercadores e apresentar-lhes as cativas, começando pelas mais velhas e guardando as mais moças e belas para o fim, como há muito lhe havia ensinado.

Uma a uma as mulheres são trazidas ante o grupo a debaterem-se, redobrando o choro, os protestos e as súplicas que não comovem os duros corações dos homens. Pêro da Covilhã assistira muitas vezes em Castela e em Portugal à venda de escravas, mulheres negras e mouras pilhadas durante as razias pelas costas africanas, mas ver assim, em seu lugar, donas e donzelas cristãs e portuguesas que aqueles mercadores avaliavam como se de gado se tratasse – abrindo-lhes a boca para ver os dentes, tocando-lhes nos corpos a ajuizar das formas, soltando-lhes as cabeleiras –, faz-lhe ferver o sangue nas veias e arrepender-se do impulso que o levara até ali. Sabe-se impotente para salvar aquelas mulheres, pois não as pode arrancar sozinho às mãos dos seus algozes e, além disso, outra é a missão ordenada por el-Rei D. João II e não a pode deitar a perder por um impulso do coração.

Todavia, neste momento, não é prudente ir-se embora antes dos outros, deve assistir àquela cena infernal evitando denunciar as suas emoções. Os mercadores e o traficante discutem, sem grandes demoras nem desacordos, o preço mínimo de cada peça a ir a leilão e a partir do qual serão feitos os lances pelos clientes ou mercadores estrangeiros que queiram comprar escravas para as ir vender a lugares distantes.

Por fim chega a vez das três moças solteiras, quase meninas e quando o eunuco arrasta para junto da mesa as duas irmãs gémeas, tão desesperadamente abraçadas uma à outra que ele não logra desprendê-las, o trato muda de figura e a discussão torna-se mais assanhada, as vozes aumentam de tom e os olhos incendeiam-se com o lume da ganância e da disputa.

Uma virgem branca, do Ocidente, pode alcançar preços invejáveis e se for bela e educada então há-de valer o seu peso em ouro. O corsário Selim Khaldun fizera realmente uma presa de estalo! As duas irmãs são muito parecidas, de igual formosura e gentil porte, pele branca, feições delicadas, olhos cor de avelã e cabelos castanhos. Após acalorada discussão, fica decidido um preço elevado para as duas moças.

– Podem vender-se separadas ou em conjunto, fazendo valer a sua condição de gémeas – diz Noureddin, satisfeito – e talvez se consiga atingir um preço ainda mais alto, se o pregoeiro fizer bem o seu trabalho.

– Com peças desta qualidade, eu mesmo farei o leilão – promete ibn Toufail, pensando no futuro lucro, assegurado pelo interesse daqueles mercadores tão ricos. Após uma curta pausa para criar o efeito necessário acrescenta: – Mas, meus senhores, falta-vos ver a peça principal, uma verdadeira huri[27], digna do Sultão de Bagdad. Mirai e admirai, depois me direis se haverá preço para tal perfeição.

A um sinal do traficante, o eunuco acerca-se de uma mulher sentada na penumbra a um canto do funduq. Envolta num longo pano branco que a cobre até aos pés, conserva a cabeça erguida e embora o rosto se mantenha na sombra não parece chorar. O eunuco toma-a por um braço, porém ela sacode-lhe a mão com orgulho e repugnância, ergue-se sem uma palavra e caminha sozinha, parando altiva e desafiadora diante da mesa dos mercadores que a olham com espanto. O escravo arranca-lhe o pano branco com um puxão e todos os homens, incluindo Pêro da Covilhã, soltam uma exclamação de surpresa e assombro ao contemplarem a admirável beleza da cativa.

– Tens razão, honesto Akim, nem uma huri pode ser mais bela!

– Perfeita! Uma virgem do país das neves e dos gelos... O azul dos seus olhos torna pálido o brilho das safiras mais puras.

– E o ouro dos seus cabelos é mais precioso do que o tesouro do Califa!

– Uma escrava digna do harém do Grão-Vizir Hassan ben Abdallah ou mesmo do Califa Mulay Said-el-Uttaci – sugere o interesseiro Akim, com um acento de esperança na voz.

Em toda a sua vida, nunca o Escudeiro vira mulher mais bela, nem mesmo nas Cortes de Lisboa ou de Sevilha! Ainda mal saída da adolescência, talvez de uns catorze ou quinze anos de idade, a cativa é alta e esbelta, com o porte e a altivez de uma princesa, a longa cabeleira descendo-lhe pelas costas como uma cascata cor de ouro; sem proferir uma súplica ou um lamento, desafia-os com o olhar cujo brilho escurece de ódio e desprezo.

O mercador mais jovem ergue-se da mesa e acerca-se da escrava, estendendo os dedos na tentativa de lhe descerrar os lábios, como haviam feito às outras mulheres, para ver se os dentes, na forma e brancura, correspondem à perfeição do que está à vista. Não chega, porém, a tocar no rosto da menina, pois uma violenta bofetada apanha-o em cheio, fazendo-o cambalear, com o sangue a escorrer-lhe do nariz. O homem enraivecido ergue o punho para lhe bater, mas Pêro da Covilhã, com um salto, fila-o por um ombro e prende-lhe o braço dizendo em aravia:

– Estais louco?! Quereis danar[28] tão magnífica peça? Pensai no lucro que poderemos obter.

A cativa diz com uma voz onde vibram o orgulho e a raça de um povo de conquistadores:

– Eu sou Dona Filipa de Almeida e Meneses, filha de D. Álvaro de Meneses e de Dona Márcia de Almeida, da nobreza mais antiga de Portugal. Que nenhum perro infiel ouse, pois, tocar-me ou pagará o insulto com a vida!

Os mouros, interditos, ouvem-na sem perceber palavra, mas captando o sentimento da voz e a linguagem do corpo. Pêro da Covilhã pensa desesperadamente num meio de lhe dizer que é português e tentará fazer algo para a salvar, mas não sabe como agir para os mercadores não desconfiarem. Porém, inesperadamente a moça dá-lhe o tão ansiado pretexto. 

O Escudeiro ainda segura o humilhado mouro pelos braços, imobilizados ambos pela fala da cativa, quando esta saca, com um gesto rápido, o punhal do cinturão do Português e lhe desfere um violento golpe. Só os seus reflexos perfeitos logram salvar o espião de morte certa, fazendo-o ao mesmo tempo empurrar o árabe, dar um salto para trás e agarrar a mão armada da destemida moça. Fingindo desequilibrar-se, Pêro da Covilhã deixa-se cair por terra, arrastando Filipa consigo num emaranhado de braços e pernas em luta, rolando os dois para longe da mesa dos mercadores.

– Senhora – murmura rapidamente, num sussurro –, sou português e tentarei tudo para vos ajudar. Fazei o meu jogo ou estamos perdidos! – acrescenta, vendo a expressão de espanto da jovem e o eunuco que se acerca. – Continuai a lutar comigo e... coragem!

Filipa, já sem o punhal que perdera durante a luta, apressa-se a obedecer ao seu pedido cravando-lhe as unhas no rosto. Nesse momento o eunuco agarra na moça e retira-a de cima de Pêro da Covilhã, prendendo-lhe as mãos com uma corda.

– A gatinha tem o sangue quente e as garras afiadas – diz o Escudeiro em aravia, fazendo rir os mercadores, enquanto limpa o sangue que lhe corre dos arranhões, maldizendo a sua sorte e pensando que a moça não precisava de se ter esforçado tanto no fingimento.

– O Grão-Vizir gosta de mulheres com espírito e que dêem algum trabalho a domar – diz Noureddin, afagando a longa barba cinzenta. – Falar-lhe-ei desta e perguntar-lhe-ei até onde estará disposto a licitar no leilão.

– Leva-as para o hammam – ordena Akim ao eunuco – e diz a Safia que trate destas três cativas com especiais cuidados.

Os criados apressam-se a obedecer, levando as mulheres ainda assustadas pela luta da companheira com os seus algozes para o interior do funduq. Filipa de Meneses lança um rápido olhar de despedida a Covilhã e nele o Escudeiro pode ver o brilho de uma ténue esperança. O traficante de escravos recomeça o trato com os mercadores que depressa acordam entre si um preço de altíssimo valor para tão preciosa escrava, despedindo-se em seguida, a fim de irem propor o negócio aos seus clientes mais opulentos e de gostos mais requintados.

...

 

Pêro da Covilhã apressa o passo para atravessar o çuq de attar ou das especiarias, pois o hammam fechará as suas portas um pouco antes da chamada para a oração do fim de tarde que se aproxima e, como lhe disse Joaquim Alves, os banhos públicos são o lugar mais propício para colher segredos, sem dar nas vistas. Tem dificuldade em manter as ideias claras depois da sua aventura no mercado de escravos e, com o rosto a arder das unhadas, sente o pensamento a fugir-lhe constantemente para Dona Filipa de Menezes, a fidalguinha de espantosa beleza e espírito indomável.

Que poderá fazer para a resgatar e levar para Portugal ou para Ceuta, se lá tiver família? Não a pode arrematar no leilão pois não tem fortuna própria e o ouro dado por el-rei D. João II destina-se à compra de cavalos e não de escravas, por muito nobres e belas que sejam. Tão pouco a pode arrebatar da prisão do funduq ou do terreiro do leilão e fugir com ela na garupa do seu cavalo através de toda a medina até às portas de Fez, passar a barreira dos guardas e atravessar as montanhas em direcção a Ceuta, esquecendo a sua missão... por um amor súbito e louco?! Sabe que, se tentasse tal loucura, não chegaria sequer à entrada do çuq dos perfumes.

Chega à Madrasa de Attarine onde vivem os estudantes da antiquíssima universidade Al-Jamaa, a Mesquita Maior de Qarawiyyîn[29], situada à distância de um tiro de pedra, com a sua magnífica biblioteca que atrai os sábios e estudiosos de todo o mundo, para aí estudarem entre outras Ciências, Astronomia, Medicina, Filosofia e Teologia. À sua volta há um contínuo movimento de gente: crentes, adivinhos, mahdis – os profetas ou homens santos cuja missão é denunciar os pecados do mundo e acusar os crentes de negligência e de pouca fé –, oulémas ou doutores da Shariah, a Lei do Corão e suplicantes conduzindo os seus animais para o sacrifício nos açougues da Mesquita.

Pêro da Covilhã tem encontros marcados para estes lugares... mas não para já. Por ora interessa-lhe o hammam de Qarawiyyîn, os banhos públicos mais frequentados de Fas al-Bali, por trás de Al-Jamaa e para lá dirige os seus passos, procurando concentrar-se na sua missão e esquecer, por momentos, a bela cativa.

As magníficas instalações do hammam fervilham de homens procurando retemperar as forças ao fim de um dia de trabalho ou purificar-se pelas águas antes da chamada do muezzin para a oração do anoitecer. Uma nuvem de vapor paira por sobre o imenso tanque de água quente, no centro de um pátio interior coberto e rodeado de galerias limitadas por graciosos arcos e colunas. O escudeiro entra na água e abandona-se ao prazer do banho, deixando a água tépida aplacar o latejar dos arranhões, procurando não pensar em nada.

Não tarda em sair do tanque, pois não é ali, no silêncio recolhido e repousante  das águas que os homens falam dos seus destinos. Embrulha-se na toalha fornecida à entrada e um servo guia-o até ao salão de chão ladrilhado e aquecido, com inúmeros nichos e recantos de bancos de azulejo, por trás dos quais corre água quente e ondas de vapor a cheirar a incenso e mirra fazem suar os corpos cansados e revigoram os músculos tensos e doridos. Aqui se juntam os grupos de amigos e companheiros para uma prática livre de estorvos e de regras, como os cinco homens novos que, apesar de despidos, deixam adivinhar no aspecto e modos a sua condição de soldados mercenários. Entre eles há um mancebo branco e aloirado, um europeu, talvez até um cristão renegado como tantos outros a soldo do Califa.

O espião português vai ocupar o nicho contíguo, encostando-se às paredes quentes e húmidas de mosaico, preparando-se para ouvir e registar na sua memória qualquer assunto de interesse para o seu soberano. Falam de mulheres e de feitos amorosos e Pêro da Covilhã começa a arrepender-se de ter sofrido aquele terrível suadouro para nada, quando um dos homens diz:

– Se pagam mais nessa campanha, também ‘tou interessado.

– Mas Xauen fica a sul d’Alcácer-Quibir, no meio das montanhas de Rife, sem nenhuma animação em volta!

– Dá-lhe tempo, homem. É uma cidade acabada de fundar, uma praça militar criada p’ra servir de aquartelamento às tropas de mercenários e berberes.

– Podes crer que, com tantas tropas, não tardará a ficar cheia de animação!

– E qual é o destino dessas hostes?

– Segundo a proclamação oficial é para meter na ordem os rebeldes Chavia do Cheikh Belagegi Abd-el-Aziz, alevantados contra o poder do Califa, mas os boatos dizem que há mais razões...

Com os olhos semicerrados, como se dormisse, Pêro da Covilhã não perde palavra da prática travada no nicho do lado. Contrariado, adivinha mais do que vê chegar uma forma fantasmagórica, envolta em nuvens de vapor, que vai ocupar a outra extremidade do banco.

As vozes dos mercenários tornam-se quase num murmúrio:

– Que boatos? Que vão fazer as tropas?

– Segundo se diz, vão combater os portugueses nas praças por eles tomadas em al-Maghrib, até os expulsarem de lá para sempre.

– O Califa quer romper o tratado de paz assinado com os portugueses?

– Não, que os cães infiéis têm o seu filho primogénito como refém. Por isso, este movimento de tropas foi precedido do tal édito contra os Chavias e o Califa Mulay Said-el-Uttaci negará qualquer envolvimento nos ataques aos portugueses, deitando as culpas para Mulay Belagegi.

Pêro da Covilhã já não precisa de ouvir mais, mal podendo crer no favor da caprichosa Fortuna, a dar-lhe de presente logo no primeiro dia da sua estada em Fez, aquilo que julgara quase impossível de descobrir. Suara até mais não poder, mas tinha valido a pena. Levanta-se, pois ainda tem tempo para uma boa massagem e um chuveiro frio para quedar como novo, antes das portas do hammam se cerrarem.

O cordão lançado à volta do seu pescoço assemelha-se a um fio de  oração, com continhas que se enterram na carne como pregos, sufocando-o. Não vira o agressor, saído da espessa neblina de vapor, nem ouvira os pés descalços no chão de ladrilhos. Debate-se com desespero e fúria, embora procurando não fazer grande rebuliço para não despertar mais atenções, sobretudo depois do que ouvira aos mercenários. O agressor também deve ter escutado a conversa e pretende impedi-lo de revelar a traição do califa, calando-o para sempre.

Com o coração quase a saltar-lhe pela boca, pois já não consegue respirar por causa do vapor e da pressão do fio e das contas a estrangulá-lo sem piedade, o Escudeiro com um esforço desesperado consegue sacar o pequeno punhal escondido na toalha e enterra-o até ao punho no ventre macio do assassino que solta um grito abafado, largando a sua presa e tomba no solo, balbuciando:

Man 'asha mat ua man mata fat.

Quem viveu, morreu. Quem morreu, findou” a frase soa a provérbio fatalista aos ouvidos do Escudeiro enquanto, ainda aturdido e arfando de aflição, se lança sobre o agressor, tapando-lhe a boca com a toalha para não gritar e só o largando quando o homem pára de estrebuchar, já sem vida. Não é Habeeb, mas Pêro desconfia que ele há-de andar por perto, pois, se o espião é tão bom como dizem, depressa deve ter percebido o seu estratagema, pondo-se de novo no seu encalço, talvez até com mais alguns companheiros. Este ataque assim o prova.

Agarra no mouro pelos sovacos e senta-o no banco, como se ele estivesse ainda no banho de vapor, com as costas apoiadas na parede e a toalha enrolada em volta da cintura, encobrindo o golpe de onde retirara o punhal. Precisa de sair dali antes que descubram o morto e depois de ver se tem alguma mancha de sangue do mouro no seu corpo ou na toalha, atravessa num passo calmo o salão, procurando disfarçar as marcas do pescoço, para ir buscar a roupa que enfia rapidamente e logo sai para a praça de Qarawiyyîn, quase chocando à porta com... Habeeb El-Majdoubi.

O fassi abre a boca e empalidece, como à vista de um fantasma, mas fazendo um enorme esforço para não perder a compostura, pede desculpa como qualquer inocente peão e entra imediatamente no hammam. Covilhã não pode deixar de sorrir com a atrapalhação do homem à espera de ver sair por aquela porta o assassino e não a vítima, porém sabe que esse atentado à sua vida não vai ser o último. Quando vir o morto, El-Majdoubi não terá a menor dúvida de que o português já está na posse das informações secretas e por isso terá de o fazer desaparecer quanto antes... talvez mesmo enquanto regressa ao funduq, aproveitando o anoitecer e as sombras da medina.

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O Escudeiro mistura-se na multidão, passa diante do beco dos tintureiros, saltando por sobre um regato vermelho que desce a gorgolejar pelas pedras da calçada, despejado das tinas onde os artesão tingem as lãs. ”Como o sangue do assassino nos mosaicos do hammam” pensa, com uma careta de asco. “Mas seria muito pior se esse sangue fosse o meu” acrescenta com ironia e apressa-se a entrar no çuq Dabbaghin, do mesteiral dos couros, quase sufocando com o terrível cheiro que se abate sobre ele. Um cheiro a sacrifício e morte.

O funduq, ao lado direito, tem um enorme pátio onde grupos de pastores nómadas e escravos, gente considerada impura pelos fassis, se entregam a variadas e desaprazíveis tarefas. Uns abatem os animais – ovelhas, bois e camelos – e retiram-lhes a pele por inteiro como uma camisa velha, lançando-a para uma pilha da mesma nação; outros, acocorados no solo, raspam as peles trabalhosamen-te para as limpar de todos os pelos e sangue seco, preparando-as para os curtidores. As carcaças dos animais amontoam-se a um canto, para serem levadas mais tarde aos açougueiros e vendidas nos çuq. Os enxames de moscas e o cheiro nauseabundo fazem do lugar um verdadeiro inferno.

Porém, Pêro da Covilhã esquece o cheiro e a ameaça à sua vida, com o espectáculo que se abre ante os seus olhos: os curtidores tratam e tingem as peles num espantoso favo de alvéolos de pedra acastanhada ocupando um imenso terreiro circundado por casas muito brancas de dois andares, com terraços onde se amontoam peles. Velhos, moços e meninos, descalços e de dorsos nus, percorrem as estreitas passagens entre os alvéolos contendo cal, óleo e líquidos das mais desvairadas cores como a paleta de um pintor, para dar vida e colorido às peles mortas dos animais: o azul da flor do índigo, o amarelo das raízes do açafrão, o verde das folhas da menta, vários tons de vermelho emprestados pela papoula, além de outras tintas obtidas com o pó de alguns minerais.    

Os curtidores entram e saem de dentro dos alvéolos onde mergulham os couros, mexendo constantemente com as mãos e com os pés, até as peles adquirirem a suavidade e o tom desejados; coloridos e sarapintados como génios maléficos, os artesãos dançam por sobre o favo, com o zumbido ensurdecedor de insectos atarefados e vigilantes.

Covilhã olha-os de cima de um terraço, enquanto o sol se põe, numa explosão de vermelhos e laranjas quentes como fogo. Atardou-se demasiado e agora será melhor fazer o caminho de regresso por sobre os terraços das casas em vez de se embrenhar pelo labirinto negro das ruelas da medina. Do alto do minarete da mesquita de Qarawiyyîn, a voz do muezzin invisível canta o seu louvor a Allah e convoca os crentes para a oração do anoitecer:

Allah é grande. Só Allah é Deus. Muhammad é o seu profeta. Vinde à oração. Vinde à salvação. Allah é grande.

Em baixo, no favo multicolor, toda a azáfama pára e artesãos e ajudantes apressam-se a ir fazer as suas abluções rituais, antes da oração, mergulhando a mão direita na fonte do funduq para lançar a água da purificação sobre os pés descalços e os tornozelos, tornando mais vivas as cores do arco-íris que o trabalho no çuq Dabbaghin lhes gravou para sempre na própria pele, tão curtida como os couros por eles tratados sem descanso, naquele fétido inferno, até os fazerem macios e luzidios como veludo, prontos a serem transportadas para todo o mundo nas caravanas dos mercadores.

– “Escapou do urso para cair no fosso” – a voz irónica nas suas costas, dizendo o provérbio mouro, sobressalta Pêro da Covilhã que instintivamente roda sobre si mesmo, de punhal desembainhado, pronto para defrontar Habeeb El-Majdoubi.

– Morre, espião maldito! – grita o mouro atirando-se ao escudeiro, brandindo a cimitarra cuja lâmina curva, no esplendor do sol agonizante, parece tinta de sangue.

– Espião eu?! – exclama o Escudeiro aparando-lhe o golpe e tentando imobilizá-lo, mas o adversário é um forte e hábil lutador e esquiva-se. – Sou Ali Moumen, mercador de cavalos de Rabat. Se pretendes roubar-me...

– Sabemos quem és e esperávamos por ti – interrompe-o El-Majdoubi, desferindo-lhe novo golpe que lhe rasga a veste e o fere num ombro.

Covilhã morde os lábios com a dor e, embora sinta que o ferimento não é grave, tem a certeza de não poder aguentar a luta por muito tempo e só por um golpe de surpresa alcançará a vitória. O homem não deve ter escrúpulos nem piedade, pois ataca-o durante um momento sagrado de oração, cometendo um sacrilégio. Quando o mouro se lança de novo sobre ele, seguro do triunfo, o português agarra-o pelos braços, mantendo afastada a lâmina acerada da cimitarra e deixa-se cair de costas, arrastando-o na queda. Aproveitando o desequilíbrio do surpreendido adversário, aplica-lhe um terrível golpe de pernas, atirando-o por cima da sua cabeça para o abismo do çuq.

– Morre, cabrão! – pragueja entre dentes, em português, sentindo o ombro a latejar de dor pelo esforço despendido. – E que apodreças nos infernos!

Com um berro de medo e esbracejando pelo ar como um fantoche sem fios, Habeeb El-Majdoubi mergulha no tanque de açafrão, perante a surpresa dos curtidores ainda ajoelhados sobre os seus tapetes de oração. Ao verem sair de dentro do alvéolo, uma horrível figura amarela e fedorenta, a estrebuchar e a praguejar  como um possesso, os artesãos aterrorizados saltam dos seus tapetes e correm em desvario para a Mesquita de Qarawiyyîn, gritando a plenos pulmões que Shaitan, o anjo demoníaco, descera sobre eles para os destruir. Pêro da Covilhã estava finalmente livre para volver ao funduq onde o alveitar o esperava há várias horas, morto de inquietação.



[20] Prato tradicional das Beiras, feito com o estômago dos cabritos ou ovelhas que se corta aos bocados e se cose com linhas, fazendo pequenos sacos que se recheiam com uma mistura de arroz e carne picada e se levam a cozer em água com sal.

[21] Bairro.

[22] Banquinho baixo de madeira.

[23] Cuidado! Saiam da frente.

[24] Os génios maus.

[25] Nome dado aos escravos, que eram vendidos e comprados como qualquer mercadoria “à peça”.

[26] Títulos e fórmulas de cortesia que se davam aos califas e sultões.

[27] Mulheres belíssimas que, segundo o Corão, hão-de desposar no céu os verdadeiros crentes, depois da sua morte.

[28] Causar dano, estragar.

[29] Mesquita de Karaouiyne, fundada no ano de 862 e é uma das universidades mais velhas do Mundo.



publicado por umhomemdasarabias às 14:23
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Cap. III - Os Guerreiros Azuis

 

O Escudeiro desperta de madrugada com o cantar dos muezzins, lançado dos altos minaretes das inúmeras mesquitas de Fas al-Bali, convocando os crentes para a primeira das cinco orações rituais que ecoam nos céus luminosos da medina ao amanhecer, ao meio-dia, à tarde, ao anoitecer e antes de dormir. Sente-se ainda fraco pelo sangue perdido e também um pouco febril, apesar do alveitar lhe ter tratado muito bem o golpe quando, na noite anterior, chegara ao funduq entontecido de cansaço e com o almejar manchado de vermelho.

Pensa em Filipa de Menezes e, mesmo sendo um homem afeito à crueldade e injustiça do mundo, sente o coração apertado com mágoa da bela cativa e das outras mulheres que serão vendidas dentro de três dias, em hasta pública, como peças de mercadoria para serem usadas por homens bestiais, inimigos de Cristo.

Sonhara toda a noite com planos impossíveis e loucos para as libertar, despertando banhado em suor, quando em cada sonho eram perseguidos e caçados de novo. Poderia fazer alguma coisa para salvar ao menos a preciosa Filipa? Sem uma forte ajuda não valia a pena tentar sequer a façanha, esses milagres de cavalaria aconteciam apenas nos romances e aos cavaleiros do rei Artur e nunca a um pobre escudeiro da corte de D. João II, por mais valente e bom pelejador que fosse.

Joaquim Alves, o escravo português do funduq, acode a chamá-lo:

– Estão lá fora os homens enviados pelo Cheikh Mulay Belagegi. Se o valor deles for igual à sua  disposição, não tereis nada a temer dos vossos inimigos!

– Quantos são?

– Três mocetões tuaregues, bem armados e de boa catadura.

Pêro da Covilhã apressa-se a ir ao encontro dos seus guarda-costas, satisfeito pela prontidão da ajuda do Cheikh. Na noite anterior enviara-lhe Joaquim com um recado, dizendo-lhe que andava a ser seguido e já sofrera duas emboscadas na medina, das quais escapara por uma unha negra e Belagegi prometera mandar-lhe uma escolta para o acompanhar a todo o lado como uma sombra. O ar decidido e inteligente dos três moços, trajados com albornoz azul forte dos nómadas do deserto e montando belíssimos cavalos berberes, agrada ao Escudeiro que os saúda com um sorriso:

Marhaban[30].

– ‘As-salâmu calaykum[31] – responde-lhe o mais alto, com uma leve inclinação da cabeça, admirado com a boa pronúncia do estrangeiro. – ‘Ismî  Khalid ibn Zohr.[32]

Rashid el-Beder– apresenta-se o segundo e leva a mão ao peito e à testa, em respeitosa saudação.

– ‘Ismî Abou al-Nasir – conclui o mais moço, repetindo o gesto do companheiro. – Kayf hâluk?[33]

Aponta para o seu ombro, mostrando saber da luta e do ferimento recebido e o português agradece:

Al-hamdu li-lâh[34].

Acabadas as apresentações e frases de cortesia, Khalid fala de novo:

– O meu Senhor ordenou-nos que te servíssemos e acompanhássemos em todas as tuas empresas. Ele deseja ver-te, em sua casa, quando te for possível.

– Pode ser já, se o ilustre Mulay Belagegi assi o quiser.

– É esse o seu desejo.

O jovem Abou acrescenta ainda:

– O meu amo roga-te que leves o teu alveitar, pois tem cavalos para te mostrar, tal como havíeis concertado.

– Assi será feito – diz Pêro da Covilhã, chamando de imediato Pêro Afonso.

Rashid tira um embrulho da sua sela e entrega-lho:

– O meu Senhor pede que vos disfarçais ambos com estas vestes tuaregues, para vos confundirem connosco. Ajudar-vos-ei a vestir, se tal desejardes.

Joaquim Alves leva-os para um quarto vazio onde os dois portugueses enfiam o albornoz e, ajudados por  Rashid, armam o turbante, torcendo e enrolando com três voltas em torno da cabeça uma tira de cerca de cinco metros de um de tecido azul quase negro, com o cuidado de cobrir apenas metade das orelhas, deixando uma das  pontas caída para envolver o pescoço, sobre o beskir que cobre o nariz e a boca. Assim trajados, mostrando apenas os olhos, os portugueses parecem reflexos fiéis de Khalid e de Abou e também da restante escolta de Mulay Belagegi, bem conhecido por andar sempre acompanhado pelos altivos Guerreiros Azuis, os seus fiéis Tuaregues, causadores do maior espanto e admiração pela alta estatura e porte e aguerrido, acentuados pelo galante albornoz azul e respectivo turbante.

Joaquim traz-lhes os cavalos já tratados e arreados, ajuda-os a montar e vem com eles até ao portão do funduq para se despedir com um “Ide com Deus” murmurado em português, logo dizendo aos Tuaregues, em aravia:

– Protegei-os bem, pois El-Majdoubi há-de querer terminar o trabalho e vingar-se do desaire.

Os Tuaregues soltam uma gargalhada. A desventura do espião às ordens do mal amado Grão-Vizir correra célere pela medina, como tema de todas as conversas e alvo de chistes e zombarias sem fim. Até já lhe chamavam Habeeb Shaitan (o Diabo Habeeb) e Habeeb Zaafaran (Habeeb Açafrão), pois o assassino não conseguira livrar-se nem do cheiro nem da cor que lhe tingira a pele quando mergulhara de cabeça na maldita tina do çuq dos curtumes. O líquido amarelo salvara-lhe a vida mas tornara-o motivo de chacota por toda a cidade e ele nem ousava sair à rua.

– Nada temas – ibn Zohr sossega o escravo português. – A nossa vida pertence-lhes.

Joaquim Alves entende a promessa do Tuaregue: eles darão a vida pelos dois estrangeiros, se tal for necessário.

 Partem sem mais demora, com Khalid cavalgando ao lado de Pêro da Covilhã, Rashid e Abou atrás deles, levando o alveitar no meio e uma hora depois, graças ao galope vivo dos cavalos, cruzam Bab Dekaken, a porta de união das duas medinas e entram na Cidade Branca, a parte mais nova de Fez.

A sumptuosa casa de Moulay Belagegi está situada entre o Mechouar – a praça de armas para os desfiles das tropas reais junto a Bab Sebaa – e o Dar-el-Makhzen, o fabuloso palácio dos Califas de Fez. Os cavaleiros passam o portão e deixam os cavalos no vasto e gracioso pátio com uma fonte, de onde partem inúmeros canais conduzindo a água e o seu cântico fresco e repousante para os tanques e lagos de jardins onde a vista se perde.

Os servos recolhem as montadas e Rashid diz a Pêro da Covilhã:

– Se for esse o teu desejo, o alveitar pode ir examinar os cavalos das nossas cavalariças e escolher os que quiserdes, pois os restantes serão enviados ao Califa de Fas al-Bali.

– Vai com Rashid, Pêro Afonso, e escolhe oito cavalos, os que melhor te parecerem, pois el-Rei deseja oferecê-los a seu cunhado D. Manuel e recomendou-me para não olhar a preço, se a mercadoria valesse a pena.

– Quedai descansado, pois saberei dar boa conta do recado. Posso não falar aravia, mas reconheço um bom cavalo árabe ou berbere onde quer que o veja.

 Abou e Rashid levam o alveitar através dos jardins para as cavalariças, enquanto Khalid conduz Covilhã à presença de Mulay Belagegi. A residência do nobre Mouro é quase um palacete, com vastos salões onde reinam a riqueza, o luxo e o conforto, ligados por arcos e galerias de pedra lavrada como renda com versículos do Corão; as paredes eram revestidas de colchas bordadas a ouro e tapeçarias preciosas, o chão de mosaico mostrava artísticos e complicados desenhos nas cores verde do Islão e azul de Fez. Tapetes de seda ou lã, delicados móveis de cedro e outras madeiras raras, assim como coxins e otomanas contribuíam para o repouso e bem-estar dos seus moradores, amigos ou visitantes.

Na sala mais pequena, sóbria mas muito confortável, onde Khalid introduz Pêro da Covilhã, Moulay Belagegi interrompe a conversa com o seu secretário, que parece ser judeu e vai ao encontro do português, saudando-o com grande cortesia e bondade, embora avaliando-o com um olhar penetrante e inteligente.

– Estavas com a embaixada que recebeu as ossadas do vosso Infante D. Fernando, não é verdade? Eras o moço língua[35]  e falavas aravia como um natural do Maghreb! Folgo muito em ver-te.

Surpreendido por o Cheikh se lembrar dele, Pêro da Covilhã corresponde ao generoso recebimento, com mostras de grande acatamento, agradecendo-lhe a escolta tão prontamente enviada e entregando-lhe a sua carta de apresentação com o selo de D. João II e o presente d’el-Rei de Portugal, como prova da sua estima e admiração.

Moulay Belagegi fá-lo sentar junto de si nos confortáveis coxins dispostos em torno de mesas baixas, enquanto o secretário bate as palmas para chamar um servo, ordenando-lhe que sirva algum refresco. Depois, a um sinal do seu amo, vem sentar-se com Khalid junto deles.

– Já conheces Khalid ibn Zhor, o meu homem de armas de maior confiança – diz o Cheikh, apresentando em seguida o judeu. – E este é Youssef Haguiz, um astrónomo e homem de letras de quem me fio inteiramente, apesar de não ser muçulmano. Se quiseres alguma cousa do bairro de Mellah, só tens de lhe dizer.

– Trago cartas dos Astrónomos Mestre Rodrigo das Pedras Negras e Mestre Moysés para Samuel Gabay, com quem devo encontrar-me na madrasa El-Attarine.

– Conheço-o muito bem – diz o Judeu com um sorriso. – É um homem de grande saber e muita virtude que escapou às terríveis perseguições e massacres feitos aos judeus de Mellah no ano de 1465. Não me será difícil tratar do vosso encontro, com assaz de discrição, se assim o desejares.

Covilhã agradece e, nesse instante, duas servas entram no aposento trazendo o affabeh – um gomil com uma bacia em prata – e toalhas. Aproximam-se de cada um dos homens para lhes lançar água perfumada de rosas sobre os três dedos da mão direita com que irão comer, aparando o líquido na bacia e, oferecendo-lhes uma toalha para se limparem, retiram-se em seguida.

Moulay Belagegi faz uma breve oração a Allah que o Cristão e o Judeu ouvem respeitosamente, rezando mentalmente um a Deus e o outro a Jeová. Os escravos entram com salvas de prata e pratos de porcelana cheios de pedaços de melão, tâmaras e figos; pastéis de mel e amêndoas, rodelas de massa muito fina com um recheio doce e também umas tigelinhas com passas numa calda de água e açúcar. As duas servas vêm preparar a infusão de menta, servindo-a em delicadas taças de porcelana.

A pedido de Belagegi, Pêro da Covilhã conta-lhe as aventuras em Al-Bali, no dia anterior, sem esconder nada, nem a conversa dos mercenários, nem a morte em legítima defesa do seu atacante no hammam ou a luta com el-Majdoubi nos terraços do çuq Dabbaghin, a qual terminara com o mergulho do homem na tina de açafrão.

– Não se fala de outra cousa em ambas as medinas – diz o Cheikh com uma risada de satisfação. – Ninguém ignora que Habeeb é o homem de confiança de Hassan ben Abdallah e um desaire sofrido por ele é uma ofensa feita ao poderoso Grão-Vizir. Isso basta para deixar toda a gente satisfeita. Por mim falo, pois estou encantado com o teu feito. Só tenho pena de não ter visto o amarelo e fétido Shaitan a sair do tanque dos curtumes.

E ri-se, com gosto, secundado por ibn Zhor e Youssef, imaginando a cómica cena e a humilhação do Vizir.

– Creio que estavam a tentar tudo por tudo para eu não chegar a ver-vos e, assim, não conseguir socorro para os portugueses – alvitra  Pêro da Covilhã. – Tinham de matar-me antes do meu encontro convosco, sobretudo depois de Habeeb ter visto o seu homem morto e os mercenários no hammam.

– Sim – confirma o judeu –, não deixou por certo de averiguar o que poderíeis ter ouvido.

– E o Califa anda a tentar apanhar-me em falta – acrescentou o Cheikh –, pois teme a minha aliança convosco, porém nem mesmo ele tem poder para condenar-me sem provas. Khalid pode fazer-vos um melhor resumo da situação.

– Desde há algum tempo, o Califa Said-el-Uttaci tem enviado hostes de mercenários e de soldados e muitas gentes de provimento, bem como artesãos de desvairados[36] mesteres, para a recém-criada cidade de Xauen, estrategicamente situada nas montanhas de Rife para expedições de assalto a todas as praças na posse dos portugueses e também contra o rei do Maghreb-el-Ausat, um vosso aliado, e contra as tribos e clãs dos Chavias que têm tratos com os portugueses e não aceitam um Uttaci como Califa.

Pêro da Covilhã interrompe o Tuaregue para dizer a Belagegi:

– No ano passado estive em Tremezem, que é como nós chamamos ao reino do Maghreb, para fazer as pazes com o rei Abu-Thabet-Muhammad e comprar lambéis[37] para o resgate  com os negros da costa da Mina. E foi quando ouvi falar pela primeira vez em Xauen.

O Cheikh faz um aceno de concordância:

– Muhammad e eu somos velhos amigos e temos visto com inquietação os avanços e a arrogância dos Castelhanos que atacam as nossas costas do Mediterrâneo. Por outro lado sofremos as traições do Califa de Fez que alcançou o poder com um golpe de sorte e de audácia e, por isso, teme a nossa oposição.

– Mulay Abu-Thabet-Muhammad – prossegue o Escudeiro – rogou a El-Rei D. João II, para buscar aliança convosco, pois o reino de Chavia está situado ao norte de Azamor e de Um-er-Rebia, em boa posição para dar aviso ou prestar socorro em caso de ataque. El-Rei de Portugal enviou-me com estas cartas para vos afirmar a sua amizade e desejo de uma aliança duradoura convosco contra o Califa e contra os Castelhanos.

– Assim será feito e Haguiz redigirá o tratado de amizade para ser assinado entre os nossos três reinos – promete Belagegi solenemente. – Creio ser chegado o momento de agir, pois tudo indica que se prepara um ataque em força e de surpresa.

– El-Rei D. João II vos será para sempre reconhecido – assegurou o Escudeiro, entregando-lhe as cartas do Rei de Portugal.

– Eu mesmo recebi uma ordem do Califa para vir a Fez vender-lhe cavalos, tantos quantos tiver nas minhas coudelarias. Todavia penso que se trata de um pretexto para me manter aqui, debaixo de olho, longe dos meus domínios e dos meus homens.

– Os homens do Grão-Vizir vigiam esta casa noite e dia e seguem o meu Senhor para todo o lado – disse Khalid, agastado.

– E agora, Pêro da Covilhã, de que outro assunto me querias dar conta? A tua mensagem mencionava algumas nobres portuguesas feitas escravas... mas o mensageiro não mo soube explicar.

O Escudeiro, sem poder ocultar totalmente a sua emoção ao recordar a bela Filipa de Menezes, relata a aventura no funduq dos mercadores de escravos e a história das cativas apresadas pelo corsário Selim Khaldun e destinadas a serem vendidas dentro de três dias.

– Se Noureddin lá estava, é porque o nosso “bem-amado” Grão-Vizir, sabia dessa presa e do valor das cativas – a voz do Cheikh soa mal-humurada. – O mercador é o seu fornecedor de escravos e, quando se trata de mulheres, esse homem perverso não se importa de pagar a peso de ouro os seus prazeres.

– Que Deus não permita que essa menina caia nas mãos desse louco! – diz Youssef, com repugnância. – É uma fera e gosta de torturar mulheres, sobretudo se lhe resistem.

Khalid acrescenta, com um brilho feroz no olhar:

– Pelo menos duas formosas moças que Wazzan arrematou em leilão para o Vizir apareceram mortas no rio pouco depois, com horríveis ferimentos, como se tivessem sido torturadas durante muito tempo e da forma mais cruel. Nos hammans e casas de comida dos çuq de Fez correm outros boatos, ainda mais terríveis sobre Hassan ben Abdallah. Gostava de lhe poder pôr as mãos em cima!

A voz treme-lhe de paixão e raiva e Belagegi e Youssef Haguiz entreolham-se com um misto de piedade e preocupação.

– Uma das moças assassinadas pertencia à tribo de ibn Zohr – esclarece o Cheik – e nós não pudemos vingá-la. Ninguém ousa desafiar o Grão-Vizir, pela protecção dada pelo Califa e ele sente-se com as costas quentes e não teme nem Allah nem Shaitan.

O Escudeiro ouve-os com o coração apertado de angústia. Será nas mãos desse homem bestial que irá cair a bela e orgulhosa Filipa de Menezes? Não pode consentir nisso, tem de tentar salvá-la, mesmo correndo o risco de perder  a vida na tentativa e de não cumprir a missão d'el-Rei! Se falhar, o Cheikh se encarregará de despachar Pêro Afonso com os cavalos, as informações conseguidas e a confirmação da aliança entre os seus reinos.

Mulay Belagegi parece adivinhar-lhe os pensamentos quando diz:

– Pêro da Covilhã, os meus bens e a minha fortuna estão ao teu serviço e do teu rei. Irei ainda esta tarde falar com Akim ibn Toufail, esse miserável traficante de escravos, para lhe oferecer uma boa comissão se me vender as portuguesas cativas antes de irem a leilão.

O Escudeiro sente-se invadir por uma onda de gratidão para com o generoso muçulmano que se arriscava por um grupo de infiéis, inimigos do seu povo e da sua religião. Agradece-lhe comovido, perguntando todavia:

– E se não o conseguires? Se ele se recusar a vendê-los sem ser em leilão, com medo de perder dinheiro ou cair em desgraça entre os mercadores de Fez? Lembra-te de que Abd al-Wazzan o ameaçou de nunca mais fazer tratos neste reino!

– Nesse caso, procurarei comprá-los no leilão, cobrindo todos os lances. Se algum me escapar tratarei de descobrir quem o comprou e pagarei o resgate para a sua libertação.

– Por ora é o melhor caminho a seguir – acrescenta o Judeu, vendo a expressão infeliz do português. – Para não criar mais agitação num momento em que o Grão-Vizir traz o meu Senhor debaixo de olho e com muita vontade de o fazer cair em desgraça.

– No leilão, se se tratar apenas de uma questão de dinheiro, as moças estarão salvas – sossega-o o bondoso Cheikh. – E, agora, vamos ver se o teu alveitar já escolheu os cavalos, não vão chegar por aí os homens do Califa, pois eles não podem sequer sonhar que te dei a primeira escolha...

A um sinal do Judeu, as servas trazem de novo o affabeh com a água de rosas para os convidados lavarem a boca e os dedos, antes de saírem da mesa.

...

 

Youssef Haguiz dirigia-se à Madrasa de Attarine, como já outras vezes fizera, acompanhado por dois Tuaregues da escolta pessoal do poderoso Cheikh Belagegi, para consultar algum escolar ou doutor da Universidade de Qarawiyyin. Os espiões do Grão-Vizir nem se dão ao trabalho de o seguir, pois estão muito menos interessados nas andanças inofensivas de um judeu do que no desaparecimento, desde a véspera, do espião português.

Habeeb El-Majdoubi caíra no ridículo e em desgraça pois o Grão-Vizir Hassan ben Abdallah não perdoa falhas e, agora, qualquer dos homens da sua hoste de espiões pode vir a suceder-lhe, para isso apenas lhe bastará descobrir o paradeiro do malfadado cristão que lhes tinha trocado as voltas, morto um companheiro e derrotado o seu chefe.

Este último feito, diga-se em abono da verdade, até fora um bom serviço, pois abrira o caminho da Fortuna a quem o soubesse e quisesse trilhar. Para já dera-lhes ocasião de se vingarem da arrogância do protegido do Vizir, troçando dele sem dó nem piedade, mirando a sua cor amarela com um espanto exagerado e virando-lhe as costas, a apertar o nariz para lhe dar a entender que não suportavam o seu cheiro. Habeeb desaparecera remordendo vinganças e ameaças.

Agora os seus homens andavam a passar Al-Bali a pente fino, com gente em todos os çuq, funduq, hamman, casas de comida e em qualquer lugar onde pudesse esconder-se o maldito infiel que parecia ter levado sumiço. Haviam-no procurado até na zaouïa de Idriss II, não fosse o miserável demandar o horm  ou direito de asilo. Tinham peiteado[38] e ameaçado os escravos do funduq de Nejjarine, onde o cristão tinha pernoitado à chegada, com o seu companheiro também desaparecido sem deixar rasto, todavia ninguém sabia de nada. Por ora não havia outra coisa a fazer senão ficarem atentos, à espera da próxima jogada do espião pois ele não pode ficar para sempre escondido em Fez. Então hão-de cair sobre ele e caçá-lo como um rato. 

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Haguiz desmonta diante da formosa porta de bronze da Madrasa de Attarine e os três homens entram no gracioso pátio de mosaicos pretos e brancos, dispostos num padrão de quadrados alternados, à volta de uma preciosa fonte de mármore branco. O Judeu deixa os dois companheiros no pátio e parte em busca do físico  Samuel Gabay.

Pêro da Covilhã, o falso Tuaregue, admira o magnífico edifício da escola, mandado construir cerca de duzentos anos antes pelo Sultão Abou Said. Mármores, alabastros e madeiras de cedro rivalizam entre si na beleza e singularidade dos ornamentos, reproduzindo por entre um emaranhado de delicadas formas vegetais com figuras geométricas abertas repetindo-se até ao infinito, os 114 sure ou capítulos do Corão e seus princípios morais, impedindo os estudantes ali hospedados, de os esquecerem, tendo-os assim sempre diante dos olhos.

Haguiz chama-os de uma janela abobadada do piso superior e o Escudeiro e Khalid apressam-se a subir a escadaria de mármore, seguindo o judeu até uma pequena sala onde os espera um velho de aspecto venerável que não pode ser outro senão Samuel Gabay. Sem rodeios, o físico pergunta:

– Vens, então, da parte daqueles a quem chamais Mestre Rodrigo e Mestre Moysés?

– Sim, Mestre Gabay, trago-vos cartas dos prezados físicos d’el-Rei D. João II.

Pêro da Covilhã entrega-lhe o rolo de papéis trazido de Lisboa, escondido de tal maneira que nem o alveitar dera por ele e os três visitantes ficam à espera, em silêncio, até o ancião terminar a leitura das folhas cobertas de caracteres hebraicos, finos e herméticos.

– Dão-me conta das suas “Tábuas de Declinação do Sol” e pedem-me para lhes enviar os meus estudos sobre o mesmo assunto, a fim de buscarem um meio mais preciso de achar a latitude e também (mas isso é tarefa impossível) a longitude no mar. Os conhecimentos de Medicina e Astronomia dos dois Mestres são o garante da protecção do teu rei, salvando-os de serem expulsos de Portugal como tantos outros da nossa raça. Só por esta razão satisfarei o seu pedido, pois não faço gosto em ajudar com a minha ciência os cristãos a levarem a sua religião intolerante a outras partes do mundo.

E o velho sábio, sem mais palavras, vai buscar a um contador de madeira um maço de papéis enrolados que mete numa bolsa de couro e entrega a Pêro da Covilhã.

– Tende o maior cuidado em não os perder de vista, nem vos deixar caçar com eles, ou seremos ambos mortos.

O Escudeiro de D. João II sente uma profunda turvação e também um imenso orgulho em segurar aquele maço de papéis aparentemente insignificantes mas contendo talvez o segredo das rotas e caminhos para novos mundos, poupando navios e vidas de marinheiros. Era uma pena que as religiões e as raças dividissem assim os homens, pois quando estes se uniam o mundo avançava mais depressa, tornando-se melhor e mais belo.

– Defendê-los-ei com a minha vida, juro-vos!

Samuel Gabay capta a emoção da sua voz e olha-o com surpresa. Parece compreender o que vai na alma do rude aventureiro e despede-o quase com gentileza:

– Vai com Deus! E sauda a Mestre Rodrigo e Mestre Moysés, da minha parte. Shalom Youssef Haguiz!

Pêro da Covilhã volta a cobrir o rosto com o beskir, deixando apenas os olhos à mostra e retoma o seu papel de Tuaregue da escolta do escrivão. Os três homens deixam o gabinete e descem a escadaria.

– Que fazemos agora? – pergunta o judeu.

– Podíamos ir até ao funduq dos mercadores de escravos – sugere o Escudeiro. – Por certo, a esta hora já o generoso Mulay Belagegi deve estar com o traficante Akim a tratar da compra das portuguesas.

– Mas será prudente? Não vos irão reconhecer?

– Assim trajado, coberto dos pés à cabeça, como poderão reconhecer-me?

– Ele tem razão – acode Khalid –, não passa de um Tuaregue como tantos outros da guarda pessoal do nosso amo. Podemos ir ter com ele ao funduq, pois não é de estranhar que o escrivão do Cheikh acompanhe o seu Senhor num trato tão importante como este. E eu e o Português juntar-nos-emos à sua escolta e ninguém o distinguirá dos outros.

– Seja então – cede o judeu.

Pêro da Covilhã faz um gesto de agradecimento ao Tuaregue por este ter visto a sua ansiedade e o ter ajudado. Conseguiria o Cheikh libertar Filipa de Menezes e as outras mulheres?

Saem da Madrasa, montam nos cavalos e partem a galope para o mercado de escravos, embora ao português pareça que as montadas se deslocam como pilecas doentes e não como os alazões de raça.

Oito Tuaregues com o albornoz e o turbante azul do seu clã, à entrada do funduq, mostram-lhes que o Cheikh já ali se encontra. Covilhã e Khalid levam o escrivão junto de um Belagegi vermelho de indignação, a gritar contra o gordo Akim, muito pálido e à beira das lágrimas, a torcer as mãos de desespero:

– Mas, meu nobilíssimo Senhor, que posso eu fazer? Os mercadores já viram as escravas e, por lei, elas têm de ser leiloadas em público e...

– Eu comprei-te todos os cativos portugueses, homens, crianças e até mulheres velhas e sem préstimo, com um imenso lucro para a tua bolsa e tu ousas recusar-me as melhores peças?

– Ó afortunado Mulay Belagegi, vaso precioso de todas as bênçãos de Allah, já te disse que nada posso fazer. Daria a minha vida por ti, mas não posso dar-te as virgens portuguesas!

– Deixa-te de mentiras e lisonjas, cão traidor, pois ainda te faço empalar pelos meus Tuaregues se não me entregas as mulheres.

Akim sua e treme, verdadeiramente assustado. O poderoso Cheikh dignara-se a vir disputar, em pessoa, a posse de uma carga de escravos portugueses e, em outras circunstâncias, estaria impando de orgulho pelo seu interesse, porém, vendo a paixão de Belagegi ante a recusa de lhe vender as cativas, começa a temer pela sua vida e, ao olhar para os dois altos Tuaregues da escolta do judeu, imagina já o horror das torturas a que será sujeito.

Àquela hora há muito pouca gente no funduq, a maior parte dos mercadores e traficantes deve estar nos hamman a preparar-se para ir orar na mesquita de Quaraouiyin ou na dos Andalous. Tão pouco pode esperar qualquer socorro dos seus homens, pois os criados, incluindo o seu cobarde e corpulento eunuco, guardião das escravas, tinham levado sumiço mal o Cheikh começara a gritar. Se escapar deste aperto, jura para consigo, há-de ajustar contas com eles, sobretudo com o maldito capado! Sentindo-se entre a espada e a parede, geme e soluça:

– Ó meu generoso Senhor, tem dó de mim! Que posso eu fazer contra a vontade do Grão-Vizir, o grande e poderoso Hassan ben Abdallah? Se te der as escravas, ele ordenará que me esfolem vivo e enviará os seus soldados a tua casa para confiscar todos os teus bens, incluindo as mulheres. Por certo, não desejas tal cousa?

– Senhor – intervem Youssef –, Akim tem razão, não podemos dobrar a lei a nosso belo prazer. Se os mercadores já acordaram o preço da solicitação, as peças têm de ir a leilão. Porém, aí, ninguém te poderá impedir de as comprar.

O Cheikh parece recuperar a razão, acalmando-se um pouco e Akim respira de alívio, abençoando o judeu por ter vindo em seu auxílio.

– É verdade, meu Senhor, as restantes mulheres foram repartidas em lotes e, por isso, pude vender-tas sem problemas, pois são fáceis de substituir por outras peças de reserva.

– Basta de conversa – resmunga o Cheikh vencido. – Youssef paga a esse miserável e não saias daqui enquanto ele não for entregar o carregamento de escravos lá a casa. E vós, vinde comigo.

Khalid e Pêro da Covilhã obedecem à ordem, saindo para o pátio do funduq, o português levando a morte na alma, por Belagegi não ter conseguido libertar as três virgens cativas.

– Perdoa-me, amigo! – diz-lhe o Cheikh mortificado. – Resgatei todos os portugueses cativos mas não consegui comprar as donzelas, o maldito traficante não cede!

– Senhor, a minha vida pertence-te – responde o escudeiro, cheio de gratidão, tentando beijar-lhe as mãos, mas o Mouro não lho consente. – A tua generosidade não tem limites e Deus há-de recompensar todo o bem que hoje aqui fizeste.

– Isso de pouco consolo me servirá, se não conseguir resgatar também as três meninas. Espero fazê-lo no leilão, pois não deixarei ben Abdallah vencer-me nos lances.

Khalid, com o rosto sombrio, diz com ironia:

– Duvido que o Grão-Vizir faça jogo limpo, meu Senhor. Quando souber, como não deixará de saber, do teu interesse por essas mulheres, tratará de preparar alguma traição ou golpe sujo, para te levar a melhor.

– Também o creio – concorda Belagegi. – Por isso, caso ele saia triunfante, teremos de conceber um plano para salvar as moças, pela força das armas se necessário for.

Pêro da Covilhã, embora comovido e cheio de reconhecimento, acha que o Cheikh está a ir longe de mais e resolve intervir:

– Terá de ser um golpe de mão, meu Senhor, e ninguém pode saber quem o desferiu, ou correrás o risco de uma guerra e mesmo de perder o teu reino e isso não posso aceitar.

– Falaremos disso à ceia e urdiremos as manhas e ardis próprios para um ataque de surpresa e uma retirada bem sucedida, se tivermos de recorrer a isso. Khalid, convoca sem tardar Ali ibn Saad, o cherif dos nómadas das montanhas, para a nossa reunião.

– É para já, meu Senhor – responde o Tuaregue com os olhos a brilhar de ardor guerreiro, chamando imediatamente um dos homens da escolta, a quem transmite a ordem do Cheikh.

O emissário esporeia o cavalo e parte à desfilada pelas estreitas ruelas de al-Bali, fazendo saltar os furiosos peões para dentro das portas e das tendas, assustando os burros e fazendo-os espinotear e derrubar cestas e fardos, zurrando e mordendo os donos que enchem o cavaleiro de injúrias e maldições.

Uma carroça, puxada por mulas, entra no pátio do funduq e Youssef aparece seguido de Akim:

– Os escravos estão prontos para o transporte, meu Senhor – diz o judeu.

– Leva dois homens contigo e vigia o carregamento, conferindo tudo, pois não me fio nesse traficante. Não lhes tires ainda as cordas, para não dar nas vistas, mas, em chegando a casa, aloja os cativos como hóspedes e não como escravos, Youssef.

– Assim será feito.

Dois servos descem da carroça e entram no edifício para ajudar o eunuco a trazer os cativos. Ouvem-se sons de pancadas e gritos e, por cima deles, a voz esganiçada de fúria do gordo Akim. Quando surgem no pátio, precedendo a triste mercadoria humana, o traficante agita uma chibata nas mãos e limpa o suor do rosto com a ponta do beskir, arfando de cansaço e o gigantesco eunuco vem choroso, esfregando os feios vergões  das chibatadas que lhe queimam o rosto e os braços musculosos.

– Poderoso e venerando Mulay Belagegi, Senhor de Chavia e do Um-er-Rebia, aqui tens a tua carga, vigiada e conferida pelo teu escrivão. Possam as bênçãos  de Allah descer sobre a tua cabeça e dar-te saúde e longa vida, para gozares os serviços de tão bons escravos.

Os cativos portugueses sobem para a carroça, as mulheres chorando em silêncio e os homens com protestos e ameaças, logo  empurrados com violência e maltratados pelo eunuco a vingar-se do castigo infligido pelo dono. Haguiz monta a cavalo, secundado pelos dois Tuaregues e seguem o carrão quando este deixa o funduq.

Sem responder às lisonjas do traficante de escravos, o Cheikh faz sinal a Pêro da Covilhã e a Khalid para o seguirem e entra na pousada, com o balofo Akim colado aos seus calcanhares:

– Akim, já estás pago e, por certo, satisfeito com um lucro excessivo. Mostra-nos as cativas que me recusaste.

– Ó meu generoso Senhor, como posso eu exibir a mercadoria a um cliente particular, se os mercadores já viram as peças, decidiram sobre o seu preço e estão a oferecê-las aos seus clientes principais? Isso é contra as leis da nossa confraria!

– Khalid, corta-lhe a língua! – ordena o Cheikh.

O Tuaregue, num gesto rápido, fila Akim pelo capuz da gellaba e desembainha a curva cimitarra. O homem guincha de terror e o eunuco dá um passo, como para lhe acudir. Porém, o olhar gelado de Pêro da Covilhã, o gesto de levar a mão à arma e também a lembrança do castigo dado pelo amo imobilizam o escravo.

– Piedade, ó benevolente Belagegi, o mais magnânimo de todos os homens! – suplica o tratante[39], pálido de medo e com voz soluçante. – Tem dó de mim, ó benfeitor dos pobres e miseráveis! Se assim o queres, mostrar-te-ei as peças, apesar do risco de perder a minha reputação de honrado mercador.

Khalid larga-o e o traficante faz sinal ao eunuco para ir à frente, a indicar o caminho ao Cheikh e aos seus temíveis guarda-costas. Não descem ao piso subterrâneo do funduq, pois aí só há a cozinha, os quartos dos servos e o hammam e as celas com grades para os escravos do sexo masculino. Passam diante da porta dupla e de grandes ferrolhos do hammam das mulheres, no piso térreo, junto aos alojamentos dos mercadores e a uma sala de refeições e acolhimento e sobem ao último piso.

Aí estão situadas as salas reservadas aos mercadores e clientes mais poderosos, assim como os aposentos onde se conserva a melhor mercadoria, as mais belas peças de entre todas as escravas para venda, dos eunucos da sua guarda e das mulheres que cuidam delas e as preparam com esmero para a mostra em público, transformando e melhorando a apresentação de cada peça, para poderem atingir nos leilões e vendas os preços mais elevados. O eunuco abre o postigo de uma porta e espreita para o interior do quarto, afastando-se de seguida, com um aceno e Akim diz:

– Aí tens as peças, magnífico Senhor, podes vê-las através do postigo.

– Como te atreves a zombar de mim, miserável insolente? O Cheikh Belagegi Abd-el-Aziz não anda a espreitar o quarto das escravas por um buraco de fechadura! Khalid, atira-me esse cão tinhoso pelas escadas abaixo.

O Tuaregue não se faz rogar e, agarrando o gordo traficante de novo pelo capuz da gellaba, leva-o quase de rastos apesar da sua corpulência até às escadas, dizendo-lhe com uma voz bem gentil:

– Desces pelo teu pé ou queres ajuda?

– Eu desço! Eu desço! Não preciso de ajuda – grita Akim para evitar o castigo e, soltando-se bruscamente das mãos do seu algoz, desce alguns degraus e senta-se nas escadas, acabrunhado, remordendo protestos e maldições.

Khalid regressa para junto do Cheikh que forçara o eunuco a abrir a porta do quarto das cativas e lhe dizia, ameaçador:

– Afasta-te, criatura, se não queres seguir a sorte do teu amo. – Prudentemente o escravo dá-lhes passagem e deixa-se ficar à porta sem saber o que fazer.

 Ao ver entrar três desconhecidos sem o eunuco nem Akim no quarto das mulheres, Safia, a governante do funduq encarregue das escravas e das suas serviçais, avança para eles com um pesado gomil de latão nas mãos, lançando uma torrente de pragas e maldições, decidida a escorraçar os intrusos à força de pancada.

O espião de D. João II, num abrir e fechar de olhos, agarra na surpreendida mulher pelo pescoço e atira-a para fora do quarto para os braços do eunuco. Safia, soltando grandes brados, corre em busca de Akim.

– Diz-lhes depressa o que tens para dizer, antes de aparecerem os guardas do funduq – ordena Mulay Belagegi, olhando maravilhado para as tão disputadas virgens portuguesas, que se tinham erguido da otomana onde estavam sentadas e tremiam de medo e de aflição.

Mas tanto o português como o Tuaregue, de olhos fixos nas escravas, parecem entontecidos ou embriagados pelo intenso aroma do quarto, uma mistura de perfumes doces e pungentes a flores e especiarias, de entre os quais se distingue o da canela, com cuja casca as mulheres árabes costumam esfregar o corpo.

As três donzelas tinham passado horas no hammam, envoltas em quentes vapores, entregues às mãos experientes de antigas servas dos haréns de grandes senhores, que as haviam banhado, esfregado, massajado com óleos perfumados, até a sua pele ganhar a tonalidade e o brilho do mármore rosado de Carrara e a macieza do veludo e da seda. Depois tinham-nas depilado e perfumado com várias essências, tratado e penteado as opulentas cabeleiras até lhes arrancarem reflexos de cobre e ouro. Com a alquimia de pós e líquidos coloridos, as servas do harém acentuaram a perfeição e a graciosidade dos rostos belíssimos, a suavidade quente dos lábios, o abismo doloroso dos olhos das três cativas. Por fim, cobriram-nas com tecidos levíssimos como carícias, descobrindo em atrevidas transparências o que deviam encobrir – a promessa inocente e ousada de um esbelto corpo de menina-mulher.

Nunca, pensa Pêro da Covilhã arrebatado, nem mesmo com o mais precioso trajo da corte, Filipa de Menezes logrará superar a beleza desvendada nesse momento, para encanto e deslumbramento dos três homens, assim reduzida à condição infamante de peça prestes a ser leiloada e comprada num mercado de escravos. Uma beleza trágica e intocável a ferir a alma de quem a contempla.

O Escudeiro retira o lenço que lhe cobre o rosto, fazendo Filipa soltar um grito de reconhecimento e diz numa voz turvada, pigarreando para desenlaçar o nó da sua garganta:

– Dona Filipa... Senhoras, chamo-me Pêro da Covilhã, sou criado do nosso bem-amado rei D. João II, aqui enviado a um seu negócio. Falai baixo para os nossos inimigos não descobrirem que sou português.

As cativas dominam o alvoroço e perguntam ansiosas:

– Vindes libertar-nos?

– Já não seremos vendidas como escravas?

– Ides levar-nos daqui? Somos Madalena e Helena de Ataíde. Sabeis por onde anda a nossa família?

– Quem são esses mouros que nos olham com espanto?

Pêro da Covilhã, cheio de angústia, sente-se miserável por lhes destruir a esperança:

– O Cheikh Belagegi é como um rei nas suas terras e resgatou todos os portugueses que foram convosco cativos.

– Então vindes libertar-nos?

– Apressa-te, Português – avisa o Cheikh ouvindo algazarra lá fora e Akim a gritar “Tuaregues, nos quartos das mulheres” –, ou deitamos tudo a perder!

Khalid encostado à porta encerrada, tapava o postigo com as largas costas e o eunuco batia com os grossos punhos na madeira gritando-lhes que abrissem. Ibn Zohr mal o ouve, deslumbrado pela beleza, timidez e doçura das duas irmãs. Pêro da Covilhã prossegue, ansioso por acabar de dar as más novas:

– A vossa grande beleza e juventude, Senhoras, provocaram a cobiça dos mercadores e estes não deixaram Akim vender-vos ao Cheikh. Assim, tereis de ir a leilão onde ele tratará de vos resgatar e devolver a vossas famílias.

Acaba, corado pela vergonha e impotência, ante as moças que choram de dor, medo e humilhação.

– Senhoras, tende esperança, não vos abandonaremos! Havemos de vos resgatar nem que seja pela força das armas. Temos de partir agora, apenas desejávamos prevenir-vos e dar-vos ânimo.

Nesse momento ouvem os gritos de Akim, atrás da porta e saem do quarto. O Cheikh sorri ao traficante, como se ele fosse um velho amigo, dizendo-lhe:

– Meu bom Akim, dobro-te a comissão se me for dado arrematar estas cativas no leilão.

Os olhos do homem brilham de ganância e esquece toda a sua raiva:

– O meu maior prazer é servir-te, generoso Senhor.

– Volvamos a casa – diz o Cheikh. – Nada mais temos a fazer aqui.

 

 


 

[30] Sejam bem-vindos.

[31] Viva. A paz seja contigo.

[32] Chamo-me Khalid.

[33] Com estás?

[34] Bem, graças a Deus.

[35] Intérprete.

[36] Diferentes, vários.

[37] Panos de lã e algodão às riscas azuis e brancas. Trocavam-se estes panos, muito apreciados pelos negros, por ouro e escravos.

[38] Dado peitas, subornos.

[39] Aquele que faz tratos, negócios. Como nem todos os mercadores são sérios, ”tratante” passou a significar “malandro”, “patife”.



publicado por umhomemdasarabias às 14:20
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Cap. IV - O Sacrifício da Huri

 

A excitante nova  das cativas portuguesas e da disputa anunciada entre os dois inimigos declarados – o odioso Grão-Vizir Hassan ben Abdallah e o Rei das Tribos de Chavia, Belagegi Abd-el-Aziz –, correu veloz por Fez e arredores e trouxe uma infinda multidão ao mercado de escravos de Al-Bali.

O espectáculo promete e, apesar do Corão proibir os jogos de azar, chovem as apostas sobre qual dos dois poderosos Senhores levará a melhor, arrematando as escravas cuja beleza se diz ser apenas comparável à das huris, as virgens do Paraíso aí postas por Allah para consolo e regalo dos crentes, após uma vida de honestidade e sacrifício na terra.

Os mercadores estão satisfeitos com o ajuntamento que se está a formar na praça, em volta do alto estrado para onde são levadas as peças, mostradas à multidão, leiloadas e arrematadas. Dão graças a Allah por o estratagema ter resultando, ao cometerem uma “inconfidência” perto de ouvidos curiosos sobre o interesse dos dois rivais pela mesma mercadoria. Em menos de uma hora o “segredo” fora sabido por todos os fassis, do mais humilde ao mais nobre dos habitantes da Cidade do Islão.

Músicos, bailarinas e acrobatas fazem os seus números, animando as gentes que visitam o funduq em busca de uma boa compra: um escravo de transporte, uma escrava doméstica ou alguns servos para trabalharem as terras, nas quintas às portas de Fez. Mercadores do interior procuram adquirir lotes de peças variadas – machos, fêmeas e crias – pois assim saem mais baratos e o lucro aumenta quando são vendidos longe dali, na região do Deserto.

Encontram-se a bom preço negros trazidos da Costa dos Escravos[40] e de S. Jorge da Mina, resgatados às escondidas ou capturados durante audaciosas abordagens aos barcos dos portugueses que patrulham aquelas costas, como zona sua e de mais ninguém; vêem-se igualmente numerosos homens, mulheres e crianças gregos, corsos, calabreses e genoveses, apresados nas razias feitas por piratas como Selim Khaldun ao longo das costas da Calábria, das ilhas do mar Tirreno e da Toscânia.

Muitas das peças não chegam a ir a leilão, basta ajustar o preço com o mercador, após furioso regateio:

– Olha-m’estes dentes – e o homem força o negro a abrir a boca –, já todos gastos e estragados! O homem é velho e tu pedes-m’o preço de uma peça na flor da idade?!

– Como podes dizer isso? – brada o mercador com grandes mostras de indignação. – Vê-lhe os músculos, apalpa aqui e diz-me s’isto é o corpo de um velho! Muitos anos de bons serviços inda te há-de prestar esta peça. Juro-o, por Allah e pelo seu Profeta!

Desde bem cedo as varandas do funduq ficaram repletas de senhores das mais nobres famílias fassis e de burgueses endinheirados, pois ninguém quer perder o bate-barba dos dois influentes rivais que irão ocupar os balcões vazios.

Subitamente, a praça parece colorir-se de azul e negro. Como na movimentação combinada de um entremez[41], entram no recinto os mercenários do Grão-Vizir, todos trajados de negro, fortemente armados e ameaçadores a marchar como uma tropa de elite, rodeando a liteira do terrível Ministro. Um coro de apupos e assobios solta-se das bocas do povo.

Do lado oposto, com um fogoso estrépito de cavalos e gritos modulados pela vibração da língua contra o palato, surgem os garbosos Tuaregues de Mulay Belagegi, em aparente desordem, vestindo o albornoz azul do seu clã e montando cavalos berberes todos negros como azeviche. O Cheikh cavalga entre eles, mas a sua montada é branca como a neve nos cumes mais altos do Atlas. A assistência grita e aplaude com entusiasmo o generoso Senhor, sempre pronto a socorrer o miserável que lhe pede auxílio na desgraça.

– Como são galantes! É pena que só mostrem os olhos!

– É verdade, nunca descobrem o rosto e, o mais raro ainda, é as suas mulheres não usarem véu diante dos homens!

– Já viste como são todos da mesma estatura?

– Parecem escolhidos a dedo. São tão altos e esbeltos!

– E são guerreiros temíveis. Olhai como montam!

Ambos os grupos param diante do edifício do Mercado de Escravos. Os mercenários fazem alas, perfilando-se, os escravos de transporte baixam a liteira e o lugar-tenente ajuda o Grão-Vizir a sair. Ao mesmo tempo, Khalid e Pêro da Covilhã saltam dos cavalos e ajudam o Cheikh a desmontar, enquanto os restantes Tuaregues, à desfilada e emitindo os seus gritos, percorrem toda a praça em volta dos homens de negro, como se lhes fizessem um cerco. Hassan ben Abdallah empalidece de fúria perante aquilo que considera uma provocação e um insulto.

– Olhai o rosto do Vizir! – diz um perfumista, batendo as palmas de entusiasmo. – Está com vontade de matar o Cheikh!

– E Mulay Belagegi não perde ocasião de o agastar – acrescenta, sorrindo, o açougueiro.

– É bom haver alguém capaz de desafiar esse meliante!

Os dois Mouros ficam frente a frente e saúdam-se com muitas cortesias e salamaleques, como se fossem os melhores amigos do mundo, mas o Grão-Vizir, cheio de raiva, não tem outro remédio senão cumprir com as três vénias profundas exigidas pelo protocolo para príncipes de sangue real. À entrada do funduq, o Ministro do Califa tem de ceder o passo ao poderoso Cheikh, senhor de muitas terras e de muitas gentes, capaz de levantar um exército contra o próprio Califa, se assim lhe aprouver.

Akim ibn Toufail, envergando os seus melhores trajos, vem recebê-los à entrada e desdobra-se em cortesias sem fim, ante os dois homens, fazendo correr os servos, também vestidos de gala, para que nada falte a tão prestigiosos senhores. Khalid e Pêro da Covilhã seguem-nos, ombreando com os guarda-costas do Vizir e dois corpulentos mercenários de muito má catadura quase os empurram para lhes tomar a dianteira. Ibn Zohr cospe para o chão, em sinal de desprezo.

O gordo traficante de escravos conduz os dois clientes aos balcões do piso superior, que dão para a praça e lhes estão reservados. Mulay Belagegi toma assento junto do varandim e os dois Tuaregues vão postar-se de pé por trás dele. O Grão-Vizir é levado para o outro balcão e os mercenários, com um riso escarninho, imitam os gestos e as posições dos homens de azul. Os servos do funduq vêm imediatamente dispor travessas de iguarias e taças de porcelana com o refrescante chá de menta, sumos de frutas e, mais secretamente vinho e outras bebidas alcoólicas proibidas pelo Corão.

O Cheikh tem uma vista privilegiada das galerias, da praça e do estrado onde, naquele momento, se leiloam dois genoveses magros e de meia idade que pouco interesse despertam na assembleia:

– Não vos deixeis levar pelas aparências – grita o pregoeiro, com veemência. – Não são peças de transporte, nem servem para trabalhos pesados. São letrados, meus Senhores, sabedores de latim e grego. Não está, entre vós, nenhum ilustre professor de nossa insigne universidade de Qaraouiyyîn que necessite de um traslador? A cento e vinte moedas cada peça?

Fica um instante silencioso, olhando a multidão, à espera de um lance. Capta o sinal de uma mão e prossegue, mais persuasivo:

– Cento e vinte, para o Rabi. Ninguém dá mais? – nova pausa. – Não quereis bons mestres ou tutores competentes para vossos filhos? E estes são sábios que ensinam, pois, como todos sabem: 'Alim bila 'amil mithl al-gaym bila matar”...

O provérbio “Sábio que não ensina é como nuvem sem chuva” dito com graça pelo pregoeiro faz rir toda a gente. Fazem-lhe outro sinal e o pregoeiro anima-se:

– Cento e cinquenta para o senhor do fez branco. Uma família de bons costumes e cultivada não pode descuidar a educação das crianças. Estes escravos, escolares e letrados depressa aprenderão a nossa língua... Cento e setenta...

Os homens foram arrematados pelo Rabi, para trabalhar na sinagoga de Mellah a recuperar livros destruídos pelo ataque fanático dos crentes do Islão ao bairro judeu, em 1465, massacrando a população e destruindo e queimando tudo, incluindo sinagoga e biblioteca.

O burburinho aumenta na praça, os lances sobem, as disputas estalam quando os pregoeiros dão início ao leilão das mulheres de várias raças, idades e aparências. Pêro da Covilhã, no seu disfarce de Tuaregue, dá graças a Deus por o lenço azul escuro lhe esconder o rosto, pois só com muito esforço lograria manter-se impassível perante o espectáculo daquelas mulheres europeias, brancas e cristãs a serem avaliadas e vendidas como escravas para uso e abuso de infiéis. Era como se o mundo estivesse às avessas e já nada fizesse sentido.

Akim alimenta o ardor e a agitação dos clientes das galerias do funduq com a apresentação de mulheres cada vez mais jovens e mais belas, uma estratégia muito lucrativa, aprendida nos largos anos de prática daquela profissão. A transparência dos véus que, sem tudo revelar abertamente, permite vislumbrar a delicadeza dos traços, a brancura da pele, a perfeição das formas, o contorno de um seio, atiça as paixões e acirra o desejo de posse.

 O traficante de escravos sente o ar pesado da excitação, rivalidade e cobiça que opõem aqueles homens ricos, habituados a satisfazer todos os seus caprichos graças ao poder das suas bolsas bem recheadas e esfrega as mãos de contente ao ouvir as provocações, desafios e insultos, lançados de um para outro balcão com grandes gargalhadas e um brilho alvoroçado nos olhos, a que não é alheio o efeito do muito álcool ingerido, deitado encobertamente nas taças de porcelana em lugar do inofensivo chá de menta. Uma grega, bela como uma escultura de Fídias, após renhida contenda entre os senhores nas galerias, foi arrematada por um gordo general do Califa pela grossa soma de mil moedas.

Por fim chega o grande momento para Akim ibn Toufail que sobe ao estrado a fim de se encarregar, ele mesmo, do pregão e dos lances das três virgens portuguesas. A sua presença faz descer sobre a multidão um silêncio cheio de nervosismo e desassossego, porém ele não se apressa, muito pelo contrário, com um sorriso de bonomia mira a multidão que enche a praça, ergue os olhos para as galerias e lança a sua voz com alegria e entusiasmo contagiantes:

– Poderosos senhores, nobres e ilustres cidadãos de Fas, distintos visitantes do nosso próspero reino, ouvi as minhas palavras e acreditai-me: nem tudo o que é redondo é avelã, nem tudo o que é longo é figo, nem tudo o que é vermelho é sangue e nem todos os ovos são frescos.

Faz uma pausa, para criar efeito e observar a surpresa causada pelas suas palavras e prossegue:

– Eu sei que, em toda a vossa vida, já vistes e comprastes aqui e em muitos outros lugares grande número de escravas, porém posso garantir-vos que nunca haveis visto uma única capaz de ser comparada a qualquer das três virgens portuguesas que vos anuncio.

Nova pausa. A assistência mal ousa respirar. Tinha chegado o momento ansiado por todos: o arrojado leão e o dissimulado chacal iam finalmente disputar as presas! Akim avalia o frenesi e a tensão dos seus ouvintes a arderem-lhes nos olhos como uma febre maligna e anuncia:

– Duas irmãs gémeas, duas raras flores do mesmo caule, de uma beleza tão perfeita e idêntica que não ousámos cometer o sacrilégio de as separar. Mil moedas, cada uma, é o lance de partida e a esse custo, generosos Senhores, quedar-me-ei eu com elas.

O traficante faz um sinal e o gigantesco eunuco arrasta para o estrado, com firme delicadeza, duas mulheres veladas cujos trajos, em ricos e delicados tecidos, servem para dar às peças o cunho de objectos de luxo.

– Quem dá mais do que duas mil moedas? Duas virgens portuguesas – prossegue Akim, sem lhes descobrir o rosto, para provocar o interesse e despertar o desejo do fruto proibido –, duas irmãs de sangue nobre, na flor da idade, duas pérolas perfeitas. Duas mil e quinhentas moedas para Ali Mensour. Quem dá mais por esta dupla beleza?

O pregoeiro descobre os rostos de Madalena e de Helena, cuidadosamente tratados pelas escravas do funduq. Nem as lágrimas de humilhação nem a dor logram desfeá-los e os lances começam a chover de todos balcões e mesmo da praça. Khalid e Covilhã agitam-se inquietos, mas sem dizer uma palavra.

– Três mil moedas... Impossíveis de separar, magníficos Senhores, pois uma não viverá sem a outra, tal como a vossa mão direita não sabe viver sem a esquerda... Três mil e quinhentas, para o nosso bem-amado Grão-Vizir. Quatro mil para Mulay Abd-el-Aziz.

Começara o despique e, a pouco e pouco, os clientes vão desistindo e só os dois poderosos Senhores disputam as escravas. “Cinco mil e quinhentas”, indica Hassan ben Abdallah a Akim, com  um leve aceno de cabeça; sabendo da intenção do Cheikh de comprar todas as escravas portuguesas, o Vizir faz subir o preço para o seu inimigo pagar mais caras as peças menos valiosas, pois o seu interesse jaz na orgulhosa fidalga a quem já chamam a Huri Cristã, uma peça digna do sultão Schahriar, dos contos das “Mil e Uma Noites”, cujo espírito indomável ele há-de dobrar e mortificar, até a transformar numa boneca de cera para moldar a seu prazer e brincar até se cansar. Então...

As duas escravas portuguesas são arrematadas por seis mil moedas, por Mulay Belagegi e Khalid e Covilhã podem, enfim, respirar de alívio.

Sem deixar esmorecer o entusiasmo, Akim recomeça com uma voz misteriosa:

– Uma Huri do Paraíso não pode ser mais bela do que esta virgem de quinze anos; ela é a frescura do orvalho sobre a rosa da manhã, o donaire esquivo da corça em fuga, a altivez impetuosa de um puro-sangue.

Envolta em finíssimas musselinas de cores suaves que a cobrem por completo, Filipa de Menezes sobe os degraus e vai postar-se no meio do estrado, com a nobreza e a graça de uma Princesa pronta a receber a homenagem dos seus súbditos. O eunuco segue atrás, como se fosse seu pajem, sem ousar tocar-lhe.

Com voz doce, Akim rompe o silêncio da multidão, contente por a cativa cristã ter essa atitude de desafio e assim despertar a curiosidade e o desejo dos homens:

– Três mil moedas é o preço de partida, respeitáveis Senhores. Vós sois homens refinados e de bom gosto, conheceis o valor e o custo da perfeição.

O traficante dirige-se à cativa para lhe tirar o véu, mas Filipa adianta-se e solta a fina teia de tecido, deixando-a deslizar para o chão e descobrindo a longa cabeleira que lhe desce pelas costas como um manto ainda mais precioso, pois o sol da manhã arranca-lhe centelhas do mais fino ouro. Um murmúrio de deslumbramento percorre a multidão.

– Quatro mil moedas – grita Ali Mensour, o primogénito de uma das mais ricas famílias de Fez, disposto a bater-se contra o Grão-Vizir e a arruinar-se, se tal for preciso, para entrar na posse de tal preciosidade.

Fideputa malditos! Perros infiéis!” pragueja mentalmente Pêro da Covilhã, sentindo um ódio desmedido pelo traficante e pelo atrevimento de todos aqueles homens a contemplar com olhos cobiçosos o corpo semi-desnudo, secreto e puro de Filipa de Menezes, que parece ausente. Porém, pelo movimento dos lábios o escudeiro apercebe-se de que a moça está a rezar.

– Quatro mil, de Ali Mensour – repete o traficante, fazendo um sinal ao eunuco para cobrir a escrava, a fim de garantir a exclusividade das suas graças a quem a comprar. Nas galerias e balcões, os principais da cidade deliciam-se com a intromissão de um terceiro interessado.
As apostas multiplicam-se alterando as vantagens, pois não se sabe quem vai sair vencedor.

– Olhos de safira, como talismã contra o mau olhado e a peste. Quatro mil e quinhentas moedas de Mulay abd-el-Aziz pela virgem portuguesa – diz o gordo pregoeiro ao ver o sinal do Cheikh, vira-se imediatamente na direcção do Grão Vizir, capta o seu aceno e acrescenta: – Cinco mil, do ilustre ben Abdallah... seis mil de Ali Mensour.

A multidão aplaude o natural da terra a medir-se com os poderosos senhores de outros clãs. Nunca uma escrava, por muito bela que fosse, havia atingido semelhante preço. 

– Dez mil moedas – lança o Cheikh Belagegi, sem alterar a voz nem a expressão do rosto. O silêncio cai de novo, pesado como chumbo. É uma verdadeira fortuna! Será o Grão-Vizir capaz de ultrapassar tal lance?

– Dez mil moedas, do venturoso Cheikh – Akim limpa o suor que lhe escorre pelo rosto, do esforço e da emoção. – Quem dá mais? Quanto vale, para vós, a Huri Cristã, meus senhores, a gentil Flor do Paraíso?

Akim olha Ali Mensour que abana a cabeça com tristeza, retirando-se da disputa. Todos os rostos se voltam na direcção do detestado Grão-Vizir, rogando a Allah o prazer de o ver vencido e publicamente humilhado.

– Está em dez mil moedas. Dez mil... uma... Dez mil, meus senhores, pela Pérola das Pérolas, a mais formosa cativa do mundo! Dez mil... duas. Vou rematar a peça por...

– Dez mil e cem moedas – interrompe o Grão-Vizir, com o rosto contorcido pelo ódio – a favor do Comendador dos Crentes,do nosso bem-amadoCalifa Mulay Said-el-Uttaci.

Um grito de raiva e protesto solta-se de todas as gargantas. O duelo acabara por um golpe sujo de Hassan ben Abdallah! Ninguém podia competir com o Califa de Fez, chamado como o Sultão de Bagdad, o Comendador dos Crentes. Akim teria até de lha oferecer como presente, sem receber nada em troca, se o califa assim lho exigisse.

– Vendida por dez mil e cem moedas, ao nosso bem-aventurado Califa, sobre cuja cabeça descerão todas as bênçãos de Allah – remata o traficante, com pena, mas resignado.

Mulay Belagegi abd-el-Aziz ergue-se pálido de fúria, olhando o Grão-Vizir que sorri de triunfo e desce à praça a fim de receber a preciosa escrava para a transportar na sua liteira, pois sabe que o Cheikh não é homem para deixar impune uma ofensa ou um desaire. Os dois mercenários acompanham o amo, afastando os clientes do caminho e outros quatro homens de negro juntam-se ao grupo, garantindo a segurança do Ministro do Califa.

– Que fazemos? – pergunta Khalid, tremendo e tentando dominar a raiva.

– Nada, neste instante, guardemos a calma! – responde Belagegi, sentando-se de novo. – Manda seguir a liteira para sabermos onde a levam. Coragem, Português, a história ainda não terminou. Não traçámos planos para o caso de algo semelhante acontecer?

Cabisbaixo, Pêro da Covilhã faz um leve aceno de concordância, mas sente o coração vazio de esperança. Mesmo que lograssem salvá-la das garras do seu algoz, nessa noite ou no dia seguinte, já seria tarde demais para lhe salvar a honra.

Hassan sobe ao estrado, deixando os seus homens junto aos degraus, para impedir o acesso seja a quem for. Fingir que a escrava era destinada ao Califa, garantira-lhe a compra e a vitória sobre os seus rivais. E nem sequer perderia a escrava, pois arranjaria maneira de enganar Mulay Said-el-Uttaci com uma história qualquer.

– Preciso de lhe ver os dentes. Não quero mercadoria com defeito para o Califa – diz a Akim. É a primeira lição a dar à orgulhosa infiel e uma manifestação do seu poder absoluto, diante da multidão.

É um homem arrogante, feio e brutal. Acerca-se da escrava, dominando a custo a admiração e o desejo que lhe transbordam de um coração de obsidiana[42], pouco dado a emoções, porém ninguém pode olhar Filipa de Menezes e seguir indiferente, nem sequer o Grão-Vizir. Impassível e altiva, mirando em frente, a moça mantém a atitude de indiferença e desprezo que guardara durante todo o leilão.

Pêro da Covilhã vê com horror como ben Abdallah tenta segurar o delicado queixo para lhe abrir a boca, porém a escrava, com um gesto rapidíssimo e inesperado, arranca-lhe o punhal da faixa, tal com fizera no funduq ao falso mercador e, dando um salto para trás, grita a plenos pulmões:

– Como te atreves, miserável infiel, a tocar-me?

A multidão uiva de gozo, fazendo grande surriada ao Grã-Vizir. Ninguém está em posição de colher a cativa de surpresa e tirar-lhe o punhal, nem isso interessa a Akim e ao eunuco, pois a peça já mudou de mãos e quanto menos problemas arranjarem melhor será para eles e para os seus tratos.

Hassan sente o sangue a correr mais rápido e quente nas veias, como se estivesse a arder em febre. Que bela era a huri cristã! Os longos cabelos ondulando como as douradas dunas do deserto e os olhos de um azul luminoso igual ao céu que elas abraçam. Com as faces rosadas pelo ódio, a tremer de orgulho e empunhando corajosamente um punhal, pronta a enterrar-lho no corpo, parece um anjo vingador. Encontrara, finalmente, a mulher guerreira com que secretamente sempre sonhara  e cheio de paixão avança um passo, hesitando, quase humilde.

Filipa fala de novo, com uma voz fremente como se estivesse num transe, sem olhar para o balcão do Cheikh, no meio de um silêncio petrificado que ninguém ousa quebrar nem mesmo o desorientado Vizir, desesperado por não perceber a língua.

– Português! Não lamentes o meu destino. Deus o quis! A minha beleza é pecado e é maldita. A formosura é a causa da minha perdição. Mas ainda há remédio! Olha, Português e depois conta em Portugal, à minha família, como Filipa de Almeida e Menezes defendeu a sua honra.

Pêro da Covilhã sabe que Filipa fala só para ele, embora não tenha a certeza se ela o vê ou reconhece junto do Cheikh e, cheio de ansiedade, não afasta por um segundo os olhos do estrado e da figura heróica da menina feita mulher. Com um gesto preciso, Filipa ergue a mão armada com o punhal e desfere dois longos golpes no seu próprio rosto. O bramido de agonia solto pelo Vizir, ao correr para a escrava que oscila e tomba desmaiada no estrado, é prolongado pelo grito de horror de muitas bocas.

O Cheikh ergue-se exclamando:

– Louvado seja Allah e o seu Profeta! Que terrível sacrifício!

Pêro e Khalid têm os olhos cheios de lágrimas e Mulay Belagegi sabe que eles querem ir para junto da cativa portuguesa, mas receia o confronto com Hassan ben Abdallah, pois bastará uma palavra ou gesto de raiva ou desespero para deitar tudo a perder. Por isso lhes diz com autoridade:

– Vamos ter com o Grão-Vizir, mas deixem-me agir e não interfiram, custe o que custar, não digam palavra, nem façam nada que indisponha ainda mais o ministro.

Os dois homens fazem um gesto de concordância e o Cheikh desce com eles para a praça e dirige-se ao estrado. Os mercenários que tinham acorrido em auxílio do Grão Vizir, quando Filipa lhe arrancara o punhal, não ousam impedir-lhes a passagem, mas Mulay  Belagegi faz um sinal aos seus guarda-costas para ficarem junto dos homens de negro e avança para ben Abdallah que segura a escrava desmaiada nos braços.

O rosto ainda há momentos de uma beleza sem par, parece um trapo rasgado, como as mais belas pinturas da Virgem, nas Igrejas cristãs, após o saque dos crentes do Islão quando destroem e retalham os retratos dos santos da Cristandade em que não crêem. Dois profundos lanhos, de bordos entumecidos, vertendo sangue que o orgulhoso ministro procura estancar com o véu da cativa, riscam-lhe a face de mármore transformando-a numa máscara de escárnio.

– Posso fazer algo? – pergunta Belagegi. – Já chamaram um físico?

– Sim – diz o Grão-Vizir com voz embargada. – Deve estar a chegar.

O homem parece desorientado, alheio a tudo o que não seja aquele rosto ensanguentado.

– Será melhor levá-la para dentro do funduq – sugere o Cheikh e, perante o aceno de concordância de Hassan, ajuda-o a erguer o corpo da jovem.

Filipa de Menezes abre os olhos, sem um gemido, sem uma queixa. “Tão belos, mas já não pertencem a este rosto destruído” pensa Mulay Belagegi, com mágoa, vendo como uma expressão de horror e asco os escurece, quando a cativa fita os dois mouros. Tanto os mercenários como Khalid e Pêro da Covilhã avançam uns passos, a fim de transportar a moça, porém o Grão-Vizir recusa:

– Eu mesmo a levarei.

Filipa reconhece Pêro da Covilhã no seu disfarce e, para espanto e surpresa de todos, estende os braços para o falso Tuaregue que a recebe das mãos do Vizir, sem oposição. “Acabará por nos denunciar” pensa o Cheikh, enquanto o Português, seguido por toda a companhia, transporta a escrava até  ao aposento indicado por Akim e onde já se encontra o físico, que os manda sair e auxiliado por Safia começa a tratar as feridas. 

– Podemos falar? – pergunta Mulay Belagegi ao Grão-Vizir.

O ministro acede e dirigem-se para um reservado, sentando-se nas almofadas, onde o próprio Akim lhes vem servir chá de menta.

– Foi um fim demasiado trágico para este leilão que nada fazia prever e foste mui lesado. Não podes levar ao califa uma mercadoria assim tão danada, a escrava faz horror à vista, agora já não tem serventia e ninguém ta comprará, se a quiseres vender.

 Hassan ouve-o sem o interromper e Belagegi prossegue, escolhendo as palavras com cuidado, a fim de dar verosimilhança à sua história:

– Mas talvez ainda possamos encontrar uma solução proveitosa, sobretudo para ti. Como sabes, comprei todos os cativos portugueses, a fim de exigir resgates às suas famílias. Ora esta cativa deve ser da nobreza e creio que, mesmo com cicatrizes, os cristãos ainda pagarão um bom resgate por ela, pois como se costuma dizer, o macaco, aos olhos de sua mãe é uma gazela.

Ao dizer o ditado, o Cheikh acentua o tom cruel e indiferente da sua fala, a fim de não revelar demasiado interesse pela cativa.

– Que propões? – perguntou o Vizir, tomando consciência naquele momento de estar metido num grande sarilho, pois havia mencionado o nome do califa, despendera dez mil e cem moedas e ficara com uma escrava de rosto ensanguentado e cheio de cicatrizes.

– Pagar-te-ei as dez mil moedas do meu último lance e levarei imediatamente a escrava, tomando a meu cargo todas as despesas dos tratamentos. Mais tarde tentarei de conseguir um bom resgate por ela. Perderei dinheiro, por certo, mas outros cativos me compensarão e tu apenas desperdiçaste cem moedas.

Era uma solução muitíssimo melhor do que alguma vez poderia desejar e, apesar de ter um ódio mortal ao Cheikh, tinha de aceitar a sua proposta para se  livrar daquele terrível aperto. Quanto à escrava, estava desfigurada para sempre e ele não conseguiria olhar para ela e recordar o que perdera. Não podia hesitar:

– Aceito a tua generosa oferta, Mulay Belagegi abd-el-Aziz, ditada por um nobre coração e nem sei como te agradecer – estas palavras de agradecimento amargavam-lhe na boca como fel.

– Bebamos, então em sinal de amizade e assinemos os papéis do trato. Akim pode arranjar tudo imediatamente.

E o Cheikh chamou o traficante, muito satisfeito consigo próprio por ter conduzido aquele difícil negócio tão a seu contento.

...

 

Todos os portugueses, homens, mulheres e crianças, passeavam nos jardins de Mulay Belagegi Abd-el-Aziz, desconcertados pelos acontecimentos das últimas horas:

– Não entendo! – murmura o velho Rui da Lapa. – Deixam-nos em liberdade e nem sequer têm guardas a vigiar-nos.

A mulher concordou, entre receosa e esperançada:

– Toda a gente nos tratou como hóspedes de qualidade e não como escravos. Que irá o Mouro fazer connosco?

Francisco de Sousa acercou-se, dizendo:

– O Judeu sossegou-nos, embora sem falar dos desígnios do seu senhor a nosso respeito. Não devemos perder a esperança! Aguardemos as explicações do Cheik, esta tarde, como nos foi prometido.

Quando o judeu Haguiz os trouxera na carroça do funduq, nenhum deles duvidava do seu destino – trabalhar como escravo na casa ou nas terras do Cheikh que os comprara –, todavia, agradeciam a Deus por, no meio de tanta miséria e sofrimento, lhes ter concedido a graça de os manter todos juntos, pois era evidente que o poderoso mouro não pretendia separar as famílias.

Entraram pela porta principal da mansão, a sua primeira surpresa, pois vinham presos uns aos outros com cordas nos pés e nas mãos, estavam esfarrapados e muito sujos e o seu espanto foi ainda maior quando uma dama velada, por certo mulher ou principal concubina do Cheikh, surgiu a recebê-los. O judeu falou-lhe com muito acatamento e imediatamente a dama bateu as palmas, fazendo aparecer um exército de criados para se ocupar dos recém-chegados, libertando-os logo das cordas que lhes tolhiam os movimentos.

Com muitos gestos e sorrisos, as servas deram-lhes a perceber que apartavam dos homens as donas com as crianças, por ser uso dos muçulmanos terem as mulheres em aposentos separados e conduziram as cativas para o Harém, a fim de se refrescarem e recomporem dos sofrimentos passados.

Então os servos dispensaram a todos os homens os maiores cuidados, com muitas mostras de respeito, levando-os aos banhos que o senhor tinha naquela casa, numa sala enorme toda em ladrilhos e mosaicos de lindíssimo efeito, com tanques como pequenos lagos de jardim, de água quente e fria. Aquele costume dos banhos, com os corpos mergulhados durante largo tempo na água e o uso continuado de sabões, parecia aos portugueses um péssimo hábito:

– Que estranho uso! – resmungou Rui da Lapa. – Meter-se um na água sem razão de monta!

– Cousa rara, sim senhor! Que eu saiba não é Domingo nem dia santo e se for por mor de um santarrão deles, não o quero festejar!

– Isto até pode ser perigoso – dizia Artur Pena, entrando desconfiado no natatório, porém sem coragem para se negar ao convite dos servos muçulmanos. – É capaz de provocar resfriados e outras doenças.

– Já basta por ocasião de grandes festividades e recebimentos, como casamento ou baptizado, tudo o mais é um desperdício de boa água!

– Mais do que isso – acrescentou Francisco de Sousa –, é causa de maus costumes, de volúpias e deleites orientais a que os mouros se entregam, pois são mui sensuais.

Mas o calor da água e do vapor em breve reconfortaram os corpos doridos e os cuidados dos servos deram-lhes um bem-estar como nunca antes haviam sentido.

– Os infiéis até sabem gozar a vida – concluíra Artur Pena, rendido aos prazeres sensuais do hammam, quando os vestiram com os longos e confortáveis caftans, gellabas e albornozes.

No hammam das mulheres tudo fora mais fácil e divertido, entre risos e brincadeiras, depois das portuguesas se decidirem a desnudar diante de desconhecidas, incapazes de compreender a sua hesitação e vergonha.

Ao entrarem no harém viram como, quer as mulheres livres quer as servas, andavam de rosto descoberto e acorriam ao chamamento da dama que também tirou o véu e começou a dar ordens. As mouras tomaram as portuguesas pela mão, falando-lhes com gentileza mesmo sabendo que elas não as podiam compreender e levaram-nas para os banhos – um salão precioso, com pequenas fontes de mármore e mosaicos –, procurando despi-las.

– Que fazem?! Por que me desnudam?

– Mas... não vamos ficar assim, nuas em pelo, diante delas, pois não?

E agarravam as roupas, para grande surpresa das mouras, recusando-se a tirá-las. Então uma das moças da casa despiu-se com perfeito à-vontade e entrou no natatório.

– Querem que entremos naquele tanque... 

– Eu até gostava... A água quentinha deve dar cá um gosto!...

– E vamos andar por aí com as nossas vergonhas[43] ao léu? Deus me livre!

– Estais com pejo de mostrar o corpo? Tendes algum defeito?

– Sou sã e escorreita, minha menina, como podes ver – e, agastada, a mulher tirou as roupas num momento, mostrando um corpo ainda formoso, apesar dos seus trinta e cinco anos. As outras portuguesas seguiram-lhe o exemplo, rindo e dizendo chistes, quase esquecidas da sua condição de escravas e entraram no banho.

Depois seguiu-se o embelezamento dos corpos com essências, óleos e tintas nunca antes experimentados; a estranheza da roupa interior, tão diferente nas duas raças, que comparavam com muitos risos e gestos maliciosos, sem precisarem de palavras para serem entendidos, pois a linguagem dos corpos e do amor é universal.

Em seguida serviram-lhes uma excelente refeição, juntando de novo todos os portugueses e mostraram-lhes os aposentos onde iriam dormir, mantendo todavia os homens e as mulheres separados, como era seu costume. Ninguém os prendeu, encerrou nos quartos ou os impediu de se moverem pela casa ou pelos jardins. O judeu, em tudo semelhante a um físico ou astrónomo, apareceu com papel, pena e tinta, rabiscou umas linhas, mostrando-as em redor e Francisco de Sousa, fidalgo e homem de cultura, disse ao lê-las:

 – É latim, quer saber se escrevemos em latim. Podemos fazer-lhe perguntas...

Tentou falar na língua clássica, mas Youssef fez-lhe sinal para escrever pois não dominava bem o latim falado.

– Perguntai-lhe o que vai ser de nós, porque nos tratam como se fossemos livres...

O latinista escreveu as perguntas e o judeu respondeu, com muitas hesitações e erros, que nada temessem pois estavam sob a protecção de Mulay Belagegi, o qual lhes pedia perdão por não poder estar com eles mais cedo, mas andava a trabalhar para libertar as três portuguesas ainda cativas e assim responderia de bom grado às perguntas deles, no dia seguinte, quando partilhassem a refeição. O judeu recomendou-lhes que, embora sendo livres de vontade e movimentos, não deviam sair dos limites da casa e dos jardins, pois os seus inimigos eram poderosos e a partida ainda não estava ganha.

...

 

Comem à mesa de Mulay Belagegi, na companhia de Youssef, Khalid e de outros oficiais e aliados do homem que os resgatara dois dias antes do mercado de escravos, gastando uma fortuna em dinheiro e os socorrera, dando-lhes abrigo, comida e roupas de acordo com a sua qualidade, sem lhes exigir nada em troca. Usam Pêro da Covilhã como língua para agradecerem ao anfitrião, fazerem as apresentações e contarem-lhe as suas histórias.

Haviam recebido as duas irmãs, Madalena e Helena, com muitas lágrimas de alegria, pois os tios, com quem viajavam, tinham perdido a esperança de as entregar aos pais que viviam em Ceuta; porém, ao pensarem na negra sorte de Filipa de Menezes perdiam logo a vontade de folgar. O Cheikh chamara os melhores físicos de Fez para cuidarem dela, pedindo-lhes para usarem de todos os recursos da sua farmacopeia, sem olhar a custos, para remediar os estragos feitos pelo punhal no rosto da donzela, jazendo agora num quarto da mansão cheia de dores e de febre.

Os seus companheiros de viagem informam Mulay Belagegi de como Filipa viajava para ir ao encontro do seu marido, um fidalgo de grande linhagem e riqueza, em serviço na mesma praça de Ceuta, com quem havia casado por procuração. Relatam ainda as peripécias do ataque do corsário Selim Khaldun, quando haviam sido despojados de todos os seus haveres e quanto tinham sofrido até serem lançados no mercado de escravos.

– Pêro da Covilhã  – roga Rui da Lapa, o homem mais velho do grupo –, dizei ao generoso Cheikh como nós todos fizemos o juramento, invocando Deus por testemunha, de pagar a dívida que temos para com ele, quando chegarmos ao nosso destino e ficarmos na posse dos bens que ainda possuímos. Trataremos de enviar-lhe a soma despendida com o nosso resgate.

O Escudeiro traduz a fala do Português e Mulay Belagegi sorri.

– Dizei-lhes que nada quero para mim, bastou-me o gosto de contrariar os planos do Califa e do Grão-Vizir, meus inimigos declarados, para dar por bem empregue o meu dinheiro. Além disso, sou aliado d’el-Rei de Portugal. Se acham que me devem alguma coisa, podem saldar a dívida resgatando e devolvendo às suas terras alguns dos meus súbditos berberes, feitos escravos durante as razias dos portugueses.

Pêro da Covilhã traslada o pedido do Cheikh e todos admiram a bondade e o desinteresse do muçulmano, jurando que assim será feito. Mulay Abd-el-Aziz acrescenta, só para o Escudeiro:

– Vinde esta noite, com Khalid e Youssef, ao meu escritório, pois temos de conceber um plano para levar todos os portugueses para Ceuta. Uma caravana para tanta gente leva tempo a preparar  e temo que o Grão-Vizir recupere do abalo sofrido e instigue o Califa a confiscar “os escravos”.

– Tendes razão, meu senhor, já tinha pensado o mesmo. É tempo de partir, pois creio ter concluído com êxito a missão de que el-Rei me incumbiu: tenho as informações necessárias, levo o vosso tratado de aliança com el-Rei Abu-Thabet-Muhammad e consegui os mais nobres cavalos para D. Manuel, o nobilíssimo Duque de Beja, irmão da Rainha.

– E, além disso, devolvestes às suas terras um grande número de cativos portugueses, todos gente de qualidade.

– E, por esse vosso generoso gesto, El-rei D. João II vos será devedor e o meu Senhor sabe sempre pagar as suas dívidas. – Pêro da Covilhã compreende como, para além da sua generosidade, o Cheikh tem interesse em assegurar a protecção de um rei poderoso. Por fim, faz a pergunta que lhe queima os lábios: – E Dona Filipa de Menezes? Não me parece estar em condições de viajar...

– Falaremos disso mais tarde, à puridade! – conclui o Cheikh, erguendo-se da mesa e, despedindo-se dos seus convivas, recolhe-se aos seus aposentos.

...

pvta.wordpress.com 

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A caravana era formada pelos hóspedes cristãos de Mulay Belagegi, os criados para seu serviço, alguns mercadores que haviam pedido autorização para seguir com eles e um grupo de Guerreiros Azuis, chefiados por Khalid ibn Zohr, para os escoltar e lhes dar protecção nos caminhos das montanhas contra os salteadores... ou quaisquer outros atacantes. O alveitar Pêro Afonso tinha a seu cargo os magníficos cavalos vendidos pelo Cheikh e sentia-se feliz por viajar entre portugueses e volver à sua terra. As montadas dos viajantes eram sobretudo cavalos, mas havia também alguns camelos e muitas mulas para transportarem a carga e puxarem as carroças, confortáveis como liteiras, luxuosamente forradas de estofos e almofadas, onde seguiam as mulheres.

Um pouco antes, o Cheikh tivera uma longa conversa com Pêro da Covilhã sobre Filipa de Menezes, a convalescer ainda dos ferimentos e da terrível febre que a acometera. Durante aqueles dias, enquanto preparavam a caravana, a moça recusara-se a receber visitas e o Cheikh contratara os serviços de uma mulher portuguesa que vivia há muitos anos em Fez, casada com um muçulmano, para tratar da enferma e lhe servir de intérprete.

Na véspera da partida da caravana, Filipa pedira para ver Pêro da Covilhã e recebera-o, como uma moura, toda envolta em véus que apenas lhe deixavam a descoberto os olhos. Assim, parecia tão bela como antes... e o Escudeiro sentiu um nó na garganta e saudou-a em silêncio. A moça entregou-lhe uma carta:

– Escudeiro, agradeço-vos reconhecida tudo o que fizestes por mim e peço-vos um último favor: entregai esta missiva, em mão própria, a meus pais, ao chegardes a Lisboa, pois gostaria que eles ouvissem a minha história da vossa boca.

– Mas... não ides partir connosco, Senhora? – Pêro da Covilhã estava perplexo. – Que pensais fazer?

– Desejo entrar para um convento, mas não quero volver a Portugal nem ir para Ceuta, por isso pedi ao bondoso Cheikh Belagegi para me dar asilo e impedir o meu tio e tutor de me levar à força daqui. O Mouro se encarregará de me pôr em uma boa casa de religiosas, assim o jurou solenemente e eu creio nele. Ide com Deus.

Foi a última vez que Pêro da Covilhã viu Filipa de Menezes. Na sua conversa particular, o Cheikh confirmou-lhe a promessa feita à infeliz moça, de a guardar em sua casa até sarar por completo dos ferimentos, os quais, segundo os médicos asseguravam, deixariam algumas marcas, mas pouco profundas, graças à juventude da sua pele e aos unguentos usados por eles. O Mouro procurou confortá-lo:

– Talvez, quando vir que não ficou desfigurada, ganhe de novo o talante de viver e de volver para junto da sua família ou do marido. Mas, se insistir na sua decisão de ir para um convento, eu me encarregarei de lhe encontrar um apropriado à sua condição.

...

Por fim, a caravana ia partir e Mulay Belagegi Abd-el-Aziz despedia-se dos portugueses a quem salvara da escravatura e muitos, principalmente as mulheres, agradeciam-lhe com lágrimas de sincera gratidão.

O Escudeiro renova-lhe os votos de amizade e vassalagem, recebendo das suas mãos um magnífico presente para el-Rei D. João II. Com um último olhar ao sumptuoso Dar-el-Makhzen, o palácio onde vivem e conspiram contra os portugueses o Califa e o Grão-Vizir da bela cidade de Fez, o Escudeiro dá voz de partida e a caravana põe-se em marcha com um alvoroço de gritos, tropear de cascos e chiadeira de rodas, em direcção a Bab Sebaa, a porta de saída para as rotas das caravanas que cruzam as terras da Berberia.

 

 ____________________________________________________

[40] Guiné.

[41] Representação teatral.

[42] Rocha verde-escura, muito dura, usada como lâmina de sacrifícios.

[43] Órgãos sexuais.



publicado por umhomemdasarabias às 14:17
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Cap. V - Xeque-Mate À Europa

 

El-rei D. João II ergueu-se com um suspiro e dirigiu-se para o escritório onde o anafado e risonho Garcia de Resende o esperava, de serviço à sua escrivaninha. Um fiel vassalo, embora sem nenhuma costela de aventureiro, pois os talentos do moço escrivão são os de artista debuxador[44] e poeta.

– Meu Senhor – saudou-o Resende, curvando-se com grande acatamento –, tendes a escrivaninha prestes[45] com despachos para assinar.

– Que seria de mim sem os teus serviços, Resende? – el-Rei sorriu, vendo o rosto branco e rechonchudo tornar-se vermelho de enleio e satisfação.

Sentou-se e começou a ler e a separar os documentos, dando especial atenção aos que lhe haviam sido entregues por Pêro da Covilhã, como aquele vantajoso tratado de aliança com os poderosos Cheiks Mulay Belagegi Abd-el-Aziz e Abu-Thabet-Muhammad, a troco de ajuda contra os Castelhanos que assaltavam as suas praças, o qual desejava submeter ao próximo Conselho dos seus ministros.

De seguida, passou a assinar os despachos e petições, conferindo os nomes dos requerentes num livrinho de capa negra onde assentava todos aqueles a quem desejava fazer alguma mercê pelos bons serviços ou castigar pelos agravos recebidos. Garcia de Resende preparava-lhe as penas de pato, molhando-as na tinta, tendo sempre uma pronta para substituir a que ele gastava.

Estendeu a mão para receber do escrivão outra pena, porém como o moço tardava olhou-o impaciente e viu como ele tinha virado discretamente o rosto para outro lado, a fim de não ler os segredos do seu soberano. Disse-lhe, sorrindo:

– Vira-te para cá, que se me não fiasse de ti não te mandaria estar aí. Porém, que isto não te dê presunção, mas antes vontade de servir melhor e ser cada vez mais discreto.

Era com os homens do povo ou de pequena nobreza que podia contar, pois não se fiava nos grandes Senhores de Portugal, pois estes não lhe perdoavam a perda das regalias e haviam conspirado já por duas vezes para o destruir, servindo-se primeiro, no ano de 1483, do Duque D. Fernando de Bragança que ele fizera condenar à morte e, no ano seguinte, levando o seu cunhado D. Diogo, o Duque de Viseu, a preparar um plano para o matar, mas ele adiantara-se-lhe e assassinara-o, apunhalando-o com as suas próprias mãos nos paços de Setúbal.

Dera caça aos conspiradores, apanhando alguns e fazendo-os pagar com a vida a sua traição. Porém uns poucos tinham logrado fugir para Castela e D. João II não era rei para deixar traidores à solta e sem castigo, recorrendo então aos serviços de Pêro da Covilhã, seu escudeiro da guarda, mandando-o andar largo tempo por terras de Espanha a farejar e a levantar as lebres e ele saíra-se tão bem da tarefa que, neste momento, não havia um só homem capaz de se gabar de ter conspirado contra el-Rei de Portugal e escapado com vida.

Premiara o Escudeiro e encarregara-o de novas missões de espionação em terras da Berberia e ele não só as levara a cabo sem uma falha, como ainda fizera mais do que lhe fora encomendado, pois até lograra resgatar, durante a última missão, um grupo de portugueses de qualidade, caído nas mãos de corsários mouros. Poucos dias antes, recebera com muita honra os cativos de regresso ao Reino na companhia de Pêro da Covilhã a quem todos estimavam e gabavam o destemor e a generosidade.

El-Rei não podia deixar de pensar na estranha e maravilhosa história de Dona Filipa de Almeida e Menezes. Quanta coragem numa mulher tão moça, digna das canções dos trovadores! Destruir uma beleza que todos diziam ser admirável, desfigurando-se para não perder a sua honra, era um feito espantoso! Prometera ao Escudeiro interessar-se pessoalmente pelo destino da fidalga e compensá-la de toda a sua desgraça. Começara já a tratar do assunto por carta, com Mulay Belagegi, visto terem de marcar a data para o recebimento da embaixada que o poderoso Cheikh desejava enviar a Portugal.

Nas suas missivas, também o Mouro tecia elogios sem limites à acção de Pêro da Covilhã, durante a estada em Fez. Era, na verdade, um homem extraordinário e, por isso, D. João II  lhe reservava a mais rara e difícil de todas as empresas...

...

 Mapa-mundi de Toscanelli

 

El-Rei encontrava-se na sala dos Cosmógrafos, com D. Diogo de Ortiz, Bispo de Ceuta, seu capelão-mor e grande astrónomo, Mestre Rodrigo das Pedras Negras e Mestre Moysés. Ali só entravam os seus mais fiéis servidores e homens de confiança – alguns navegadores e exploradores e os agentes secretos.

 

O Príncipe Perfeito estava furioso contra Diogo Cão por este o ter enganado. O Descobridor, ao regressar da sua primeira viagem de 1484, dissera-lhe que depois de ter descoberto o Reino do Congo havia dobrado o cabo de África e encontrado a passagem entre os Oceanos Atlântico e Índico! Maravilhado e felicíssimo com tal nova, fizera-lhe muitas honras e mercês, concedendo-lhe até um título de nobreza. E, nesse mesmo ano de 1485, o Embaixador Vasco Fernandes de Lucena proclamara o feito extraordinário em Roma, durante a sua Oração de Obediência ao Papa Inocêncio VIII.

Agora, após nova viagem ao Congo, Diogo Cão vinha dizer-lhe que se enganara e afinal não tinha descoberto a passagem para a Índia, o mundo das especiarias! Se este engano fosse sabido lá fora, o rei de Portugal tornar-se-ia o motivo de zombaria de toda a Europa.

– Será que só tenho fanfarrões e fantasiosos à minha volta? – desabafava D. João II com os seus cosmógrafos. – Primeiro esse Genovês, o Cristóvão Colombo, afirmando ser possível chegar a Cipango[46] e Cataio[47], navegando para Ocidente, como se a Ásia fosse já ali, ao dobrar da esquina.

– Não há dúvida, meu Senhor – assegurou D. Diogo de Ortiz –, os cálculos do Genovês estão errados!

– E, logo a seguir, Diogo Cão faz-nos cair num logro destes! – prosseguiu o rei sem o ouvir, na sua voz fanhosa a anunciar tormenta.

Escorraçara o navegador da corte, para mostrar aos restantes descobridores que ele não admitia erros nem malogros e decidira enviar Bartolomeu Dias, navegador experimentado e determinado, a finalizar a empresa deixada incompleta por Cão, pois a passagem tinha de ser rapidamente encontrada e no maior segredo, antes das outras nações se aperceberem do logro[48].

E, ao mesmo tempo, uma ideia prodigiosa começou a tomar forma na mente empreendedora e decidida do Príncipe Perfeito – a de encontrar o reino do Preste João – pois não perderia nada em ter outro bom trunfo na mão, para ganhar a admiração das grandes nações da Cristandade.

Convocara, para uma reunião à puridade[49], João Afonso d’Aveiro, o descobridor do Reino do Benim que trouxera o embaixador Hugato; Duarte Pacheco Pereira a quem encarregava das explorações mais encobertas; Bartolomeu Dias para lhe dar cargo da viagem de descobrir; e ainda João Lourenço, Afonso de Albuquerque, Pêro da Covilhã, o seu melhor espião e Afonso de Paiva.

...

 

Após a saída de Bartolomeu Dias, ainda estonteado de alegria por lhe ter sido confiada a missão de descobrir o cabo de África, o rei ficou por momentos em silêncio, num recolhimento que os seus homens respeitaram, baixando as vozes. De súbito, percorreu a sala com o olhar e fez um gesto a João Afonso d’Aveiro para que se aproximasse e perguntou-lhe:

– Que cousa é essa de teres novas do reino do Preste João?

– O embaixador Hugato e o rei do Benim afirmam, meu Senhor, que a oriente das suas terras, a vinte luas de andadura que são mais ou menos duzentas léguas das nossas, existe um poderosíssimo rei cristão, o Ogané ou Oni[50] de Ife, chefe espiritual dos reinos Yorubas, a quem devem obediência e que consagra os reis locais, enviando-lhes um bordão e um capacete como se fora ceptro e coroa e também uma cruz de latão para trazer ao pescoço, venerada como relíquia de Santo.

– E será esse Ogané o verdadeiro Preste João, o descendente do grande Salomão e da Rainha do Sabá?

– Parece que sim, Majestade, mas ele nunca se mostra seja a quem for. Anda sempre em liteiras ou tendas cobertas de cortinas de seda e só lhe ouvem a voz e lhe vêem o pé que ele põe de fora para lho beijarem.

– O mesmo faz o Preste João das Índias, segundo consta... – e o rei continuou, num súbito entusiasmo: – Se isso for verdade, ao prosseguirmos a descoberta da costa africana, por certo daremos com o seu reino. Seria o maior feito da Cristandade e até faria esquecer o malogro de não termos dobrado o cabo de África.

Com tal jogada o Rei de Portugal daria xeque-mate à Europa!...Tal como previra, Pêro da Covilhã ofereceu-se de imediato:

– Senhor, eu e Afonso de Paiva podíamos ir, por terra, a ver dessas cousas que tanta esperança dão a Vossa Alteza.

– Mas como ireis? Quantos homens quereis levar convosco?

– Iremos só nós os dois, meu Senhor – acrescentou Afonso de Paiva. – Falamos as línguas arábicas na perfeição, temos a pele tisnada e os cabelos negros, por isso facilmente passaremos por mouros.

– Se nos disfarçarmos de comerciantes – continuou Pêro da Covilhã –, poderemos viajar nas suas caravanas para irmos protegidos dos ladrões e salteadores, ao atravessarmos as montanhas e os desertos.

– Iremos juntos até ao Cairo – acrescentou Afonso de Paiva – e depois o Pêro seguirá para a Índia e eu partirei para a Abissínia, por terra, até um de nós descobrir o Reino do Preste João.

– E, em data aprazada, nos juntaremos de novo no Cairo para volver ao Reino – concluiu Pêro da Covilhã.

– Talvez resulte, meus amigos, quem sabe? Que pensais disto, meus senhores?

Dirigia-se aos seus Cosmógrafos que seguiam atentamente a conversa e Mestre Moysés, depois de um rápido olhar aos companheiros, disse:

– Senhor, se enviardes uma expedição por terra e outra por mar, se esse Preste João existir realmente e o seu reino for em África, por certo os vossos descobridores não deixarão de o achar.

– E como Pêro da Covilhã já perdeu os desvarios e as doudices da mocidade – disse D. Diogo de Ortiz, em tom chistoso, lembrado dos tempos de desordem vividos pelo aventureiro em Sevilha – sendo homem de siso e precavido como poucos, não duvido que descubra o que mais ninguém logrou descobrir!

O Reino do Preste ou Presbítero João! Existiria realmente esse Rei-Sacerdote falado em tantas lendas? Um Rei Cristão, com um império poderosíssimo e carregado de ouro, situado na África ou no longínquo Oriente entre reinos infiéis, para servir de aliado na luta da Cristandade contra o Islamismo. Descendente do Rei Salomão e da Rainha de Sabá, diziam uns ou da antiga raça dos Reis Magos, segundo outros, durante três séculos a lenda crescera e com ela aumentara a fama  e o poder deste Preste João cujo paradeiro a Europa procurava.

– E em que lugar de África poderá estar o seu Reino? – perguntou o rei, ansioso. – Lembrai-vos do que Frei António de Lisboa e Pedro de Montarroyo nos contaram e afirmaram ter ouvido aos frades abexins, em peregrinação a Jerusalém, sobre o reino da Abissínia e o seu soberano cristão.

– É preciso ter cuidado com os abexins, meu Senhor – alertou o Bispo, com um certo desprezo. – São mui fantasiosos e sempre exageram as suas descrições. E tanto frei António como o seu companheiro não passaram de Jerusalém, por não saberem falar aravia.

– Mas, tendes alguma ideia da situação desse Reino? – insistiu o D. João II.

D. Rodrigo abriu os mapas do Mundo e de África e as cartas com as novas descobertas dos portugueses, Mestre José e D. Diogo de Ortiz consultaram respectivamente a Geografia e as tábuas de Ptolomeu:

– Tem de estar a leste do Benim... Vinte luas de andadura serão... duzentas...

– Por certo, há-de ser mais de duzentas léguas...

– Também me parece. Talvez duzentas e cinquenta ou mesmo trezentas... Ora vejamos.

Os três cosmógrafos faziam numerosos cálculos, comparavam notas, cochichando entre si, demorando uma eternidade e o Príncipe Perfeito dominava a impaciência da espera jogando uma solitária partida de xadrez. Por fim, Mestre Rodrigo disse:

– Senhor, segundo os nossos cálculos, é possível que o Reino do Preste João se ache na Etiópia, depois do Egipto. Se a lenda for verdadeira, é lá o seu Reino.

– Estais, então dispostos a tentar a empresa? – el-Rei dirigia-se aos dois aventureiros, com os olhos a brilhar de excitação.

– Senhor – volveu Pêro da Covilhã, com humildade –, pesa-me apenas não ser minha suficiência tanta quantos são meus desejos para servir Vossa Alteza.

– Pois, seja, meus senhores! Partireis pouco depois de Bartolomeu Dias, por isso tratai de concertar o plano das vossas viagens com os nossos cosmógrafos. Em breve vos enviaremos recado.

– As nossas vidas são para Vossa Alteza dispor delas à sua guisa – disse Afonso de Paiva como despedida e os dois homens retiraram-se com uma profunda vénia.

D. João II acompanhou-os com o olhar, enquanto se afastavam. Não havia dúvida de que gostava daqueles homens, sobretudo de Pêro da Covilhã, poucos anos mais velho do que ele mas tendo já servido seu pai, D. Afonso V, com grande lealdade. Aventureiro dos quatro costados, inteligente, com uma memória prodigiosa, cheio de artimanhas, falando várias línguas e capaz dos mais hábeis disfarces, levaria qualquer empresa a bom termo, como ficara provado com a sua espantosa aventura em Fez. Assim, se houvesse no mundo alguém capaz de encontrar a Rota das Especiarias ou o Reino do Preste João, essa pessoa seria certamente Pêro da Covilhã!

...

 

Era na casa do escrivão da fazenda Pedro de Alcáçova, à porta de Alfofa[51], nas muralhas da cidade junto à Sé, que Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva tinham os seus encontros secretos com os maiores astrónomos do reino, D. Diogo de Ortiz, Mestre José Vizinho, Mestre Rodrigo das Pedras Negras – o físico[52] do rei – e Mestre Moysés, estes últimos muito agradecidos ao Escudeiro por este lhes ter trazido de Fez os preciosos documentos de Samuel Gabay.

– Vamos à frente deles – disse o Bispo com orgulhosa satisfação – as nossas tábuas da declinação do Sol são muito mais esmiuçadas e certas.

– É certo, Reverendíssimo Padre, porém há aqui umas leituras novas que convém comparar com as nossas – sugeriu Mestre Moysés. – Gabay é uma autoridade em Astrologia.

– Sem dúvida, meus senhores, não devemos descurar nunca qualquer dado ou informação, venha ela de onde vier, se nos poupar tempo e fizer progredir o nosso trabalho.

Debuxavam cartas de marear e mapas, cheios de minúcias e de anotações, para guiarem os dois aventureiros por derrotas[53] de mar mas, sobretudo, por caminhos de terra nunca antes percorridos por qualquer europeu, tirando Marco Polo. Socorriam-se dos mapamundi mais recentes, que el-rei mandava fazer no estrangeiro aos cartógrafos de renome ou pagava secretamente a espiões estrangeiros, com largas somas em ouro, pelos originais ou até cópias de mapas guardados e vigiados como tesouros preciosos.

– Pêro da Covilhã, aqui tendes um itinerário feito com o maior cuidado e toda a minúcia possível, dentro nos nossos conhecimentos... – disse Mestre Rodrigo.

– ...Que são mui incompletos – continuou Mestre Vizinho –, pois essas regiões raras vezes, ou mesmo nunca, foram visitadas por gentes do Ocidente e delas quase nada se sabe.

– Para encontrardes as nações das especiarias – acrescentou Mestre Moysés –, tereis de atravessar mares e continentes, com gentes de desvairadas raças, usanças e línguas. Já vimos como nem sempre Ptolomeu está certo na sua Geografia, por isso, muitas das nossas conjecturas podem estar erradas e só vós podereis emendá-las, à medida que prosseguirdes viagem.

– Até ao Cairo, viajaremos juntos e não devemos achar mores dificuldades, além dos costumeiros ladrões e salteadores de estradas, a menos que passemos por alguma nação em guerra – disse Afonso de Paiva, consultando a carta de marear com as rotas marcadas para ambos. – Espanha, França, Itália, Nápoles, Rodes, Alexandria... Depois, no Cairo, eu cruzarei a África até à Etiópia, em busca do Preste João e o Pêro seguirá o trilho das especiarias pela Arábia, Pérsia e por fim Índia.

– El-Rei D. João II crê que por via desse Preste João se pode ter alguma entrada na Índia – lembrou Mestre Vizinho. – E talvez não se engane.

– É nessa segunda parte da viagem, onde cada um irá para seu lado à aventura, que “a porca há-de torcer o rabo” – falou Pêro da Covilhã, olhando o mapa por sobre o ombro do companheiro e apontando para uma vasta área da costa, a oriente, de contornos mal definidos e com espaços em branco –, pois ninguém andou por estas bandas para nos contar como foi. Pois, se é assi, tanto melhor! Em alguma cousa hei-de ser o primeiro...

– E esperemos que não sejas o último! Julgo, pela tua última aventura em Fez, que ainda guardas muito do ardor e afoiteza da tua mocidade quando deixaste Sevilha em pé de guerra! – riu o Bispo astrónomo, dando-lhe uma palmada cúmplice nas costas.

– Tempos passados de um moço desmiolado, com sangue demasiado quente nas veias. Ainda me lembro das vossas palavras de reprovação...

– Os Sevilhanos pediam as vossas cabeças, pois nem podiam sair de casa. – Acrescentou, em seguida, já mais sério: – Não te olvides da recomendação d’el-Rei e trata de saber, sobre todas as cousas, se os mercadores e outras gentes das terras do Levante[54] conhecem alguma passagem dos mares do Oriente para os da Guiné, no Ocidente.

– Como podem saber aquilo que nós desconhecemos? – admirou-se Afonso de Paiva. – Todavia, se souberem de alguma passagem, nós a acharemos, disso não tenhais dúvidas!

– Para tal feito, Bartolomeu Dias será o mais indicado e por certo o mais afortunado, pois fará toda a viagem por mar – disse Pêro da Covilhã. – No entanto, nós também não deixaremos de indagar e colher todas as informações que pudermos.

Enquanto se preparavam para a longuíssima e trabalhosa viagem, tiveram ainda alguns encontros com Frei António de Lisboa. O frade relatou-lhes tudo o que conseguira saber durante a sua viagem e respondeu com a melhor das boas-vontades a todas as perguntas dos dois escudeiros sobre as terras por onde passara, os caminhos a tomar e a evitar, onde buscar socorro em caso de perigo, as pousadas e pessoas de confiança que deviam procurar.

Afonso de Paiva registara por escrito e em pormenor as valiosas informações do padre, mas Pêro da Covilhã não precisava de tomar notas, bastava-lhe ouvir as coisas uma vez, por muito longas ou difíceis que fossem, para ficarem registadas para sempre na sua mente.

...

 

E aos sete dias do mês de Maio, do ano da graça do Senhor de 1487, el-Rei D. João II recebeu-os em audiência, pela última vez, em Santarém, onde tinha pousada  temporária com a sua corte, como usava fazer por diferentes lugares, a fim de conhecer o que se passava no reino e dar remédio aos males do povo. Tinha junto de si o seu cunhado D. Manuel, Duque de Beja e de Viseu[55].

Era uma audiência privada, quase secreta, para não soarem aos ouvidos dos estrangeiros os alarmes da cobiça e da inveja. El-Rei estava sério e os seus olhos negros, sombrios de pensamentos de grandeza, perdiam-se na visão da Terra Prometida. De joelhos diante dele, dois humildes escudeiros, com uma alma maior do que a sua vida podia conter, esperavam a palavra do monarca:

– Mem Rodrigues e Pedro de Astoniga já partiram, por mar, para a Guiné e de lá seguirão, através da Tamala dos Fulas, para o interior da África, a fim de saber novas do Preste João. E também a armada de Bartolomeu Dias não tardará em sair para o Congo e daí continuar a viagem até descobrir a passagem para o Oriente. Leva com ele os dois negros salteados[56] nesses lugares por Diogo Cão e quatro escravas negras que falam bem português, para as lançar pelas costas e praias novamente descobertas, onde dirão de onde vêm e tratarão de se informar sobre os seus habitantes e também se por aqueles lados chegou alguma nova do Preste[57].

Olhou-os, à espera da pergunta que lhes lia nos rostos, porém como eles nada dissessem prosseguiu:

– Assi, tereis acção concertada com estes vossos companheiros e todos levarão cartas minhas para o Preste. Tu, Pêro da Covilhã, seguirás para Levante em busca da rota das especiarias e tratarás de saber se há mesmo um “Preste João das Índias”, como dizem os antigos, enquanto tu, Afonso de Paiva continuarás na África, indo para a Abissínia, a fim de buscar esse Negus que dizem ser o verdadeiro Presbítero João. Levareis estas pastas de latão como medalha com letras talhadas em língua portuguesa, arábica, latina, grega e hebraica para mostrardes ao Preste e a quem bem vos parecer.

Mestre Rodrigo entregou-lhes as pastas e eles leram: “ElRey Dom João de Portugal, Irmão dos Reys Christãos”.

– Tendes tudo de que haveis mister, cartas, mapas, roteiros? – perguntou ainda el-Rei.

– Sim, meu Senhor.

– Os vossos astrónomos e cosmógrafos são os melhores do mundo!

– Sim, bem o sei – disse rindo D. João II. – Quanto a dinheiro (pois sem ele não ireis a nenhum lado!), quero dar-vos quatrocentos cruzados. Resende, tira esse dinheiro da arca das despesas da minha horta de Almeirim, que esta viagem a quero pagar do meu bolso e não dos cofres do Reino.

O escrivão entregou-lhes uma bolsa com moedas de ouro e os viajantes agradeceram ao rei com uma profunda vénia. D. João II apresentou-lhes um documento selado com o escudo real:

– Levai ainda esta carta de crédito que podeis usar em todas as terras e províncias do mundo. Se vos virdes em perigo ou necessidade, usai dela pois vos há-de socorrer onde quer que estejais.

D. Diogo de Ortiz acercou-se deles com a Bíblia nas mãos:

– Prestai, agora, o vosso juramento sobre este Livro Sagrado.

Os dois escudeiros pousaram a mão direita sobre o livro de capas vermelhas e letras douradas e proclamaram em uníssono:

– Eu, Pêro da Covilhã...

– Eu, Afonso de Paiva...

– ... juro que na execução e obra deste descobrimento que vós, meu Rei e Senhor, me mandais fazer, com toda a fé, lealdade, vigia e diligência, eu vos hei-de servir, guardando e cumprindo vossos regimentos[58] que para isso me forem dados, até tornar onde ora estou, ante a presença de vossa real Alteza, mediante a graça de Deus em cujo serviço me enviais.

Os dois homens ajoelharam, curvando as cabeças, para receberem a bênção d’el-Rei:

– Ide, com a graça de Deus.

Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva ergueram-se, fizeram as suas cortesias de despedida e abandonaram a sala, seguidos pelo olhar absorto d’el-Rei D. João II. Os modestos escudeiros partiam numa extraordinária e perigosa viagem, talvez sem regresso, ao serviço do Rei de Portugal e da Fé Cristã e o monarca sentiu orgulho de ser senhor de tal gente.

...

 

Os dois viajantes decidiram seguir imediatamente para Lisboa, a fim de deixarem os trezentos e cinquenta cruzados d’el-Rei (depois de terem tirado cinquenta para as despesas da viagem) com Bartolomeu Marchioni, um riquíssimo mercador de Florença, estabelecido em Lisboa como banqueiro, há já alguns anos:

– Podeis fazer com que este dinheiro nos seja entregue, à chegada a Valência, em Espanha? – perguntou-lhe Pêro da Covilhã, após a apresentação das suas credenciais.

Certamente, Signori! Seguite il vostro viaggio in pace  – assegurou o banqueiro..

– Não ousamos levar connosco uma tão larga soma de dinheiro, pois as estradas não são nada seguras e corremos o risco de ser assaltados

É vero, amici mei! C’è molto pericoloso. Lasciate il denaro con me[59].

– De acordo, Messire Marchioni.

– Buona Fortuna, Signori! Arriverdeci!

A viagem fez-se por terra sem qualquer acidente digno de nota até Valência onde receberam o dinheiro por ordem do banqueiro florentino e, prosseguindo o seu caminho, chegaram a Barcelona a 14 de Junho, no dia do Corpo de Deus, a fim de tomarem a nau de Bartolomeu Paredes fretada por D. João II para os seus dois Escudeiros.

Fizeram escala em Nápoles, para receberem o câmbio do dinheiro transferido de Barcelona, através de ordens redigidas por Marchioni, para a casa bancária da família de Cosimo de Medici que, além de ser chefe de estado (e verdadeiro rei sem coroa) da riquíssima Florença, era também um poderoso mercador e banqueiro, ganhando fortunas com os grandes tratos de especiarias com o Oriente.

Para não perder esse monopólio, o Senhor de Florença estendera os seus poderosos tentáculos por toda a Europa, abrindo casas bancárias em muitas cidades de várias nações, onde uma verdadeira rede de espiões trabalhava para descobrir e destruir qualquer tentativa de outros estados para achar uma rota das especiarias. Assim, quando os dois Escudeiros de D. João II chegaram a Nápoles, já lhes tinham preparado uma cilada.

– Os documentos por vós apresentados são falsos – disse com frieza o homem de confiança de Cosimo de Medici aos dois portugueses. – A assinatura de Messire Bartholomeo Marchioni foi forjada e não temos qualquer soma de dinheiro depositada em vosso nome.

– Como podeis dizer isso? – questionou Pêro da Covilhã, em italiano, dominando a cólera, pois a conversa do homem cheirava-lhe a golpe sujo. – Recebemos os documentos da mão do próprio banqueiro e em terras de Espanha os oficiais das vossas casas reconheceram e aceitaram as assinaturas.

  – Se o vossa artimanha resultou em Espanha, mais uma razão para usar da minha autoridade e vos mandar prender, até devolverdes esse dinheiro – concluiu o florentino, retirando-se e dando passagem à guarda napolitana, chamada com antecedência.

– Que vamos fazer? – perguntou Afonso de Paiva, enquanto caminhavam, presos um ao outro, entre os guardas que os conduziam aos calabouços da cidade. – Isto cheira-me a cilada...

– Não tenhas dúvidas. Querem impedir-nos de passar ao Oriente e vão deixar-nos apodrecer numa prisão se não conseguirmos fazer chegar o nosso protesto a ouvidos poderosos. O trato das especiarias é um dos maiores negócios de Florença e de Veneza, e não vão abrir mão dele com facilidade.

– Que podemos fazer, se não conhecemos ninguém aqui e...

– Olha, além, o Capitão Bartolomeu Paredes – interrompeu-o Pêro da Covilhã. – E faz-nos sinal para não nos inquietarmos.

– Como poderá ele ajudar-nos?

– Não sei, mas vamos fazer como ele aconselha. Pelo que vi, desde o embarque, parece-me um homem discreto e destemido, além de merecer a confiança d’el-Rei e tu sabes como sua Alteza confia em pouca gente.

O capitão da nau, vendo tardar os dois portugueses, começara a ficar em cuidados, pois já não era a primeira vez que os florentinos e os venezianos armavam armadilhas aos mercadores transportadas na sua nau para o Oriente. Assim, sem mais demora, dirigiu-se à casa bancária e em pouco tempo estava a par do sucedido, vendo os seus clientes sair sob prisão para os calabouços do porto, na belíssima baía de Nápoles.

O Capitão Paredes sabia por experiência como devia agir. Seguiu imediatamente para o presídio do porto e pediu para falar com o capitão napolitano que conhecia pessoalmente e a quem trazia presentes, das suas viagens, para cativar a amizade e aplainar as dificuldades. Foi recebido com a estima de sempre e falou-lhe dos presos como pessoas de qualidade e a quem os florentinos tão mal haviam tratado. Tal como esperava, o napolitano concedeu um tratamento privilegiado aos dois escudeiros, mantendo-os num quarto em vez de um calabouço e permitindo a Bartolomeu visitá-los de imediato.

– Criai ânimo, senhores, depressa saireis daqui, pois conheço os atalhos da justiça, nesta terra.

– Sois um homem de bem, Bartolomeu, não me olvidarei deste vosso serviço – disse Pêro da Covilhã, reconhecido.

– Tendes alguma credencial ou carta d’el-Rei de Portugal, assinada de sua própria mão, provando que andais em seu serviço?

– Há a carta de crédito, com selo real e assinatura, dada por sua Alteza para nos tirar de algum perigo ou grande dificuldade...

– Esta parece-me uma dificuldade bem séria – acrescentou Afonso de Paiva –, para justificar o uso da carta, pois sem o câmbio que esperávamos não temos dinheiro nem para comer.

– Isso não vos deve anojar, pois podeis dispor do que é meu. Mandar-vos-ei comida e bebida, mal saia daqui – prometeu o bondoso Capitão.

– Quedaremos para sempre vossos devedores – agradeceu Afonso, com um suspiro de alívio.

– Mais tarde me pagareis. Mas vamos agora ao que interessa, ou seja, a carta. Preciso de a mostrar a uma pessoa principal da corte para a fazer chegar às mãos d’el-Rei D. Fernando[60] que, certamente não desejará criar um conflito diplomático com el-Rei de Portugal a quem ainda o unem laços familiares, mantendo os seus enviados na prisão.

– Tomai-a do meu baú no camarote da nau, Capitão – disse Pêro da Covilhã, entregando-lhe uma chave. – Aqui tendes a chave. Fazei como achardes conveniente, pois confiamos em vós de alma e coração.

O Capitão Paredes despediu-se, prometendo zelar para que nada lhes faltasse e mantê-los a par de todas as suas diligências para os libertar. Foi uma semana de espera e de ociosidade, mitigada pela beleza da magnífica baía azul e bulício do porto e das ruas que viam da janela do quarto onde os tinham encerrado, embora tratados com muita cortesia e visitados frequentemente pelo Capitão da Guarda, espantado por Pêro da Covilhã falar italiano como... um napolitano.

Por fim, Bartolomeu Paredes surgiu no presídio com um secretário de sua Majestade, o regedor da cidade e um vedor da casa bancária para restituir os dois portugueses à liberdade, com o câmbio de Messire Bartholomeo Marchioni, acrescentado de uma indemnização, uma carta de desculpas de D. Fernando, acompanhada de uma bolsa de moedas e um salvo-conduto para qualquer ponto do mundo dominado pelos italianos.

...

 

A nau prosseguiu viagem até à ilha de Rodes, pertença dos Cavaleiros do Hospital[61] ou de S. João de Jerusalém e os dois aventureiros encontraram pousada na casa de Frei Gonçalo e Frei Fernando, os únicos Cavaleiros portugueses que então aí viviam e com quem conversaram sobre a sua missão:

– Seguiremos daqui para Alexandria, dentro de alguns dias, e ainda não sabemos mui bem o que fazer.

– Esta será a vossa última escala em território cristão, a partir de Alexandria já só andareis por terras de infiéis – disse-lhes Frei Fernando – e isso pode tornar-se muito perigoso.

– Ali, não deveis mostrar-vos na vossa verdadeira pele de cristãos – prosseguiu Frei Gonçalo. – É melhor tomardes a aparência de mercadores mouros, já que sabeis aravia e assim podereis passar despercebidos.

Pêro da Covilhã não podia deixar de concordar com os dois Hospitalários:

– Tendes razão, será a melhor cousa a fazer. Porém, como qualquer mercador há mister de mercadorias para os seus tratos, nós também precisamos de as arranjar. Que nos aconselhais a comprar, que não seja mui caro em Rodes e se possa vender com lucro em Alexandria?

– O mais indicado para ambos será o mel, não te parece, Frei Fernando? O que se produz aqui na ilha é mui bom e barato.

– Sim, é um produto mui prezado em Alexandria, além dos potes serem fáceis de acarrear.

– Pois seja mel! Estás de acordo Afonso?

– Como não havia de estar? Se nos indicarem onde podemos abastecer-nos, irei lá quanto antes.

– Deixai os nossos criados tratar de tudo – disse Frei Gonçalo. – Quanto a nós, cuidaremos das roupas e do resto dos vossos disfarces de mercadores muçulmanos, enquanto vos falamos de todos os lugares por nós visitados até à Terra Santa, de tudo o que deveis evitar como perigoso e a quem deveis buscar para vosso socorro e ajuda.

– Quedai-vos connosco por mais alguns dias e deixai crescer a barba um  bom troço – acrescentou Frei Fernando –, a fim de vos assemelhardes às gentes das terras por onde haveis de passar. Deveis pôr muito cuidado na escolha dos criados e dos línguas que tomardes.

Com um brilho de zombaria nos olhos, o Cavaleiro mais novo lembrou ainda:

– Se fordes mais longe, como de Tana a Cathayo, deveis levar em vossa companha uma mulher de Tana, que não só vos tornará a viagem mais agradável, como mostrará aos naturais desses lugares que sois ricos e de mui boa condição.

– Não iremos até esse cabo do Mundo... espero. Há-de bastar-me a Índia das especiarias e o Reino do Preste João.

– Se o encontrares, meu bravo Escudeiro – disse Frei Fernando com emoção –, tereis descoberto o maior e mais procurado Reino do Mundo!

– Sereis igual a Galaaz ou Percival, os Cavaleiros do Rei Artur que buscaram o Santo Graal – acrescentou Frei Gonçalo.

– Quem me dera ser merecedor de tal dádiva de Deus! – disse, com simplicidade, Pêro da Covilhã.

O Escudeiro d’el-Rei D. João II nunca cessava de se admirar, quando o metiam num sarilho ou empresa impossível, de conseguir resolver a questão a seu favor e até mesmo de escapar com vida. Atribuía esses êxitos a Deus, ao Acaso e à boa Fortuna, nunca ao seu valor e coragem. Essas qualidades eram-lhe tão naturais que nem dava por elas.

 



[44] Artista que debuxa, que desenha.

[45] Pronta, preparada.

[46] Japão.

[47] China.

[48] Ver “O Cometa”, o 2º volume desta colecção, com a extraordinária aventura de Bartolomeu Dias.

[49] Em particular, em segredo.

[50] Grande sacerdote e o maior chefe espiritual a quem todos os outros obedeciam.

[51] Postigo.

[52] O Físico era simultaneamente médico e astrónomo.

[53] Rotas.

[54] Oriente, onde se levanta (nasce) o sol.

[55] D. João II, para apaziguar a Rainha D. Leonor, sua mulher, dera os títulos do cunhado Diogo que assassinou ao descobrir a sua  a  conspiração, ao outro irmão da rainha, D. Manuel, o futuro Rei D. Manuel I, o Venturoso.

[56] Roubados, raptados; apanhados durante um “salto”, assalto.

[57] Ver “O Cometa”.

[58] Regulamentos, ordens escritas.

[59] É verdade, meus amigos! É muito perigoso. Deixai o dinheiro comigo.

[60] O rei de Nápoles era D. Fernando, filho de D. Afonso V de Aragão.

[61] Ordem dos Hospitalários, conhecidos depois por Cavaleiros de Rodes e, posteriormente, de Malta quando estabeleceram sede nessa ilha do Mediterrâneo. Em Portugal se chamava-se Ordem do Crato.



publicado por umhomemdasarabias às 14:10
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Cap. VI - Um Homem Das Arábias

 

Tisnados pelo sol de Rodes que não cessara de brilhar naquele Verão quente durante o mês da sua pousada, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, com as barbas já um tanto crescidas, trajando vestes mouras bem cuidadas e transportando uma honesta carga de mel não se diferenciavam em nada de outros abastados mercadores que iam fazer os seus tratos à bela e próspera cidade de Alexandria, sita no Egipto  dos sultãos Mameluks com a sua corte no Cairo.

O capitão Paredes fazia viagens frequentes entre Barcelona e Alexandria e veio buscá-los na data aprazada à ilha de Rodes, admirando muito o seu disfarce:

– Pareceis dois mouros, sem tirar nem pôr! Serieis capazes de enganar o próprio Maomé!

– Sem dúvida – acrescentou Frei Fernando –, mas as barbas ainda terão de crescer um pouco mais pela altura do peito, se quiserem passar despercebidos na Pérsia e reinos afins.

– Enquanto estivermos em Alexandria e na viagem até ao Cairo, elas acabarão de crescer – lembrou, sorrindo, Pêro da Covilhã.

– A vossa carga de mel já está na nau do Capitão Paredes – veio dizer Frei Gonçalo. – Podeis embarcar quando quiserdes. Ide com a graça de Deus.

– Muito vos agradecemos, senhores Cavaleiros, a vossa generosa hospitalidade e todo o socorro prestado – e Afonso de Paiva abraçou os hospitalários portugueses com sincera emoção. 

– Gostámos de vos ter por cá, já tínhamos saudades de ver gente da nossa terra – concluiu Frei Fernando. – Tende cuidado e que Deus vos acompanhe!

– Obrigado, senhores Cavaleiros – e Pêro da Covilhã abraçou-os por sua vez, dirigindo-se em seguida com Afonso de Paiva e Bartolomeu Paredes para o cais, a fim de embarcarem na nau prestes para partir em direcção às terras dos muçulmanos, onde os dois escudeiros portugueses dariam início à sua aventura.

O navio, de velas desfraldadas, aproveitava uma rara brisa de Verão para atravessar o Mediterrâneo de águas muito azuis e calmas como um lago. Era, todavia, um mar tranquilo apenas na aparência, pois estava infestado de navios corsários, não só de turcos e de mouros como Selim Khaldun, mas também de cristãos de muitas nações que não perdiam ocasião de abordar e pilhar qualquer barco de uma cidade ou estado rivais.

Pêro da Covilhã, encostado à amurada, pensava com melancolia em Fez, na formosa Filipa cujo sacrifício fizera dela uma personagem de lenda e canção para a imaginação de dois povos inimigos. Suspirou de mágoa.

– Em que pensas, homem? – perguntou Afonso de Paiva aproximando-se dele com o Capitão e dando-lhe uma palmada amigável nas costas.

– Em piratas e donzelas orgulhosas – respondeu sorrindo.

– Quanto a piratas, passo bem sem eles – falou o Capitão Paredes com uma careta de desprezo –, mas de donzelas orgulhosas não me queixo, se me quiserdes contar alguma história saborosa.

 – É uma história admirável, mas mui dolorosa...

– Falas de Dona Filipa de Menezes, não é verdade? – perguntou Afonso de Paiva que ouvira contar, na corte, a espantosa aventura do companheiro e dos cativos portugueses de Fez.

– Não pude salvar a pobre menina...

– Todos os cativos disseram a el-Rei que não podias ter feito mais do que fizeste. Salvaste-os a todos e trouxeste-os a bom porto. Porque te atormentas, homem de Deus?

– Se não vos anojar demasiado essa relembrança, Pêro da Covilhã, muito me aprazaria ouvir essa história que nos tornaria mais breve a viagem.

O Escudeiro, desejoso de aliviar o fardo que lhe trazia pesado o coração, começou a contar a sua missão na Berberia, a perseguição do espião Habeeb el-Majdoubi e o triste caso de Filipa de Almeida e Menezes.

...  

http://www.navioseportos.com.br/cms/images/galerias/galeota.jpgwww.navioseportos.com.br 

A galeota aparelhada com uma só árvore[62] e vela latina, movia-se a remos com grande ligeireza em direcção à nau de Bartolomeu Paredes. Nenhum outro barco se avistava no horizonte, nem tão pouco qualquer contorno de costa ou monte longínquo, apenas uma linha entre dois espaços azuis, pálido o do céu e intenso o do mar.

– Isto cheira-me a embuste – disse o Capitão preocupado. – Não trazem insígnias nem pendão e há pouca gente no convés, mas os remos movem-se com ritmo e em força, por isso está bem equipada. Pelo sim, pelo não, pus os meus homens em alerta.

– Estamos entre águas mouras e turcas – concordou Pêro da Covilhã – e esta região, segundo me disseram os Cavaleiros de Rodes, está infestada de corsários.

– É uma galeota pequena e rápida, muito usada no corso e esta nau tão pesada não lhe pode fugir. Se nos atacar, teremos de nos defender.

– Se pensam que somos uns mercadores indefesos – disse Afonso de Paiva – terão uma grande surpresa quando nos virem lutar.

– Todos os meus homens são livres e leais, os quatro cativos que tinha já há muito foram libertados e quiseram continuar comigo. Ando no mar há doze anos e até hoje ainda não perdi um navio. Só não desejo encontrar o Selim Khaldun da vossa história – acrescentou o capitão gracejando.

A galeota emparelhou com a nau, a barlavento[63] e ergueu os remos na posição de descanso, numa saudação. Aparentava ser um navio de mercadores mouros, com carga e passageiros como qualquer outra, mas a atitude dos homens no convés, em posições estratégicas e sobretudo o seu capitão, que mais parecia um comandante de armada, não agoiravam nada de bom.

Pêro da Covilhã ouviu distintamente o grito do corsário, dito numa aravia da região do al-Maghrib que conhecia na perfeição:

– São frangues[64]! Ao ataque!

Os remos caíram na água e a galeota moveu-se contra a nau, abalroando-a. Bartolomeu Paredes bradou para os seus homens:

– Cossairos[65]! Aos vossos postos!

Os homens acorreram ao convés e Covilhã admirou a prontidão da chusma[66] a saltar pela escotilha, armada de lanças, espadas e sabres para tomar posições de combate por todo o navio, com os besteiros e archeiros subindo pelos cabos e enxárcias até ao cesto da gávea, para daí poderem disparar os seus arcos e bestas com mais vantagem.

A galeota deixou-se descair sobre a nau, igualando as proas pela banda de estibordo[67]:

– Lançar arpéus! – ordenou o capitão dos assaltantes.

Com um silvo e um baque sinistro, dois arpões ligados a cadeias de ferro muito compridas voaram da galeota por sobre o fosso de mar entre os navios e cravaram-se como dentes famintos na bordadura da nau, a que os piratas se atracaram. Imediatamente saíram debaixo da tolda, onde até então se haviam mantido escondidos, cerca de cinquenta mouros com alguns turcos à mistura e, dando um grande grito, lançaram uma saraivada de pedras, zargunchos e chuças, as curtas lanças de arremesso a que os cristãos responderam com igual descarga.

– À abordagem! Ao ataque! – ordenou o capitão corsário lançando-se suspenso de um cabo por sobre as cabeças dos seus homens e deixando-se cair no convés inimigo, com o sabre nu na mão.

– Ao assalto! – gritaram os piratas. – Com  Selim Khaldun!

E seguiram o exemplo do chefe, agarrando-se aos longos cabos e voando do mastro e mastaréus da galeota, quais saltimbancos de feira, abatendo-se na nau como uma praga de gafanhotos.

Selim Khaldun! Maldito sejas!” Pêro da Covilhã sentiu o coração encher-se-lhe de ódio e, por instantes, julgou ter ouvido mal e não ser esse nome danado que os salteadores berravam como senha. Porém, o capitão pirata tirou-lhe as dúvidas, mal se pôs de pé no castelo da popa, bradando bem alto para os homens de Bartolomeu Paredes:

– Sou Selim Khaldun, o Corsário. Frangues, escolhei: rendição ou morte?

– Cativos de piratas mouros, nunca! – gritou-lhe em aravia o capitão Paredes, erguendo a espada num sinal para os seus matalotes[68] e mercenários: – A eles, meus bravos! Atirai-os ao mar.

E correu para a popa, seguido por um grupo dos seus homens, envolvendo-se num terrível corpo-a-corpo com os assaltantes que subiam pela amurada e saltavam para dentro da nau, rechaçando-os com valentia e atirando-os de novo para a galeota ou para o mar, feridos de morte.

Do cesto da gávea, mais protegidos, os quatro atiradores disparavam os arcos e as bestas sobre os piratas, apanhando-os ainda em voo, suspensos dos cabos, de onde se soltavam feridos, vindo estatelar-se com estrondo no convés ou despenhar-se nas águas que se cerravam sobre os seus corpos pesados de roupas e couraças.

Afonso de Paiva tomou o comando de um grupo de dez remadores de Barcelona, acorrendo à proa para tentar soltar os arpéus e libertar a nau da prisão da galeota, mas os ferros eram fortíssimos e os corsários que por ali entravam não lhes davam repouso. Ao terçarem armas, os mouros repetiram:

– Morte aos Frangues! Por Khaldun, nosso Chefe.

Todavia, Afonso de Paiva dava tão forte neles com a ajuda da chusma catalã, que os mouros começaram a enfraquecer e a retirar-se em desordem para os chapitéus da proa, para aí se defenderem, mas um terceiro grupo de mercenários fez-lhes frente e, assim cercados, tratavam de vender cara a vida.

Os mortos e feridos acumulavam-se na nau e nenhum dos grupos podia ter a ilusão da vitória, embora o maior número fosse, à partida, uma vantagem para assaltantes. Dois dos archeiros da gávea jaziam no solo trespassados pelas setas dos piratas que os haviam imitado, subindo ao mastro da galeota para desferir os arcos contra os defensores do barco cristão.

Pêro da Covilhã avançou para a popa, procurando Selim Khaldun que, debruçado no varandim do castelo[69], vestido com uma casaca carmesim franjada de oiro, por certo roubada a algum fidalgo português, brandindo no ar a cimitarra, dava as suas ordens cheio de arrogância e seguro da vitória.

– Khaldun, perro maldito, violador de mulheres! – desafiou o Português. – Não te escondas atrás dos teus cães de fila, negro capado! Anda lutar como um homem!

O Escudeiro de D. João II recusara escudo, rodela ou adarga[70] e mostrava-se de peito descoberto, com a espada numa mão e um punhal de lâmina longa na outra. O mouro olhou-o com desprezo, mas num salto ágil por cima do varandim do castelo passou para a tolda do navio, acercando-se do atrevido mercador que ousava desafiá-lo de armas em punho.

– Vens rogar-me pela tua vida, miserável traficante? Não vejo peças de seda, nem cofres de moedas nas tuas mãos! – bradou o corsário, com ironia e de modo a fazer-se ouvir no tumulto da batalha.

– Venho pagar-te com ferro e não com ouro, uma dívida antiga, negro monturo. Vou fazer-te beijar o meu bragado, eunuco de harém, filho de moura barregã! – e Pêro da Covilhã arremeteu contra o árabe, desferindo-lhe um terrível golpe, aparado no último instante por Khaldun, graças à grande perícia de espadachim adquirida nos muitos anos de corso.

– Lah hilah! Pelas barbas do Profeta! – exclamou, com surpresa, saltando para trás. – Usas melhor da espada que da vara de medir sedas, perro infiel! Mas não tenho tempo para ti.

Era um mouro na força da idade, ágil e destemido, um competidor temível. Deslocou-se com um movimento circular, em torno do adversário, medindo-o com o olhar, avaliando as suas reacções. De súbito, a lâmina curva da cimitarra volteou no ar e abateu-se sobre a cabeça do falso mercador, porém a espada e o punhal cruzaram-se ao alto para receber a estocada. Os ferros retiniram num lampejo de prata e os dois homens, com os corpos quase a tocarem-se, sentiram a respiração ofegante do outro e puderam mirar-se nos olhos do inimigo. 

– Tu não és mercador! Combates e odeias como um Cruzado cristão!

Um punhal surgiu na mão esquerda do corsário e Pêro da Covilhã mal teve tempo de o empurrar para trás, não logrando evitar, todavia, um rasgão profundo na coxa.

– Allah é grande! – gritou o mouro cheio de alegria ao ver o sangue jorrar da ferida e o adversário a coxear. – Vais morrer, cristão!

Atacou de novo mas, no regozijo do triunfo, descurou a guarda e Pêro da Covilhã não deixou escapar a ocasião, vibrando-lhe uma tremenda cutilada no braço esquerdo que se separou do corpo e tombou no solo, ainda com o punhal apertado entre os dedos.

O berro de dor e raiva do Corsário e o sangue a esguichar em profusão do coto fez acudir alguns dos seus homens que, já muito desbaratados, procuravam volver à galeota para se porem em fuga. Mantendo o Escudeiro em respeito, os mouros arrastaram Selim Khaldun até à amurada, procurando estancar-lhe o sangue e, agrupando-se à sua volta para o proteger, passaram-no para a galeota seguindo-o sem demora.

Foi o sinal para a debandada geral dos corsários, perseguidos pela tripulação da nau numa grande surriada.

– Lançai-lhes umas panelas de pólvora – bradou Bartolomeu Paredes – a ver se vão a arder para o inferno!

O movimento dos remos na galeota era descompassado, embaraçando-se uns nos outros, impedindo-a de se afastar da nau com a pressa necessária para se pôr a salvo, antes que uma meia dúzia de panelas de pólvora atiradas com perícia lhe explodisse no convés com terrível fragor, arrancando-lhe o mastro e incendiando o madeirame e as velas.

– Esta já não volta a atacar cristãos – disse o Capitão Paredes a Pêro da Covilhã, vendo as chamas consumirem o barco e o desespero dos piratas a alijarem dois batéis ao mar para salvar as vidas. – Tenho de pôr a bordo uma bombarda ou pelo menos alguns falcões[71] para me defender melhor das abordagens destes corsários.

O Escudeiro acercara-se da amurada para lançar fora o braço ensanguentado do pirata, não sem antes lhe retirar dos dedos dois preciosos anéis que entregou a Paredes.

– Valiosos trofeus – disse o capitão. – Guardai-os como recordação deste dia. Graças à vossa bravura, Senhor Escudeiro, o combate terminou mais cedo e a nosso favor. Ide tratar da vossa ferida, o meu barbeiro é um homem de muito saber.

– Não logrei matá-lo – disse o português com fúria contida. – Falhei de novo o meu dever.

– Não creio que sobreviva a um tal ferimento – Afonso de Paiva tinha os olhos brilhantes do ardor da luta e não sofrera um só arranhão. – E, mesmo se escapar, a sua vida de corsário chegou ao fim e para ele isso há-de ser pior do que a morte.

– Isso é certo – concordou o capitão. – Agora, vou ver dos meus homens, pois preciso de contar os meus mortos e pensar os feridos para prosseguirmos viagem para Alexandria. Vinde comigo, Pêro da Covilhã, pois estais a perder muito sangue.  

Afastaram-se e Afonso de Paiva ficou a olhar fascinado o fumo e as chamas que consumiam a galeota, enquanto murmurava:

– Selim Khaldun! Quem haveria de dizer?! O mundo dá cada volta!

...

 

A bela cidade de Alexandria, a El-Iskandariya dos mouros, era o porto de encontro do Ocidente, através do Mediterrâneo, com as rotas comerciais do Oriente, rasgadas no Oceano Índico e Mar Vermelho, para trocas de produtos como as especiarias da Índia, trazidas nas caravanas terrestres ou em navegação pelo mar Índico e Golfo Pérsico.

Fundada por volta do ano de 323 a. C. por Alexandre o Grande da Macedónia, depois de uma consulta ao oráculo de Amon em Siwa que o dera como faraó, Alexandria tornou-se com a dinastia ptolomaica num dos mais importantes centros artísticos, culturais e comerciais do mundo, até o Egipto ser conquistado pelos Romanos e convertido numa mera província do Império. A partir do Séc. XIII, os sultões Mamelucos, antigos escravos e mercenários circassianos, assaz tolerantes com os cristãos, abriram as fronteiras aos estrangeiros favorecendo o comércio com Venezianos e Florentinos, em especial Cosimo de Medici, por isso os Portugueses não eram os primeiros europeus a buscar tratos nestas terras de mouros.

À chegada, os dois escudeiros alojaram-se num caravanserai[72] perto do porto e procederam às formalidades do desembarque e armazenagem das suas mercadorias, lutando contra a demora e má vontade dos oficiais da aduana. Pêro da Covilhã já ali podia sentir o cheiro das especiarias e tudo parecia falar do oriente.

O seu ferimento tinha sarado bem e, enquanto esperavam pela veniaga[73], percorriam com Bartolomeu Paredes a cidade de El-Iskandariya, “a Noiva do Mar”, movimentada e cosmopolita, cheia de cor e de vida, rodeando a famosa mesquita construída pelos Fatimidas. O Capitão aguardava igualmente por uma carga e passageiros, com destino a Nápoles e Barcelona e queimava o tempo na agradável companhia dos escudeiros de quem se fizera amigo.

Admiraram sem reservas a imponente fortaleza de Quait-Bey a ser construída sobre as ruínas do Farol de Alexandria – uma das sete maravilhas do Mundo da Antiguidade –, o magnífico templo que Cleópatra mandara edificar como testemunho do seu amor pelo romano Marco António e as Catacumbas de Kom esh-Shuqafa onde se haviam refugiado os cristãos coptas durante o domínio árabe. Pêro da Covilhã não conseguia explicar a sua emoção ao contemplar aquelas obras antigas cujas pedras podiam contar histórias maravilhosas e sangrentas.

Na manhã do quarto dia vieram fazer as suas despedidas, no porto, ao valente Capitão:

– Ide com Deus, Bartolomeu Paredes – Pêro da Covilhã tinha lágrimas nos olhos quando o abraçou com muita amizade. – Jamais esquecerei o que fizestes por nós, meu bom e leal amigo. Podeis contar comigo para sempre.

– Calai-vos, Senhor Escudeiro, que esta foi a melhor e mais aventurosa viagem da minha vida! Não a trocaria por nada deste mundo. Mas, estais bem? Pareceis ter febre! O vosso ferimento piorou?

– Não, a ferida já só tem a cicatriz, mas na verdade sinto-me mareado e com as tripas soltas.

– E eu estou igual que tu! – afirmou Afonso de Paiva. – Passei toda a noite nas latrinas da pousada e hoje sinto a cabeça pesada e tremuras como sezões. 

– Pode ser da água que é muito má e doentia – Bartolomeu Paredes sentiu medo por eles, mas não quis assustá-los. – Ide visitar um bom físico, sem mais tardança, aqui há-os famosos e conhecedores das febres do Nilo.

As águas do grande rio alimentavam a cidade mas gozavam da fama de causar maleitas aos forasteiros, umas febres tão fortes que muita gente acabava por morrer e o capitão lamentava não poder adiar a sua partida para assistir aos amigos em caso de necessidade. Os dois Escudeiros mal puderam sofrer o soltar das amarras e o lento deslizar da nau para fora do porto, pois nem já forças tinham de erguer o braço num aceno de despedida, tão destemperados se sentiam. Um suor viscoso escorria-lhes pela pele e colava-lhes a roupa aos corpos. Felizmente o caravanserai não estava longe e apressaram-se a recolher ao leito, meio desmaiados.

Foram quase dois meses de sezões, de uma febre abrasadora a devorá-los numa tremura de corpos e bater de dentes, deixando-os exaustos, sem forças para lutar pela vida. Ahmed Said, o zelador do caravanserai, receoso de os ver morrer no estabelecimento, fez conduzir os enfermos ao hospital, pois como mercadores estrangeiros em dificuldades podiam usufruir da Zaká, a esmola que todos os muçulmanos eram obrigados a dar e consistia no décimo dos seus ganhos ou colheitas, a fim do Estado poder prestar auxílio aos necessitados, aos escravos em busca de liberdade, aos viajantes e combatentes das guerras santas.

O Naibre[74] enviou um Cádi ao caravanserai para falar com o zelador e inquirir da sorte dos dois mercadores estrangeiros e ele partira em seguida para o hospital a fim de ver com os próprios olhos se estavam a ser bem cuidados e qual o seu estado de saúde.

– Os homens vão a morrer, meu Senhor – disse-lhe o físico de serviço. – Foram consumidos pelas febres e estão num tal estado de fraqueza que já não têm salvação possível.

– Sabeis de onde são?

– Não, meu senhor. Vinham vestidos como muçulmanos e o zelador disse-nos que falavam mui bem aravia, porém, durante o delírio, balbuciaram palavras em uma língua desconhecida, embora com semelhanças às dos Frangues.

– Não são então de França, Itália ou Grécia?

– Não, que essas línguas conheço eu.

– Podem ser muçulmanos, mas viverem no estrangeiro. Dizes que vão morrer?

– Sim, Cádi, não terão mais de dois ou três dias de vida.

O Cádi estava contente, pois poderia levar boas novas ao Governador. Um antigo uso mouro, feito lei com a passagem do tempo, permitia aos senhores da terra herdarem todos os bens dos mercadores que aí morressem sós, sem terem junto de si filhos ou irmãos. Por isso, mal o rumor da enfermidade dos dois homens chegou aos seus ouvidos, o Naibre mandara-o imediatamente investigar para, em caso de morte, vender a fazenda sem mais delongas.

– O físico diz que os mercadores doentes não duram mais de três dias – disse o Cádi ao zelador do caravanserai. – Por isso, podemos vender já as suas mercadorias e arrecadar o dinheiro para o Naibre.

Não eram mercadorias fabulosas, como sedas ou brocados, tratava-se apenas de uma carga de mel, todavia sendo um produto muito procurado, vendeu-se por assaz bom preço. O Cádi recebeu uma bela maquia, da qual soube tirar uma proveitosa percentagem para si próprio  e uma gratificação para o zelador... para o calar.

Quanto aos mercadores, depois de morrerem, o hospital se encarregaria de os sepultar junto a outros sem família, com todos os encargos pagos pela Zaká.

...

 

Sentiam-se fracos como crianças de colo, mal se aguentando de pé. Regressavam lentamente ao mundo dos vivos, dando graças a Deus por não terem morrido em terras de infiéis sem direito a um enterro cristão. O hospital, os físicos e os cuidados recebidos foram melhores do que alguma vez  poderiam ter tido em Portugal e Pêro da Covilhã, perante a curiosidade  dos seus salvadores quanto à estranha língua por eles falada durante o delírio, contou-lhes uma longa e fantástica história, conseguindo convencê-los de que se chamavam Ali Moumen e Agi Bedreddin, eram muçulmanos de Fez e viviam há já muito tempo fora da sua terra.

– Quanto tempo estivemos enfermos?

– Quarenta dias – respondeu o físico –, mas segundo me disseram já há muito que jazíeis no caravanserai sem tratamento.

– Que perda de um tempo tão precioso! – lamentou Afonso de Paiva. – Já devíamos ter partido para El-Qahira[75].

– Temos de volver ao caravanserai quanto antes, para reaver o nosso fato – disse Pêro da Covilhã.

– Quando venderdes os vossos produtos, não vos olvideis da zaká – lembrou-lhes o físico, a rir. – Poderá ajudar outros desgraçados como vós a escapar da morte.

– Não o esqueceremos – prometeram os falsos mercadores solenemente. Era o mínimo que poderiam fazer para mostrar a sua gratidão e pagar a dívida a quem lhes tinha salvo a vida.

Quando ficaram sós, Pêro da Covilhã mostrou a sua preocupação:

– Estamos com algum atraso na viagem, embora ainda não seja grave. Porém, a partir de agora, não podemos perder tempo. Volvamos ao caravanserai, pois precisamos de dinheiro e logo trataremos da nossa mercadoria.

– Espero que o nosso fato e os baús não tenham levado sumiço – suspirou Afonso, sempre desconfiado.

– Suponho que não, pois a pousada tem um zelador e quando um ladrão é apanhado cortam-lhe a mão direita.

– Por certo isso deve desencorajar os ladrões, pois não vi um só maneta durante os dias que passeámos pela cidade.

O zelador Said ao vê-los entrar no albergue, magros, pálidos e com andar pouco seguro, olhou-os com espanto como se eles fossem fantasmas ou djinn:

– Por Allah e seu Profeta! Ali Moumen e Agi Bedreddin! Estais vivos!

– Sim, Ahmed Said, escapámos por pouco. Queremos recompensar-te por nos teres tratado nos primeiros dias e enviado para o hospital, mas para isso precisamos do nosso fato e das mercadorias.

– A vossa fazenda... Ninguém vos disse nada? O cádi do Naibre... – o homem estava quase tão pálido e trémulo como os dois convalescentes, sem saber como prosseguir: – Sentai-vos aí a tomar um refresco e logo vos porei a par do que se passou enquanto estivestes no hospital.

Pêro da Covilhã viu-o afastar-se cheio de nervosismo:

– Afonso, isto não me cheira! Qualquer cousa correu mal...

– Também me parece! O mouro está cheio de medo.

O zelador voltou com um criado para lhes servir sumos, tâmaras e frutos secos.

– Diz-nos, por caridade, que aconteceu?

Em poucas palavras o zelador contou como o ganancioso Cádi não havia esperado pela morte deles para lhes pilhar a fazenda e vender as mercadorias.

– E, agora, de que vamos viver? – perguntou Afonso de Paiva amargurado.

– Eu tinha um pequeno baú com papéis, ainda trago a chave ao pescoço. O Cádi também se apropriou dele?

– Não, Ali Moumen, eu escondi o cofre dos seus olhos cobiçosos e guardei-o para o entregar a alguém que viesse em tua busca para o dar à tua família. Aí o tens.

O zelador fez sinal ao criado e o pequeno baú forrado a couro negro foi posto sobre a mesa. Pêro da Covilhã abriu-o e viu a carta de crédito de D. João II, as suas notas, cartas de marear e mapas, assim como a bolsa de moedas de ouro. Ninguém havia tocado no conteúdo do cofre.

– Bem hajas, honrado Ahmed, espero reaver os meus bens para poder recompensar-te – disse-lhe o escudeiro, admirando a honestidade do mouro. – O Cádi tinha direito a fazer o que fez?

– Só se tivésseis morrido! Porém ele não quis esperar e cometeu um crime tremendo. Podeis queixar-vos ao muhtasib, o oficial de vigia aos tratos dos mercadores e ele há-de fazer com que as mercadorias vos sejam devolvidas ou pagas a um preço justo. Eu serei vossa testemunha.

O zelador estava contente consigo mesmo por ter resistido à tentação de abrir o cofre e ficar com o conteúdo para si, mas temera que algum parente dos mercadores viesse reclamar o fato dos seus familiares e o acusasse de ladrão. Agora a sua honradez iria ser recompensada não só no céu por Allah, mas também na terra pelos agradecidos estrangeiros.

...

 

Ao fim de quase um mês de intermináveis queixas e reclamações, com a justiça moura a arrastar-se numa lentidão de caracol, valeu-lhes a preciosa ajuda de Ahmed Said que atalhou caminhos, descobriu saídas e encontrou socorro, mediante o pagamento de peitas e gratificações, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva viram finalmente os seus direitos respeitados e os produtos pagos ao preço reclamado. Podiam finalmente seguir viagem.

– Ahmed, meu bom amigo, precisamos de um homem desta região e da nossa confiança para ir connosco como guia. Não quererás, por acaso, acompanhar-nos a El-Qahira?

– Será uma honra para mim, Ali Moumen, viajar contigo e com Agi Bedreddin.  Podeis contar comigo.

– Em mui boa hora! – disse com satisfação o falso Moumen. – Tratemos, então, da partida.

– Haveis mister de novas mercadorias, não é verdade?

– Sem dúvida – concordou Afonso. – Agora já temos dinheiro e posso tratar delas no mercado de amanhã.

– Leva o moço do caravanserai. Conhece bem os mercadores e não permitirá que te enganem.

– E, quanto ao itinerário, será melhor fazer a viagem pelo rio ou por terra?

– Pelo Nilo, Moumen, sem dúvida. Iremos primeiro pela costa até Rashid[76], o porto onde o rio desagua e aí tomaremos o barco para El-Qahira. Além de ser mais rápido, haveis de gostar do caminho pois é mui formoso.

– Trata de tudo, Ahmed – rogou Pêro da Covilhã que aprendera a confiar no mouro –, para podermos embarcar com as nossas mercadorias já na próxima semana.

Dentro da data aprazada, partiram numa barcaça de transporte de mercadorias para o porto de Rashid, na embocadura oriental do Nilo, onde fizeram o transbordo para um zambuco que, de velas desfraldadas, logo desferrou do cais e começou a deslizar pelas águas tumultuosas do rio em direcção à cidade do Cairo.

Pêro da Covilhã respirava com a brisa o perfume das acácias, atenuando um pouco o calor, cada vez mais intenso à medida que se aproximava a hora do meio-dia. Cruzavam-se com numerosos barcos de pescadores de tronco nu, manejando as cordas e as redes e junto dos povoados de casas de adobe, as mulheres lavavam as roupas nas pedras do rio, rindo e acenando um adeus. Os falsos mercadores viam os Ibis escarlates, com o seu voo lento e gracioso a recortar-se contra o azul intenso do céu, descendo nas margens do rio com um bater barulhento das longas asas cor de fogo e os olhos esverdeados dos crocodilos brilhando à superfície das águas como pequenos luzeiros anunciando um perigo de morte.

– Que maravilha! Que belo! – exclamavam os dois portugueses, olhando as margens, encantados com aquela imensidão verde e dourada.

– Em breve vereis melhor as dunas de areia a ondular, com o brilho da seda sob os raios de sol – Ahmed Said tinha alma de poeta e isso agradava a Pêro da Covilhã.

Mais adiante, surgiram uns edifícios de pedras muito grandes e todas lavradas. Estavam no meio de uns areais e em terra desabitada.

– Que pedraria é aquela? – perguntou Pêro da Covilhã sempre ávido de novidades.

– Segundo creio são celeiros do tempo dos Reis Faraós ou algumas das suas sepulturas. – Ahmed Said desculpou-se: – Sou de El-Iskandariya, não conheço lá muito bem as ruínas dos tempos antigos...

E finalmente ao entardecer chegaram ao porto, na margem oriental do Nilo, onde se alugavam liteiras, carroças, cavalos, camelos, burros e outros transportes para a cidade de El-Qahira, a uma légua de distância do porto, também chamada Mecera pelos mouros e onde se encontram as ruínas da cidade bíblica de Babilónia. Pêro da Covilhã fretou cavalos para os três e mulas com dois carregadores para as mercadorias e puseram-se a caminho para chegar ainda com a luz do dia ao caravanserai.

Em breve avistavam a cidade, cercada de altos muros de pedras lavradas, de cantaria muito antiga:

– É pouco maior que Évora! – exclamou Pêro da Covilhã que passara algum tempo naquela cidade durante uma das estadias de D. João II para fugir da peste em Lisboa.

– Mas repara na altura das casas – surpreendeu-se Afonso de Paiva, ao ver o casario. – A maior parte delas são de cinco ou seis sobrados.

E riu-se ao ver como os moradores dos pisos altos lançavam de cima, pelas janelas, um cordel com uma alcofa atada onde ia dinheiro do pagamento e os mercadores arrecadavam as moedas e punham no saco os seus produtos, logo içados para cima pelos clientes:

– Bem pensado! São cá dos meus, não gostam de se cansar!

– É uma cidade bem arruada e de ruas largas – comentou Pêro da Covilhã.

– É sobretudo uma cidade de muito trato – informou um dos carregadores. – Há suq de todo o tipo de mercadorias encerrados dentro de grandes caixarias, com as tendas para a rua e aposentos para os mercadores nas traseiras.

– Realmente cada bazar parece uma grande vila, são maiores e melhor resguardados do que em Fez – disse o Escudeiro cheio de admiração.

– Os suq aqui são tão grandes que, segundo se diz, quem não os conhece e lá entra não consegue acertar com a porta para sair – concluiu o carregador mais velho com um sorriso de orgulho na boca desdentada.

Por fim avistaram o caravanserai. O albergue era construído como um claustro de mosteiro, com uma grande sala feita em cruz, no meio da qual havia uma fonte com doze grossas bicas de latão que se abriam e fechavam; tinha ainda uma cozinha e latrinas comuns. Os claustros estavam divididos em cubículos e casinhas com porta e chave, debaixo de arcos em abóbada, para alojar os mercadores e viajantes. Em redor do caravanserai ficavam as estrebarias onde se podiam albergar cerca de mil cavalgaduras, com poços e cisternas para os animais. Pêro da Covilhã pagou o frete aos carregadores que levaram as montadas de regresso ao cais.

– Pelos vistos, os ricos aqui são mais generosos do que em Portugal! Que belas pousadas constroem para receberem os viajantes só por amor de Deus! – exclamou Afonso de Paiva, admirando a limpeza do lugar.

– Sim, é muito diferente na nossa terra e nas outras nações da Europa – concordou Pêro da Covilhã, lembrando-se das suas estadias em Espanha e França –, onde nos levam couro e cabelo, dão má comida e durante a noite, na sujidade das camas, nos comem os percevejos, as pulgas e os piolhos, enchendo-nos de enfermidades. E teremos muita sorte se não acordarmos com as bolsas ou as gargantas cortadas.

– Podeis pedir o comer – disse Ahmed depois de se informar dentro da pousada –, pois o mandam buscar fresco e barato.

– Deixaste as mercadorias dentro do armazém? E se nos roubam?

– Senhores, o que se mete destas portas adentro, ainda que seja ouro, não há-de faltar uma palha, porque para isso estão guardas de vigia tanto de noite como de dia e são obrigados a pagar qualquer cousa que falte, sendo também punidos com terríveis castigos.

Na grande sala acharam aposentadas já muitas gentes de diferentes nações, como persas, alarves, turcos, venezianos, gregos e judeus com todas as suas mercadorias agasalhadas.

Nessa noite, exaustos da longa viagem, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva comeram uma refeição ligeira encomendada por Ahmed e foram dormir, deixando para o dia seguinte as conversas com os outros hóspedes e viajantes vindos do Oriente, a fim de poderem preparar um itinerário mais de acordo com os caminhos habituais das caravanas ou dos barcos do que com as rotas imaginadas pelos cartógrafos de D. João II.

E assim fizeram durante as três primeiras semanas da sua estadia no Cairo, a próspera capital do Egipto onde morava o sultão mameluco Qayt-Bey, a quem a Cristandade chamava Soldão da Babilónia e os seus súbditos davam o nome de Melik-el-Achraf, o Rei-muito-Nobre. Os dois portugueses, umas vezes sós outras acompanhados pelo fiel Ahmed Said, percorriam os magníficos bazares a fervilhar de actividade e perdiam-se no meio de uma multidão de mercadores e viajantes de quase todo o mundo.

– É aqui onde tudo começa – disse Pêro da Covilhã, num dos dias de passeio só com o companheiro no suq dos perfumes e bálsamos. – Ou tudo acaba.

– Que queres dizer com isso? – perguntou Afonso mirando à luz um pedaço de âmbar com um brilho de fogo aprisionado.

– É a esta cidade que vêm ter todas as riquezas do Oriente e onde findam os caminhos das suas caravanas, mas é também aqui que começa a nossa missão. Do Cairo partiremos ambos, eu à descoberta das rotas das especiarias e tu do mítico imperador cristão.

– Como iremos? E para onde?

– Já praticámos no caravanserai com muitos mercadores e viajantes vindos da Índia – disse Covilhã – e ficámos a saber que é melhor ir pela rota de Toro e de Adem.

– Vamos partir sozinhos? – perguntou Afonso de Paiva assustado.

– Não. Uns Mohtasseb, os chefes dos suq, disseram-me para ir em caravana e, segundo me informaram, todos os anos por esta altura, costuma partir daqui uma cáfila de mercadores e viajantes de Fez e Tremecem. Isso vinha mesmo a calhar, pois conheço bem os seus usos e língua e não teríamos dificuldades em nos juntarmos a eles.

– E como havemos de descobrir esses mogarabis[77]?

– Segundo parece, e por sorte nossa, o capitão da caravana fica sempre no caravanserai onde temos pousada. Vamos esperar ainda alguns dias a ver se aparecem, senão teremos de arranjar outra solução.

Ao chegarem ao caravanserai, nesse fim de tarde, notaram maior agitação na grande sala em cruz onde os mercadores muitas vezes se encontravam para fecharem os seus tratos. Num dos nichos reservados às mesas baixas, como no funduq de Fez, Pêro da Covilhã viu um grupo de Tuaregues, que se destacavam dos restantes hóspedes pelos seus belos albornozes azuis, os turbantes escuros a cobrir-lhes as cabeças e os tidjelmousts, os véus com que tapam todo o rosto, menos os olhos. A recordação de Filipa doeu-lhe como uma velha ferida novamente aberta.

Lembrou com saudade os seus amigos Khalid ibn Zohr, Rashid el-Beder e Abou al-Nasir, como haviam trabalhado com ele para salvar os portugueses cativos em Fez e depois lhes tinham servido de escolta até todos estarem a salvo. Quanto não daria para os ter ali consigo, correndo novamente à aventura e ao perigo!  

Fez sinal a Afonso de Paiva e foram sentar-se não muito longe dos Guerreiros Azuis enquanto Ahmed Said  ia encomendar algo de comer. Os Tuaregues falavam alto e animados e o Escudeiro podia ouvir bocados da sua prática, escutando com agrado os sons aspirados e guturais do seu linguajar.

– É um longo caminho! – dizia um deles. – Ir, assim com tantos cavalos, de Al-Qahira a As-Suwais[78], depois a el-Tūr e daí a Adem, naqueles barcos desmantelados, quantos animais vamos perder?

– Quedaremos alguns dias em Suakin, para os cavalos recuperarem as forças. Não os podíamos levar pelo deserto, nisso Mulay Abd-el-Aziz tem razão e é ele quem manda.

Pêro da Covilhã ergueu-se de um salto. Aquela voz... a menção a Mulay Belagegi, só podia ser...

– Khalid ibn Zohr! Como os meus olhos se alegram de te ver de novo.

O Tuaregue olhava, sem saber onde o vira, aquele alarve alto e magro, de longas barbas a dirigir-se-lhe com grandes saudações de amizade. Porém o seu companheiro mais moço gritou:

– É Ali Moumen, Khalid, como podes não o reconhecer?

– Abou, vejo que não te esqueceste dos amigos, como este traidor! – Pêro da Covilhã e Khalid abraçaram-se com a saudade de irmãos há muito afastados. Depois foi a vez do jovem e impetuoso Abou o beijar nas duas faces.

– Espero que te tenha sobrado alguma amizade para mim! – era Rashid a falar na sua voz calma de sempre, abrindo os braços ao seu amigo português.

– Que fazeis aqui? – perguntou o Escudeiro.

– Viemos preparar uma cáfila para levar os cavalos do Cheikh a vender a Adem. E tu?

– O mesmo. Vou para Adem ao serviço do meu senhor. E depois para a Índia.

O rosto de Khalid abriu-se num sorriso de alegria:

– Então irás connosco, pois como diz o ditado, Ar-rafyq qabla at-taryq!

– Sem dúvida – riu o português ao traduzir mentalmente o provérbio árabe “o companheiro antes da viagem”, pois numa caravana a vida do viajante dependia muitas vezes da ajuda dos companheiros. Com amigos destes, Pêro da Covilhã sabia que nada de mal lhe poderia acontecer.

 



[62] De um mastro. A vela latina era a vela triangular, própria das caravelas.

[63] Lado ou bordo do navio de onde sopra o vento.

[64] Nome dado pelos mouros a todos os europeus (francos), sobretudo aos portugueses.

[65] Corsários, piratas.

[66] O conjunto de remadores de um navio (o nome é de origem turca).

[67] Lado direito do navio, quando se está virado para a proa.

[68] Marinheiros.

[69] Superestrutura que se erguia acima do convés, pela alteração da borda do navio, e que se dividia em cabinas ou pequenos quartos para o Capitão e outros notáveis. A popa era a parte posterior da nau, caravela ou galeão.

[70] Escudo largo, do tamanho de um homem.

[71] Peças de artilharia que lançavam matérias incandescentes.

[72] Caravanserai (do persa Karvan-saraí), funduq, hospedaria gratuita para os mercadores das caravanas.

[73] Mercadorias.

[74] Governador.

[75] O Cairo.

[76] Roseta.

[77] Magrebinos, do Magreb (Marrocos).

[78] Suez.



publicado por umhomemdasarabias às 14:05
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Capítulo VII - A Cáfila

 

Tinham negociado a passagem com o capitão da cáfila e esperado mais de duas semanas até ela estar completa, pois não era fácil arranjar, em pouco tempo no Cairo – o ponto de partida de várias rotas comerciais para o Oriente –, um tão grande número de bestas de carga e de montadas.

Era uma cáfila de cento e cinquenta camelos e outros cinquenta de carga, mais vinte e cinco dromedários, quarenta e três cavalos de sela e cerca de cem mulas, machos e jumentos, além dos cem cavalos de raça de Mulay Abd-el-Aziz que os Tuaregues traziam para venda e valiam uma fortuna.

– Os guias são de confiança – disse Khalid satisfeito. – O capitão da cáfila conhece-os bem e afiança-os. Sem bons guias e bons companheiros, pode-se apostar que é viagem perdida.

Rashid al-Beder acrescentou, contrariado:

– Preferia dromedários a camelos, pois são bastante mais rápidos, fazendo cerca de trinta léguas por dia, enquanto os camelos, muito maiores de corpo, não fazem mais de nove. Mas, por essa razão, os dromedários são mais procurados, havendo sempre menos e mui mais caros.

– Porém os camelos levam mais carga – volveu Khalid ibn Zohr –, podes pôr-lhe em cima da albarda até cinco ou seis quintais[79] e aguentam melhor o caminho.

– Pois eu prefiro cavalos – disse Pêro da Covilhã, como se recordasse uma experiência desagradável. – Não me apetece sofrer por muitos dias a desinquietação do andar desses bichos que me deixa o corpo moído como se tivesse apanhado uma tareia.

Quando o capitão da caravana anunciou finalmente o dia da partida, antes do sol nascer, o grupo formado pelos tuaregues, os dois portugueses e Ahmed Said com os seus cavalos e tratadores, mais as numerosas bestas de carga, tomaram lugar no meio da cáfila e os escudeiros d’el-Rei D. João II sentiram um formigueiro de excitação arrepiar-lhes as carnes, ao verem-se no centro do rebuliço, vozearia ensurdecedora e inferneira de atropelos de bichos e de homens.

Subitamente o caos  pareceu entrar na ordem e ao som de trompas sopradas pelos guias e condutores, saudados por um soberbo sol laranja que a pouco e pouco subia por trás das muralhas cor de cobre, a cáfila iniciou a marcha para as portas da cidade, serpenteando como uma gigantesca cobra a que se não via a cabeça nem a cauda.

– Vamos num bom lugar, Português, ser-te-á proveitoso aprenderes estas coisas,  se queres andar por terras do Oriente – brincou Khalid, aproximando o seu cavalo do de Pêro da Covilhã e sem os outros ouvirem, pois respeitava o disfarce e a missão secreta do seu amigo, chamando-lhe Ali Moumen diante de desconhecidos e tratando-o como se fosse mouro.

– Que queres dizer?

– Devemos caminhar sempre no meio da cáfila, sem nos adiantarmos nem quedarmos para trás e de noite devemos montar o nosso quartel sempre entre os dos outros, pois assim estaremos resguardados de assaltos e roubos.

– Mas numa caravana tamanha como esta como podemos correr perigo?

– Nunca fiando! Por muito fortes que sejam as cáfilas, os riscos nunca são de desprezar, pois há beduínos do deserto a fazerem vida de salteadores e são guerreiros temíveis. Espero não os encontrar, para nosso bem e dos nossos companheiros de viagem!

Moviam-se vagarosamente, ainda sem o ritmo próprio da caravana que teria de pulsar como o corpo de um ser vivo, para reagir e se defender dos perigos e, mesmo se algum membro lhe fosse cortado, sobreviver a todo o custo para chegar a bom porto. Teriam de atravessar uma parte de deserto entre AL-Qahira e o Gabal Atãqa e umas montanhas que dificultavam o acesso a As-Suwais, o Suez dos cristãos, tardando nesse caminho entre quatro a seis dias.

– Vamos a ver se já não sofremos mais percalços, pois já andamos em viagem há cerca de oito meses e ainda não saímos do Cairo – comentou Pêro da Covilhã para Afonso de Paiva. – Temos um longo caminho pela frente e el-Rei D. João II não possui a virtude da paciência...

– Agora até íamos bem se não fosse o Ramadão e nós andarmos por aqui a fazer de mouros.

Era o nono mês do calendário islâmico, o do Ramadão, trazendo maiores dificuldades a uma caravana na travessia o deserto. Era o tempo mais sagrado dos muçulmanos e durava trinta dias, começando numa lua nova, com um tiro de bombarda ou pelo grito dos almuadens a dar aviso, e acabando na lua nova seguinte com novo aviso. Um período de jejum absoluto desde o nascer até ao pôr do sol, pois a sua religião não lhes permitia comer nem beber coisa alguma, durante este tempo.

– Não tocam em nada o dia todo – dizia Paiva, meio a rir, com alguma estranheza – mas, apenas o sol se esconde já têm licença para comer quanto quiserem até nascer o dia e, como alarves que são, atafulham-se de comida durante a noite, para melhor sofrerem a fome do dia seguinte!

Quando a cáfila assentava arraiais, era como se uma nova cidade aparecesse misteriosamente nesse lugar, tantas eram as tendas de campo ali montadas e os fogos acesos, além  da muita gente armada posta de vigia ao redor dela. Os amigos visitavam-se e algumas vezes junto das fogueiras os homens tocavam certos instrumentos de sons muito agudos e dançavam, sem mulheres, pois estas mantinham-se recolhidas nas tendas ou a espreitar de rosto velado por entre os panos.

No terceiro dia de viagem o sol tinha nascido quente como uma brasa, escaldando as areias e toda a cáfila em breve começou a sentir a calma e a sede que, por volta do meio-dia, parecia querer matá-los a todos, mas os mouros apenas davam água aos animais e guardavam-se de beber.

– Vão a morrer de fome e sede, já nem o cuspo podem levar para baixo e não tomam um gole de água – dizia Afonso de Paiva entre trocista e condoído, enquanto um pouco afastados comiam e bebiam às escondidas. – O que lhes vale é tirarem a desforra à noite.

– Nem todos respeitam esse jejum com tanto rigor – retorquiu Covilhã –, repara nos nossos amigos tuaregues que de vez em quando bebem um golito de água ou tomam alguns frutos. Os mais firmes são os peregrinos de Meca pois não querem visitar o túmulo do Profeta em pecado.

O som da chamada para a oração do meio-dia, feita por um almuadem peregrino, vibrou no ar e foi morrer nas dunas douradas a faiscarem ao sol.

– No geral, são mais cumpridores do que os cristãos – afirmou o espião preparando-se para a oração. – Eu quase me denunciei por não saber como eles rezavam no deserto.

Os viajantes tinham desmontado e as mulheres desciam das charolas e caixas de liteiras, cobertas de panos, onde viajavam muito à sua vontade e com conforto e todos se apartaram das bestas, indo para o areal não pisado onde se descalçaram e tomando punhados da branca e fina areia do deserto fizeram com ela as suas abluções rituais. Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva imitaram-nos, sentindo a areia escoar-se-lhes por entre os dedos como fios de água. O Profeta Maomé consentia aos homens do deserto e aos viajantes e peregrinos que o atravessavam, esse desvio dos ritos sagrados, usando areia em vez de água numa purificação simbólica.

Os que tinham os seus tapetes de oração estenderam-nos sobre a areia e neles se ajoelharam, voltados para o lado de Meca, indicado pelas pequenas bússolas árabes dos homens de turbante. Os pobres e os escravos alisaram e desenharam na areia do deserto, tal como estava escrito no Corão, um rectângulo dentro do qual se prosternaram, ficando assim também isolados do mundo para a sua comunicação com Allah.

Terminada a oração, toda a cáfila retomou o seu caminho, sem grandes práticas ou risos entre os companheiros dos muitos grupos que a formavam, pois as gentes iam tristes e mofinas de dia, com a sede e o calor a apertá-los e só retomavam as forças e a alegria durante a noite, quando acampavam para comer, descansar e dormir.

Duas ou três vezes viram passar por sobre as dunas um bando de cavaleiros, todos trajados de negro, correndo à desfilada em cavalos magros mas velozes como o vento. Ergueram as armas em desafio, soltando insultos numa fala que pareceu a Pêro da Covilhã saída do íntimo das entranhas. Usavam lanças e espadas curtas e largas, assim como adagas de lâmina igualmente larga, com três palmos de comprimento.

– Beduínos do deserto! – o grito repetido por muitas vozes pôs toda a cáfila em sobressalto e em modo de defensão.

– Não atacaram. Porquê?

– São poucos para tamanha caravana. E a vista dos Guerreiros Azuis que vêm connosco também os deve ter desencorajado – tanto os peregrinos como os mercadores se sentiam mais protegidos com a presença dos tuaregues nas suas hostes.

Pêro da Covilhã guardou ainda por alguns momentos nos sentidos a corrida selvagem, o baque surdo dos cascos na areia e o som do vento soprado pelas ventas dos cavalos que fremiam. Depois perguntou a Khalid, ainda a dar ordens a torto e a direito, a fim de manter os cavalos do Cheikh presos e vigiados:

– Atrever-se-ão de novo? De onde vêm estas gentes?

– São nómadas e vivem por aí, no deserto, em tendas e pavilhões de pano – respondeu Khalid ibn Zohr já mais sossegado por não os ver voltar. – São grandes caçadores e pastores, mas  só cuidam em ter bons cavalos e éguas capazes de aturar, com mui pouca comida, trabalhos, fomes e sedes, para assaltarem qualquer cáfila que lhes passe por perto.

– Não me pareceram lá grande coisa – disse Afonso de Paiva. – Quando vos viram acobardaram-se e cessaram de nos fazer surriada.

– Não te deixes enganar pelas aparências – Rashid juntava-se ao grupo e falava num tom sério, até mesmo preocupado. – São excelentes cavaleiros como tiveste ocasião de ver e ainda melhores salteadores, amigos de conflitos e de guerras como nenhum outro povo, sem lei, fé, justiça ou verdade e esses defeitos são tomados por eles como virtudes e desprezam a quem não faz como eles.

– Têm fama de ser guerreiros terríveis e impiedosos – lembrou ainda Ahmed Said, estremecendo, por certo recordado das histórias contadas pelos mercadores no seu caravanserai, em El-Iskandariya.

– Se não nos atacaram – acrescentou Khalid – foi talvez por serem apenas um grupo de reconhecimento e o resto do bando estar longe, pois eles são capazes de percorrer a grande Região Deserta, a Caldeia, a Mesopotâmia e a Síria.

– Isso quer dizer que podem atacar-nos em qualquer outro ponto do caminho? – na voz de Afonso de Paiva não havia medo, mas preocupação.

– É o mais certo, depois de verem os nossos cavalos – concordou Rashid al-Beder. – Só por eles já vale a pena atacar a cáfila, mas também viram que levamos mulheres e isso é mais um acicate.

– Também traficam em escravos?

– Sim, se a presa valer a pena, Agi Bedreddin – confirmou Khalid, dando ao português o nome mouro do seu disfarce. – Porém, quando se trata de mulheres, costumam guardá-las para si próprios, juntando-as aos seus clãs.

Mantiveram uma vigilância apertada, mas não voltaram a avistar os beduínos e por fim chegaram à vista de As-Suwais, nas margens do Mar Vermelho, ali estreitando-se em veios pouco profundos, permitindo à cáfila passar a vau para a península do Sinai, a caminho de el-Tūr, a Tôr ou Toro dos portugueses.

– Porque lhe chamam Mar Roxo e Mar Vermelho? –  perguntou Afonso de Paiva. – Tem a mesma cor azul esverdeada dos mares nossos conhecidos...

– Neste tempo, talvez – confirmou Rashid. – Porém, no tempo das chuvas e das cheias, ganha uma cor avermelhada de ferrugem.

– Na opinião de algumas gentes, será por causa das praias de terra ou barro vermelho – disse Ahmed. – Todavia, outros dizem ser devido ao suph, um sargaço vermelho que forma umas malhas roxas à tona da água quando o sol dá nelas.

A paisagem era feita de deserto com pequenas manchas verdes de oásis e montanhas. De onde em onde alvejava a forma de uma igrejinha ou o austero perfil de um mosteiro, lembrando a Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva que pisavam as Terras do Velho Testamento e os caminhos do Êxodo de Moisés e dos Hebreus perseguidos pelo Faraó do Egipto. Seguiam pela margem oriental desse Mar Vermelho cujas águas se tinham rasgado para deixar passar o Povo Eleito, cerrando-se de novo sobre os seus perseguidores, e ao anoitecer acamparam junto ao Ain Mūsa, o poço de água salgada, tornada doce por Moisés quando lhe lançou dentro pedaços de madeira. Sob um manto imenso de estrelas, tendo no meio o crescente da lua bordado a fio de prata, estendidos na areia ainda quente do deserto junto das fogueiras do acampamento, os dois cristãos olhavam-se em silêncio, captando o sortilégio do lugar e calando as suas emoções.

Gritos e grande rebuliço na parte mais afastada do arraial onde estavam recolhidos os animais – montadas, bestas de carga e os cavalos do Cheikh – tiraram os dois Escudeiros do seu devaneio. Era um ataque à caravana!

– Os nossos amigos estão de guarda aos cavalos – bradou Covilhã erguendo-se de um salto e tomando a espada, posta no chão a seu lado.

Paiva não tinha perdido tempo a seguir-lhe o exemplo:

– Vamos prestes, podem estar em perigo! – e correram para o local da luta.

Não eram muito numerosos os assaltantes, embora em número superior aos defensores e andavam embaraçados com os cavaleiros azuis, cruzando ferros com muita aspereza. Dos beduínos havia já alguns caídos dos cavalos, feridos ou mortos, com as montadas a correr sem eles, desarvoradas, aumentando a confusão.

– Ânimo, amigos, aqui vem socorro! – bradaram ao mesmo tempo os portugueses, apanhando dois cavalos sem dono e montando-os num ápice.

Entraram na peleja, protegendo as costas dos tuaregues a lutarem como os djinn das suas fábulas, com as vestes azuis esvoaçando pelo ar a cada voltear do cavalo ou golpe da espada, soltando gritos do fundo das gargantas de gelar o sangue aos adversários que começavam a ceder. Eram realmente guerreiros formidáveis e Pêro da Covilhã, acabando de derrubar um dos atacantes, sentiu orgulho em os ter por amigos.

– Vieram pelos cavalos – disse-lhe Khalid num momento em que as suas montadas emparceiraram para fazer frente aos salteadores – julgando apanhar-nos desprevenidos aqui no oásis.

– Furtaram-nos? – o português não ouviu a resposta pois mal teve tempo para aparar o golpe do beduíno, fazendo-o no entanto oscilar na sela ao lançar a sua montada contra a dele. Aproveitou o ligeiro desequilíbrio do homem para lhe desferir um golpe terrível com a espada, que ele desviou a custo com o pequeno escudo de pele, mas sem conseguir evitar que a ponta aguçada o ferisse na fronte.

– Maldito sejas! – bradou o nómada sentindo o sangue correr-lhe para os olhos, toldando-lhe a visão. Deu meia volta, gritando pelos seus homens e estes, vendo o capitão da cáfila e os seus guardas acorrerem à luta, bateram em retirada, seguidos por alguns cavalos sem cavaleiro, saindo à desfilada por entre as árvores do palmar para a noite protectora do deserto.

– Seguimo-los? – perguntou o português.

– Não, antes de vermos os estragos – retorquiu Khalid, olhando em volta, à procura dos seus homens.

Afonso de Paiva acercou-se deles trazendo Rashid a sangrar.

– Agi Bedreddin salvou-me a vida – disse o tuaregue com gratidão. – Entretido com o meu adversário, não vi o que me atacava por trás e...

– Eu fiz como qualquer outro faria – atalhou Afonso com modéstia – se estivesse tão cerca de ti como a Fortuna quis que eu estivesse.

– Fendeu-lhe a cabeça de um só golpe e o beduíno caiu fulminado do cavalo.

– E a tua ferida? – perguntou Khalid.

– Não é grave. E quanto aos cavalos?

– Ainda não sei quantos faltam, mas devem ter soltado alguns antes de serem pressentidos. Vamos contá-los! – ordenou aos tratadores e os escravos apressaram-se a obedecer, ainda a tremer de susto.

Passado o medo e sossegados os ânimos, foram rodeados por muitos mercadores e viajantes curiosos de saber o que se passara e oferecendo os seus préstimos para apanhar os animais soltos e a galope pelo campo. Os restantes tuaregues aproximaram-se para dar conta dos estragos feitos pelos assaltantes, contentes por ninguém ter morrido e haver apenas alguns feridos, um só deles com gravidade. Dos beduínos jaziam no recinto cinco mortos e dois feridos.

– Faltam quinze cavalos – anunciaram os tratadores. – Os quatro à solta são dos nómadas.

O capitão acercou-se dos dois prisioneiros feridos e falou ao que estava mais consciente:

– Chamo-me Abderhamane e sou o capitão da cáfila assaltada pelo teu bando. Os cavalos roubados estavam à minha guarda e tenho de os recuperar. Se não queres ser posto a tormentos diz-me onde tendes o vosso aduar.

O beduíno cuspiu sem responder. Abderhamane fez sinal aos seus homens que tiraram as botas ao mouro e, tomando um archote, chegaram-lho às plantas dos pés. Um cheiro a carne queimada fez alguns curiosos mais sensíveis franzirem o nariz, numa careta de mareio. O homem contorceu-se e berrou como um possesso, mas não falou.

– Onde fica o aduar? – perguntou de novo o Capitão.

O prisioneiro não era cobarde e aguentava bem o castigo, porém ao receber os tratos pela quarta vez cedeu e confessou a Abderhamane tudo o que ele queria ouvir. O aduar dos assaltantes não estava longe do oásis.

– Vamos apanhá-los de surpresa – propôs o Capitão da cáfila –, enquanto levantam o acampamento, pois não devem contar com um ataque de noite.

– Não podes abandonar a cáfila – contrariou Khalid. – Os cavalos são nossos e nós bastamos para os nómadas sobrantes. Se o prisioneiro falou verdade, eles são um grupo solitário e pouco numeroso, depois destas baixas.

– Khalid ibn Zohr tem razão, Capitão Abderhamane – disse Pêro da Covilhã –, a caravana pode ser de novo assaltada na tua ausência. Tens de proteger os mercadores e os peregrinos que confiaram em ti e estão à tua guarda.

O Capitão concordou, embora contrariado. Todos os Guerreiros Azuis e os dois portugueses montaram nos seus cavalos e tomaram a direcção do deserto por onde os beduínos tinham escapado.

– Que fazemos com estes dois, Capitão Abderhamane? – perguntou um dos guardas ainda a segurar o archote com que arrancara a confissão ao prisioneiro.

– Cortem-lhes as cabeças – ordenou friamente. – E aos mortos também. Espetem-nas em lanças à entrada do oásis para os bandidos do deserto saberem que a minha caravana não é defendida por mulheres medrosas.

A Lei do Deserto foi prontamente cumprida e os viajantes volveram às suas tendas para prosseguir com as tarefas interrompidas pelo assalto.

...

 

Os tuaregues navegavam pelo Deserto como pilotos pelo mar, guiando-se pelas estrelas e pelo movimento das areias. Pêro da Covilhã, sentindo a brisa da noite soprar-lhe no rosto, não podia deixar de pensar quão semelhantes podiam ser dois mundos tão distintos. Só no mar se podia escutar aquele silêncio absoluto cheio de sentido e de vida. Os únicos sons eram feitos pelas patas dos cavalos martelando a areia e pelo roçagar dos leves panos das vestes dos cavaleiros.

Galopavam com um ritmo rápido e em breve avistaram do cimo de uma duna os fogos do aduar. Khalid ergueu a mão e o grupo refreou as montadas acercando-se do chefe. Os dois portugueses não sentiam qualquer repugnância em aceitar as ordens do tuaregue que agia como um verdadeiro príncipe do Deserto, pelo contrário, mostravam-se mesmo envaidecidos por ibn Zohr os aceitar como seus iguais e encarnavam com todo o convencimento os seus papéis de Ali Moumen e Agi Bedreddin.

Desmontaram, deixando os cavalos com Abou na base da duna e rastejaram até ao cume para daí espiarem os movimentos dos beduínos. Tal como previra Abderhamane, os salteadores desmanchavam o acampamento em grande azáfama, desejosos de levarem os cavalos roubados o mais depressa possível para lá da outra margem do Mar Vermelho e a vigilância era escassa. Os cavalos estavam atados a uns postes com dois homens a guardá-los.

– Não têm muitas atalaias, estão quase todos ocupados com o fato e a sua carga.

– Vamos dividir-nos em dois grupos – decidiu Khalid. – Hassan, Abou, Assad, Izzadin e Akim que são os melhores archeiros do nosso grupo irão cercar o aduar, sem serem pressentidos  e começarão a desferir os arcos todos ao mesmo tempo, tratando de não falhar o alvo. E antes de poderem volver a si para ripostar, nós outros, a cavalo, cair-lhes-emos em cima.

Era um plano muito simples, contando sobretudo com a surpresa e o valor dos Guerreiros Azuis, pensou Pêro da Covilhã, mas capaz de resultar pois o número dos adversários era agora equivalente. Viu os cinco tuaregues armados de arcos e aljavas deslizarem silenciosamente pelas areias, dispersando-se e confundindo-se com as sombras do deserto, para as sentinelas do aduar os não assinalarem. Não tardariam a chegar à distância de tiro e os cavaleiros saltaram para o dorso das suas montadas, deixando os cinco cavalos dos archeiros a cargo de Rashid para os levar a seus donos quando o ataque da cavalaria começasse.

As setas partiram quase em simultâneo, acertando nos alvos com tanta precisão que Pêro da Covilhã se apercebeu da longa prática dos seus amigos neste tipo de acção. Os dois guardas dos cavalos levaram as mãos ao peito num gesto lento de ritual e tombaram sem vida no solo e o aduar ficou num alvoroço de gritos e correrias desordenadas, com as flechas voando em movimentos ajustados. Os beduínos procuravam refúgio por trás dos camelos ajoelhados para receberem a imensa carga nas bossas oscilantes.

– Chegou a nossa vez! – gritou Khalid, esporeando o cavalo e lançando-se a toda a brida pela encosta da duna. – Ao ataque!

Os tuaregues responderam com os seus gritos guturais, rolados pela língua contra o palato, que lhes saíam da boca como punhais a rasgar as sombras e os medos. Os dois portugueses não ficaram para trás, o galope da montada batia o ritmo do sangue a latejar-lhes nas veias, porém o grito mudo que lhes subia das entranhas morria na garganta.

Entraram pelo acampamento como demónios à solta, desferindo golpes de espada e de punhal a torto e a direito, impedindo os beduínos de se chegarem aos cavalos. Sem desmontar, tomaram archotes das fogueiras e incendiaram as tendas ainda de pé e todos os fardos e carga amontoada. Os camelos corriam espavoridos soltando berros de terror, com as cargas a balouçar nas selas, rompendo as cordas e espalhando-se pelo deserto como um rasto de destruição. Desbaratados, os beduínos fugiam, seguindo as mulheres à procura da salvação nas dunas do deserto, menos perigosas do que os djinn azuis de rostos velados pelos tidjelmousts.

– Deixai-os ir, são muito poucos e tão cedo não hão-de importunar as caravanas – disse Khalid. – Se as mulheres ficassem sós, acabariam por morrer, assim ainda poderão volver ao seu clã. Recolham os nossos cavalos e quaisquer outras montadas ou animais de carga por aí à solta, pois não quero dar aos bandidos meios para transportarem o saque dos seus assaltos.

Os Guerreiros Azuis, com os olhos brilhantes de satisfação, recolheram os animais e, mais ricos do que antes, volveram ao Oásis de Ain Mūsa onde foram recebidos em triunfo.

...

 

Chegaram a Toro, o el-Tūr dos mouros, depois de seis dias de caminho, sem mais estorvo, para além a mordedura ardente do sol, avistando do lado oriental os cumes distantes do Djebel Mūsa, o Monte de Moisés, que os tuaregues lhes apontavam. 

– Esta terreola é Tôr?! Parece uma aldeia de Portugal... – Pêro da Covilhã estava desiludido.

– Sim, para um lugar de passagem de tantas caravanas, pensei encontrar uma cidade como o Cairo ou Alexandria – concordou o companheiro.

Tôr era uma aldeia assaz pequena e miserável, sem água nem vegetação em volta, tirando um conjunto de doze palmeiras enfezadas, tendo como único marco digno de menção um pequeno convento de maronitas[80], à volta do qual se agrupavam alguns gregos e arménios cristãos e outros tantos pilotos árabes do Mar Vermelho.

Ali se separaram os peregrinos de Meca do resto da Cáfila, indo juntar-se a outros grupos de crentes à espera dos barcos. Os mercadores que seguiam para Adem despediram-se de Abderhamane e foram tratar da trasladação das suas mercadorias e fato para os djelbas, os barcos do Mar Vermelho.

Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva foram em segredo até ao convento, em busca de informações sobre os cristãos dispersos por aquelas regiões e o reino do Preste João. Por sua vez, os monges assaltaram-nos com perguntas, cheios de curiosidade e emoção ao ver aqueles cristãos da longínqua Península Ibérica.

– Vivemos vida perigosa, meus filhos – disse-lhes o prior. – Estamos em poder dos mouros e temos de obedecer ao mando do Grande Soldão[81] e não lhe desagradar, se queremos manter o convento.

– E como fazeis para vosso provimento?

– Mantemo-nos com as esmolas das gentes de Tôr e de algumas dádivas de peregrinos, mas só a protecção do grande mosteiro de Santa Ekaterina, nos permite continuar aqui.

– E, tal como os monges de Santa Ekaterina – acrescentou o padre bibliotecário –,  estamos sempre sujeitos aos ataques dos beduínos do deserto.

Afonso de Paiva levou a conversa com os monges para o assunto de maior interesse:

– Vimos em busca do Reino do Preste João, por ordem do nosso virtuoso Rei D. João II, mas até este momento ainda não ouvimos falar dele. Podeis ajudar-nos?

– Seríeis melhor informados no mosteiro de Santa Ekaterina, o lugar cristão mais santo do Sinai, pois aí vão em peregrinação cristãos de todo o mundo e muitos do Reino do Preste. Os mouros chamam-lhe “O Grande Abexim” e o seu reino  é para os lados de Etiópia a Alta, abaixo de Suaquim, nas partes orientais de África.

– Não poderemos ir a Santa Catarina, pois levantaríamos suspeitas – disse Pêro da Covilhã –, mas talvez possamos passar por Suaquim.

– Ide com Deus, meus filhos. – abençoou-os o prior, oferecendo-lhes uma relíquia da mártir Catarina, morta em Alexandria no tempo do Imperador Maximiano, cerca do ano de 310, e cujo corpo fora trazido pelos anjos para o Djebal Katrina onde os monges do convento o encontraram.

Os dois portugueses volveram ao modesto caravanserai, o mais pobre de todos os que tinham visitado e começaram a preparar-se para a viagem de várias semanas pelo Mar Roxo, seguindo os conselhos de Ahmed Said.

...

 

No porto de embarque, esperava-os nova surpresa.

– São estes os gelbas? – Pêro da Covilhã mal podia crer no que os seus olhos viam. – Com velas de esteira e as tábuas do casco sem pregadura, só cosidas com fio de cairo[82]? Não iremos longe neles...

– Nada temais – sossegou-os Ahmed. – São mui fortes e resistentes apesar da aparência e raramente sofrem acidentes ou vão ao fundo, isso só acontece se embaterem contra algum recife de coral ou baixio.

– E como levam as alimárias? – perguntou Afonso de Paiva, em cuidados pelos preciosos cavalos do Cheikh e pelo espólio arrecadado no aduar dos salteadores – dez cavalos, seis camelos e dois dromedários – que, se não os perdessem, lhes daria certamente um bom lucro.

 Não tardou a ver como os marinheiros deitavam por cima da carga uma espécie de estrado feito de canas finas atadas com fio de cairo. De pé, nesta cobertura improvisada, iam viajar homens e animais, durante cerca de mês e meio, descendo o mar vagarosamente, navegando do nascer ao pôr do sol, fundeando todas as noites para não chocar contra os baixios e recifes de madrepérola. Os passageiros pouco tinham para fazer e a maior parte do tempo jogavam ou contavam histórias de viagens por mar ou de caravana. Estes relatos nunca cansavam Pêro da Covilhã, sempre a registar na sua prodigiosa memória todos os nomes e pormenores das rotas mencionadas pelos viajantes.

– Partindo de Adem para ir para a Índia é melhor viajar por mar – disse o mercador persa, contrariando os defensores da viagem em cáfila, por terra.

– Mas no mar há sempre o perigo dos piratas se atravessarem no nosso caminho e então estaremos perdidos.

– E, por terra, não há salteadores por todo o lado? Além do mais é pior caminho e muito mais longo.

Um grande abanão, acompanhado de um estrondo assustador, fez estremecer o barco que se inclinou perigosamente lançando à água alguns passageiros desprevenidos, a gritar de susto, seguidos por quatro cavalos soltos das cordas com o embate e cujos cascos deslizavam pelas esteiras como por azeite, fazendo os animais alçar a cabeça com os olhos esbugalhados e espuma a escorrer-lhes da boca, soltando relinchos de pavor, enquanto mergulhavam nas águas com um baque surdo dos corpos, formando ondas e remoinhos na superfície tranquila do mar.

– É um recife! – gritou o piloto. – Não o vi por a maré ir mais cheia.

O capitão Agib Abdeslam debruçava-se da proa:

– Não fez grandes estragos, Allah seja louvado! Tragam as varas – ordenou e os matalotes tomaram dois longos varapaus e, metendo uma das pontas entre o barco e o recife, procuraram soltar o barco. – Empurrem! Força! Agora!

Os tuaregues, refeitos do susto, procuravam socorrer os náufragos, sobretudo Abu em dificuldades por causa das longas vestes que lhe tolhiam os movimentos e o arrastavam para o fundo. Pêro da Covilhã apercebeu-se do medo dos Guerreiros Azuis ao mar, pois habituados às areias do deserto a água infundia-lhes um respeito supersticioso, misto de terror e de admiração. O Escudeiro arrancou a veste mourisca, ficando em túnica e sirões e lançou-se à água, nadando rapidamente em direcção ao moço tuaregue a esbracejar já sem forças. Alcançou-o quando Abu cessara já de se debater e estava a ponto de se afundar.

– Coragem, amigo, que te não deixo morrer!

Arrastou-o até ao barco, para onde os companheiros o içaram e lhe fizeram recobrar os sentidos. Todos os restantes náufragos foram salvos e o barco levado até à margem para avaliar os estragos, felizmente de pouca monta e para recolher os cavalos que se tinham posto a salvo nadando para terra. Apenas uma égua com a perna quebrada teve de ser abatida e o dono, de lágrimas nos olhos, cortou-lhe o pescoço com um formidável golpe de sabre. De seguida o animal foi desmanchado e a carne entregue à tripulação, como um complemento das rações de bordo.

Prosseguiram viagem sem mais incidentes até Suaquim, onde permaneceram uns dias num caravanserai para repousar da fadiga e do susto e dar ânimo aos cavalos. Era a ocasião esperada por Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva para saberem novas do Preste João e, enquanto os companheiros assistiam aos animais, eles passavam a maior parte do tempo na pousada a tomar taças de chá de menta e a conversar com todos os viajantes e peregrinos que por ali apareciam vindos da Abissínia ou regressando à sua terra. Um grupo de mercadores negros foi o mais farto em informações, mas as suas descrições pareciam aos dois portugueses mais fantasiosas do que verdadeiras:

– O Grande Abexim é tão rico e abastado de ouro como não se sabe de nenhum outro rei que lhe seja igual – afirmava o mais moço com os olhos redondos de admiração.

– Mas o Preste João não é infiel? – perguntou Pêro da Covilhã, cada vez mais à vontade no seu disfarce de Ali Moumen, um crente da seita de Muhammad.

Um homem mais velho parecia saber todas as histórias e lendas que circulavam pelos caravanserai da África e da Arábia:

– Sim, é cristão, seguidor de um profeta ou discípulo do Messias deles – e cuspiu com desprezo.

Cristãos seguidores do apóstolo S. Tomé” pensou o Escudeiro lançando um rápido olhar ao seu companheiro. Os dois espiões de D. João II refrearam a custo a vontade de o espancar, obrigando-o a engolir o cuspo. Mas, finalmente ouviam alguém falar do Presbítero. Paiva forçou um sorriso e perguntou ao ancião:

– E onde poderemos achar o Grande Abexim?

– Na cidade de Bab-el-Maleq – respondeu prontamente o mouro. – Todavia não lograrás vê-lo, pois anda sempre num carro chapeado de ouro e ornamentado de rica pedraria, mas tão velado e encoberto que nunca ninguém lhe viu mais do que o pé, posto fora do carro para os peregrinos lho beijarem.

A entrada para o reino do Preste João seria então por Suaquim? As descrições exageradas dos viajantes correspondiam às ouvidas na Corte d’el-Rei D. João II. Mas os escudeiros queriam ter mais certezas e decidiram não se separar antes de chegarem a Adem, para aí colherem mais informações. Agora sabiam estar no bom caminho e sentiam-se impacientes com a demora.

...

 

Retomaram a viagem e, sem mais acidentes nem atrasos, saíram finalmente do Mar Roxo pelo estreito de Bab-el-Mandeb, a única passagem para qualquer barco entrar no mar largo e navegar na costa para Adem, no sul da Arábia Feliz, onde chegaram a tempo da monção para a Índia. Acercava-se o momento da separação dos dois companheiros cujas vidas haviam sido ligadas pelo Destino ou pela vontade de um Rei e cimentadas de perigo durante uma longa e rara aventura. 

– Belo porto de mar! – bradou Pêro da Covilhã ao avistar a cidade.

– Está sujeita a um rei mouro – disse Khalid – mas é administrada por um governador. Tem mui grosso trato de grandes mercadorias, como podeis ver pelos barcos aí surtos e que vêm de Judá, Zeila, Ormuz, Cambaia, Chaul e até de Calecut.

– A sua riqueza vem-lhe, não de ser um porto de passagem dos navios, mas por ser o termo da navegação das rotas do comércio com o Oriente – prosseguiu Rashid. – É aqui que as mercadorias passam para os barcos do Mar Vermelho.

– Vou tratar-vos da pousada, no caravanserai do porto – disse Ahmed Said, mal atracaram. – Tenho lá amigos e sereis mui bem alojados.

Situada numa ponta entre a serra e o mar, a cidade de Adem recortava-se na encosta escarpada como um baixo-relevo, com as suas muralhas, torres e cubelos[83] de ameias à maneira de Portugal. Enquanto se dirigiam para o caravanserai, por ruas largas e muito cuidadas, ladeadas de formosas casas de pedra e cal, altas de vários sobrados, com muitas janelas e terrados como em al-Qahira, cruzavam-se constantemente com mercadores mouros e judeus, tanto pretos como brancos, trajando roupas compridas de algodão ou seda, toucas e sapatos baixos.

Ao atravessarem os mercados onde abundavam as especiarias, as drogas e os produtos preciosos, mercadorias de luxo pagas a peso de ouro pelos ricos e poderosos da Europa, Pêro da Covilhã aspirava os cheiros do Oriente que os panos e madeiras dos fardos e baús não logravam aprisionar e sentia-se a navegar finalmente pela rota da pimenta e da canela, da laca e do sândalo, do benjoim e do almíscar, do cravinho e da noz moscada, do gengibre e do açafrão.

...

 

– Ali Moumen, é tempo de monção para a Índia – disse-lhe Ahmed. – Se queres ir a Calecut, deves embarcar sem tardança.

Passeavam sós pelos mercados de Adem, pois Khalid e Rashid tinham ido vender os animais apreendidos no aduar, menos um dos cavalos que Afonso de Paiva guardara  para sua montada e o português fora com eles para se informar da melhor maneira de viajar pela Etiópia e cumprir a parte da missão de que D. João II o incumbira.

– Sabes se está para partir alguma embarcação para a Índia? – perguntou Pêro da Covilhã ao fiel Ahmed.

– Disseram-me, no porto, que dentro de três dias sai um barco para Cananor. É grande, de duzentos ou trezentos tonéis, leva até mil e duzentos bahares[84] de carga.

–Tenho de aproveitar a ocasião, pois já perdi muito tempo nesta viagem. Ahmed, trata de acertar o preço da passagem com o capitão, enquanto eu vou comprar alguns produtos para vender na Índia.

Do minarete da mesquita próxima o almuadem, virado para Oriente e com as mãos postas sobre as orelhas, começou a lançar o seu grito em aravia com uma voz alta sentida e vagarosa:

– Allah é grande, não há outro Deus. Muhammad é o Embaixador de Allah.

Continuou a sua melopeia, convidando os crentes a vir à mesquita ou a orar em casa, rogando a Allah pelo rei, pelo acrescentamento da sua Lei[85] e pela aniquilação da Lei cristã. Três vezes repetiu a sua cantilena, virando-se para o Poente, para o Norte e para o Sul. A confusão destes apelos à oração gritados ao mesmo tempo por mais de uma dezena de almuadens do cimo de outros tantos minaretes entontecia Pêro da Covilhã. Ahmed dirigiu-se à mesquita mas o Escudeiro escusou-se dizendo que iria mais tarde.

Viu-o partir e prosseguiu as suas voltas pelo mercado vastíssimo do porto, olhando distraído para a infinita variedade de produtos que captavam o olhar ou entonteciam os sentidos, muitos dos quais ele nem sabia de onde vinham nem para que serviam. Uma certa melancolia toldou-lhe o espírito, ao pensar em Afonso de Paiva e em si próprio, prestes a partirem à aventura, cada um por seu lado, por mundos perigosos que raros europeus e nenhum português antes deles haviam conhecido.

Se já tinham passado por tantos trabalhos, na primeira parte da viagem quando iam na companhia de amigos prontos a dar socorro, como iria ser agora, sozinhos e sem ter o companheiro a quem recorrer, por essas terras de infiéis cujos costumes e línguas desconheciam,?

Por outro lado, animava-o aquela chama sempre a impeli-lo para o Longe e o Encoberto, levando-o a buscar caminhos e a fazer cousas jamais ousadas por outros. Era um caçador solitário ansiando por descobrir pistas de feras desconhecidas, um cavaleiro andante sonhando com Camelot e a travar duelos com inimigos poderosos para salvar donzelas desprotegidas. Se era essa a sua estrela ou a vontade de Deus, não lhe competia a ele contrariá-las... nem tão pouco desejava fazê-lo. Sacudiu a cabeça, para se arrancar ao devaneio e volver à ruidosa realidade do mercado.

Precisava de arranjar moedas em uso na Índia e trazia uma livrança de Lisboa para um baneane chamado Mangí, com correspondentes em Calecut e negócios de dinheiro em Adem. Informou-se onde era a casa do banqueiro e foi-lhe entregar a ordem de pagamento.

O homem atendia um grupo de árabes e turcos, mas saudou-o:

– Allah seja contigo! Em que posso servir-te?

– Trago uma ordem de livrança e preciso do dinheiro.

Mangí olhou o documento, conferiu os selos e disse:

– Não me é possível entregar-te hoje esta quantia. Volta amanhã, por favor. Mas antes diz-me onde tens pousada.

– Estou no caravanserai do porto – informou o Português contrariado, pensando se o baneane não estaria a enganá-lo – Não te esqueças de que preciso desse dinheiro para partir.

– Não temas! Amanhã tê-lo-ás aqui à tua espera.

Voltou ao caravanserai a esperar os amigos que não tardaram a aparecer. Os Guerreiros Azuis vinham contentíssimos com o lucro da venda do produto do saque e não deixaram de dar aos dois portugueses o seu quinhão pela participação na luta e no ataque ao aduar dos beduínos.

– Dentro de dias haverá um leilão de cavalos – informou Khalid – e, como até lá os nossos animais terão tempo de descansar e recuperar a boa forma, não tenho dúvidas de que iremos obter uma boa maquia para Mulay Abd-el-Aziz.  

Nesse momento, Pêro da Covilhã viu entrar Mangí no caravanserai e dirigiu-se ao seu encontro. O homem puxou-o para um recanto isolado na grande sala e disse:

– Perdoa-me por não te ter dado logo ali, na minha casa, o teu dinheiro, mas tive uma boa razão para isso. Como pudeste observar, eu estava a atender um grupo de arábios e turcos e se eles te vissem sair com todo este dinheiro não tardariam a avisar alguns ladrões ou encarregar-se-iam eles próprios de te aliviar da bolsa. Por isso aqui tens a tua prata e procura não a mostrar por aí.

O Escudeiro agradeceu o cuidado do banqueiro e despediu-se dele com muita amizade voltando para junto dos seus companheiros.

...

 

– Agora já podemos volver a casa – disse Rashid com um suspiro, guardando as bolsas de moedas de oiro da venda dos cavalos. – Mas não irei tranquilo com tal soma de dinheiro na caravana.

– Depois da coça que lhes demos, os salteadores já não devem ter ganas de se meter connosco – os olhos de Abou brilhavam de orgulho ao recordar o Poço de Moisés.

– Nunca fiando – replicou Rashid – e lembra-te que já não teremos Ali Moumen e Agi Bedreddin para nos ajudar.

Ficaram em silêncio, assaltados pelas recordações  comuns, emaranhados nos laços de amizade criados entre eles pelo perigo e a camaradagem.

– Foi bom voltar a ver-te, meu irmão – disse Khalid, abraçando e beijando Pêro da Covilhã nas duas faces. – Trazes a aventura entre os teus aprestos[86], pois para onde quer que vás as cousas acontecem e a vida tem mais sabor.

– Quando te cansares do serviço do teu rei ou de andar só pelo mundo – acrescentou Rashid, repetindo os gestos de despedida de Khalid –, vem viver connosco.

– Devo-te a vida, Ali Moumen, e jamais esquecerei essa dívida – murmurou Abou ao beijá-lo comovido. – Espero pagar-ta um dia.

– Amigos, o destino há-de juntar-nos de novo, mas se o não fizer haveis de viver para sempre no meu coração. Saudai o nobre Mulay Abd-el-Aziz da minha parte e rendei-lhe as minhas homenagens.

– Assim faremos – assegurou Khalid ibn Zohr.

– Levaremos Ahmed Said até Al-Iskandariya – acrescentou Rashid – e não deixaremos acontecer nada de mal ao nosso companheiro de aventuras.

– Quando volveres a Al-Iskandariya, Ali Moumen – o guia abraçou-o por sua vez –, vem ao meu caravanserai ou envia-me recado para que possa ir ao teu encontro e alegrar-me.

O zelador do caravanserai tinha os olhos marejados de lágrimas e agradecia com fervor o dinheiro que Ali Moumen e Agi Bedreddin lhe tinham dado como paga dos seus serviços. Aprendera a gostar daqueles dois mouros misteriosos, com muito de guerreiros e pouco de mercadores, pois com eles passara os melhores tempos da sua vida. Só lamentava não poder acompanhá-los por mais tempo.

Por fim, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva olharam-se em silêncio durante alguns instantes e abraçaram-se com profunda emoção, calando as perguntas que os feriam de angústia e de medo: Cumpririam as sua missões? Regressariam vivos dessas terras ignotas? Volveriam a ver-se?

– No Cairo, o mais tardar em Dezembro de 1490 – a voz de Pêro soava como uma promessa solene.

– Lá estarei – respondeu Afonso no mesmo tom.

– Levaremos Agi Bedreddin até Suaquim – disse Khalid – e só então o largaremos no mundo. Que Allah te proteja.

– E a vós também – respondeu o Escudeiro, dando meia volta e entrando no barco prestes a tomar a rota perfumada e misteriosa das especiarias.

 

 

  

... Porém, meu caríssimo leitor, essa viagem infinitamente mais perigosa e alucinante será o assunto do romance O Espião do Malabar, o 4º volume da Colecção Cruzeiro do Sul, em que Pêro da Covilhã descobrirá por fim o Paraíso das Especiarias, à custa de grandes sacrifícios e tendo muitas vezes a sua vida presa por um fio e salvando-se quer pela sua coragem e valor guerreiro, quer por um golpe de sorte ou por estranhos sortilégios do mágico Oriente...

 

 



[79] Um quintal equivale a cerca de 60 Kg.

[80] Cristãos do Líbano, sujeitos aos turcos.

[81] Sultão.

[82] Fibra exterior dos cocos, de que se faziam cordas.

[83] Torreão das fortificações.

[84] 7 toneladas.

[85] Religião.

[86] Bagagem.



publicado por umhomemdasarabias às 13:57
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Bibliografia

Álvares, Francisco – Verdadeira informação das terras do Preste João das Índias, Imprensa Nacional, 1889.

Barbosa, Duarte – Livro em que dá relação do que viu e ouviu no Oriente Duarte Barbosa, Introdução e notas de Augusto Reis Machado, Agência Geral das Colónias, Lisboa 1946.

Barros, João de – Décadas da Ásia I, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa 1988.

Castro, D. João de – Roteiro do Mar Roxo – Introdução de Luís Albuquerque. Ed. Inapa. Lisboa 1991.

Dicionário da História de Portugal – Direcção de Joel Serrão, Livraria Figueirinhas, Porto s.d.

Ficalho, Conde de – Viagens de Pêro da Covilhã, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa 1988.

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira – Atlas das Descobertas – Ed. Representações Zairol Lda. Lisboa 1993.

Guerreiro, Luís R. – O Grande Livro da Pirataria e do Corso, Ed. Círculo de Leitores, Lisboa 1996.

História da Expansão Portuguesa– Direcção de Francisco Bethencourt e Kirti Chaudhuri, Vol. I – Círculo dos leitores, Lisboa 1998.

Milénios (Os)História das Civilizações – Vol. IV, A Idade Média. Versão portuguesa dirigida por Ester de Lemos. Ed. Verbo, Lisboa s.d.

Pereira, Duarte Pacheco – Esmeraldo de Situ Orbis – Ed. Sociedade de Geographia de Lisboa, Lisboa 1905.

Peres, Damião – História dos Descobrimentos Portugueses – Ed. Vertente, Porto 1992.

Pina, Rui de – Crónica de D. João II –– Biblioteca da Expansão Portuguesa, Publicações. Alfa, Lisboa 1989.

Resende, Garcia de – Crónica de D. João II – Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa 1973.

 



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